quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

COM A MORTE NAS MINHAS MÃOS


Estava um dia lindo nos Ginetes, em S.Miguel e eu estava a brincar na rua, quando tinha os meus 10 anos.

No meio do profundo silêncio daquela terra, ouço o galopar desenfreado de um cavalo e de imediato, um velho chibatando o cavalo violentamente, e num repente, puxando pelas rédeas, fez parar a carroça mesmo em frente à nossa casa, tendo saltado dela e agarrado uma criança de dois anos, que estava desmaiada e deitada atrás, na caixa da carroça.

Meu avô estava em casa, por acaso, e abriu-lhe de imediato a porta do consultório, dizendo ao velhote para pousar a miúda na marquesa e berrou por mim, bem alto. "MÁÁÁÁRIO..." !

Aquilo devia ser uma situação muito grave, pois meu avô nunca costumava gritar assim, mas num segundo, eu estava ao seu lado a ouvir as suas explicações:

"Comprime aqui nos intestinos com a mão direita e com a esquerda, comprime o peito, alternadamente " .

Ele estava a valer-se da minha ajuda, porque o pobre velho, não conseguia ter coragem para o fazer.

Aquilo estava mesmo feio, pois a criança mal conseguia respirar e só se ouvia um ligeiro apitar do ar que teimava em não querer entrar nem sair dos seus minúsculos pulmões...

Meu avô pegou uma lanterna eléctrica, abriu a boca da garota e espreitou o melhor que podia, mas o que estava a bloquear a respiração, devia estar mais abaixo, talvez à entrada dos brônquios e, por mais que tentasse, nada conseguia ver...

Ao nosso lado, o velho avô, todo amargurado, chorava banho e ranho, pedindo, continuamente, "Sr.Doutor, salve a minha neta "....

A miúda tinha-lhe sido entregue pela mãe, enquanto ele tinha de tratar da horta onde vários cachos de uvas ainda verdes, pendiam ali por perto e a garota havia metido uma uva na boca e engolido inteira...

O velho, ao ver a miúda asfixiada, largou tudo, atirou com ela para cima da carroça, depois de lhe ter dado uma palmadas nas costas, e vai de procurar ajuda médica, mas eles estavam a uns 5 quilómetros de distância e, mesmo com o cavalo no seu máximo, talvez já não fosse a tempo. Na realidade, já se haviam passado alguns minutos e a pele da criança, já se estava a tornar azulada, situação indicadora de muita falta de oxigenação.

E eu lá estava a fazer o meu melhor, ora comprimindo as costelas ora os intestinos, sempre esperando que algum vagido me indicasse que o ar já estaria a entrar e sair, enquanto meu avô insistia para que eu não parasse e continuava a tentar ver cada vez mais fundo, usando várias "ferramentas" que tinha no consultório.

E eu tinha a morte dela, nas minhas mãos, eu não podia dizer que já estava extenuado...

Infelizmente, uns minutos depois, meu avô auscultou a miúda e depois com o dedo polegar e indicador, de uma mão, abriu-lhe os olhos e verificou que as pupilas estavam todas dilatadas !

Meu avô endireitou-se e largando as "ferramentas", disse-me: " Podes parar, porque ela já está morta "...

Não havia mais nada que fazer ! A miúda estava morta e nas minhas mãos...

Senti um arrepio imenso e tive de afastar-me de imediato, para não vomitar, pois nunca gostei de estar ao pé de mortos...

O pobre velho, avô da garota, lá pegou no seu cadáver e muito lentamente, saiu do consultório, enquanto os seus velhos olhos agora jorravam abundantes e amargas lágrimas de desespero e foi deitá-la na carroça que estava ali à espera, com o cavalo todo encharcado de espuma do seu suor...e sem estar amarrado a lado algum, talvez a pressentir o que estava a acontecer com o seu dono, ali estava à sua espera.

" E o que é que eu vou dizer aos pais dela ?, eles que tinham tanta confiança em mim !"...lamentava-se o velho ...enquanto as lágrimas lhe pingavam do queixo... e eu, ao vê-lo naquele sofrimento, também deixei cair algumas lágrimas. E ao tentar olhar bem lá para cima, para a cara de meu avô, ele a desviou, talvez para eu não ver a sua vista desfocada por alguma lágrima furtiva.

E lá subiu para a carroça, dando ordem de marcha, enquanto tanto meu avô como eu, estávamos ali feitos parvos, por não termos conseguido salvar aquele pobre criança das garras da morte, enquanto víamos a carroça afastar-se, lá para os lados da freguesia da Candelária, no extremo Oeste da ilha de S. Miguel.

A vida de qualquer médico de aldeia, tem muitas destas situações. Ele faz o seu melhor e o mais rapidamente possível, mas há situações em que cada segundo conta e este, foi mais um dos muitos casos que lhe passaram pela mãos e, a alguns, eu assisti bem por perto, todo amargurado !.

E recordo como estes episódios, poderão ser tratados hoje. Provavelmente e com muita sorte, o avô desta malfadada criança, pegaria o telemóvel, chamaria os bombeiros que, por sua vez iriam chamar o INEM que, por sua vez iria mandar um helicóptero para o sítio e levar a criança para um hospital, mas certamente que depois de um intervalo de tempo muito superior a duas horas...era impossível que ainda se mantivesse viva !

E isto, se o velho tivesse telemovel e se os bombeiros existissem por perto, o que não era o caso, e houvesse o INEM e houvesse helicóptero que necessita de mais de meia hora para aquecer os motores, e...etc. etc...

Aqui, possivelmente o leitor estará a pensar no porquê do velho não ter levado a criança para o hospital...mas será bom de lembrar, que o hospital existe em Ponta Delgada, a 25 Km de distância... da Candelária...

Escrito por Engenhocando em 2007/03/21 às 14:06:58

MARTINS FARIA, UMA VIDA DE SONHOS


Gostava de oferecer este escrito, com muito carinho, a toda a minha família, para que finalmente, possam entender o porquê se serem assim como são, e não doutra forma. Esta forma ardente de viver trabalhando continuamente, mesmo perante os revezes da vida, o porquê de tanto gostarem de música e de compreenderem o porquê de quererem sempre sair dos problemas, de cabeça erguida.



« Meu pai, que se chamava José Augusto Martins Faria, nasceu em Abrantes, terra ribatejana muito bonita e que tem por vizinho, o belo Castelo de Almourol, plantado mesmo no meio do Rio Tejo, à sua frente.

Toda a sua curta vida, pois só viveu até aos 45 anos, foi recheada de episódios mais ou menos rocambolescos, porque demasiado grandiosos para as suas possibilidades e sendo um auto-didacta, viveu sonhando rodeado de imensos projectos que, talvez por terem sido vividos numa época muito conturbada por sucessivos e graves acontecimentos políticos, 1900 -1928, sempre encontrou enormes dificuldades.

Filho de professores, era muito exigente em perfeição e honestidade, virtudes nem sempre fáceis de encontrar em toda a gente, nem muito menos nos negócios ou na convivência política.

Ele talvez tivesse exigido demasiado das pessoas com quem se teve de cruzar pela vida fora, o que lhe havia de trazer alguns problemas e dissabores.

Logo de criança, nas suas férias escolares, o seu primeiro "emprego", foi o de cobrador de dívidas mal-paradas, levando debaixo do braço, uma pasta que, às vezes, estava recheada de dinheiro. Como era ainda um garoto, os ladrões nunca pensaram em o assaltar e, como era muito correcto nas suas operações, e de fino trato, foi escolhido por várias empresas que nele confiaram.

Na altura em que já estava perto da vida militar, e como tinha muita habilidade manual, havia aprendido a difícil tarefa de reparação de relógios de todos os tipos, mas inscreveu-se na tropa, como voluntário e logo foi parar a Angola onde haveria de aprender todas as táticas militares e se havia de distinguir pela sua bravura, habilidade e inventiva.

Estavam a aparecer em Portugal, os automóveis e ficou desde logo apaixonado pelas suas mecânicas, de que se viria a tornar exímio, paciente e exigente. Ele nunca gostou do "mais ou menos"... Ou se fazia bem feito, ou não se fazia mesmo...



Portugal vivia uma época muito conturbada de problemas políticos, tanto no Continente, como em África e foi em Angola que teve contacto com o General Massano de Amorim que viveu a "apagar fogos", tanto em Moçambique em 1914-26, mas também em Angola em 1900.





« General Massano Amorim, 1918 »



Martins Faria estava pois no seu ambiente favorito das mecânicas e era chamado a todo o lado, para resolver os problemas mecânicos nas máquinas de guerra, pelo que se tornou muito conhecido e até conseguiu fazer-se amigo dele e vendo que a tropa se estava a enfrentar com muita falta de colchões, propôs-lhe montar uma fábrica para esse efeito, o que o General aceitou de bom grado. Assim, com tão alto "padrinho", logo conseguiu arranjar sócios e vai de montar uma fábrica para o efeito, em Lisboa, mas quando já estava tudo pronto a funcionar, o General é afastado das suas funções em 1918 e as dificuldades burocráticas foram tantas, que a empresa faliu, levando a reboque os vários investidores e ele próprio... Foi o seu primeiro sonho desfeito "em palha"...

Ele tinha uma voz grave e muito bem timbrada, pelo que era muito agradável de ouví-lo falar. Pessoa dotada de uma memória fora de comum, tinha conhecimentos científicos de muitas matérias, e, por isso, era o rei da festa em qualquer reunião, tantas eram as anedotas e factos ocorridos com ele . E não eram só homens os interessados em ouví-lo, até porque as suas anedotas eram cuidadosamente refinadas para os ouvidos femininos. Embora de aspecto muito sóbrio, ele escondia uma tremenda atracção pelas partidas, desde que não ocasionassem danos às pessoas e ficava muito divertido a ver as suas caras de "apanhados"...

Ainda em solteiro, e vivendo numa pensão , ele esteve muito embeiçado por uma garota muito bonita, que lá estava, mas que fazia tudo para o afastar . Ela não o rejeitava de todo mas... não lhe facilitava a vida...

Mas como era muito brincalhão, e depois de um piropo mal aceite, afastou-se apressado, com cara de ofendido e meteu-se no quarto. Como possuia uma pistola, levou uma ameixa bem vermelha com ele, e deu um tiro, deitando-se no chão todo encharcado em "sangue" da ameixa, na cabeça. De imediato a garota e toda a gente presente, correu escadas acima e vendo-o deitado no chão com a pistola ainda a fumegar na mão, agarrou-se a ele num pranto desmesurado, dizendo-lhe que lhe perdoasse, que o amava muito, etc e tal. Meu pai aguentou um bocado, enquanto apreciava os comentários dos presentes que não entendiam o porquê daquele suicídio, até que se levantou e disse com aquela sua linda voz: «Mas a menina julga que há alguém, neste Mundo, que se vá matar por sua causa ?...»

A pobre garota, desde esse dia, nunca mais foi vista...

« Depois do Serviço Militar, juntou-se, cheio de projectos, a uma importante empresa em Lisboa, chamada Empresa Nacional de Máquinas, ali no Largo do Intendente, imponente edifício que faz frente para a Avenida Almirante Reis e Rua da Palma e, com um seu irmão gémeo, Eduardo Faria, desenvolveu projectos grandiosos com maquinaria vinda de França e, para tal, teve de lá se deslocar muitas vezes, reconhecendo a grande diferença de vida que lá se fazia. Tudo o que lá via, lhe despertava a vontade de trazer projectos para Portugal... A Empresa ocupava todo o rés-do-chão que, hoje, em 2007, está ocupado por imensas lojas pequenas.



Era nesta "caravela voadora" que os franceses queriam pôr Gago Coutinho a orientar a grande viagem de Lisboa ao Brasil.



Foi por esta altura, 1917, que o Almirante Gago Coutinho empreendeu a sua primeira viagem aérea entre Lisboa e o Rio de Janeiro, facto que o haveria de apaixonar, e vai a França observar os testes dum enorme avião de 6 motores, ao que ele apelidou de "caravela voadora", e viu que aquela enorme e pesadíssima máquina, estava muito longe de garantir êxito à longa viagem ao Brasil. Assim, vem para Portugal e publica na imprensa, um intenso debate público sobre os perigos daquele enorme avião, se fosse ele o escolhido. Nessa época, no Brasil já havia imenso entusiasmo pela aviação e todo o território já era muito sobrevoado, mas voar sobre o Oceano Atlântico, de Portugal para Brasil, era ainda muito complicado ! Essas viagens, já estavam a ser feitas, mas de Zeppelin.

Esta viagem de Gago Countinho e Sacadura Cabral, estava a provocar em toda a Europa, um enorme entusiasmo !

Em Portugal, 1919, vivia-se este grandioso e arriscado projecto, com enorme interesse e, acompanhado do piloto Sacadura Cabral, lá faz a viagem num pequeno avião de flutuadores, o Lusitania.

« Nos Estados Unidos, Henry Ford estava a conseguir montar em série, os automóveis Ford e isso o aliciou a também tentar em Portugal, mas com carros franceses, a Renault. Estava-se em 1919.

Henry Ford era, como Martins Faria, um grande entusiasta pelas mecânicas. Nesta imagem, Henry Ford ainda não estava a fabricar automóveis.

« No primeiro andar do palácio onde estava instalada a Empresa Nacional de Máquinas, ele lá vivia, perfeitamente confortável de situação financeira e foi numa das suas viagens aos Açores, S. Miguel, para orientar a montagem duma fábrica de serração, que viria a conhecer aquela que viria a ser, pouco tempo depois a minha mãe, senhora bonita, (desculpe-me a falta de modéstia) dotada de muita habilidade para interpretação de música ao piano, falando francês fluentemente, além de bordar bordados lindíssimas, e tendo aprendido a bordar as rendas de Bilros, que estava muito em moda nessa época, e pintava e desenhava com muito estilo, tendo recebido aulas do famoso pintor açoriano, Domingos Rebelo.

Meu pai, que era também um amante da boa música clássica e até tocava bastante bem violino, logo se sentiu profundamente apaixonado por aquela senhora, com quem viria a casar poucos meses depois.

Foi deste casamento que vieram os 5 filhos já descritos e fotografados, noutros artigos deste Blog.

Na casa de meu avô, a música era uma constante a todas a horas. Certamente que todos nós, mesmo antes de nascermos, já vínhamos embalados em música !

«Quando eu nasci, em 1927, na freguesia dos Ginetes, em S.Miguel, estava ele, no Continente, muito entusiasmado em trazer para Portugal, a referida marca de automóveis franceses, a Renault e conseguiu alugar um enorme edifício, ali para os lados do Arco do Cego em Lisboa, que iria servir de linha de montagem dos automóveis. a primeira do género em Portugal !

Era um projecto grandioso, talvez demais, para um jovem como ele era, de 43 anos !

Já com tudo montado à espera da primeira remessa de toneladas de peças dos automóveis, colocadas em comboio, em França, rebenta mais uma revolução em Lisboa e ele viu-se na necessidade de suspender a encomenda, até que a coisa acalmasse, mas poucos dias depois, rebenta outra revolução e os franceses desistiram de continuar com o projecto, dada a insegurança política que existia em Portugal. E lá se foi mais um dos seus belos sonhos...sem rodas para andar... e sem futuro para os seus filhos...coisa que já tanto o preocupava...

Foi por esta altura que meu avô veio ao Continente para ver a filha, mas é acometido duma apendicite agravada, que o ia matando. Meu pai começou a verificar que só lhe punham sacos de gelo em cima e a doença sempre a progredir, sem que os médicos alterassem o tratamento. Meu pai tinha trazido de França uma almofada eléctrica, com ajuste de temperatura e pensando que o sogro necessitaria era de calor, falou com o médico assistente que, muito contrafeito, lá o deixou experimentar e qual não foi o espanto de todos, quando vêem o doente a melhorar dia a dia e com alta, passadas poucas semanas. É engraçado aqui lembrar que anos depois, meu avô lembrava a todos nós, que devia a vida ao meu pai...que de medicina, sabia bem pouco...e até lhe tinha uma certa desconfiança...

Os problemas em Portugal estavam a agravar-se a grande velocidade, pelo que a própria Empresa, já estava a encontrar dificuldades de escoar o que cá possuia, tendo em stock uma data de motores de explosão de um só cilindro e 4 tempos, que estavam destinados, em especial às bombas de rega, na agricultura. Ele vendo o tempo que se gastava e dificuldade de calcetagem dos passeios e ruas de Lisboa, que eram feitos à mão, com pesadíssimos massos, logo pensou em estudar uma máquina que facilmente pudesse fazer esse trabalho, o que conseguiu, mas para as poder fornecer à Câmara Municipal, teria de enviar uma delas para demonstração.

Ainda tive acesso a uma fotografia dessa interessante máquina, mas ela me desapareceu, como por encanto... Assim, só me resta a possibilidade de a desenhar:

A Calcetadora tinha o tamanho aproximado de uma motocicleta.

O motor estava engatado a um poderozíssimo e complexo sistema de desmultiplicação, capaz de dar cerca de uma rotação por segundo e maior ainda para o lento movimento do carro, e um excêntrico de rápido declive, (como usam todos os relógios despertadores ao despertar) fazia subir o pesado embolo, que era largado repentinamente no solo, por intermédio duma violenta mola, do tipo usado nas suspensões dos automóveis. Um sistema mecânico, ia analisando a compressão das pedras na calçada e só deixava a máquina seguir, quando estas pedras estivessem alinhadas ao mesmo nível. Além dos imensos carretos e correias, ainda dispunha de diferencial ligado às duas rodas, para um movimento extra lento.

O operário só tinha de orientar a máquina para onde necessitava de trabalhar, o que era fácil, porque a máquina se deslocava automaticamente, muito lentamente, com a ajuda do motor. Embora andando a pé, o operário tinha acesso a um guiador, do tipo das motocicletas, com todos os seus comandos à mão e ia acompanhando todos os movimentos da máquina, passeando atrás dela. Aquilo estava positivamente muito engenhoso !

Para as poder colocar no mercado, ele teria de enviar uma para a Câmara Municipal de Lisboa, embora sabendo do perigo que isso iria constituir, porque sempre havia espiões industriais em todo o lado, mas como não encontrou outra solução, lá enviou uma máquina mas, rebentando outra revolução, com troca de ministros e Directores, nunca mais encontrou o seu paradeiro e pior, uns meses depois, vê propaganda francesa de ter à venda uma cópia da sua máquina... Mais outro sonho por água abaixo... agora à marretada !.

Desgastado pelos sucessivos desgostos, resolveu ficar sozinho na Empresa, tendo comprado as partes dos sócios, mas as complicações continuaram e viu-se obrigado a fechá-la poucos anos depois, mas colocando nos jornais a notícia de que pagaria a todos os credores, o que estivesse certo. Queria sair de cabeça levantada !

Com a saúde muito abalada, um amigo médico descobre que ele está gravemente doente de diabetes, que nunca tinha analisado, e a alimentação necessária para a sua correcção, despoleta-lhe uma tuberculose pulmonar, muito difícil, dolorosa e demorada de tratar naquela época, pelo que desiste de procurar o tratamento.

Mesmo assim, vai morar para a Parede, na linha de Cascais, e aí se entusiasma por montar uma Escola de Condução Automóvel, alugando um vasto terreno onde manda fazer ruas e mais ruas, encruzilhadas, pontes, parques de estacionamento, semáforos, etc. e como estava muito interessado em dar às mulheres a possibilidade de conduzir automóveis, convida minha mãe a aprender a conduzir, para ser instrutora feminina, coisa que era novidade em Portugal, mas um dia, para ver se ela já respondia prontamente aos travões, atirou-se para a frente do carro em que ela vinha a conduzir, e por pouco não foi atropelado, pelo que minha mãe logo aí desistiu de continuar a aprender e lá morreu mais um dos seus grandes projectos...agora na estrada...

Ainda tive acesso aos seus manuscritos sobre as provas de exame, mas infelizmente, acabei por perdê-los ...

Ele estava realmente em apuros, tanto financeiros como de saúde e vai para S.Miguel, viver com a mulher e filhos, para a casa de meu avô, lá para os Ginetes que, como médico, passou a viver imensamente preocupado com a possibilidade de contágio da filharada, os seus netos. Embora eu sentisse uma vontade enorme de lhe saltar para o colo, e ele o sentia, e levava os dias a chamar por mim, para o ajudar a polir à perfeição, as caixas de prata dos relógios Longines, e outras marcas, etc., sempre fui um tanto travado de o fazer, por meu avô e, por isso, tive muito pouco tempo de vida na sua companhia.

Mesmo aí, e na mira de conseguir mais algum dinheiro, ainda pratica a sua primeira profissão de rapaz, consertando relógios e vendo que em S.Miguel, ninguém conhecia as saborosas meloas de casca fina e imensamente saborosas que ele conhecia do Continente, vai de alugar um terreno e semear daquelas meloas, mas como elas nasceram todas ao mesmo tempo no fértil terreno açoriano, e com dificuldade de as colocar em todos os restaurantes com quem tinha contactado antes, vê mais este projecto afundar-se...e toneladas de meloas a apodrecerem no terreno ! Não sei ainda, se teria havido alguns ganhos... e lá se foi outro sonho, mas desta fez "afogado" em saboroso sumo de meloa...

« O Magneto que gerava 15.000 Volts »

Um dia, quando eu tinha 9 anos, ele nos chamou a todos (os 5 filhos) e colocou sobre a mesa da sala de jantar, um magneto que se usava muito em certas máquinas, para gerar os 15000 Volts para as velas dos motores, e mandou-nos agarrar as mãos todas uns dos outros, por forma a fazermos um circuito série, e dizendo a meu irmão, que era o mais velho, para quando ele, meu pai, mandasse, fazer rodar rapidamente um pequeno volante que aquela "coisa" possuia, informando-nos para prestarmos muita atenção ao dedo do último que estava ao pé dum arame, e era eu..., para vermos o lindo fenómeno que se iria passar... Estávamos todos muito entusiasmados...

Então, quando estávamos todos agarrados uns aos outros e o último estava com o dedo próximo do arame, ele, ainda gozando o lento enrolar do seu cigarrinho na mortalha e, com um sorriso matreiro, deu ordem de arranque. Obviamente, um valente choque de 15.000 V, percorreu todos os nossos corpos, deixando-nos estupefactos com o que tinha acontecido ! Na realidade, nunca havíamos apanhado um choque e as nossas expressões horrorizadas, deram lugar a sorrisos amarelos, e lágrimas nos olhos...em especial por ver meu pai rir de orelha a orelha, coisa que não lhe era muito habitual... Mais uma partida do velhote.... mas esta fez doer !

Entretanto meu pai vê a hipótese de escrever para um jornal de S.Miguel, imensas crónicas das suas rocambolescas viagens pelo interior de África, à laia de folhetim, o que sempre lhe dava mais algum dinheiro, e eram escritas à mão, por minha mãe, que tinha uma letra lindíssima, enquanto ele ia passeando pelo quarto, a desenvolver os seus raciocínios e a enrolar cuidadosamente os seus cigarrinhos, operação que sempre terminava com uma lambidela na língua, para colar o papel.

Julgo que teria sido o jornal «O Açoriano Oriental», que os teria publicado...

« Um dia, vi entrar no seu quarto, um órgão de igreja que estava avariado há muitos anos, e ele ali esteve à sua volta, meses seguidos, a ver e testar membrana a membrana, nota a nota, conferindo com um diapasão, a sua precisão. E conseguiu ! Para o experimentar e testar, toda a família tocou no órgão, muitas horas. Aquilo era lindo de ouvir ! Mas este trabalho já era muito violento para a sua débil saúde...

Assim, roído pela doença e pelos desgostos, acaba por vir a falecer nos Ginetes, aos 45 anos de idade, em 1938, quando eu ainda tinha 11 anos. Quando nos deixaram ir vê-lo morto, na sua cara, estava estampado um sorriso extremamente calmo... como se estivesse a pensar que iria agora fazer partidas para outros mundos...quiçá aos anjos...

Pobre homem, que mesmo perante tantos insucessos, continuou a trabalhar até aos seus últimos dias de vida !

Na freguesia de Ginetes, nunca se havia visto um enterro tão imponente, com banda de música e muitas centenas de pessoas, vindas de todos os lados, em especial de Ponta Delgada...


Escrito por Engenhocando em 2007/03/09 às 09:57:46

UM AÇORIANO ABANDONADO EM LISBOA...


O leitor deste Blog, já deve estar um tanto farto de ver esta cara alegre e prasenteira, mas ela não mostra nada, o que este garoto de 13 anos, estava a viver e até pode parecer que vivia feliz e contente, tratado com todo o carinho.

A verdade era muito outra !

Nascido e criado até a esta idade, numa respeitosa família açoriana de S.Miguel, rodeado de carinho de toda uma família feliz, acabou por ter de ser "exportado" dos Açores para o Continente, porque toda a sua família se estava a desmoronar...

Meu pai já tinha morrido, de tuberculose e diabetes, com 47 anos, quando eu tinha 11 anos e deixou a minha mãe em profundas dificuldades financeiras. Entretanto o "Rei" da nossa casa, médico, meu avô, o adorado Dr. Leça dos Ginetes, acaba por falecer de angina de peito, aos 73 anos e, como estava marcada a minha "exportação" para esse mesmo dia, só o pude beijar, já morto, mas deitado na cama onde faleceu, com cara sorridente, como se estivesse simplesmente a dormir, com a sua cara deitada sobre a sua mão esquerda. Mais um profundo desgosto !

Minha mãe, ainda conseguiu tirar o curso de Regente Escolar e estava a dar aulas, uns tempos antes, numa freguesia ali perto, embora tivesse de andar a pé uns quilómetros diários, para lá chegar. Com o vencimento de 250$00 mensais, aquilo não dava nem para os sapatos que os seus 5 filhos gastavam...e meu avô também tinha deixado minha avó em séria situação financeira, pelo que não nos podia ajudar...

Assim, resolveu procurar emprego em Lisboa, o que conseguiu na Santa Casa da Misericórdia, exactamente onde se faziam as extracções dos Jogos Santa Casa, e lá conseguiu enfiar as minhas irmãs, num colégio interno de freiras, ali perto do seu emprego.

Fiquei eu e meu irmão, à deriva, sem eira nem beira, à procura de sítio onde viver, mas o ordenado da mãe quase não dava para nada e foi o pior tempo da minha vida, pois tinha de estudar e ir fazendo alguma coisa para poder comer um bolo ou beber um copo de leite. Pessoa amiga, que tinha filhos mais ou menos da minha idade, mas também estavam em dificuldades, fazia os filhos pegar em molhadas de revistas, que ainda me lembro se chamava FLAMA, e vai de alombar com elas para a porta duma Igreja, lá para os lados do Marquês de Pombal. E ali ficávamos um bom bocado a apregoar a revista. Por cada revista vendida, davam-nos 50 centavos, mas com um pouco de habilidade e cortesia, sorriso estampado na cara, eu sempre conseguia vender mais do que os outros e ficava todo feliz, por poder juntar uns cinco escudos ou pouco mais, o que já dava para poder comer mais alguma coisa numa taberna qualquer, das mais baratinhas...

Depois acabei por arranjar mais um "emprego" numa casa que fabricava candeeiros, ali para a rua da Vitória, 46-48, no meio da baixa, e tanto tinha de andar a pé, por Lisboa inteira, para receber facturas atrasadas, subir e descer imensas escadas, para depois levar com a resposta de que lá fosse noutra altura...ou ter de alombar com enormes candelabros cheios de pingentes, e que só podiam ser transportados ao ombro, perante o tilintar chato daqueles vidrinhos todos, com toda a gente a olhar com cara de gozo. Mal sabiam eles que aquele pobre garoto açoriano, estava a fazer um sacrifício dos diabos, para poder comer um pastel de bacalhau como almoço... e ainda tinha de estudar para à noite, ir pegar a Escola Marquês de Pombal, lá para casa do Calvário. Aquilo era mesmo um calvário !

Mas um dia, minha mãe encontrou uma rapariga que tinha sido sua criada, quando dos tempos áureos, mulher ainda bem bonita e que nunca havia vestido farda, o que muitas vezes provocava em minha mãe ataques de histeria, porque quando ia à porta, e sendo tão bonita, toda a gente julgava que se tratasse da minha mãe...

Gozava a criada e enfurecia a minha mãe, está claro ...

Mas este "senhora" vivia ali perto da Misericórdia de Lisboa, numa casinha muito modesta do Bairro Alto, mas cheia de boa vontade, lá me arranjou um cantinho na casa, com uma mesa e cama, mas havia colocado uma cortina a tapar o resto do quarto.

Mal eu sabia, que ela se tinha tornado prostituta e dificilmente eu conseguia dormir, com tantos ais e isss, gemidos e palavrões, das suas "visitas" ! E logo eu, que nem sabia o que era uma prostituta, nem de longe nem de perto... e até lhe tinha muito respeito !

Mas a minha mãe, que também não sabia nada daquilo, lá nos empurrou para a Av. Almirante Barroso, ali para os lados do Arco do Cego, e albergou-me a mim e meu irmão Carlos, no mesmo quarto.

Felizmente que, com a ajuda dum outro açoriano, de S.Miguel, amigo de infância da minha mãe, e era engenheiro no Arsenal do Alfeite, de nome Vargas Moniz, nos conseguiu lá plantar os dois. Nós éramos os "Farias" e tratados com muito deferência, pois toda a gente sabia que éramos protegidos do patrão!

Aquilo até podia ser pior, mas era muito chato ter de ir apanhar o eléctrico às 7 da manhã, para o Cais do Sodré, todas as manhãs, para apanhar a corveta da Administração, que nos transportava para o Arsenal do Alfeite, do outro lado do rio Tejo. Á tarde, a corveta "despejáva-nos" no Cais do Sodré e lá íamos os dois de eléctrico comer qualquer coisa e depois eu teria de ir novamente de eléctrico para S.Amaro, mesmo do outro lado de Lisboa, para a Escola Industrial.

A alimentação no refeitório do Arsenal, até não é que fosse má, mas ficava muito caro para a nossa bolsa. Assim, tínhamo-nos de contentar com qualquer coisinha que ia eu buscar ao "guichet" , porque meu irmão preferia ficar sem comer, do que ir para a bicha, de braço estendido...

Infelizmente, em casa, mal podíamos comer, porque ainda era cedo para os donos da casa e muitas vezes só "bebia" uns golos de água quente com umas nabiças a flutuar, ao que chamavam de sopa...para ir apanhar o eléctrico para Santo Amaro.

Aquela falta de descanso e de comida suficiente, não me podia deixar ir muito longe e, um dia, tendo ido a uma praia do Seixal, deixei-me dormir, estampado ao Sol, mas quando acordei, nem me conseguia por de pé... Assim, fiz todo o percurso a pé, imensamente cansado, a empurrar a bicicleta, pois nem força tinha para a montar e pedalar.

Meu irmão grande entusiasta pelas coisas científicas, estava a experimentar fazer exames microscópios num aparelho por ele construído e observando a minha expectoração, logo verificou que eu estava muito doente com bacilos de Koch, embora o médico julgasse que se tratava duma simples gripe, mas perante o ensaio do meu irmão Carlos Mar, achou por bem mandar fazer um exame mais exaustivo e confirmou-se a doença... aquela malvada doença com que havia morrido meu pai uns anos antes, doença de terríveis e demorados anos de tratamento e foi por isso que fui "exportado" para o hospital do Desterro e onde se passaram os episódios rocambolescos, que descrevi no artigo "Chateado pelos ácaros".

Mas dado o saber da terrível possibilidade de contágio da doença, logo exigi que houvesse o máximo cuidado com tudo o que me dizia respeito e, felizmente, nenhum dos meus irmãos foi contagiado.

Felizmente que logo me arranjaram forma de ser "exportado" agora para um Sanatório do Caramulo, levando a tiracol a minha máquina fotográfica...como se fosse passar umas férias na montanha...o que tanto gozo deu à malta que me viria a conhecer. Mas só, ao fim de um ano de penoso tratamento de pneumotóraxes, é que os bacilos de Kock foram desactivados e comecei, muito lentamente, a ganhar vida, enquanto ia vendo muitos outros, da minha idade a socumbirem à terrível doença.

Tive o "desplante" de me vir "despir" aqui em público, pensando em tantas crianças da minha idade, que, por este ou aquele motivo, rodeadas de tudo o que é bom, com uma boa casa para viver, rodeadas de amor e carinho dos pais, não se alimentam convenientemente, e acabam também por adoecer, mas talvez não tendo a sorte e vontade que eu tive de me curar, embora tivesse de fazer um tratamento por 5 anos...

E quando vos apetecer fazer alguma asneira das grandes, lembrem-se daquele puto açoriano, de 13 anos, o Mário, que vocês conheceram via Internet.

Hoje, perto dos 80 anos e olhando para trás, não posso ter saudade alguma da minha mocidade, em especial desde o momento em que toda uma família se começa a desmoronar, como pode acontecer a qualquer um, e sentindo uma imensa vontade de viver, dou graças a Deus de ainda estar vivo e poder relembrar aqueles tempos tão distantes da minha mocidade tão amargamente e estupidamente perdida...e sem ser por minha culpa...


Escrito por Engenhocando em 2007/02/27 às 15:08:02

domingo, 12 de outubro de 2008

E O VAPOR AGUENTOU-SE...


Esta crónica, devia estar inserida no artigo que escrevi há tempos e intitulado "Amanhã já não tens avô", em Junho do Ano passado, pois foi o que aconteceu no dia exacto do seu falecimento e, porque já tinha a viagem comprada de navio, de S.Miguel para Lisboa, nem me foi possível assistir ao seu enterro.
Era realmente, um dia tristíssimo para mim, mas essa viagem não podia ser adiada, porque não podia mesmo, até porque tinha de estar no Continente, para entrar na Escola Industrial Marquês de Pombal, onde já estava matriculado.
Eu só conseguia recordar a sua expressão sorridente, com a sua cara deitada sobre a sua mão esquerda, mas já falecido.
Aquela impressão de que nunca mais veria aquele meu adorado avô que tanto carinho me havia dado, fazia-me doer e muito a alma...
Até fiquei com a impressão de ele estava à espera daquele dia, para se despedir de mim.
Eu só tinha 16 anos, mas sempre vivi muito agarrado àquela simpatia, àquele carinho que só um avô pode dar a um neto e ele sabia que nunca mais me poderia acariciar nem me ensinar o tanto que sabia, nem me ouvir a ler as notícias dos jornais, ali deitado ao lado dele, na sua cama, embora só recostado, como num sofá.
Como não havia luz eléctrica, ali estava eu horas e horas a ler-lhe as notícias, à luz dum candeeiro de carbureto, que todos os dias era carregado pelo empregado, o Sr. Manuel que, além de ir buscar água numa carrocinha de mão, também tratava de manter o seu carrinho Austin-7 impecável, além de fazer as cobranças anuais das avenças, vinte escudos que cada agregado familiar entregava ao médico, para ter direito a assistência médica em todo o ano, fosse uma ou uma dúzia de pessoas...
Antes disto, eu lhes escrevia do Continente, cartas enormes a descrever como estávamos a viver, das nossas dificuldades e falta de dinheiro...
Foi a este propósito, que escrevi neste blog, o artigo " Um açoriano abandonado em Lisboa", em Fevereiro de 2007.

Sair e entrar nas ilhas açorianas, naquele tempo, só de navio e haviam vários.
Eram necessários 3 dias de viagem, sendo 1,5 até à ilha da Madeira, e outro tanto, da Madeira ao Continente.

Assim que o navio se pôs ao largo, até parecia uma lagoa, quase sem ondulação, e ali íamos direitinhos à Ilha da Madeira, onde ele teria de ser carregado de bananas, anonas, uvas, maracujás, etc.
Comigo, iam outros rapazes, mais ou menos da minha idade, também para estudar no Continente e como o vapor ia carregado de gente, tudo servia de graça e toda a gente se ria por qualquer coisa, embora fôssemos todos na proa do navio, onde há mais balanço, e por isso é a 3ª.Classe.
Como não havia balanço, até parecia que íamos num paquete de luxo, não fora o termos de dormir nos porões, por não haver mais beliches disponíveis !

Eu devia ser o passageiro mais triste que ali ia, e até um tanto ridículo, porque na véspera do falecimento de meu avô, ele me havia pedido para levar comigo a sua viola, uma linda peça de música, de que eu já sabia todos os acordes e afiná-la.
Mas a minha tristeza era maior do que ter à mão aquela viola, e sem coragem para a agarrar, embora a malta protestasse de eu não a tocar...
Mal sabiam eles de onde vinha aquela viola, e a razão porque eu não lhe tocava.

Como o mar estava imensamente calmo, quase todos os passageiros da 3ª. classe, se encontravam debruçados na amurada, da proa, a verem imensos golfinhos, como a tentarem andar mais depressa que o navio...

No dia seguinte, ainda era quase noite, começámos a ouvir uma certa algazarra, porque alguém já sabia que devia estar a terra à vista e vai tudo de se levantar, até porque para muitas pessoas que lá iam, era a primeira vez que iriam ver terra, de bordo de um navio e isso era uma situação empolgante!
Para mim, já era a quarta vez que cruzava o Oceano Atlântico entre os Açores e o Continente, pelo que nada daquilo já me interessava, mas realmente o ver-se terra, tem sempre um certo mistério, pois ao contrário do que se poderia pensar, não se vê uma ilha na penumbra, lá muito longe, mas sim umas casinhas colocadas entre as nuvens, uma aqui, outra ali... a centenas de metros de altura !
Para toda aquela gente, que tinha a sua primeira viagem, eram gritos de alegria ao descobrir: olha ali outra... e outra ali mais abaixo... olha tantas no Céu....
Uma neblina teimosa, bloqueia toda a visão, mas como os navios iam direitos à ilha, de hora a hora, cada vez aparecem mais casas que se perdem pelo céu a dentro, a perder de vista, por entre as nuvens...
Ou seja, nós já estávamos muito perto da ilha, e só aquelas casinhas no céu se podiam ver, mas mal nos aproximamos mais, e a neblina desaparece, estamos somente a umas centenas de metros de terra, e até dá a impressão de que o navio vai entrar de proa pela terra a dentro...
Chega tão perto, que se podem ver as pessoas e os carros a andar, os pequenos barcos de pesca, todo aquele imenso verdejante florido que entra pelo céu a dentro, como se a ilha não tivesse fim, em altura !
E sente-se na pele o que teriam sentido os marinheiros das nossas caravelas, ao avistar terra!...
Mas, subitamente, o navio roda 90 graus e vai a acompanhar a costa da ilha, até num repente, se entrar na baía do Funchal e se poder assistir à azáfama da sua população com a nossa chegada.
De terra vem um aroma imenso de flores e frutos exóticos, inebriante.

Num repente, nos vemos acompanhados de imensos barquinhos minúsculos, com duas pessoas, um adulto que rema, e uma criança de tenra idade, que vai em pé na proa, que se atira à água, depois de ver que alguém de bordo, lhes atira moedas e que eles num repente, enquanto elas fazem zig-zag nas águas cristalinas, eles as agarram, metem na boca, e voltam para o seu barquinho, mostrando ufanos, que as conseguiram agarrar, esperando cada vez mais moedas e assim acontece durante uma boa hora, enquanto o navio se encosta à doca.
Chega a ser impressionante o tempo em que aquelas crianças tão jovens de 5 e 6 anos se aguentam sem respirar e a ir buscar as moedas. E chega-se a ficar preocupado...
Aquilo é especialmente emocionante, porque estando a água tão transparente, se pode ver o trabalho daquelas crianças, e a sua habilidade para nadar a tão grande profundidade, pelo que os passageiros do navio, acompanham estas proezas e mal eles chegam cá a cima, atiram mais e mais moedas, cada vez mais valiosas, e eles lá voltam a mergulhar continuamente...

Depois do navio encostar, é toda a azáfama de ir visitar a aromática cidade do Funchal, esbarrando com imensas pessoas a quererem vender cachos e cachos de bananas lindas, por poucos escudos, e cestos de fruta pronta a comer de tão madura e aromática.
Mas depois dumas horas em que podemos visitar terra, o navio apita e lá vem toda aquela gente, tanto passageiros como vendedores de lembranças e fruta, cada vez mais barata, e é ver um caudal de cachos enormes de bananas chamadas "de prata", por serem gordinhas, muito doces e aromáticas, às costas dos passageiros, convencidos de que as podem trazer até ao Continente e presentear as suas famílias, além de terem fruta para imensos dias....

E acabou a festa, já quase de noite, quando o navio se põe ao largo, agora carregadíssimo de paletes de cachos de banana enchendo os porões, e o convés, mal deixando um cantinho onde a malta se possa deitar para dormir um pouco.
Mas agora, o caminho é outro, pois temos de aproar a uma outra ilha, Porto Santo, a caminho do Continente, mas naquele dia, apanhámos um temporal dos diabos, em que ninguém se aguentava em pé, a não ser às ombradas contra as paredes e toda a gente a vomitar, gritando para que a rapaziada lhes tirasse da frente os cachos de banana, e as caixas de maracujá, e as belas uvas, e as anonas, etc. etc. e que assim vão desaparecendo das portas dos camarins, embora ninguém se atreva a levantar dos beliches, tais são os balanços!

Eu já tinha apanhado mar mexido, mas aquilo era demais !
Mesmo com a proibição de se sair na proa, eu ainda me consegui esgueirar e fugir para a ré, subindo os degraus que levam para junto da chaminé, onde se podia apreciar a robustez daquele navio, a tentar não se transformar em submarino, mas metendo toda a sua altíssima proa pelas enormes vagas frontais, entrando toneladas de água por cima da proa e convés, para logo a seguir, subir uma nova vaga, subir, subir , até já com ela toda livre, e quase metade do navio sem água por baixo, voltar a enfiar-se pela nova vaga a dentro, estremecendo de proa a popa, num estrebuchar violento dum monstro, que perecia estar a guerrear, para não morrer sufocado...

E toda a noite foi assim, até que tudo acalmou e lá fui para o porão da frente, deitar-me um pouco, no meio duma tremenda confusão de caixas de banana espalhadas por todos os lados...
Só ao acordar, é que todos estranhámos que o navio estava todo de lado... Que coisa estranha, quase a emborcar... numa posição realmente ridícula para um navio daquele porte...
Quando chegámos cá fora, é que vimos o porquê daquela situação. É que as grades de caixotes que vinham no convés, tinham deslizado todas para o lado esquerdo, desequilibrando imenso o navio!!!
Estávamos à entrada do Rio Tejo e o navio parado, todo tombado, numa figura realmente ridícula !
E ali estivemos horas e horas, à espera que nos viessem rebocar, qual navio pronto a emborcar-se, mas o vapor, se aguentou !

Quem hoje se faz transportar de avião, não faz a mais pequena ideia do que era uma viagem de barco, o encanto de pensar nas caravelas, nos descobrimentos, nem as paisagens que se podem ver durante horas, enquanto os navios vão andando até entrarem no porto do Funchal.
E só dão pelo intenso aroma da ilha, quando saem dos aviões, mas muito longe da cidade do Funchal, das suas gentes e das habilidades daquelas dezenas de crianças alegres e corajosas, que se atiravam à água na ânsia de ganhar mais umas moedas.
Na realidade, uma viagem por mar, à ilha da Madeira, onde meus avós nasceram e se criaram, era das coisas mais emocionantes por que uma pessoa pode passar.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

A FADA DO MEU LAR

Mesmo após tantos anos, da minha esposa ter falecido, não há um Natal, em que não me lembre dela, aquela mulher que tanto se esforçou, por me dar felicidade, durante quase 50 anos, de casado...

Na realidade, tivemos uma vida um tanto difícil e sempre com dificuldades financeiras, para podermos acompanhar os nossos 3 filhos a terem uma vida saudável , feliz e simplificada.

Mesmo agora, com 81 anos, mesmo um tanto longe dos meus filhos que sempre têm as suas vidas diferentes e os seus Natais especiais, eu sinto e julgo que sempre sentirei a sua falta. Ela era bem a minha outra metade...

E é nestas datas, em que mais recordações me vêm ao espírito, aquela azáfama da véspera, aquela quantidade de doces que ela sempre fazia, a contar com todos os filhos, além duma velhinha, a sua avó materna, que esteve a viver uma data de anos na nossa companhia, e de que já falei naquela crónica recente, e intitulada " Senilidade...coisa estranha...".

Verdade seja dita que, talvez por nunca termos vivido com abundância de nada, nem eu, nem os meus filhos rapazes, fomos atraídos por andar à procura de prendas, mas bem pelo contrário, a minha filha Antonieta, era ao contrário, tal e qual a mãe, e vivia todo o ano à procura de alguma coisa a que todos achassem graça naqueles dias 25 de Dezembro e, ainda todos de pijama, nos reuníamos na sala, para ver o que nos teria calhado de oferta.

Nós, os rapazes, raramente conseguíamos descobri algo para aumentar aquela enorme rima da embrulhos e caixas coloridas, não tanto pelas despesas que teríamos de fazer, mas por falta de habilidade, embora sempre esperando que alguém se tivesse lembrado de nós...

Mas era emocionante ver aquela pilha de presentes amontoados, à espera que a minha esposa começasse a ver os nomes que estavam escritos em cada embrulho e assim, sempre havia presentes para toda a gente, coisas sempre baratinhas, pois como ela só trabalhava em casa, tinha todo o comando nas verbas que eu ia recebendo todos os meses, de ordenado, e lhe entregava totalmente, pois já sabia que ela teria o cuidado de reservar alguns tostões para os meus cigarrinhos e alguns litros de combustível para o nosso velho carrinho.

E sempre ficávamos deslumbrados com as coisas que ela descobria, sorrateiramente e ia guardando ao longo do ano, para aquele dia festivo, tudo bem escondido nos armários.

A gente não necessitava de dizer se precisava disto ou daquilo, porque ela até sabia melhor do que nós e já andava a procurar no mercado os seus preços, para as adquirir em conformidade com as suas possibilidades financeiras, para não por em perigo a nossa alimentação, educação, a renda de casa, a água, a luz, o telefone e algumas roupas mais necessárias.

Ela tinha a habilidade de ter tudo na mão, adaptando os fatos dos mais velhos, para os mais novos, e embonecando a nossa casinha com imensos bordados e rendas lindíssimas, que nós íamos vendo crescer dia a dia, todo o ano.

Recordo aqui, que em certa altura, ela se havia queixado de que o relógio despertador, a que ela dava corda todos os dias, sempre estava na sua mesa de cabeceira, e fazia muito barulho com o seu tic-tac constante, durante a noite, e resolvi ir à procura de um mais silencioso, para lhe oferecer num Natal, o que consegui e muito bem embrulhadinho, o fui guardar dentro das minhas tralhas, longe da vista dela.

Mas no profundo silêncio que existia à volta daqueles armários, ela estranhou um tic-tac e tanto procurou, que foi encontrar o bonito embrulho onde ele estava e logo pensou...cá está o relógio que ele me vai ofertar pelo Natal, mas calou-se muito calada e matreira...

Esse relógio era um despertador amarelo, realmente muito silencioso e, como todos, possuía um "cabelo" agarrado ao seu volante, para lhe manter o movimento de vai-vem.

Por graça, às tantas eu lhe dizia: "E é amarelo...." e ela sorria, simplesmente... gozando...

"E é redondo..." e ela sorria...

"E tem cabelo...." e ela sorria, enquanto eu julgava que ela nunca mais saberia do que eu estava a falar.



Até que chegou o Natal e ela na mesma sorridente, depois de ver o relógio, me disse que já sabia, porque um dia, tinha ido à oficina dos meus brinquedos e havia ouvido o seu tic-tac..., mas beijou-me agradecida, na mesma.

É engraçado recordar que esse mesmo relógio, continua sobre a sua mesa de cabeceira, parado desde o dia em que ele faleceu... há já uma data de anos...

Aquilo era um dia de beijos para toda a gente e a cada prenda que era desembrulhada, a expectativa de cada um na sua descoberta, a alegria imensa de poder receber uma prenda tão desejada.

Qualquer coisinha que nos calhasse, já era uma festa, nem que fosse um lenço ou uns peúgos !

Mas a minha filha Antonieta, essa era demais, pois até ia comprando coisas para ela, durante o ano, na mira de ter mais uns embrulhos para abrir e fazia uma grande festa... ao abri-las...
Nós, rapazes, nunca sabíamos de quem vinham tantos presentes.

Quando apareceram as panelas à pressão, eu havia ficado deslumbrado, pois sabia que estando a água à pressão, aumentava muito a sua temperatura, e por isso, se podia cozinhar mais rapidamente.

Ainda eram raras no mercado, mas eu consegui uma e vai de ser mais uma prenda para a minha esposa, embora lhe notasse umas certas reticências, quanto ao seu uso... não fosse aquilo explodir... mas um tanto contrafeita, vai de colocar-lhe tudo o que necessitava uma boa sopa de feijão e lá a colocou ao lume.

Mas mal a água começou a levantar a válvula e a fazer pxi pxi pxi, ela largou tudo e fugiu da cozinha, cheia de medo, espreitando de longe, não fosse aquilo fazer PUMMMM! Estava mesmo apavorada !

Ela não acreditava muita nestas coisas, ditas modernas e ficava sempre de pé atrás...

Claro que eu logo entrei na cozinha e reduzi o lume, até porque só interessa um leve pxipixi, indicando que a pressão está a 2 Kg, ou sejam 200ºC... julgo eu.

Depois, ela desejou ver se já tudo estaria cozido e houve que a abrir, pelo que vendo que ela não tinha coragem, lá fui levantar a válvula e depois de baixar a pressão a zero, fui colocá-la debaixo da torneira da água fria, para a poder abrir, o que ela acompanhou e, a partir dessa data, até ao fim da sua vida, sempre usou panelas de pressão, que em várias festividades, eu sempre ia conseguindo comprar e assim ela ficou a possuir umas 3 ou 4, que ainda hoje existem.

Em todos os Natais, a minha esposa fazia um grande alguidar de velhoses, aquela massa de abóbora, que é fermentada durante muitas horas e depois de crescida, se põe a fritar ao lume, em pequenas bolas, e depois é polvilhada com açúcar e canela. Aquilo era realmente, uma delícia !

Como éramos muitos, tinha de fazer sempre uma boa quantidade e as ia guardando num armário.

Como disse há bocadinho, estava connosco, aquela velhinha simpática a D. Rosa, que se juntava a nós no abrir das prendas, e sempre recebia coisas de que necessitava, rindo, agradecida por se terem lembrado dela.

A sua alimentação, tinha de ser muito especial, praticamente sopa de legumes e sopas de café com leite, além de uma peça de fruta, coisas que ela pudesse comer e trincar com as gengivas, pois dentes é que já não tinha há muitos anos.

Mas na véspera daquele Natal, ela caiu à cama e até nos parecia que iria morrer a qualquer instante...

Muito quieta e pálida, mais parecia uma defunta, enquanto a minha filha muito amargurada, andava à sua volta a pedir-lhe para não morrer nesse dia e esperasse para depois do dia 26, para não estragar a sua festa. Mas a velhinha, ali continuava, de olhos fechados, e sem dizer palavra, só respirando!

Todos estávamos muito tristes, pois ela já tinha imensa idade e não entendíamos o porquê de ela estar assim a passar-se, mas ao fim do dia 24, ela abre os olhos e sorrindo, muito matreira, nos diz que esteve muito agoniada, com a quantidade de velhoses que, à socapa, ia roubando das travessas...

Felizmente que as suas aflições passaram e no dia 25, já estava pronta para receber as ofertas e voltar às maravilhosas e fôfas velhoses que a minha Alice sabia fazer como ninguém.