sábado, 26 de janeiro de 2008

ERA UM GAROTO DOS DIABOS ...

Desde que me conheci como "gente", e lá pelos meus 5 ou 6 anos, toda a gente me conhecia por "um miúdo dos diabos", um traquinas muito vivo, talvez o que hoje se chama de pilantra, levado da breca, um extremamente curioso e inquieto procurador de aventuras, o que mais ou menos sempre levava a minha família a estar de especial atenção ao que eu estaria a fazer, pois não era coisa boa, pela certa .... se estava muito calado...

"Mas onde está o Mário?", procurava constantemente a minha mãe sempre atarefada com os seus 5 filhos, mas pelos vistos, eu devia ser o mais complicado por estar sempre a inventar disparates, o que levava a que muitas vezes, tivesse de levar uns puxões de orelhas... embora todo chateado por não me compreenderem...
Na verdade, eu era exímio procurador de situações a que os graúdos apelidavam de disparates até muitas vezes bastante perigosos para a minha integridade física... mas lá me ia safando...

Certo dia, estava meu irmão Carlos Mar muito engripado, e cheio de tosse, pelo que meu avô logo mandou preparar na farmácia, um xarope valente numa garrafa de talvez meio litro e vinha com ordens expressas de só tomar uma colher por dia. Até tinha uma caveira pintada !

Mas eu andava por ali perto e estava desejoso de provar aquele xarope que meu irmão dizia ser muito doce...
Como aquilo tinha uma rolha de cortiça, eu logo pensei que, se chupasse com força, talvez me chegasse à boca o sabor do xarope, mas de imediato constatei que se apertasse com os dentes a rolha e chupasse ao mesmo tempo, então sim... que maravilha, estava mesmo a beber a xaropada, mas mostrando à minha mãe, que a rolha estava lá, pelo que ela ficava mais descansada...
O pior é que pouco tempo depois, e felizmente, meu avô entra no quarto para ver a febre ao meu irmão, e nota que o frasco estava já a meio, ou menos, pelo que muito preocupado, perguntou como aquilo era possível ? !
Só podia ter sido o malandreco do Mário e, como nunca fui mentiroso, quando ele me perguntou se tinha estado a beber daquele xarope, eu muito envergonhado, logo disse que sim, para grande espanto de toda a gente, porque me tinham visto levar a malvada garrafa à boca, mas sempre com a rolha...

Meu avô muito preocupado, logo gritou: "Tenho de lhe fazer uma lavagem ao estômago e já "...
Aí é que me apercebi de que devia ter feito valente disparate... mas se era necessário fazer uma lavagem imediata ao estômago... pois que viesse ela, pois até eu iria saber e apreciar, como aquilo era feito...
"Tragam uma bacia e um jarro grande com água..." , gritou meu avô, enquanto corria ao consultório de onde apareceu com dois tubos de borracha quase do meu tamanho, e vai de me mandar abrir a boca e começar a enfiá-los pelo boca abaixo, enquanto eu chorava baba e ranho de aflição, por me ser difícil respirar... e sentir que teria talvez uma garganta pequena demais, para aqueles tubos...
Minha mãe estava atrás de mim, a agarrar-me com força os dois braços, para estar quieto, enquanto a minha avó até tinha as mãos na cabeça, de aflição pelo que me poderia vir a acontecer, se o xarope já tivesse saído do estômago e se tivesse espalhado pelo meu franzino corpo...
Entretanto já estava a meus pés a bacia no chão e meu avô colocou um funil num dos dois tubos, e vai de despejar água por ele abaixo, enquanto ela subia pelo outro tubo, do meu estômago, toda castanha e caía na bacia. Pelos vistos, ele sabia bem o que estava a fazer !!!
Aquilo foi rápido, talvez uns dez minutos, mas mesmo assim, aqueles malvados tubos tinham o diâmetro duns dedos, mas mesmo perante tantos vómitos e choradeira, a água passou a ficar limpa e meu avô deu por encerrada a manobra da lavagem do meu pequeno estômago... e dizendo-me que por mais uns minutos, eu poderia ter morrido !
"Irra, figas diabo, seria mesmo ?", perguntava-me eu na minha imensa ignorância...
O que era certo é que o xarope estava todo no fundo da bacia e isso aquietou a preocupação de toda a família...

Obviamente que eu tinha à minha volta, não só os meus irmãos, como a minha avó e minha mãe, além de meu avô e uma criada, a que tinha trazido a bacia e a água, e toda a gente com caras muito preocupadas.
Eu estava no centro dos acontecimentos, embora pouco preocupado com o alarido que se gerou em que até maluco me chamaram... e deviam ter razão... mas, muito aliviado quando meu avô puxou para fora os malvados tubos... e assim fiquei a sentir-me muito melhor !


Devido a que meu avô era chamado a atender alguns doentes que tinham a "mania" de o chamar de noite, ele se havia habituado a dormir uma sesta todos os dias, o que era uma grande aflição para minha mãe, para nos manter os 5, em completo silêncio, se o tempo estava tão feio, que nem nos deixava ir brincar e correr na rua , à volta da casa.

Assim, ela tinha a paciência de inventar histórias que nos ia contar para o extremo oposto do quarto onde meu avô dormia, e nós ali ficávamos quietinhos, assentados no chão, de pernas cruzadas, muito admirados com as suas historias fantásticas !

Mas um dia, numa altura destas, ela nos levou ao sótão, pé ante pé, pelas escadas acima, para nos mostrar o que tinha guardado nuns baús, coisas lindas de verdade, pois eram louças que nunca vinham ao serviço, talheres e outras coisas que até dava gosto de ver, pratas. etc. Coisas mesmo valiosas e de museu...

Mas naquela nossa "casa-cor-de-rosa" de que já tenho falado algumas vezes neste Blog, as escadas para o sótão, que lá nos Açores, se chama falsa, começavam mesmo em frente à porta do quarto de cama de meu avô, e todas as nossas manobras, eram feitas em bicos dos pés.

Mas quando foi à vinda para baixo, eu que vinha um pouco atrás das minhas irmãs, resolvi correr pelas escadas abaixo, para chegar primeiro do que elas, lá abaixo.

Só que não aguentei a corrida e me faltaram os degraus, e aí venho eu de voo picado, de cabeça, aterrar com uma valente cabeçada, na porta do quarto de meu avô que, perante tal estardalhaço, se levantou todo indignado, e me vem encontrar todo encharcado em sangue, estatelado no chão, porque tinha rachado o queixo no chão do corredor. E talvez a pensar se eu não teria partido a coluna...

De imediato me agarrou por um braço e me colocou em pé, todo atordoado, levando-me todo a tremer e ainda a pensar como diabo eu tinha arranjado aquilo, para o consultório onde saca de agulha e linha, e vai de me coser aqueles 3 centímetros do meu queixo rachado...e sem qualquer anestesia... e eu ali estava, engolindo as lágrimas que teimavam em me saltar dos olhos, mas não queria dar parte de fraco e mesmo doendo um bocado, lá deixei que ele me cozesse o rasgão do queixo com vários pontos, e depois de levar mais tintura, levei um remendo de gaze e uns adesivos e... vai-te embora !

Lá estava eu, este pobre diabo pilantra, a ser rodeado de uma data de malta apavorada e cheia de pena de mim, pois segundo dizia meu avô, eu podia ter partido a coluna e já ia com muita sorte de ter sido só um rasgão... e ele estar em casa, pronto a actuar...

Para mim, havia aprendido a não dar passos maiores do que as minhas pernas o permitissem e nunca mais meter nada à boca, sem o consentimento das pessoas graúdas.

A minha sorte, mais uma vez, tinha sido a de ter médico em casa, pois o Hospital ficava a 25 Km de distância e, como não havia ambulâncias, teria de ir de carro a cavalo, o que levaria um ror de tempo a lá chegar, provavelmente já morto, na primeira crónica do xarope, ou com uma valente infecção no queixo...

Mas, só por graça, agora se escreve é "infeção", não é ?

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

E A GAROTA ERA DIFERENTE


Quando em 1950, estava eu há 5 anos, à espera de me ver curado duma doença grave, no Caramulo, e já no fim destes anos, estava a fazer de locutor na Radio Polo Norte e a certa altura, recebi uma carta muito amável, duma garota de Viseu, que se dizia muito admiradora dos meus programas e da minha voz.

Assim começou uma certa correspondência, até porque ela tinha muita pena de mim, ali abandonado há tantos anos, sem saber se morreria ou viveria...

Mas um dia, eu me mostrei muito interessado em conhecê-la pessoalmente, para o que me preparei para dar um salto a Viseu e ir à sua procura, mas ela logo me informou que não pensasse nisso, porque o seu pai era uma pessoa irascível e se me visse por lá a rondar, até era capaz de me mandar um tiro...

Mesmo assim, resolvi pegar a minha carabina de tiro ao alvo...e ali vou eu, olhando à esquerda e direita, como se estivesse à procura de casa... à procura da casa que me disseram ser aquela que ficava no meio duma propriedade e ali vou eu, com todo o cuidado, sempre pela berma do terreno, para não pizar o lavrado, quando vejo junto da casa, um tipo com as mãos à cintura, olhar seco e altivo, e nitidamente à minha espera... Era ele, o pai da garota !

Quando me aproximei mais, pedi-lhe desculpa da intromissão, mas como estava ali a passear, lembrei-me de ir ali pedir um copinho de água, mas ele mudou logo de fisionomia e até me convidou logo a entrar e ir provar um copo especial do seu vinho, que tinha na adega.

E eu a pensar; " Já estou nas minhas 7 quintas..."

Mal eu me aproximei e o cumprimentei, logo ele gritou para alguém da família, para me trazerem um cálice e me aparece uma senhora com mais uns 25 anos do que eu e acompanhada de duas garotas, talvez com mais uns 5 anos do que eu, onde eu logo descobri a que estava interessado em conhecer pessoalmente, mas era ela era bem diferente do que eu pensava...para pior... e se mostrava muito preocupada com a minha presença, não fosse o pai desconfiar...

Mas não. O pai logo encheu o grande cálice e mo entregou e eu que nada percebia de vinhos, ali fiquei com ele a rolar entre os dedos e a levá-lo ao nariz, até que enfiei um golo e, realmente, aquilo era mesmo bom, para quem estava cheio de calor, naquele quente dia de verão.

A dona da casa logo se apressou a chegar um prato de bolos e as duas garotas muito envergonhadas, ali estavam sem saber o que dizer...e eu a fugir de dar com os olhos nelas, para que o pai não desconfiasse.

E assim foi passando o tempo, em que eu lhes disse que estava ali no Caramulo, à espera da cura da minha doença, que felizmente, tudo indicava que estava já em bom estado e, depois até falámos de música que eu gostava e lá me levaram para a sala, onde puseram a rodar um velho gira discos de agulha e discos a 78 r.p.m. onde pude ouvir várias músicas de Bing Crosby, cantor que gostava muito de ouvir, e elas também.

Depois acabou-se o tempo e vim-me embora para o sanatório, preparar as coisas para deixar a Estância Sanatorial e dirigir-me para Lisboa, onde tinha a família à minha espera.

Mas uns dias depois de estar em casa, aparece-me a mãe das garotas de Viseu, dizendo-me que tinha abandonado o marido e as filhas, para vir viver comigo....

Aquilo é que estava ali uma açorda ! A velha devia estar doida, pela certa !

Mas como eu não avançava, até mesmo muito envergonhado, em frente à senhora com uma data de anos a mais do que eu...ela começou a amaciar-me as mãos, toda dengosa, e cheia de sorrisos, até que eu não pude aguentar mais e fui ao telefone para falar com a filha, a qual se mostrou muito comprometida e aflita, porque andava toda a gente à procura dela...

Também, não havia ela de se sentir tão feliz, ali ao pé daquele rapazinho...

Dado o alarme, passadas poucas horas, me batem à porta e vejo entrar a filha e dois abestalhados enfermeiros vestidos de branco, que se atiram à pobre senhora e logo lhe vestem um colete de forças, rebocando-a para a ambulância, embora ela protestasse com "não me deixes eles levarem-me...Mário "... e eu ali feito parvo, sem nada poder fazer pela pobre senhora...

A vida prega-nos cada partida...

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

VIVENDO A ÉPOCA MAIS LINDA DA RADIO

A entrada da música em Portugal, pela rádio, foi muito lenta e, porque ainda não tinha sido inventada a gravação magnética, todos os programas da Emissora Nacional,(EN), Radio Renascença,(RR) e Radio Clube Português,(RCP) eram em directo. era tudo em Amplitude Modulada (AM), pois a Frequência Modulada (FM), só apareceu uns anos mais tarde.
Aquilo originava uma grande amargura a todos os intervenientes, pois toda a gente sabia que não se poderia enganar.

Foi nesta época que passei por muitas situações cómicas, por me ter feito locutor dum radio particular, o RÁDIO POLO NORTE, que funcionava na Serra do Caramulo e destes episódios, fiz referência, muito mais tarde, neste blog, em, por exemplo "E o locutor bloqueou", "E a garota era diferente", "A mota só andava a direito", "Radio Clube dos Pinguins", etc.


Já havia muitas estações de radio de baixa potência, particulares, a transmitir música, espalhadas pelo país, mas eu fui e mais alguns colegas de trabalho, dos primeiros a ver um gravador de fitas magnéticas, porque elas vieram a acompanhar a Empresa americana, onde nós trabalhávamos, a RARET, adestrita à Rádio Europa Livre.

Para treino do pessoal, havia um gravador Magnecorder e para o trabalho profissional, existia um gravador AMPEX-600, uma coisa enorme e caríssima, que podia trabalhar a 7,5" ou a 15"/segundo !
Aquilo era um luxo e só nós a tínhamos, mas foi necessário esperar alguns meses, até vir uma segunda AMPEX e mais as suas enormes bobines de fita magnética, com mais de um palmo de diâmetro.
A gravação magnética apareceu assim, logo junto de 1951, embora já tivessem havido tentativas de gravação magnética, mas em fio de aço, como gravadores portáteis, as Websters.

Já conhecendo o seu funcionamento, logo fui construir um gravador/reprodutor e com ele aprendido ainda mais.
Como o meu trabalho era manter o melhor possível, em funcionamento, uma data de receptores, podia fazer experiências e gravar muitas músicas em Ondas curtas, que nos entravam pelas brutais antenas rombicas, que ocupavam vários hectares de terreno.
Estas nossas antenas, com mais de 20 dBd de ganho, estavam apontadas para o centro da Europa e quase nada se podia ouvir do Ocidente, mas de Leste, aquilo eram sinais muito fortes, com a BBC, a Suíça, a Itália, a França, a Espanha, etc.
Dos lados mais de Leste, só se ouvia a Rússia, pois eles haviam tomado toda a Europa de Leste, e eliminado as possibilidades desses povos, irradiarem as suas músicas...

Como se pensava que a estação onde eu trabalhava, iria ser usada por pouco tempo, até havia sido feita com telhados de zinco, o que no verão fazia um calor malvado ! Era a Rádio Europa Livre.
Mas como tínhamos uma certa liberdade de acção, montámos antenas dipolo para as apontar às Américas e assim se começaram a ouvir imensas músicas brasileiras, Argentinas, Méxicanas, e dos EUA, de grande categoria, porque os nossos receptores, eram dos melhores do Mundo !.
Foi por esta altura que ouvi e deliciado, o aparecimento da cançonetista brasileira, Maysa Matarazo, Agostinho dos Santos, Doris Monteiro, e dos EUA, Bing Crosby, Frank Sinatra, e mais uns tantos.

A música romântica estava no seu auge e logo fiquei apaixonado por certas vozes.
Nessa época, ainda não havia sido inventada a gravação em disco Long Play e os discos que abundavam no nosso mercado, eram todas de 78 rpm, que tinham de durar um máximo de 3 minutos, para caberem em cada face destes discos, além de que tínhamos de trocar de agulha e dar à manivela da corda. Era uma boa chatice...
Só algum tempo mais tarde, começaram a aparecer os discos de acetato de 45 rpm e logo de caminho, os LP de 33 rpm, com uma meia dúzia de canções em cada lado. Aquilo era já um luxo, e já não usavam agulhas de substituir, mas sim, as de safira, e nos melhores, as agulhas de diamante !

Muito poucas pessoas tinham acesso a um rádio, pelo que a nossa Emissora Nacional, (rádio Estatal), para se manter, tinha de receber um contributo financeiro dos ouvintes, mas de forma obrigatória... Assim, havia polícia espalhada por todos os lados, a paisana, a escutar às portas das pessoas, para exigir o recibo comprovativo de que tinham pago para a Emissora Nacional (EN) o seu contributo, e que vinha junto com o recibo da energia eléctrica. Quem estivesse a ouvir rádio e não tivesse pago, era multado mesmo...
Chamava-se a taxa "áudio" que, muito mais tarde, com a vinda da TV, passou a chamar-se "áudio-visual" e que toda a gente tem de pagar, mesmo que não tenha rádio nem TV...e ainda hoje é assim...(coisas....)

Mas, para meu gosto, só aquela linda Maysa Matarazo, aquela morena de olhos azuis, enchia as medidas, com aquela voz tão romântica e letras de embalar o coração, pelo que logo que apareceram no nosso mercado, os LP dela, fui a correr, comprar "Os Sucessos de Maysa", que ainda hoje tenho e se pode ouvir muito bem, porque com o advento das altas fidelidades (HI-FI), os gira-discos usavam cabeças muito leves e agulhas de diamante.


Tinha eu, nessa altura uns 28 anos e não só me podia assentar ao piano e tocar as suas belas músicas "Quero a rosa mais linda que houver", "Meu mundo caiu", "Eu não existo sem você", etc, etc.

Segundo os escritos da época, era a artista mais bem paga do Brasil, embora cheia de infelicidade, porque o seu marido Matarazo, cheio de ciume, não queria que ela cantasse, e se expusesse.
Felizmente que os amigos tanto apertaram com ela e com ele, que a levaram ao expoente máximo, mas sempre a deixar transparecer a sua tristeza e melancolia, de não se entender com aquele amor com o marido e acaba por falecer num brutal acidente de automóvel, com pouco mais de 40 anos, às tantas da madrugada e sozinha.

Mas como a minha Empresa se mantinha a funcionar e em cada dia, a aumentar mais a sua potência para as centenas de KW, nós já estávamos repletos de magníficas AMPEX de gravação e gira-discos enormes, profissionais e estúdios montados em Lisboa, com tradutores das línguas de Leste. Assim, de Portugal, íamos enviando para Leste, as mais belas músicas desses paises silenciados e entremeadas por músicas de todo o Ocidente, incluindo muitas portuguesas.

Entretanto todas as estações de rádio já tinham os seus gravadores, e se podiam ouvir os nossos imensos artistas em música portuguesa. E lá apareceu a Amália Rodrigues, Simone de Oliveira, Madalena Iglesias, a Maria da Graça, o António Calvário, o Max, e muitos outros...

Uns anos mais tarde, aparece a televisão a fazer ensaios em Lisboa, na Feira Popular, mas com tão baixa potência que não chegava a lado algum... mas com os conhecimentos que já possuía de antenas de alto ganho, logo construi uma e fui comprar aos bochechos, um TV a 6 Km de distância, a Salvaterra de Magos e quando cheguei a casa, foi experimentar a andar com a sua sintonia e lá encontrei a nossa TV e a ver-se suficientemente bem ! Só que eles levavam a vida a repetir os mesmos filmes e até já enjoava...estavam em teste...
Logo correu o boato de que havia uma pessoa em Benavente, a 50 Km de Lisboa, que podia ver TV e começam a aparecer os amigos curiosos que nunca tinham visto semelhante coisa...

Entretanto, a TV monta as suas instalações profissionais, muito mais potência de emissão e foi um regalo !


É nesta época que arrancam os computadores enormes e caríssimos, que só algumas empresas podiam ter e ainda funcionavam com cartões perfurados, como o Instituto Superior Técnico, por exemplo !

Acabava de aparecer a substituição das válvulas de rádio, por elementos de estado sólido, os Transistores, e rapidamente todo o mundo se voltou para eles.

Felizmente que uma pequena empresa inglesa, a Sinclair, vendo o entusiasmo do mundo, em poder ter acesso aos computadores, fabrica um minúsculo modelo que quase cabia numa algibeira, o ZX80, logo seguido do ZX-81, depois o SPECTRUM, o PLUS, e que usavam televisores, como monitores, vêm os COMODORE, os APPLES, a IBM, mas foi outro período de enlouquecer, pois quase todos os programas usavam linguagem BASIC, mas apareceram imensos programas úteis, em que se levavam os dias inteiros a dedilhar os seus teclados, para os por a fazer cálculos com velocidade incrível !

Esta miniaturização trouxe do Japão, os minúsculos comandos para os modelos, tele-guiados, via rádio (RC), que rapidamente viriam substituir os equipamentos a válvulas e eram muito mais leves. Eram os equipamentos FUTABA, e poucas mais marcas, que ainda hoje existem.


E logo os relógios digitais, as minúsculas calculadoras electrónicas, que cabiam num bolso, etc.
Os grandes rádios a válvulas, passaram de válvulas para transistores e com o imediato aparecimento dos circuitos integrados,(CI) eles evoluíram ferozmente de poucos elementos, para milhões deles...

As cópias de qualquer documento, eram feitas com máquinas que usavam papel especial e reveladores/fixadores líquidos... era uma chatice, porque as cópias saíam úmidas, e se tinham de pendurar a secar, como se de roupa se tratasse... mas passados poucos anos, uma firma inglesa, a RANK XEROX, aparece com uma tremenda invenção, com as cópias a seco, as electroestáticas, que usavam papel de cópia normal, e que nunca mais deixaram de ser melhoradas.
Antes delas aparecerem, já se conseguiam fazer algumas cópias com álcool e papel químico especial, e logo de seguida, as máquinas com matrizes em ceras que eram enroladas num tambor e já se podiam fazer centenas ou milhares de cópias.

As primeiras até eram à manivela e por cada volta dela, saía uma cópia. Foi nesta altura que me entusiasmei em fazer um Boletim Técnico, que ainda viveu uns 10 anos, na empresa onde eu trabalhava.
Elas invadiram todos os estabelecimentos escolares, pela facilidade de fazer os pontos de exame e juntar desenhos.
Esta descoberta das máquinas eletrostáticas, me veio arrebatar imenso e consegui construir uma, com a qual fiz centenas de cópias, embora levasse cerca de um minuto a fazer cada uma...

É nesta época que aparece a possibilidade incrível de se poderem gravar os filmes da TV, em fita magnética, os VIDEO-TAPES, e vai de conseguir arranjar uns tostões para comprar um.

Mas foi só esperar mais uns anos, até aparecer os discos digitais, os CD's, onde a sua leitura já não necessita de agulhas, mas um finíssimo raio laser, e vai de começar a brincar com eles... e logo de seguida, os micro-reprodutores/gravadores MP3, que encharcaram o mercado da juventude, que passou a andar acompanhada deles, com auscultadores, por todos os lados. Com eles, já não eram necessários discos de qualidade alguma, pois os sons estavam a ser gravados e guardados em memórias eletrônicas (circuitos integrados) cada dia mais potentes e mais horas de música, além de menor consumo de pilhas.

E aí vêm mais métodos de gravar horas de música, e que vêm substituir os já "velhos CD's", os HD-AAC, que ainda produzem som de maior fidelidade, e estão quase a aparecer no mercado.

Estávamos pois, a acompanhar toda a evolução electrónica da época... Tem sido uma vida bem feliz !

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

PORTUGUÊS de Cravo e Ferradura

A REVOLUÇÃO DA LINGUA PORTUGUESA

Esta tremenda revolução na língua portuguesa, que já está em funcionamento desde Janeiro de 2008, vem colocar os idosos portugueses, entre a espada e a parede, em especial para os mais idosos !
Levámos 80 anos a aprender a escrever a nossa língua, depois da revolução de 1900, (?) desde aquela exigência de alterar a ortografia mais ou menos afrancesada, como o escrever Farmácia sem o PH , methodo, excellente, physiologia, extractos, e milhões de outras palavras...
O novo tratado, por causa dos nossos irmãos brasileiros acharem que era mais fácil escrever retirando várias letras que não se pronunciavam, veio provocar um abalo tremendo na nossa forma de escrever o português de Portugal, o ORIGINAL.

« Embora já existam cavalos e outros quadrúpedes para "calçar", (ferrar) há muitos milhares de anos, talvez não venha a despropósito, falar de "cravos" e "ferraduras", antes de entrar nesta crónica, até porque é provável que muita gente nunca tenha visto um potente animal a ser ferrado...

O Ferrador, tinha de ser um indivíduo bastante forte e dotado de muita habilidade, para segurar a pata do animal entre as pernas, enquanto "alindava" o aspecto do "casco" (unha) à lima, e tinha de ter as duas mãos livres...e tinha de ir fazer à forja, uma ferradura ao tamanho do casco e fazer-lhe uma data de furos cónicos, com o ferro em brasa, e ir experimentando no casco do animal, até acertar a ferradura que, como é natural, não podia ser nem mais pequena do que o casco no animal, nem maior.

Depois vinham os cravos, uma espécie de pregos cónicos que tinham de ser enfiados um a um, de forma a entrarem pelo casco, como se fossem a nossas unhas, e saindo pelo lado, onde as pontas eram reviradas.

E tinha de fazer esta operação nas quatro patas do animal, trabalho que tinha de ser feito rapidamente, dado haver outros animais à espera e para que eles não ficassem extremamente nervosos e impossíveis de se deixarem ferrar.

Com o advento da electricidade, em 1880, e das pilhas, houve até quem experimentasse com sucesso, meter na boca dos cavalos mais rebeldes, os fios dum gerador de choques, durante uns segundos, tendo verificado que os animais ficavam como anestesiados e muito calmos. Depois, o técnico dos choques podia parar a máquina de choques, mas tinha de se lá deixar ficar à frente do cavalo, muito quieto, para dar a entender ao animal, que ainda estava a receber os choques na boca...

Quando eu vim viver para o Ribatejo, em 1951, os cavalos eram aos milhares e todos os dias os dois Ferradores aqui existentes, tinham até trabalho demais !
Mas um dia, eu fui assistir, por curiosidade, àquele trabalho e até fiquei a admirar aqueles Ferradores que, todos os dias tinham de fazer aquele penoso trabalho, pois não só os animais não gostavam de ser ver só com 3 patas no chão, mas de cada martelada que o ferrador lhe dava, para ir cravando os cravos, os animais respondiam encolhendo a pata, e levando atrás o desgraçado do ferrador que a tinha bem apertada entre as pernas...
Era pois necessária muita habilidade para conseguir acertar nos cravos e muitas vezes, o martelo acertava era na ferradura.
Foi devido a esta situação de uma vezes se acertar no cravo e outras na ferradura, que intitulei esta crónica, como "Português, de cravo e ferradura".

Assim, sempre que qualquer pessoa falhava nos seus intentos, o povo se habituou a dizer: dás umas no cravo e outras na ferradura, ou quando se teimava insistir numa ideia, mas às tantas, se mudava 180 graus para o lado oposto, era a mesma coisa. Quando alguém muda de opinião, é a mesma coisa...

Isto é o que vai acontecer agora, e durante muitos anos, talvez mais de 50, até que todos os portugueses que aprenderam a escrever de uma certa forma, se vão ver na eminência de acertar "uma no cravo e outra na ferradura", quando desejarem escrever , por exemplo "acção", ou "reacção", ou "colecção", ou "objectivo" como sempre escreveram, e desejarem acompanhar a Revolução ortográfica do Tratado, pois inevitavelmente irão escrever "à antiga", até se habituarem à nova forma de "ação", reação" ou "coleção" ou "objetivo"...
Para o português de Portugal, estas palavras soam como notas desafinadas, falsas, como "a ção", ou "rea ção" ou "cole ção", "obje tivo", porque aquele "c" servia para ABRIR a vogal, que agora vai ficar fechada...
E como são aos milhares, as pessoas mais idosas, vão morrer sem conseguirem escrever à nova moda, à " moda dos muitos milhões de brasileira "...

Eu sou um deles, desses velhos do antigamente e como gosto muito de escrever, é certo e sabido que vou dar muitas mais "marteladas" na ferradura, do que no "cravo" e quantas vezes me irei perguntar se está bem ou mal o que escrevo ? Vou passar a ter vergonha de mim mesmo, sempre com a impressão de que me vão chamar de ignorante, ou analfabeto... ou talvez "analfabruto", como se diz aqui na gíria popular....

Talvez que os meus leitores, já habituados à minha forma de escrita, me perdoem os deslizes e até me convidem a escrever "à antiga" ou " à moderna"...mas isto faz doer, demais, a alma, de quem sente orgulho na sua língua Mãe !
Claro que tenho sempre a opção de deixar de escrever e editar, mas também isso me faz doer a alma... quando sinto que ainda tenho tanta coisa para contar...ou comentar...ou descrever...
Também é certo que os correctores (ou será agora corretores ?...) estarão à disposição de quem escreve nos PC's , mas se não existirem, lá se fica com o escrito todo cheio de sublinhados encarnados, a nos chamarem a atenção de que já não é assim que se escreve...que somos "analfabrutos"...
Vamos ter de estar constantemente a folhear o Prontuário de Ortografia à brasileira, e enquanto isso se estiver a fazer, lá se vai a ideia do que se estava a escrever...

E tudo o que se escreveu de 1900 para cá, está errado, ortograficamente...faz doer...

Talvez que os nossos leitores brasileiros, que sempre foram tão simpáticos e gentis, nos seus comentários, até nos cheguem a dizer: escreva de qualquer forma, que a gente perdoa...e entende...
Mas é interessante verificar que isto só acontece em Portugal, pois nem os franceses nem os ingleses, nem outros, mudaram nada às suas raízes. Quem desejar que altere, mas nunca a língua Mãe...
Uma grande parte dos portugueses, já de idade avançada, como eu, até chegam a jurar que nunca irão mudar de ortografia... e alguns foram professores da sua amada língua portuguesa !

Isto me faz lembrar se algum iluminado ou iluminados, por verem que era difícil tocar músicas de todos os compositores musicais, como Beethoven, Chaminade, Grieg, Chopin, Mendelssohn, Debussy, Schumann, etc, se lembrassem de retirar algumas notas ! Ia ser o bom e o bonito ! E o que pensariam esses compositores, se pudessem ouvir as suas músicas tão mal-tratadas ? (ou será mal tratadas, ou maltratadas ?)
Felizmente que isso nunca passou pela cabeça de ninguém e, ainda bem !

Mas lá que vai ser uma grande confusão... isso vai...

sábado, 12 de janeiro de 2008

E ERAM NECESSÁRIAS SEIS MÃOS


Uma idade por que passei, onde mais a memória me ocorre, foi a da minha Instrução Primária e, por isso, 1933/34 , quando eu tinha 8 ou 9 anos ! Até me parece agora, a idade mais linda que uma pessoa pode ter !

Na nossa casa "cor de rosa", nos Ginetes, ilha de S. Miguel, Açores, tinha um enorme piano de cauda, que tocava todo o dia, porque toda a gente tocava nele, uns a estudar escalas para cima e para baixo (o que era muito chato de ouvir...) e outros a aperfeiçoarem as músicas já conhecidas, a dar-lhes mais cor, mais sentimento, mais perfeição.
Mas às vezes, juntava-se ao teclado a minha avó nos graves, minha mãe no centro e minha irmã mais velha, a Manuela, nos agudos, pois embora só tivesse 9 ou 10 anos, já conseguia tocar por música, embora para tal, tenha levado uma data de puxões de orelhas, de cada vez que "metia água"... ou dava fífia...
Eu assistia àquilo tudo e até me divertia, quando via seis mãos em cima do teclado a tocar os trios com tanta graça ! 30 dedos a tocar... era muito dedo junto !
Era nestas alturas que eu ficava extasiado a assistir àqueles 30 dedos a rodopiar sobre o teclado e até, nalgumas passagens, uma delas tinha de ir tocar nos sítios dos outros, havendo uma troca de mãos e braços, que me fazia muita confusão... mas aquilo era mesmo assim e eu até achava graça.
Quando eu me achava por perto, prestando muita atenção àquilo que elas estavam a tocar, por vezes pediam ajuda para voltar as páginas o que eu fazia quando a minha mãe dizia "volta", e dada a minha curiosidade, lá fui aprendendo, e mais tarde sem que elas me chegassem a dizer aquela "palavra mágica" "VOLTA", já eu estava com os dedos na nova página, pronto a voltá-la, mesmo sem perceber nadinha de música...

Isso levou a que minha mãe me perguntasse como é que eu tinha adivinhado, mas só por ver aquelas "bolinhas" para cima e para baixo, em cima daquelas 5 linhas horizontais, (a pauta) embora só tivesse 8 anos, eu lá ia acertando, até que me deixaram de dizer "volta"...
Mas um dos trios, o pianista do meio, até nem tinha muita complicação de notas e assim, depois de elas terem de ir às suas vidas, eu me assentava ao piano e ia brincar um pouco com aquelas notas centrais, porque minha irmã Manuela, que era um ano mais velha do que eu, me havia dado algumas explicações das pautas e que notas queriam dizer aquelas "bolinhas" que estavam em cima da pauta (era mais uma palavra a aprender)
Aqui é o DÓ, aqui é o RÉ, aqui é o dó Sustenido (outra palavra a aprender e que era meio tom, entre o DÓ e o RÉ) etc, etc, e eu já sabia que depois de contar 8 teclas, lá voltava a ser dó novamente, mas aquilo que ela me dizia, era ser uma OITAVA acima e quando contava para o lado dos graves, era uma oitava para baixo...
Assim, se estava a tocar o RÉ e se desejava baixar meio tom, aquela tecla preta, que era o Sustenido do DÓ, agora se chamava o BEMOL de RÉ.
E ela até trauteava as "bolinhas", a que chamava Solfejo. Assim, às tantas eu até já conseguia cantar o solfejo e me fui adaptando ao seu som.
E não é que até era giro ????
A certa altura, mesmo sem olhar para as "bolinhas" eu já conseguia cantarolar qualquer coisa e as podia ir tocar nas teclas...
Aquilo era mesmo giro de verdade !
Mas quando eu tinha de ir para a pauta debaixo, a que ela chamava de "clave de FÁ", lá estava eu todo baralhado... Mas que raio de coisa aquela de "claves de SOL" para a mão direita e "claves de FÁ" para mão esquerda... se me pareciam tão iguais ?
Mas brincando, brincando, às tantas ela me diz que eu até poderia substituir a minha mãe no centro do piano, e para tal, teve de alterar a pauta, senão eu teria de ir tocar onde já não me pertencia, ou seja, na "casa" da pessoa do lado...
Assim, comecei a treinar só aquelas teclas do centro, mas constatei que com as mesmas notas, podia até tocar outras músicas... que coisa gira !
Um certo dia, estava minha avó a dar lição de inglês a uns meus primos mais velhos e minha mãe, que tinha estado a ouvir-me brincar com o piano, veio dizer-me que ela, eu e a minha irmã, já poderíamos tocar o trio...
Eu nem queria acreditar que pudesse ser duas daquelas 6 mãos, mas muito nervoso, lá nos assentámos os 3 ao piano e me pediram para ter muita atenção ao Andamento, para não sair do Compasso e ir mais depressa ou mais devagar que os outros...Era uma grande bronca ! "Compasso", outra palavra a aprender...
Claro que não foi de caras, mas agarrado à paciência das minhas companheiras e professoras, lá entendi quando tinha de entrar e onde teria de respeitar as pausas, etc.
Como eu era muito pequenino, e nem chegava aos pedais do piano, minha mãe é que o pisava e largava.
Ás tantas, eu já nem olhava a pauta, porque já tinha a música de cor e até salteada...
O raio do trio, era em tom de FÁ, relativamente pouco usual, (segundo vim a saber mais tarde) mas quando eu estava sozinho ao piano, conseguia transpor para aquele tom, muitas melodias que já conhecia.
Foi outra surpresa para mim, entender que podia transpor para FÁ MAIOR ou MENOR, uma data de musiquinhas e sem as estragar, e nunca mais parei.
Mas havia daquelas músicas que eram tocadas em FÁ MENOR e assim aprendi que somente duas novas notas, eu podia saltar para o MENOR e o som era completamente diferente e muito mais agradável para o meu ouvido.
Aí cheguei à conclusão de que quase todas as músicas românticas, aquelas de que eu mais gostava, eram tocadas em TOM MENOR, como as muito cantadas pela brasileira Maysa Matarazo.


Mas o mais interessante foi o descobrir que quase todas as notas que eu tocava com a mão direita, as podia tocar uma a uma com a mão esquerda, e só não podia tocar uma oitava, porque as minhas mãos eram pequeninas. Tinha de ser só com um dedo ! Era um palmo dos curtinhos...
E mais, havia descoberto que além desta nota linda muito grave, eu podia repetir com a mesma mão esquerda, algumas das notas ou até todas, as que estavam mesmo ao lado da mão direita, à sua esquerda e que estavam a fazer a Melodia, outra palavra que viria a aprender.

Aquilo cada vez ficava mais bonito de ouvir e até meu avô, que não gostava que ninguém lhe fosse bater nas teclas do piano e estragar a sua afinação...que ele tinha de reafinar, começou a vir-me ouvir tocar e até me alisava o encaracolado cabelo que minha mãe nunca quis mandar cortar e durante muitos anos.
A certa altura, eu não podia ficar quieto, ao pé dum piano...
Uns anos mais tarde, já com uns 14 ou 15 anos, cada vez eram mais as músicas que eu conseguia tocar e foi uma "doença" que nunca mais me passou...
Claro que, com o meu rápido crescimento, os pés já chegavam ao pedal do "sustain" (me parece que é assim que se chama) e que me dava um jeitão, pois podia manter o som daqueles lindos graves, dando-me tempo para vir fazer o acompanhamento, com a mesma mão esquerda, ao lado da mão direita.
Como o comprimento dos dedos também acompanhou o meu crescimento, já tinham até comprimento para mais de uma oitava, pelo que em cada dia, até podia ter todos os 10 dedos sobre o teclado e em cada dia vinha a descobrir certas alterações muito agradáveis ao meu ouvido, até tocando algumas notas que nem estavam previstas, mas que davam ao conjunto, um som maravilhoso, além de cada vez poder dar mais expressão, às minhas tocadelas de ouvido.
E, como ia conseguindo, mesmo de ouvido, tocar imensas músicas, nunca mais pensei em aprender a tocar por pauta.


E assim mandei às couves, o Solfejo, as Pautas, as Claves, os Compassos, os Harpejos, os Ternários e Quaternários, os Diminuendos, os Crescendos, os Sustenidos e os Bemóis, as Fusas, as Semifusas, e muitos mais "palavrões" que ia ouvindo...
Na verdade, eu até tinha uma certa habilidade para descobrir os tons de cada música, e só necessitava da Nota Fundamental, no meu caso o tal FÁ, para logo me orientar, como se de um LAMIRÉ se tratasse.

Eu bem me apercebi de que todas aquelas notas, e eram as NATURAIS e os seus meios tons, tinham os seus acordes respectivos, mas isso já era muito complicado para mim...

Meu irmão, que entretanto estava a viver na Ilha da Madeira, ainda era mais habilidoso do que eu e até chegou a tocar de ouvido, na Radio e depois em Angola, no seu Observatório da Mulemba, tinha de dar um concerto das suas infindáveis músicas, a toda a gente que lá fosse...
Ele se chamava Carlos Mar Bettencourt Faria, e tocava muito ao estilo de Oscar Peterson, Charlie Kunz, Erroll Garner, etc, que eu adoro, mas não sei tocar assim e já não é com 80 anos, que vou conseguir...

Nesta altura, se alguém que sabe música, me está a ler, certamente que se estará a rir de tanta baboseira... e eu nada ralado, pois até descobri tons e sons, que me trazem as lágrimas aos olhos de lindos que são...

Mas o mais engraçado é que actualmente, com a ajuda da Internet e da possibilidade de trocar e-mails com os amigos, vim descobrir que tinha muitos deles que já possuíam instrumento, mas que não os conseguiam tocar, ficando, obviamente, muito arreliados e amargurados, até ao ponto de os arrumar a um canto.
Aí e começando a tentar explicar-lhes como eu vinha fazendo de há 70 anos para cá, verifiquei que eles só necessitavam de saber em que teclas tinham de carregar, para obterem de imediato e sem saberem música, estes lindos tons e variações que eu estava a usar e, desenhei em PAINT uma oitava, marcando as notas que eu sempre chamei e certamente erradamente, como Primeira, Segunda e Terceira posições, (só faltava a marcha atrás...) que são as necessárias para depois qualquer pessoa habilidosa, começar a tocar as suas imensas músicas preferidas.
E não é que está a resultar ?
Agora todos os dias me vão dizendo da sua admiração em tão simplesmente, fazerem tocar com sons tão acertados, as suas cantarolas e algumas músicas que nunca haviam pensado serem capazes ?
É ainda muito cedo para saber no que isto vai dar, mas num repente, encontrei uma data de malta, que me pede por e-mail, o famigerado e intrigante tom de FÁ MAIOR e FÁ MENOR , com as suas 1ª, 2ª e 3ª
Se é uma ideia genial, não sei, mas tudo indica que vamos ter muita gente a conseguir tocar piano ou órgão de ouvido e até talvez se venham a entusiasmar em aprender realmente música, como deve ser...
Não ha dúvida de que sabendo gerar as notas de que mais gostamos, nossas almas ficam profundamente arrebatadas !