domingo, 12 de outubro de 2008

E O VAPOR AGUENTOU-SE...


Esta crónica, devia estar inserida no artigo que escrevi há tempos e intitulado "Amanhã já não tens avô", em Junho do Ano passado, pois foi o que aconteceu no dia exacto do seu falecimento e, porque já tinha a viagem comprada de navio, de S.Miguel para Lisboa, nem me foi possível assistir ao seu enterro.
Era realmente, um dia tristíssimo para mim, mas essa viagem não podia ser adiada, porque não podia mesmo, até porque tinha de estar no Continente, para entrar na Escola Industrial Marquês de Pombal, onde já estava matriculado.
Eu só conseguia recordar a sua expressão sorridente, com a sua cara deitada sobre a sua mão esquerda, mas já falecido.
Aquela impressão de que nunca mais veria aquele meu adorado avô que tanto carinho me havia dado, fazia-me doer e muito a alma...
Até fiquei com a impressão de ele estava à espera daquele dia, para se despedir de mim.
Eu só tinha 16 anos, mas sempre vivi muito agarrado àquela simpatia, àquele carinho que só um avô pode dar a um neto e ele sabia que nunca mais me poderia acariciar nem me ensinar o tanto que sabia, nem me ouvir a ler as notícias dos jornais, ali deitado ao lado dele, na sua cama, embora só recostado, como num sofá.
Como não havia luz eléctrica, ali estava eu horas e horas a ler-lhe as notícias, à luz dum candeeiro de carbureto, que todos os dias era carregado pelo empregado, o Sr. Manuel que, além de ir buscar água numa carrocinha de mão, também tratava de manter o seu carrinho Austin-7 impecável, além de fazer as cobranças anuais das avenças, vinte escudos que cada agregado familiar entregava ao médico, para ter direito a assistência médica em todo o ano, fosse uma ou uma dúzia de pessoas...
Antes disto, eu lhes escrevia do Continente, cartas enormes a descrever como estávamos a viver, das nossas dificuldades e falta de dinheiro...
Foi a este propósito, que escrevi neste blog, o artigo " Um açoriano abandonado em Lisboa", em Fevereiro de 2007.

Sair e entrar nas ilhas açorianas, naquele tempo, só de navio e haviam vários.
Eram necessários 3 dias de viagem, sendo 1,5 até à ilha da Madeira, e outro tanto, da Madeira ao Continente.

Assim que o navio se pôs ao largo, até parecia uma lagoa, quase sem ondulação, e ali íamos direitinhos à Ilha da Madeira, onde ele teria de ser carregado de bananas, anonas, uvas, maracujás, etc.
Comigo, iam outros rapazes, mais ou menos da minha idade, também para estudar no Continente e como o vapor ia carregado de gente, tudo servia de graça e toda a gente se ria por qualquer coisa, embora fôssemos todos na proa do navio, onde há mais balanço, e por isso é a 3ª.Classe.
Como não havia balanço, até parecia que íamos num paquete de luxo, não fora o termos de dormir nos porões, por não haver mais beliches disponíveis !

Eu devia ser o passageiro mais triste que ali ia, e até um tanto ridículo, porque na véspera do falecimento de meu avô, ele me havia pedido para levar comigo a sua viola, uma linda peça de música, de que eu já sabia todos os acordes e afiná-la.
Mas a minha tristeza era maior do que ter à mão aquela viola, e sem coragem para a agarrar, embora a malta protestasse de eu não a tocar...
Mal sabiam eles de onde vinha aquela viola, e a razão porque eu não lhe tocava.

Como o mar estava imensamente calmo, quase todos os passageiros da 3ª. classe, se encontravam debruçados na amurada, da proa, a verem imensos golfinhos, como a tentarem andar mais depressa que o navio...

No dia seguinte, ainda era quase noite, começámos a ouvir uma certa algazarra, porque alguém já sabia que devia estar a terra à vista e vai tudo de se levantar, até porque para muitas pessoas que lá iam, era a primeira vez que iriam ver terra, de bordo de um navio e isso era uma situação empolgante!
Para mim, já era a quarta vez que cruzava o Oceano Atlântico entre os Açores e o Continente, pelo que nada daquilo já me interessava, mas realmente o ver-se terra, tem sempre um certo mistério, pois ao contrário do que se poderia pensar, não se vê uma ilha na penumbra, lá muito longe, mas sim umas casinhas colocadas entre as nuvens, uma aqui, outra ali... a centenas de metros de altura !
Para toda aquela gente, que tinha a sua primeira viagem, eram gritos de alegria ao descobrir: olha ali outra... e outra ali mais abaixo... olha tantas no Céu....
Uma neblina teimosa, bloqueia toda a visão, mas como os navios iam direitos à ilha, de hora a hora, cada vez aparecem mais casas que se perdem pelo céu a dentro, a perder de vista, por entre as nuvens...
Ou seja, nós já estávamos muito perto da ilha, e só aquelas casinhas no céu se podiam ver, mas mal nos aproximamos mais, e a neblina desaparece, estamos somente a umas centenas de metros de terra, e até dá a impressão de que o navio vai entrar de proa pela terra a dentro...
Chega tão perto, que se podem ver as pessoas e os carros a andar, os pequenos barcos de pesca, todo aquele imenso verdejante florido que entra pelo céu a dentro, como se a ilha não tivesse fim, em altura !
E sente-se na pele o que teriam sentido os marinheiros das nossas caravelas, ao avistar terra!...
Mas, subitamente, o navio roda 90 graus e vai a acompanhar a costa da ilha, até num repente, se entrar na baía do Funchal e se poder assistir à azáfama da sua população com a nossa chegada.
De terra vem um aroma imenso de flores e frutos exóticos, inebriante.

Num repente, nos vemos acompanhados de imensos barquinhos minúsculos, com duas pessoas, um adulto que rema, e uma criança de tenra idade, que vai em pé na proa, que se atira à água, depois de ver que alguém de bordo, lhes atira moedas e que eles num repente, enquanto elas fazem zig-zag nas águas cristalinas, eles as agarram, metem na boca, e voltam para o seu barquinho, mostrando ufanos, que as conseguiram agarrar, esperando cada vez mais moedas e assim acontece durante uma boa hora, enquanto o navio se encosta à doca.
Chega a ser impressionante o tempo em que aquelas crianças tão jovens de 5 e 6 anos se aguentam sem respirar e a ir buscar as moedas. E chega-se a ficar preocupado...
Aquilo é especialmente emocionante, porque estando a água tão transparente, se pode ver o trabalho daquelas crianças, e a sua habilidade para nadar a tão grande profundidade, pelo que os passageiros do navio, acompanham estas proezas e mal eles chegam cá a cima, atiram mais e mais moedas, cada vez mais valiosas, e eles lá voltam a mergulhar continuamente...

Depois do navio encostar, é toda a azáfama de ir visitar a aromática cidade do Funchal, esbarrando com imensas pessoas a quererem vender cachos e cachos de bananas lindas, por poucos escudos, e cestos de fruta pronta a comer de tão madura e aromática.
Mas depois dumas horas em que podemos visitar terra, o navio apita e lá vem toda aquela gente, tanto passageiros como vendedores de lembranças e fruta, cada vez mais barata, e é ver um caudal de cachos enormes de bananas chamadas "de prata", por serem gordinhas, muito doces e aromáticas, às costas dos passageiros, convencidos de que as podem trazer até ao Continente e presentear as suas famílias, além de terem fruta para imensos dias....

E acabou a festa, já quase de noite, quando o navio se põe ao largo, agora carregadíssimo de paletes de cachos de banana enchendo os porões, e o convés, mal deixando um cantinho onde a malta se possa deitar para dormir um pouco.
Mas agora, o caminho é outro, pois temos de aproar a uma outra ilha, Porto Santo, a caminho do Continente, mas naquele dia, apanhámos um temporal dos diabos, em que ninguém se aguentava em pé, a não ser às ombradas contra as paredes e toda a gente a vomitar, gritando para que a rapaziada lhes tirasse da frente os cachos de banana, e as caixas de maracujá, e as belas uvas, e as anonas, etc. etc. e que assim vão desaparecendo das portas dos camarins, embora ninguém se atreva a levantar dos beliches, tais são os balanços!

Eu já tinha apanhado mar mexido, mas aquilo era demais !
Mesmo com a proibição de se sair na proa, eu ainda me consegui esgueirar e fugir para a ré, subindo os degraus que levam para junto da chaminé, onde se podia apreciar a robustez daquele navio, a tentar não se transformar em submarino, mas metendo toda a sua altíssima proa pelas enormes vagas frontais, entrando toneladas de água por cima da proa e convés, para logo a seguir, subir uma nova vaga, subir, subir , até já com ela toda livre, e quase metade do navio sem água por baixo, voltar a enfiar-se pela nova vaga a dentro, estremecendo de proa a popa, num estrebuchar violento dum monstro, que perecia estar a guerrear, para não morrer sufocado...

E toda a noite foi assim, até que tudo acalmou e lá fui para o porão da frente, deitar-me um pouco, no meio duma tremenda confusão de caixas de banana espalhadas por todos os lados...
Só ao acordar, é que todos estranhámos que o navio estava todo de lado... Que coisa estranha, quase a emborcar... numa posição realmente ridícula para um navio daquele porte...
Quando chegámos cá fora, é que vimos o porquê daquela situação. É que as grades de caixotes que vinham no convés, tinham deslizado todas para o lado esquerdo, desequilibrando imenso o navio!!!
Estávamos à entrada do Rio Tejo e o navio parado, todo tombado, numa figura realmente ridícula !
E ali estivemos horas e horas, à espera que nos viessem rebocar, qual navio pronto a emborcar-se, mas o vapor, se aguentou !

Quem hoje se faz transportar de avião, não faz a mais pequena ideia do que era uma viagem de barco, o encanto de pensar nas caravelas, nos descobrimentos, nem as paisagens que se podem ver durante horas, enquanto os navios vão andando até entrarem no porto do Funchal.
E só dão pelo intenso aroma da ilha, quando saem dos aviões, mas muito longe da cidade do Funchal, das suas gentes e das habilidades daquelas dezenas de crianças alegres e corajosas, que se atiravam à água na ânsia de ganhar mais umas moedas.
Na realidade, uma viagem por mar, à ilha da Madeira, onde meus avós nasceram e se criaram, era das coisas mais emocionantes por que uma pessoa pode passar.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

A FADA DO MEU LAR

Mesmo após tantos anos, da minha esposa ter falecido, não há um Natal, em que não me lembre dela, aquela mulher que tanto se esforçou, por me dar felicidade, durante quase 50 anos, de casado...

Na realidade, tivemos uma vida um tanto difícil e sempre com dificuldades financeiras, para podermos acompanhar os nossos 3 filhos a terem uma vida saudável , feliz e simplificada.

Mesmo agora, com 81 anos, mesmo um tanto longe dos meus filhos que sempre têm as suas vidas diferentes e os seus Natais especiais, eu sinto e julgo que sempre sentirei a sua falta. Ela era bem a minha outra metade...

E é nestas datas, em que mais recordações me vêm ao espírito, aquela azáfama da véspera, aquela quantidade de doces que ela sempre fazia, a contar com todos os filhos, além duma velhinha, a sua avó materna, que esteve a viver uma data de anos na nossa companhia, e de que já falei naquela crónica recente, e intitulada " Senilidade...coisa estranha...".

Verdade seja dita que, talvez por nunca termos vivido com abundância de nada, nem eu, nem os meus filhos rapazes, fomos atraídos por andar à procura de prendas, mas bem pelo contrário, a minha filha Antonieta, era ao contrário, tal e qual a mãe, e vivia todo o ano à procura de alguma coisa a que todos achassem graça naqueles dias 25 de Dezembro e, ainda todos de pijama, nos reuníamos na sala, para ver o que nos teria calhado de oferta.

Nós, os rapazes, raramente conseguíamos descobri algo para aumentar aquela enorme rima da embrulhos e caixas coloridas, não tanto pelas despesas que teríamos de fazer, mas por falta de habilidade, embora sempre esperando que alguém se tivesse lembrado de nós...

Mas era emocionante ver aquela pilha de presentes amontoados, à espera que a minha esposa começasse a ver os nomes que estavam escritos em cada embrulho e assim, sempre havia presentes para toda a gente, coisas sempre baratinhas, pois como ela só trabalhava em casa, tinha todo o comando nas verbas que eu ia recebendo todos os meses, de ordenado, e lhe entregava totalmente, pois já sabia que ela teria o cuidado de reservar alguns tostões para os meus cigarrinhos e alguns litros de combustível para o nosso velho carrinho.

E sempre ficávamos deslumbrados com as coisas que ela descobria, sorrateiramente e ia guardando ao longo do ano, para aquele dia festivo, tudo bem escondido nos armários.

A gente não necessitava de dizer se precisava disto ou daquilo, porque ela até sabia melhor do que nós e já andava a procurar no mercado os seus preços, para as adquirir em conformidade com as suas possibilidades financeiras, para não por em perigo a nossa alimentação, educação, a renda de casa, a água, a luz, o telefone e algumas roupas mais necessárias.

Ela tinha a habilidade de ter tudo na mão, adaptando os fatos dos mais velhos, para os mais novos, e embonecando a nossa casinha com imensos bordados e rendas lindíssimas, que nós íamos vendo crescer dia a dia, todo o ano.

Recordo aqui, que em certa altura, ela se havia queixado de que o relógio despertador, a que ela dava corda todos os dias, sempre estava na sua mesa de cabeceira, e fazia muito barulho com o seu tic-tac constante, durante a noite, e resolvi ir à procura de um mais silencioso, para lhe oferecer num Natal, o que consegui e muito bem embrulhadinho, o fui guardar dentro das minhas tralhas, longe da vista dela.

Mas no profundo silêncio que existia à volta daqueles armários, ela estranhou um tic-tac e tanto procurou, que foi encontrar o bonito embrulho onde ele estava e logo pensou...cá está o relógio que ele me vai ofertar pelo Natal, mas calou-se muito calada e matreira...

Esse relógio era um despertador amarelo, realmente muito silencioso e, como todos, possuía um "cabelo" agarrado ao seu volante, para lhe manter o movimento de vai-vem.

Por graça, às tantas eu lhe dizia: "E é amarelo...." e ela sorria, simplesmente... gozando...

"E é redondo..." e ela sorria...

"E tem cabelo...." e ela sorria, enquanto eu julgava que ela nunca mais saberia do que eu estava a falar.



Até que chegou o Natal e ela na mesma sorridente, depois de ver o relógio, me disse que já sabia, porque um dia, tinha ido à oficina dos meus brinquedos e havia ouvido o seu tic-tac..., mas beijou-me agradecida, na mesma.

É engraçado recordar que esse mesmo relógio, continua sobre a sua mesa de cabeceira, parado desde o dia em que ele faleceu... há já uma data de anos...

Aquilo era um dia de beijos para toda a gente e a cada prenda que era desembrulhada, a expectativa de cada um na sua descoberta, a alegria imensa de poder receber uma prenda tão desejada.

Qualquer coisinha que nos calhasse, já era uma festa, nem que fosse um lenço ou uns peúgos !

Mas a minha filha Antonieta, essa era demais, pois até ia comprando coisas para ela, durante o ano, na mira de ter mais uns embrulhos para abrir e fazia uma grande festa... ao abri-las...
Nós, rapazes, nunca sabíamos de quem vinham tantos presentes.

Quando apareceram as panelas à pressão, eu havia ficado deslumbrado, pois sabia que estando a água à pressão, aumentava muito a sua temperatura, e por isso, se podia cozinhar mais rapidamente.

Ainda eram raras no mercado, mas eu consegui uma e vai de ser mais uma prenda para a minha esposa, embora lhe notasse umas certas reticências, quanto ao seu uso... não fosse aquilo explodir... mas um tanto contrafeita, vai de colocar-lhe tudo o que necessitava uma boa sopa de feijão e lá a colocou ao lume.

Mas mal a água começou a levantar a válvula e a fazer pxi pxi pxi, ela largou tudo e fugiu da cozinha, cheia de medo, espreitando de longe, não fosse aquilo fazer PUMMMM! Estava mesmo apavorada !

Ela não acreditava muita nestas coisas, ditas modernas e ficava sempre de pé atrás...

Claro que eu logo entrei na cozinha e reduzi o lume, até porque só interessa um leve pxipixi, indicando que a pressão está a 2 Kg, ou sejam 200ºC... julgo eu.

Depois, ela desejou ver se já tudo estaria cozido e houve que a abrir, pelo que vendo que ela não tinha coragem, lá fui levantar a válvula e depois de baixar a pressão a zero, fui colocá-la debaixo da torneira da água fria, para a poder abrir, o que ela acompanhou e, a partir dessa data, até ao fim da sua vida, sempre usou panelas de pressão, que em várias festividades, eu sempre ia conseguindo comprar e assim ela ficou a possuir umas 3 ou 4, que ainda hoje existem.

Em todos os Natais, a minha esposa fazia um grande alguidar de velhoses, aquela massa de abóbora, que é fermentada durante muitas horas e depois de crescida, se põe a fritar ao lume, em pequenas bolas, e depois é polvilhada com açúcar e canela. Aquilo era realmente, uma delícia !

Como éramos muitos, tinha de fazer sempre uma boa quantidade e as ia guardando num armário.

Como disse há bocadinho, estava connosco, aquela velhinha simpática a D. Rosa, que se juntava a nós no abrir das prendas, e sempre recebia coisas de que necessitava, rindo, agradecida por se terem lembrado dela.

A sua alimentação, tinha de ser muito especial, praticamente sopa de legumes e sopas de café com leite, além de uma peça de fruta, coisas que ela pudesse comer e trincar com as gengivas, pois dentes é que já não tinha há muitos anos.

Mas na véspera daquele Natal, ela caiu à cama e até nos parecia que iria morrer a qualquer instante...

Muito quieta e pálida, mais parecia uma defunta, enquanto a minha filha muito amargurada, andava à sua volta a pedir-lhe para não morrer nesse dia e esperasse para depois do dia 26, para não estragar a sua festa. Mas a velhinha, ali continuava, de olhos fechados, e sem dizer palavra, só respirando!

Todos estávamos muito tristes, pois ela já tinha imensa idade e não entendíamos o porquê de ela estar assim a passar-se, mas ao fim do dia 24, ela abre os olhos e sorrindo, muito matreira, nos diz que esteve muito agoniada, com a quantidade de velhoses que, à socapa, ia roubando das travessas...

Felizmente que as suas aflições passaram e no dia 25, já estava pronta para receber as ofertas e voltar às maravilhosas e fôfas velhoses que a minha Alice sabia fazer como ninguém.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

SENILIDADE...COISA ESTRANHA !!!!!!

Aqui há muitos anos, tive o prazer de ter na minha casa, uma avó da minha esposa, que por ter ficado afastada dos seus 5 netos, estava a viver sozinha na sua casa, embora tivéssemos encontrado uma jovem que até podia ser filha dela, que a ela se dedicou, mas não podia estar as 24 horas de cada dia.

E o pior, é que todos os seus netos, desejavam ver-se livre dela, nem que fosse pelas suas férias, mas o que é certo é que ela ficava sempre em casa, dizendo que ali é que se sentia contente, rodeada das suas coisinhas.

Mas quando chegaram os 80 anos, chegámos à conclusão de que ela teria mesmo de vir viver connosco e, como havia um quartinho disponível, lá a conseguimos trazer, embora notando que ela mais desejava que fossemos nós a ir para a sua casa, em vez de ela para a nossa...

Claro que isso era impossível, porque ela vivia numa casa muito antiga e sem comodidade alguma, mas foi nela que nasceram todos os seus netos e a sua única filha.

A velhinha, aquela Rosa Agrieira, tinha muita piada e era muito esperta, muito atenta a tudo o que se passava à sua volta e sempre pronta a ajudar de quem dela se aproximasse, mas os netos estavam todos espalhados pelo país e dois em Inglaterra, pelo que a única disponível, teria de ser a minha esposa, até porque o gosto pelas férias, já se tinha atenuado, com o afastamento dos nossos filhos, e assim não fazia grande sacrifício em ficar constantemente com ela.

Passado pouco tempo de ela estar na nossa companhia, começou a queixar-se muito dumas dores nas costas que não abrandavam em qualquer posição, nem de dia, nem de noite...

Segundo o seu médico assistente, Dr. António Ventura, ela estava cheia de bicos de papagaio, mas como tinha uns bons pulmões e coração, teria que inevitavelmente, sofrer daquelas dores, até porque já sabia desde há muito, que o seu estômago não aguentava qualquer analgésico.

Quando ele ia a sair de nossa casa, ainda lhe perguntei: "Então vamos abandonar a velhinha ao seu sofrimento ?", ao que ele respondeu: «E ela vai ter muito que sofrer, porque com aqueles pulmões e coração, está para durar..:".

E fiquei a cismar, pois já tinha lido umas coisas sobre Ondas de Radio ou Diatermia, e era coisa que eu poderia fazer, por ter a profissão da electrónica e ser radioamador com indicativo CT1DT.

Mesmo com esta ideia na cabeça, falando pela radio com outro médico amigo, Dr. Fragoso de Almeida, também radioamador, como eu, mas com indicativo CT1PK, , ele me disse que dada a sua idade tão avançada, provavelmente não daria nada, mas se não fizessem bem, mal não faria...

Foi quanto bastou para eu entrar de imediato na construção dum gerador de ondas de radio e ao aplicar as suas placas nas costas da velhinha, logo verifiquei que ela tinha lá um grande alto, mesmo no meio das costas e muito doloroso. Assim, coloquei uma placa acima e a outra abaixo, e ajustei a potência até ela dizer que já estava morninho...e assim ficou durante 15 minutos.

Mas, ao fim deste tempo da aplicação da Ondas Curtas, ela que tinha sido levada ao colo, por mim e minha esposa, toda encolhida e gemendo com as dores, não desejou ajuda e, realmente se levantou da cama onde tinha feito o tratamento e muito direita, só dizia: «Isto é milagre... é milagre, só pode ser milagre...», e lá foi pelo seu pé, para o seu quartinho, tendo-se assentado num confortável "maple" e pegado numa costura que já estava parada há muito tempo, pondo um lenço branco sobre o seu cabelo já muito branco, por causa do Sol.


No dia seguinte, fui convidá-la para fazer uma segunda sessão, mas ela até respondeu que já nem necessitava... mas lá foi pelo seu pé e se colocou de lado, para fazer a nova aplicação.

Para nosso espanto, aquele inchaço havia desaparecido por completo e como ela era magrinha, até se podiam contar agora, as vértebras.

Mas eu sempre estranhei que ela só se alimentasse de sopas de café com leite, fazendo sopas com pão integral e não queria mais nada...a não ser um fruto qualquer...

A minha esposa é que me contou que aquilo já era a sua alimentação, desde há mais de 30 anos, desde que havia descoberto que aquela dieta experimental, não lhe provocava as tremendas dores de cabeça de que vinha a sofrer desde há muitos anos...

Mas certo dia, a velhinha aparece com vómitos e mais vómitos e só se viam coisas negras a sair pela boca, pelo que a minha esposa logo descobriu a malandrice... ela tinha ido ao alguidar das azeitonas, e como já não tinha dentes, sem que ninguém desse por nada, ela as ia papando, e cuspia para dentro do alguidar, os caroços, para que ninguém soubesse! Aquilo é que ela era uma velha marota...

Isto descobriu minha esposa, porque, ao chegar ao fim das azeitonas, estavam lá uma data de caroços...

Não havia ela de estar aos vómitos...mas sempre negando que se tivesse atirado a elas...

Mas já para cima dos 90 anos, a velhinha começou a dizer que via procissões a andar pelos cortinados do seu quarto e os meninos e o Sr. Prior... e outras vezes, eram touradas e cavalos... e danças...

Como seria aquilo possível, pois ela interrompia a conversa normal, que estava a ter connosco, para se referir ao que estava a ver e depois ria-se e dizia: «Isto deve ser da minha cabeça, porque realmente, não pode ser...»

Segundo conversa com os médicos, ela estava a ficar senil e isso era normal, quando algumas pessoas chegavam àquela idade.

Um dia, ia eu a passar em frente à sua porta, ela me chamou, pedindo-me para chamar a mãe daquela menina que estava ali mesmo, a chorar pela mãe...

Oh pá, aquilo era demais, pois não havia qualquer criança nem ali nem na casa, e pedi-lhe para me indicar onde é que essa menina estava, pelo que ela logo me disse; «aqui, aqui, », mas quando eu passei a mão pelo sitio, para lhe mostrar que não havia ali criança alguma, ela me disse: «ela fugiu para trás daquele móvel...»

Mas o que diabo eu poderia fazer ? Aquilo é que estava mesmo ali, uma açorda !!!

Mesmo assim, e porque o móvel não era muito pesado, ainda o afastei da parede para ela ver que não estava lá ninguém, mas a velhinha se mostrou um tanto amargurada, por eu não a ter visto e até me pareceu chocada, tal era a certeza de que a havia visto e até feito festas à criança... prometendo-lhe que iria procurar a sua mãe.

Aquilo só poderia ser um curto-circuito cerebral, entre a sua memória actual e a antiga, em certos períodos de tempo. Eu já havia ouvido falar daquilo, mas estar na presença da pessoa, é que nunca !

Se fosse hoje, talvez ainda experimentasse as mesmas Ondas Curtas...

Noutra altura, ela me chamou para me mostrar, muito envergonhada, puxando um niquinho a sua enorme saia, como tinha inchado um joelho e isso lhe dificultava imenso o andar.

Mas porque diabo ela não me teria dito isso há mais tempo? Realmente, aquele joelho tinha o dobro do tamanho do outro !

De imediato, lhe apliquei as Ondas Curtas e para meu novo espanto, no dia seguinte, os dois joelhos já estavam com o mesmo tamanho e ela já podia andar.

Pois passou a haver outro problema, pois sem dizer nada à neta, muito sorrateiramente, saía de casa e ia dar uma volta pela vizinhança, conversar com as velhas da sua idade, até que a minha esposa dava pela sua falta e lá andava à sua procura. Aquilo é que ela era uma velha matreira !!!

Um dia, e preocupado não fosse ela dar algum tombo e partir-se toda... ainda lhe falei no uso duma bengala, mas ela logo se insurgiu, dizendo; « Bengala eu ? Para quê? Para me chamarem de velha ?»
Aí respondi: «Mas oh Rosa, quando é que se convence de que já está velhinha ?»

»Pois é, Sr. Portugal...» que era a forma por que sempre me tratava: «Pois é...tem razão, eu sou mesmo uma velha tonta...", mas nunca a usou, preferindo andar aos tombos !

Certo dia, por eu ter comprado uma máquina de costura eléctrica, a convidei a experimentá-la, e ela assim se assentou à sua frente, e vai de pô-la a funcionar, carregando no pedal... mas aquilo arrancou a toda a velocidade, o que a pôs a rir às gargalhadas... Mas lá se habituou e passado algum tempo, já se entendia com ela, fazendo bainhas de cortinados e panos para limpar o pó, o que a distraía imenso.

Esta velhinha veio a falecer aos 95 anos, mas sempre muito lúcida, a ponto de nos ter pedido para chamarmos um Escrivão do Registo Civil e, para nosso espanto, ela deixou bem claro, perante testemunhas vizinhas, que deixaria a sua "terça" à minha esposa... por ter sido a única neta que lhe havia dado o carinho de que ela tanto necessitava, e durante os 8 anos que viveu connosco.


Este seu propósito, acabou por resultar em que todos os seus irmãos, lhe deixassem de falar...

Como minha esposa sabia que eu não podia estar ao pé de mortos, e ela já havia falecido uma hora antes de eu chegar a casa para almoçar, nada me disse, mantendo somente a porta do seu quarto fechada.

E aguentou-se sem chorar, durante todo o almoço, só se vislumbrando uma certa tristeza...

Quando a despiram pela última vez, ela mostrava bem um enorme volume na barriga, como se tivesse lá dentro um enorme fruto.

Ou seja, aquelas tremendas dores de cabeça que ela havia tido 30 anos antes, já seriam devido àquele tumor que estacionou, com a dieta das sopas de café com leite.

Vai uma pessoa entender estas coisas !!!!

domingo, 24 de agosto de 2008

E DESTA, QUASE MORRI...

Aqui há uns tempos, fui encontrar no meu quintal, que não é mais do que um corredor cimentado de 2 metros de largo e uns 10 de comprimento, com muros com mais de 2 metros de altura, uma gata siamesa que para lá tinha saltado, ainda nem sei como... para ir ter 5 lindos gatinhos, mas ao tentar fazer-lhes festas, eles protestaram, mostrando os seus aguçados dentes...e soprando...

Isto é que está aqui um imbróglio, porque eu teria de os alimentar, quando a sua mãe já não os pudesse alimentar de leite ou eles tivessem idade para saltar bem alto.
Para eu dizer com franqueza, eu nunca entendi de gatos, nem muito menos de bravios...mas estava-me a fazer confusão o ter de lhes dar de comer todos os dias e, sei lá o quê....
Como não encontrei ninguém interessado neles, e até uns me diziam que os matasse, mas isso é que eu nunca faria... matar, só formigas, moscas, baratas e mosquitos...

Por outro lado, se os deixava entrar em casa, bem que os poderia andar a correr com uma vassoura, por baixo de todos os móveis, o que para os meus 81 anos, já não é nada fácil...
Ainda por cima, andei uns dias à procura de mau cheiro que tinha em casa e só depois de me deitar ao comprido no chão, junto duma cama de casal disponível, é que verifiquei que a malvada gata, lá tinha deixado aquele "presente" tão mal-cheiroso e havia que o retirar rapidamente.

Com a ajuda duma pá de lixo, e voltando a deitar-me totalmente no chão e até por baixo da cama, é que lá consegui chegar, mas só depois de lavar com água perfumada, é que o mau cheiro acabou.

Mas a certa altura, tive mesmo que ir ao quintal para fazer umas medidas duma antena e não queria deixar a porta metálica, de alumínio, e de esquinas muito vivas, aberta, pois era certo e sabido que a gata entraria...

Assim, deixei só uma nesga aberta, para poder meter um cotovelo, ao entrar, mas logo por azar, quando ia a entrar, tropecei no degrau e, como trazia as duas mãos ocupadas, lá vou eu disparado à esquina viva da porta, fazendo um grande golpe onde a testa acaba e começa o cabelo, que começou, de imediato a jorrar uma data de sangue pela cara abaixo.
Apavorado, vi logo que aquele golpe de 4 centímetros estava furioso de hemorragia e havia que travá-la, o mais depressa possível, pois a jorrar sangue daquela maneira, eu nem podia ir buscar ajuda a lado algum até porque era Domingo e até os vizinhos haviam saído.
Estava mesmo sozinho !
Mas o pior é que aquilo era sangue demais para estancar e conforme é meu costume, na casa de banho, tenho sempre tudo o que é necessário, como tinturas, gaze, algodão, pensos, água oxigenada e até tesoura.
Mas eu estava a sentir-me desmaiar e já sabia que se isso me acontecesse, estaria mesmo perdido, pois não tinha ninguém por perto para me ajudar, mas lá ganhei coragem e pensei com toda a força, que não me podia deixar abandonar àquela hemorragia, pelo que segurei uma compressa sobre a ferida e tentei acalmar-me, o que ainda levou algum tempo, mas acalmei.
Assim, e vendo que havia muito cabelo sobre a ferida, agarrei a tesoura e vai de cortar todos aqueles cabelos empapados de sangue e que estavam a deixar escorrer aquela tinta tão vermelha, pelos olhos, nariz e boca, escorrendo para o lavatório.

Com uma compressa de gaze lá fui lavando com água da torneira, tudo aquilo, e tentando não deixar nem um cabelo sobre a ferida e como queria colocar tintura, necessitava das duas mãos disponíveis, mas isso me obrigaria a ter de largar o penso.
Como sempre tenho à mão, uma tintura em SPRAY, a Collu Hextril, que uso há anos, para todas as feridas, ou irritação de pele, agarrei nela e esguichei para cima da ferida, enquanto a hemorragia foi parando, até que estancou e até o couro cabeludo secou. Até parecia magia !
Estava salva a situação !
Com outra gaze lavei toda aquela zona e como só tinha à mão uns pensos adesivos pequenos, pois foi mesmo com eles que tapei a ferida e assim ficou durante quatro dias.
No quinto dia, com muito cuidado, fui levantando os adesivos que já se mostravam a descolar, e para minha alegria, a ferida estava de óptimo aspecto.
Agora iria ficar mais uns dias ao ar, antes de poder tomar um banho e assim aconteceu.
E não levou pontos nem agrafes... nem mudanças de pensos, e estava feliz, mas a perda de sangue é que me deixou mesmo abalado, pelo que só depois de umas semanas, é que comecei a poder fazer qualquer coisa de normal, embora muito cansado.

Isto de chegar a esta idade, tem destes problemas, porque uma pessoa já não anda... mas vai arrastando os pés, que teimam em tropeçar em tudo... nem que seja um tapete, ou até um pé, no outro !!
É bonito chegar a esta idade, mas há que deixar SEMPRE, uma mão disponível...

sábado, 9 de agosto de 2008

ESTATELADO NO CHÃO E TODO NÚ.....

Aqui há pouco tempo, um amigo me enviou um e-mail com uma fotografia de um velhinho muito simpático e sorridente, e com este delicioso comentário:

"A foto mostra Henry Allinghom, nascido em Inglaterra em 1896, quando ainda reinava a Rainha Vitória.
É veterano da 1ª guerra mundial, participou das batalhas de Ypres e Jutlândia e fez parte do primeiro esquadrão da RAF, a força aérea britânica, da qual é o último descendente ainda vivo.
Allinham diz que viveu 112 anos, à base de cigarros, Whisky e mulheres fogosas... "

Tendo eu estado a viver à custa de milagres da Providência, e tendo chegado aos 81 anos, naturalmente que fiquei a sorrir e quase a ter de dar uma boa gargalhada , ao ver aquela cara toda enrugada, mas feliz, a referir o seu modo de vida, como aquela referência, certamente jocosa de "mulheres fogosas": Pois ele devia ter passado a vida a pensar no bom que teria sido, poder voltar aos seus 20 ou 25 anos, quando lindamente fardado de aviador, teria à sua beira, talvez, as mais lindas mulheres com que um homem pode sonhar.
Mas, aos 112 anos... ná, amigo Henry, dessa não me convences !!!!

Mas uma coisa era certa, ele tinha vivido uma batelada de anos e ainda estava feliz.

Aqui há pouco tempo, quando escrevi neste blog "Que bom chegar a velhinho" , em Maio deste ano 2008, eu também me estava e estou, graças a Deus, a sentir um velhinho cheio de sorte e feliz !

Aqui há uma data de anos, uns dez, apercebi-me de que me estavam a aparecer nas fezes, uns laivos de sangue e como já sabia que por ali, ninguém pode ter sangue, fiquei bastante alarmado e fui logo fazer um clister opaco, em que o relatório, era claro: dois pólipos, um no cólon ascendente e outro igual, no descendente, mas infelizmente já do tamanho de morangos. Ou seja, eles teriam de ser retirados de imediato, pois segundo as minhas leituras, 90% destes pólipos, resultam em cancro.
Assim, e embora já perto dos 70 anos, me resolvi operar, embora contestado por algumas pessoas de família, de que eu já era velho demais para aguentar tal operação... mas mesmo assim, fui mesmo fazê-la.
Como não era considerada operação de urgência, ainda tive de esperar um ano, até que num telefonema do hospital, o médico que me iria operar, me perguntou como é que eu estava e se nem constipado estava e que lá aparecesse lavado por dentro e por fora... às 9 da manhã e em jejum.

Assim fiz e lá apareci, mas uns tempos antes, havia estado numa consulta com uma médica do hospital em que lhe contei que já vivia por milagre, desde os meus 18 anos, pois todos os médicos que me haviam tratado, já haviam morrido há muito e que, provavelmente eu não aguentaria nem com a anestesia...
Mas ela, mais ou menos sorridente, me foi dizendo que não havia razão para eu estar assim tão preocupado, porque me via muito bem disposto e brincalhão e aquilo nem seria complicado de operar.

O telefonema do operador, lá me "acordou" daquela preocupação e fui à procura da Sala de Operações, do Hospital de Vila Franca de Xira, onde me obrigaram a beber dois litros dum líquido mal-gostoso, e que, segundo o enfermeiro, era para me limpar por dentro, completamente...
Bem que eu entendi, pois abrir os intestinos que não estivessem bem limpos, é que podia ser uma carga de trabalhos para o operador e para mim...
Assim, levei aquilo à risca e realmente chegou à altura de estar completamente limpo por dentro e por fora: o líquido que saía, tinha a mesma cor do que entrava.

Mas como eu fumo um macinho de cigarros por dia, levei com o meu pijama e mais alguma roupa, e sabonete, um macinho de cigarros e isqueiro, embora soubesse que seria expressamente proibido fumar lá dentro...

Quando estava a beber aquele malvado liquido, apareceu à minha frente, um rapaz novo, talvez com uns 25 anos, junto com a sua esposa, uma mulher positivamente linda, e ele a gemer de uma operação ao apêndice que tinha feito.
Aí perguntei-lhe: Você fuma ? Ao que ele me respondeu que sim, mas que nem um cigarro tinha para matar o vício...e ainda lhe custava mais o não poder fumar, do que as dores que tinha na barriga.
Então, fui à minha cama e saquei do meu macinho de cigarros, bem escondido, e disse-lhe: você vai ao WC, e fume um cigarrinho, porque fica logo melhor.
O rapaz todo sorridente e com a ajuda da sua linda esposa, muito devagar, com a sua mão direita na virilha direita, lá foi até ao WC e depois de uns 15 minutos, voltou com uma cara de muito contente e agradecido.

Mas no dia seguinte, logo pela manhã, entra um enfermeiro pelo meu quarto e enfia-me uma agulha num braço e mandou-me subir para uma maca que foi empurrada por um corredor, até à Sala de Operações, onde entrei e vi vários médicos e uma anestesista, que me voltou a picar e começou a fazer-me perguntas simples, como era o meu nome e que idade tinha... mas num repente... pimba, adormeci. Apaguei-me...
Estava completamente anestesiado e noutro mundo !
Só acordei umas horas depois, noutra sala, mas ainda me lembro de ter pensado, por que diabo eu me teria deixado operar e até estava raivoso... embora nada me doesse, mas não me lembrava de nada da operação. Por que diabo eu estava tão raivoso ? Seria que eu havia sentido dores e não sabia?
Estava na Sala dos pós operados e passado pouco tempo, lá me empurraram a maca pelo corredor fora, indo-me colocar numa sala com outros para operar e que me começaram a fazer perguntas...
Quando olhei à minha volta, tinha tubos de plástico metidos por tudo quando eram buraquinhos do meu corpo, à excepção dos ouvidos... e tinha um grande "remendo" na barriga, que ia de cima do umbigo uns 10 centímetros, a outros 10 centímetros abaixo dele! "Mas que grande naifada eles me tinham dado..."
Nuns suportes altos, estavam pendurados uns frascos de soro e outro de alimentação e outro de anestesia e eu ali estava tranquilo, mas sem saber o que me tinham feito.

No dia seguinte, entram 3 enfermeiros, em que um trazia uma bacia de água quente, enquanto os outros dois me desnudaram todo, e vai de lavar-me, como se eu estivesse todo sujo ! Irra, que raio de ideia a deles, porque tiveram de me rebolar para lavar por cima e por baixo, e isso é que me fazia doer um bom bocado...
E lá estava eu todo entubado, já cheio de vontade de fumar um cigarrinho, mas tive mesmo de aguentar.
O pior, é que no dia seguinte, veio um outro enfermeiro e verificou que já podia retirar alguns tubos, os que me entravam pelo nariz, outro da pilinha, outros das garrafas e me disse: "Agora vai tomar banho sozinho"...
Olha que gaita, pensei eu... Lavar-me novamente e porquê, se eu nem estava nada sujo nem suado... aquilo já era mania, mas com um pouco de ajuda, saí da cama, agarrei a toalha, o sabonete e outro pijama, além da máquina de barbear, e lá vou eu, corredor fora, até à casa de banho, sala grande, mas toda encharcada, para me lavar e sozinho !
Mas que raio de ideia a deles, pois o rasgão que me haviam feito na barriga, embora tivesse tapado por um grande adesivo impermeável, aquilo doía, mas lá me consegui pôr todo nu e vou tentar abrir o chuveiro.
Mas, mal dou uns passos no chão escorregadio de água e sabão dos outros que já lá tinham estado a tomar banho, escorreguei os dois pés, e com enormes dores, me vejo estatelado no chão e todo nu !
Aquilo é que estava ali um imbróglio, porque as dores eram muitas e não havia forma de me conseguir por em pé, mas lá fui de gatas, até à sanita, onde coloquei as mãos e me consegui erguer.
Seria que teria rebentado com os pontos ?
Então pensei: mas o que é que eu estou aqui a fazer, se ainda ontem me deram banho? Ná! Enxuguei-me, lavei a cara, depois de me ter barbeado, e muito calado, vesti o pijama lavado e voltei sorrateiramente para a minha cama, como se tivesse tomado um valente banho !
Mas às tantas, veio um enfermeiro e enfiou-me novamente os tubos nas veias e ajustou o pinga.pinga e foi-se embora.
Passada uma ou mais horas, ele voltou e vendo que tinha pingado pouco, abriu mais um pouco a torneirinha e o pinga-pinga aumentou de ritmo... e eu a ver... e foi-se embora.
Mas passadas mais umas horas, ele voltou com outro frasco na mão, e disse; então este frasco já devia estar vazio !!!
E vai de abrir mais um pouco a torneirinha, mas passada uma meia hora, eu vi que o ritmo dos pingos já havia diminuído e sem que ninguém visse, fui à torneira e experimentei a rodá-la, pondo aquilo a correr mais.
Dai a bocado, o enfermeiro voltou e ficou todo contente de já poder substituir a garrafa de plástico...
Mal sabia ele que eu é que tinha estado a regular o pinga-pinga, quase de meia em meia hora...
Mas no outro dia, lá me vieram com aquela mania de eu ir tomar banho novamente, eu que estava tão limpinho... Já era mania !
Assim, sorrateiramente, agarrei o macinho de cigarros e isqueiro, toalha e pijama e lá fui para a casa de banho, mas foi para fumar dois cigarrinhos seguidos tal era a saudade... e depois voltei para a cama de barba feita e todo bem cheiroso do sabonete que também tinha levado.
Como entretanto o líquido que evacuava, já estava só rosado, mandaram-me comer uma comida leve e no dia seguinte, eu já era outro. Parecia que estava tudo reparado.

Ao fim de 5 dias daquela marmelada, mandaram-me embora, mesmo perto da hora das visitas e foi no carro da minha filha, que voltei para casa, e lá tive de voltar uma semana depois, para tirar o adesivo e até vi que a enfermeira estava toda contente, porque não se havia infectado nenhum ponto, e com um alicate especial, tirou os agrafes todos.
Pudera, o meu maior cuidado, tinha sido não molhar o adesivo, não fosse molhar o rasgão da barriga e arranjar alguma infecção...que era o que eu tinha mais medo...

Mas eu sabia que no mês seguinte, teria de lá voltar para ouvir o médico sobre a biopsia que tinham feito aos pólipos e eu ali estava à sua frente, a vê-lo com uma cara muito carrancuda, a ler um extenso relatório.
O médico até era simpático e se chamava Bruto da Costa, mas eu estava num estado de nervos terrível, pois estava mesmo à espera que fosse algo canceroso e tivesse de ir fazer quimioterapia...
Mas quando ele chegou ao fim, fez um sorriso, avançou-me com a sua mão direita e me deu os parabéns, porque eram só tumores benignos e podia ir descansado para casa.
Aí, é que não consegui aguentar mais e desatei num pranto de lágrimas incontroláveis, mas feliz, mesmo muito feliz.
E nunca mais lá voltei, e até hoje e a pensar: Será que eu vou viver até aos 112 anos, como aquele piloto inglês Henry Allingham!
Isso é que era bom e, demais !