sexta-feira, 4 de julho de 2008

NÃO ME DEIXES SOFRER....

Desde que conheci a minha adorada esposa Alice Rosa dos Santos, há mais de 53 anos, que vim a saber que ela sofria de dores de cabeça mais ou menos intensas, de tempos a tempos, e a medicina nunca encontrava uma explicação, pelo que os analgésicos, era do que ela se enchia, nessas alturas...

Depois tinha períodos de acalmia e às tantas umas cólicas tremendas de rins, tendo-se descoberto que ainda havia mais duas pedras num rim e que, provavelmente, mais cedo ou mais tarde, lhe iriam dar enorme sofrimento...
Fora aquelas dores de cabeça, e o saber que mais dia, menos dia, iria sofrer de outra cólica de rins, até parecia uma pessoa muito saudável e alegre, sorrindo para toda a gente, duma forma muito franca e simpática.

Depois do rocambolesco nascimento do nosso primeiro filho, que descrevi em "Deixa-me morrer...por favor", e quando já existia até o nosso segundo filho, a Antonieta, ela vem a ter a malvada e terrível cólica renal de que já estávamos à espera e de tanto sofrer, horas e horas, até dizia que preferia as dores dum parto, àquelas dores que nunca se sabia quando iriam terminar..., pois não havia analgésico que resultasse... e eu ali a vê-la penar, sem poder fazer mais nada, horas e horas, até ser expulsa aquela malvada pedrinha com o formato de um feijão, mas cheio de bicos, pelo que a sua passagem por tantos lados estreitos, a deixaram muito combalida e até ferida, rasgada toda por dentro ! !!!

Mas ela era uma mulher de armas e embora sabendo que ainda havia outra pedra para sair, e nunca se saberia quando, lá foi vivendo normalmente e sempre muito activa, embora como boa dona de casa e mãe.
Entretanto aparece o nosso terceiro e último filho, um ano depois, o Carlos, criança exageradamente activa e sempre desejando sair de casa, para o que sempre inventava forma de abrir a porta e desaparecer das nossas vistas, o que nos obrigava a andar sempre à sua procura...
Aquilo é que o rapazinho sentia uma necessidade de liberdade ! Ele sabia que ia levar uns sopapos, mas não lhe servia de emenda...

Mas havia uma coisa que continuava a aparecer de tempos a tempos, as tais dores violentas de cabeça, em que só queria ficar isolada e às escuras, horas e horas, e lá se ia tentando tratar à custa de mais analgésicos, pelo que a nossa gaveta dos medicamentos, já estava cheia deles, sempre à espera que fosse descoberto aquele que melhor efeito tivesse, porque segundo diziam os médicos, só ela saberia, pelas tentativas, descobrir os mais recomendados...
Aquilo muito me intrigava, até porque e felizmente, até hoje, ainda não sei o que são dores de cabeça fortes, mas alguma coisa devia ela ter em qualquer outra parte do seu corpo e que pudesse despoletar aquelas tremendas dores...
Também era verdade, que ela sempre tinha mostrado muita prisão de ventre, de dias e já sabia que certas comidas lhe originavam as dores de cabeça, como eram as sopas de feijão, talvez pelos gases que se geram...
Mas um dia, ela me veio dizer que estava a perder sangue pelos intestinos, e aí entrei em órbita, pois embora sabendo que as mulheres têm os seus períodos de saúde com alguma hemorragia mensal, mas por ali é que eu não estava mesmo nada à espera e corri à sua médica que logo mandou fazer um clister opaco, manobra extremamente difícil, porque o bário não entrava, nem por nada! Ou seja o que havia entrado, nem dava para fazer um raio-x suficientemente informativo.
O próprio radiologista, estava espantado com o que estava a acontecer...
Aquele aparecimento de algum sangue nas fezes, seria bem evidente de haver algo grave nos seus intestinos e que, por mais laxantes que experimentasse, não resultavam, ou até pioravam.
Tinha de haver outra explicação !

Nos dias de hoje, ela já há muito que teria feito uma Ressonância Magnética, ou uma Ecografia, ou uma TAC, e talvez tivesse podido ser operada a tempo...

Um dia fui visitar a sua médica, uma jovem, e ela, depois de ter estado ao telefone com um médico operador do Hospital de Vila Franca de Xira, não conseguiu esconder umas lágrimas que lhe saltaram dos olhos e, perante grande comoção, me entregou a papelada necessária para levar minha mulher, urgentemente ao Hospital de Vila Franca, e depois dela ser analisada, dolorosamente, por uma equipa médica, foi encaminhada de imediato para a sala de operações.

Aquilo tinha de ser mesmo grave, fiquei eu a pensar, enquanto deambulava pelo hospital, à espera de noticias, até que um médico me vem dizer que ela tinha sido operada e "limpa" e que tinha de lá ficar.
E eu a pensar naquele "limpa" ! Mas limpa de quê ? Teriam retirado o tumor ?

E como eu ali não podia fazer mais nada, saí do hospital e me assentei sozinho num banco de jardim, chorando como uma criança. pela primeira vez sozinho e completamente destroçado!
Nessa noite, sozinho na cama e na casa, eu nem consegui dormir e só esperando pelo dia seguinte e hora das visitas, para a voltar a ver, falar e beijar.
Quando desejei saber mais algum pormenor, todos fugiam de me esclarecer correctamente, até que vim a saber que ela tinha um grande tumor no cólon transverso, e lhe haviam colocado um ânus artificial, aquele saco, no extremo superior do cólon ascendente, ali junto às suas costelas, pendurado na barriga.

Mas que pouca sorte a dela e da minha !!!

Aquela hora da visita era torturante, porque vinham os amigos e amigas que rodeavam a sua cama, tudo num grande falatório, enquanto eu ali ficava ao lado, assentado numa cadeira, à espera de uns segundos para a ver.
Foi logo nessa altura que desenhei uma caricatura dum homem triste a abandonado, sem sequer poder ver a esposa tão enferma.
Mal sabia eu que essa caricatura, e mais 40 que se seguiram, havia sido caçada por um enfermeiro e havia corrido a mostrar em todo o Hospital, até à sua Gerência, a ponto de se ter alterado profundamente a hora das visitas e que só poderia entrar uma pessoa de cada vez, e que quando saísse, entregaria a senha a uma outra...
Nessas caricaturas, eu gozava com toda a gente, em especial com os médicos, pois havendo proibição de fumar dentro do hospital, quase todos fumavam...

Depois de umas semanas de visitas, o médico-chefe, me disse que a poderia transportar para casa, porque Vila Franca estava em festa e havia demasiado barulho e confusão... e assim a trouxe, sendo informado do que teria de fazer para a substituição do saco, sua desinfecção e limpeza diária, porque nada mais se poderia fazer...

Entretanto minha mulher já tinha visto outros doentes em estado terminal e me pediu simplesmente, " não me deixes sofrer"... como se eu, um pobre diabo de 28 anos, tivesse alguma coisa que pudesse fazer, para não a deixar sofrer...
Felizmente que ela não estava a sofrer, nem tinha as tais terríveis dores de cabeça, pelo que eu me tive de habituar a toda a lide de casa, porque ela não queria ter por perto, mais ninguém, a não ser eu.
Eu entendi aquele seu desejo, até porque se tinha de descobrir exageradamente e a isso não se desejava expor...
Assim, se foi passando o tempo, com ela cada vez mais fraca, e a ter de a abandonar todos os dias, uns minutos, para ir buscar comida e fazer alguma para ela, tendo aprendido a fazer papas de Maizena, que era ainda do que mais ela apreciava, mas onde ela sempre encontrava uns grumos e me obrigava a ir fazer outras...
Depois era o lavar de toda a roupa e ir passando a ferro, mesmo ali numa marquise a seu lado, enquanto ela, muito calada, ia apreciando e até um dia me disse: "Já vejo que te estás a salvar sozinho."
Ela nunca me disse que sabia do tumor que tinha, nem do medo de morrer por causa dele, só que não queria sofrer...
Um médico amigo, Dr. Tomé, infelizmente já falecido, a quem perguntei o que estaria nas minhas mãos, para não a deixar sofrer, quando chegassem as dores... ele só me respondeu que lhe desse a injecção de Cocaina, quando ela pedisse, mas que não estranhasse, porque ela se iria habituar ao bem-estar por elas provocado e me iria estar sempre a pedi-la, mal acordasse e sentisse mal-estar...

Eu já sabia dar injecções, desde miúdo, de tanto as ver meu avô dar, e enfiava as agulhas nas nádegas das bonecas das minhas irmãs, que até achavam graça... mas ir espetar a minha própria esposa, é que me doía e bem, fazendo o melhor para que ela nem as picadelas sentisse, sendo muito rápido a picar e muito lento a injectar, além de medir com muito cuidado, o sítio de dá-las, para não apanhar o nervo ciático.

Como eu nada estava a fazer ao seu lado, enquanto ela dormia, resolvi agarrar uma câmara de TV e a coloquei num tripé, aos pés da sua cama e do quarto ao lado, eu podia ver se ela acordava e de mim precisasse.
Mas ela deu por isso, porque mal se movia, eu logo aparecia e isso a levou a perguntar-me: "Como é que sabias que eu necessitava de fazer xixi ?" , e eu lhe fiz ver que estava sempre com o olho nela, pela televisão.
Mas um dia, mais morto que vivo, deixei-me adormecer, mas algo havia acontecido, com um ruído estranho que havia ouvido e na TV, ela não estava lá! Num salto, vou encontrá-la estatelada no chão, sem se poder mover, dizendo-me que só queria ir ao bacio, mas tinha ido parar ao chão...
Com grande dificuldade, lá a consegui levar para o bacio e depois para a cama.
Felizmente que nada mais aconteceu.

Como ela gostava muito de se sentir lavada, penteada e perfumada, eu lá fazia o que ela me ia dizendo e um dia me disse: "O que seria de mim, sem ti...?"
Mas já perto do seu fim, ela nem queria que fosse eu a dar-lhe o comer e protestava da minha boa vontade, sem se aperceber de que já nem conseguia acertar na sua boca e tudo caía na cama, o que me obrigava a ter de ir substituir toda a roupa suja.

Passados poucos dias, e eram 3 da manhã, e eu estava ali ao seu lado a tentar dormir um pouco, porque ela queria mais uma injecção de duas em duas horas, mal acordava, quando eu notei que ela já não me conhecia nem a vista se movia, e parecia de vidro, e mal sentia o seu pulso.
Seria que eu estaria a fazer-lhe uma eutanásia sem saber ?
E ali fiquei assentado ao seu lado, a pensar que teria de dar a triste noticia aos meus filhos, que estavam longe, mas isso só lhes iria por em pânico, e de nada serviria, pois se ela já nem me reconhecia, ainda pior aos filhos.
Assim aguardei até de manhã, para lhes telefonar e passado pouco tempo, ali estavam eles a verem o seu calmo apagamento sem um "ai". Eu até sentia uma certa "felicidade" de a ter ajudado a morrer sem sofrer.
Eram 10 horas da manhã, quando o seu coração parou e começou a esfriar.
Era o dia 27 de Novembro de 1991.
Como o caixão não conseguia nem entrar nem sair do quarto para o corredor que estava em frente, o meu filho mais velho, num acto heróico, agarrou no cadáver da sua mãe e levou-o ao colo, até ao sítio onde se pudesse colocá-lo no caixão, a uns 15 metros de distância.
Posted by Picasa

Tenho pena se esta crónica fez sofrer um pouco o leitor amigo, mas talvez tenha compreendido que em todas as situações da vida, sempre há uma altura em que podemos mostrar o nosso grande amor por alguém.

terça-feira, 17 de junho de 2008

QUE BOM PODER RECORDAR.....pessoas interessantes !

Estava eu em Março de 2007, por isso, o ano passado, quando um amigo me vem informar de que havia um blog duma senhora portuguesa, em que ela falava de coisas interessantes sobre meu irmão Carlos Mar, de que tenho falado várias vezes neste blog, como em "Meu irmão me salvou a vida", o que me levou, de imediato, a ver de quem se tratava e fui abrir o seu blog de nome http://paixaodossentidos.blogspot.com/
Na realidade, eu havia entrado num blog muito especial, muito diferente de todos os que já conhecia e onde viria a encontrar uma senhora de nome Ana Ramon que com 15 anos, havia entrado num pequeno grupo de jovens entusiastas pelas coisas do espaço, aquele imensa aventura dos astronautas, os satélites, os foguetões, a NASA, o nosso Mundo visto do espaço sideral, etc. quando ainda estava a estudar em Almada.

A sua forma deliciosa de escrever e relatar, era emocionante !
Realmente, lá estava um seu artigo intitulado "O ALBUM DE RECORTES", onde vim a saber do seu enorme entusiasmo pelas coisas científicas, tanto de meu gosto, e raro nas senhoras, e dedicava carinhosas palavras ao meu então assassinado irmão, em Angola, em Julho de 1976, Carlos Mar, no seu Observatório da Mulemba.
Ela e o seu pequeno grupo de entusiastas, lembraram-se de pedir apoio a este meu irmão, e dele recebeu de imediato, correspondência com muitas explicações do que poderiam fazer em prol do desenvolvimento destes assuntos tão transcendentes, na época, e em especial para jovens, cheios de dificuldades financeiras e especialmente uma garota tão linda.


Como ele gostava e tinha muita habilidade para desenhar, as suas cartas eram repletas de desenhos explicativos.
Assim, além de o ter conhecido pessoalmente e o ouvido tocar piano, que ele adorava tocar de ouvido, ainda ficou a saborear as suas experiências no Observatório, e da forma como ele lá ia conseguindo manter aquilo tudo em funcionamento, usando materiais de sucata, como latas e latinhas de todos os feitios e tamanhos...velhas máquinas fotográficas e muito material de rádio, pistolas para pesca submarina...etc.etc.
É provável que a Ana Ramon, tivesse até ficado "deslumbrada" com aqueles olhos azuis e tão fluente forma de falar de coisas tão sérias e complicadas para eles todos...

Naquela época, nem se tinha ainda ouvido falar de Internet, nem blogs, nem nada...
Só se ouvia falar de NASA, de foguetões, de satélites, de radiocomunicações, em que ele era exímio como radioamador com indicativo CR6CH, especialmente em transmissão de Morse...etc.etc.

Mal sabia ela, de que esse Carlos Mar Bettencourt Faria, era o meu único irmão e só 3 anos mais velho do que eu...a única pessoa neste Mundo, que conviveu com ele, em garoto e, com a ajuda do nosso professor Primário, Sr.Santos, nos ajudou a entender o que era a rádio e as telecomunicações, que estavam a nascer.
Assim, como ela tem lá o seu e-mail, eu lhe escrevi a agradecer as tão simpáticas palavras e os elogios que tinha feito a meu irmão e até enviar-lhe uma foto minha e falando do que eu tinha estado a fazer não só em miúdo, na companhia de meu irmão Carlos, mas também a minha vida mais ou menos rocambolesca que tenho descrito neste blog, imensas vezes...
Como esta Ana não tem os "dedos enferrujados", logo iniciámos uma troca diária de correio que se tem prolongado até aos dias de hoje, em que ela, sempre muito engraçada e versátil, me vai descrevendo o seu dia a dia, numa enorme quinta que possui, lá para o Norte de Portugal, perto de Viseu, agora casada e feliz, já com filhos e netos.
É curioso que tendo MSN, eu já a vi a dedilhar o seu teclado, num dia em que estava um seu neto a brincar no MSN e eu o chamei e ele me respondeu. Mas, como eram horas de almoçar, ainda vi a Ana pela WEBCAM e a dizer-lhe para parar com aquilo, para irem almoçar, mas lá falar para mim... é que nada!
Ela diz, perante os meus protestos, que prefere "falar pelos dedos"... Há aqui um mistério enorme para eu desvendar !!!

Aquela vida no meio do campo, como não podia deixar de ser, a entusiasma profundamente, não só ao assistir ao nascimento de imensos animais, mas com tristeza, assistir à morte de alguns ou até a um incêndio pavoroso que lhe invadiu a propriedade e lhe destruiu imenso arvoredo e imensas árvores de fruto !
Mas esta Ana não esmoreceu e conseguiu ir recuperando toda a área ardida, embora se veja aflita com a sua conservação e protecção, para não ter de assistir, novamente, à entrada de fogos.
Ela quer saber os nomes de tudo e os porquês, mas logo de seguida, entra pela INTERNET a dentro, ou procura literatura apropriada, à procura de mais detalhes explicativos e quando o assunto lhe agrada, vem para o seu blog, explicar por onde andou e do que ficou a saber, dando origem a fabulosos escritos explicativos em minúcia.

Ela aqui está, como é hoje!


Nós rimos e brincamos com tudo o que nos vai acontecendo no dia a dia e umas vezes explica-me ela, noutras explico eu e assim vamos brincando com uma amizade que não pode ser melhor.

Um dia, e relembrando um doce de figos que a minha falecida esposa fazia e era muito admirado, eu fui ver no livrinho de apontamentos da minha esposa, como aquilo era feito e enviei-lhe via e-mail.
Pois como ela tinha lá alguns figos ainda, foi logo experimentar e descrever no seu blog, com fotografias das várias etapas, como tinha feito e no que tinha resultado, em 22 de Outubro do ano passado, a que deu o título jocoso mas muito amável, "Quando os homens da ciência, falam de compotas", onde tece muitas palavras de carinho, sobre a "fórmula" do doce de figo e, com belas fotos a acompanhar, da sequência dos preparativos.

Só falta agarrar um dos figos pelo seu pé, e meter na boca à dentada, ficando, pela certa, todo lambuzado, mas deliciado, como ela ficou !!!
Vive sempre rodeada de música de muitos estilos, ou cantarolando junto dos filhos e netas, ou manuseando as várias máquinas de que necessita para os trabalhos de campo, ou trocando as posições dos ovos na sua chocadeira, ainda consegue tempo para se dedicar ao seu blog, nem que seja até às tantas da madrugada...

Falar desta mulher, é realmente muito difícil, dada a sua versatilidade e tão depressa está a falar de cogumelos, como de flores exóticas, como de doenças nos animais, como doenças nas plantas, como passa para outros imensos assuntos, todos deliciosos de ler.
Ana Ramon, é das pessoas mais interessantes que nestes meus 80 anos, vim a descobrir pela NET, embora muito só, porque o marido trabalha em Lisboa, mas sempre rodeada dos seus ferozes cães...não vá o diabo tecê-las !

sexta-feira, 6 de junho de 2008

AMANHÃ JÁ NÃO TENS AVÔ...

Eu já sabia que aquele meu tão querido avô, não andava bem de saúde, há algum tempo e, nas suas cartas para o Continente, onde eu já estava a viver, ele já ia dizendo que estava a findar a sua estadia em S.Miguel, nos Açores, até porque já lá não estava a fazer nada, e só pensava em vir viver para Lisboa.
A sua vida estava no fim, e a sua maior paixão, seria de poder vivê-la junto de nós, em Portugal.
Assim ele me ia contando que já se havia desfeito do seu belo carrinho, a que ele chamava "as minhas pernas", e até iria vender a sua casa, aquela "casa-cor-de-rosa" de que tantas vezes falei neste meu blog !


Aquela casa, onde tanta alegria tinha havido, com tanta gente feliz e o seu velho piano sempre a tocar dia e noite, já nada lhe dizia, nem à minha avó, que também já havia perdido muito da sua intensa habilidade para o tocar.
Já não se ouvia a flauta, nem o cavaquinho da Madeira, nem a sua viola, que ele tocava, nem aquela valsa que ele tão bem tocava ao piano.
Tudo se estava a desmoronar !
Um amigo ajudou-o a fazer os cálculos para ele saber o quanto valeria a sua casa, mas como o terreno tinha sido alugado, nem ela valia quase nada... Teria de abandonar S.Miguel, quase na miséria...
Embora só tivesse 73 anos, já nem as suas visitas aos seus doentes, lhe interessavam muito e já nem tinha grande paciência para sair a pé, montanha acima, montanha abaixo, vendo que as pessoas já nem podiam pagar-lhe as avenças de que ele tanto necessitava para sobreviver.

Como eu o amava e admirava !

Dos seus 7 netos, toda a gente dizia que eu era o que mais me parecia com ele, e isso me causava grande alegria, embora ele fosse fisicamente de aspecto muito robusto, mas elegante, sempre vestido a rigor e bem perfumado ! Eu tinha imenso orgulho naquela figura, e ele sentia isso !

Quando tive direito a férias, resolvi voltar a S.Miguel, para matar saudades daqueles tão adoráveis velhotes, e poder estar mais algum tempo ao seu lado, mas fui encontrá-lo muito debilitado, incapaz de se mover sozinho e até eu o tinha de transportar ao WC, acompanhado dum criado que já lá estava há muitos anos, e o agarrava pelo outro lado, porque ele já não podia fazer nada sozinho, nem para se lavar e limpar !
Que pena eu tive de o ver assim, naquela casa tão sombria e silenciosa, sem ouvir sequer a voz da minha avó, que muito calada, por ali andava tão preocupada com o que estava a assistir, pois se meu avô não melhorasse, não podia já pensar em vir viver para o Continente, para junto da sua amada filha, a minha mãe, os seus últimos dias de vida...



Aquela minha linda avó, que sempre se mostrava sorridente para toda a gente, andava agora, com aspecto muito sombrio, embora sempre linda, com uma pele acetinada, embora já rondando os 80 anos !
E só recordo de assistir às "fúrias" de meu avô, quando depois de ter levado uma hora a escrever à máquina algum documento oficial, e ela o lia muito cuidadosamente, lhe dizia: olha que Farmácia já não se escreve com "PH", nem Gaiacol como "guayacol", nem pele como "pelle", nem aplicação como "applicação"... e lá ia ele, praguejando acerca da "malvada" revolução ortográfica...

Mas eu queria saber o porquê do estado de saúde do meu avô e ela me contou que numa noite de inverno, ele havia sido chamado de urgência, à linda Lagoa das 7 Cidades e toda a viagem teria de ser feita a cavalo, cumieira acima e depois cumieira abaixo, mas a corta-mato, para ser mais rápido, em que o dono do cavalo o levava à mão, munido duma velha lanterna, por entre toda aquele luxuriante vegetação. Aquela noite estava realmente, imensamente escura ! Parecia de breu !

Meu avô embora fosse um grande cavaleiro, porque durante muitos anos, fazia as suas visitas médicas a cavalo, ia assentado de lado sobre uma albarda, mas às tantas, ao dar-se uma guinada rápida para fugir a um obstáculo inesperado, meu avô cai de costas, com grande sofrimento, pois mal podia respirar...
Mesmo assim, mas agora a pé, gemendo de dor, tossindo e cuspindo, lá foi andando cumieira abaixo, até à freguesia onde a doente o esperava, na sua grande aflição para ter um parto.
Felizmente, para ela, mesmo com meu avô perante tão grande dificuldade para respirar, lá conseguiu por o bebé cá fora, são e salvo, mas já sem força para caminhar, só quando chegou o dia, arranjaram para transporte, uma carroça vulgar e sem comodidade alguma, além de que meu avô já tinha sentido o gosto terrível de sangue na boca e estava a cuspir sangue !
Algo de muito grave lhe teria acontecido e ele já pensava numa costela partida e que lhe estivesse a perfurar um pulmão.


Aquela seria a sua última viagem àquele santuário da Natureza, aquela linda Lagoa das 7 Cidades, que ele havia visitado centenas de vezes, no cumprimento dos seus deveres clínicos.

Mas o pior ainda estava para vir, pois começou a ter imensa falta de ar e gritava para que lhe abrissem as janelas de par em par, para poder respirar melhor... estava com uma angina de peito !
Minha avó logo foi ao telefone, telefonar ao médico mais próximo, um tal Dr. Pavão, que fazia clínica a uns 5 Km de distância, na Várzea, que passados poucos minutos, já estava a pedir a meu avô para arregaçar a manga do pijama para lhe dar uma injecção (?), mas eu nunca tinha visto uma coisa assim... parecia que meu avô tinha o braço cheio de minhocas ou cobras por baixo da pele que se ondulava toda e gritava para que o colega acabasse com aquilo depressa.

Um minuto depois, realmente sossegava das crises de falta de ar e finalmente acalmava.
Ele era muito bom médico, mas um terrível e pavoroso doente... pelos vistos, nem podia ver uma agulha que o fosse picar !
Por outro lado, este médico, muito mais novo do que ele, havia feito uma propaganda muito assanhada contra a medicina que meu avô sabia, e que ele é que tinha muitas "cadeiras de universidade", que meu avô não tinha.
Aquilo era assim naquele tempo; os médicos tinham de ter uma espécie de "peão de brega" que ia pelas terras fazendo a sua propaganda e à caça de mais clientes, certamente dizendo mal dos outros...
Uns anos antes, em que meu avô sempre brincalhão, viu uma carroça passar na rua, e carregada de cadeiras, me disse: Olha ali vão as "cadeiras" que o Dr. Pavão diz que tem a mais do que eu ...
Mas agora, já não podia brincar mais, até porque estava nas suas mãos.

Eu entretanto, levava todo o tempo deitado a seu lado, vestido, lendo-lhe as notícias dos jornais, iluminado por um bom candeeiro de acetilene. Infelizmente, os 15 de férias a que eu tinha direito, estavam a acabar e já estava marcada a minha viagem de regresso, para o dia seguinte.
Minha avó, como sempre muito exacta em tudo o que fazia, a ponto de estar de relógio na mão, para saber quando teria de nos dar um remédio crítico, de 6 em 6 horas, me veio lembrar de que eu me devia ir deitar, porque a camioneta que me levaria para Ponta Delgada, passava lá nos Ginetes, muito cedo.
E foi aí que eu ouvi meu avô dizer: amanhã, já não tens avô !
Mas como ele estava muito calmo, eu lhe disse: "Nem pense nisso! Agora que já está tão bonzinho..." o beijei na mão pedindo "a sua bênção" e me fui deitar.
Era muito cedo, umas 6 da manhã, quando sinto minha avó chamar-me para me levantar , e dizendo até que o meu avô já tinha falecido!
Eu nem queria acreditar no que estava a ouvir e num repente, estava a olhá-lo, deitado de lado com a sua cara deitada sobre a sua mão esquerda e a outra sobre o peito. Era a posição em que o tinha deixado na véspera.
A sua expressão até era sorridente, parecendo que estaria a dormir, pelo que baixinho, para não o acordar, perguntei à minha avó: Mas ele está mesmo morto ? Parece tão feliz...
Mas ela acenou-me com a cabeça que sim, embora eu não visse nem uma lágrima naqueles olhos...
Até me pareceu que estivesse feliz por saber que ele não iria sofrer mais. Ela era muito forte e encarava estes factos com absoluta normalidade.
Realmente ele estava muito frio e me senti todo arrepiado e me afastei, pois havia que tomar o pequeno almoço e seguir viagem para a cidade, onde iria apanhar o navio Carvalho Araújo.
E assim, nem assisti ao seu enterro.
Segundo me contaram depois, teve um enterro miserável, com meia dúzia de pessoas que talvez ele tenha ajudado a pôr neste mundo ou salvo a vida.
Em contrapartida, a morte de meu pai, que tão pouca gente conhecia, uns 5 anos antes, havia levado aos Ginetes, centenas e centenas de pessoas, e até a banda de música Filarmónica Minerva, ia tocando a marcha fúnebre, aquela banda que meu avô havia fundado uns anos antes.

Poucos meses depois, chegava a Lisboa a minha avó Leonor Ester Ferraz Bettencourt Leça, e que sempre muito lúcida, veio a falecer aos 85 anos, depois de um AVC seguido de coma, em que só se sabia que ainda estava viva, porque o rosário que tinha nas suas mãos, passava uma bolinha, de quando em quando, até que parou, por se ter "apagado".
Eu não assisti, porque nessa altura, estava num sanatório do Caramulo, a brigar com a morte que me queria levar aos 20 anos, e de que graças a Deus me livrei, até hoje.

sábado, 31 de maio de 2008

DEIXEM-ME MORRER...POR FAVOR

Naquele dia 11 de Fevereiro de 1954 estava a cidade de Lisboa debaixo duma tremenda tempestade, com rajadas ciclónicas que faziam andar pelos ares toda a coisa fácil de levantar voo, ramos de árvores rodopiando por todos os lados, trapos, plásticos e papeis, raios e coriscos.
A chuva era torrencial e, embora sendo 17 horas, parecia já quase noite !

Pois foi neste dia que a minha esposa Alice Rosa, se "lembrou" de dar à luz o nosso primeiro filho !!!
A D. Glória, a senhora parteira, com quem já havíamos falado, dizia que assistiria a mais este nascimento e, na casa da minha mãe em Lisboa, num bairro de nome Encarnação, lá estávamos à espera do grande acontecimento, ingenuamente pensando que aquilo iria ser trabalho de pouco tempo, mas as águas rebentaram e minha esposa me pediu para estar sempre perto dela, o que aliás nem era necessário dizer, pois era essa a minha intenção, dada a minha curiosidade pelos assuntos científicos e, muito em especial, por ir assistir ao nascimento duma criança.
Mas infelizmente, o miúdo é que não estava nada voltado para esse evento...

Umas semanas antes, a minha mãe já nos tinha levado a visitar um médico açoriano, seu amigo de infância, e que já havia assistido aos partos quase todos da minha mãe, menos ao meu, e ela depositava nele, a maior confiança, o Dr. Jacinto Vargas Moniz, médico obstetra, que fazia medicina em Lisboa.
Eu ainda não o conhecia e fiquei um tanto surpreso quando ele se abraçou à minha mãe, num terno e carinhoso abraço de grande amizade...
Minha mãe já nos havia mostrado umas fotografias da sua juventude em S. Miguel, nos Ginetes, onde se viam os quatro simpáticos irmãos Vargas Moniz, e ela, muito bonita, entre eles, todos muito novinhos, com 13 ou 14 anos.
E foi até um deles, o Rogério Vargas Moniz, que como Engenheiro e Director Técnico no Arsenal do Alfeite, que tinha facilitado uns anos antes, a minha entrada e de meu irmão Carlos Mar, para a Administração desse Arsenal.
Deste evento, eu o descrevi neste blog, no artigo "Meu amigo Eng. Rogério Vargas Moniz", em Março de 2007, artigo 52.

Há uns 30 anos que eles não se viam e notava-se muito bem a amizade que tinham guardado, durante tantos anos. Depois, muito carinhoso, foi auscultar a minha esposa e disse que lhe parecia tudo estar bem e que o miúdo estaria em boa posição para o nascimento, mas que era muito grande...
Assim, ficámos muito descansados, embora ele referisse que havia toda a conveniência em que aquele parto fosse feito num hospital, não fosse haver qualquer ocorrência estranha, mas dada a nossa ignorância e a boa vontade da parteira, a minha esposa preferiu tê-lo em casa.

E, enquanto a tempestade horrorosa se desenvolvia lá fora, rugindo furiosa, por todas as frinchas das portas e janelas, as contracções da minha mulher, cada vez estavam mais aproximadas, e certamente que o bebé, estaria na rua, daí a pouco...
Só que, embora já houvesse dilatação mais do que suficiente, em minha opinião... e a sua cabecinha mesmo ali à mão, ela "embirrava" em baixo e cada vez a minha esposa estava mais exausta ! Aquilo era sofrimento a mais para um ser humano !
Nessa altura, eu agarrei o telefone para falar e pedir ajuda ao Dr. Vargas Moniz, mas infelizmente, ele havia saído e não se sabia a que horas viria...
A minha alma estava positivamente desesperada, e não pude conter as lágrimas !
Aí eu perguntei à parteira, porque não metia a sua mão por baixo para levantar uns centímetros aquela cabecinha, mas ela dizia que a Natureza é que sabia o melhor... mas eu fiquei muito indignado, porque me parecia muito óbvio... Seria como usar uma calçadeira para facilitar a entrada dum pé num sapato...
Mas a parteira, embora aparentando uma certa calma, quando se viu desesperada, lá se resolveu dizer-me para ir chamar uma médica que lá vivia perto, a Doutora Capinha, e, debaixo daquela tempestade horrorosa, lá vou eu no meu velho carro, à sua procura, mas como ela estava ocupada com uma cliente, ainda demorou uns minutos a entrar para o meu carro e passado um minuto, já estava ao lado da minha esposa e o miúdo, acabado de nascer, na sua alcofa e, ainda de casacão de inverno vestido, ao ver que a placenta não se largava e ela estava a esvair-se em sangue, mesmo sem lavar as mãos, agarrou no cordão umbilical com uma, e com a outra, fez umas compressões violentas na barriga da minha esposa, até que lá saiu aquela treta toda...a placenta.
Entretanto, como o miúdo já cá estava fora e muito tranquilo na sua alcofa, talvez esgotado pela força que tinha feito, para minha grande alegria, lá fui levar a Doutora a casa, embora ela me fosse dizendo que não a deixasse dormir, porque naquele estado, já não acordaria mais... e vigiasse o aparecimento da saída de mais sangue, dando-lhe de imediato uma injecção que já estava preparada, mas já era noite e bem noite, e ela nem estaria em condições de ser transportada para nenhum hospital.
Como a parteira já estava exausta, também se foi embora, e ali fiquei sozinho a tentar manter a minha esposa acordada, conversando sobre o miúdo que era lindo e com muito cabelo...mas ela estava muito desejosa, era de deixar-se dormir, talvez para sempre !
O Dr. Vargas Moniz, tinha razão, o miúdo era enorme e pesava 4,180 Kg !


Eu ali estava, mais que atento, quando a ouço dizer qualquer coisa, muito baixinho e perguntei o que ela estaria a dizer, entendendo que ela dizia estar a sentir sair mais sangue, e logo aí eu saltei para uma cómoda onde estava o coaguleno e a seringa, mas aquilo havia que misturar um liquido dum frasco, com um pó existente num outro e chocalhar bem, operação que, embora nunca tivesse feito antes, me pareceu simples, mas eu só tinha experiência de dar injecções nas nádegas, e ali, teria de ser numa perna, e já nem sabendo se devia espetar a agulha, de cima para baixo ou de baixo para cima ou se a direito... mas que atrapalhação, santo Deus !
Felizmente que o miúdo se mantinha a dormir, mas eu estava a estranhar minha mulher sem o querer ver e nem abrir os olhos para me ver ou falar...Estava tão branca, que mais parecia um cadáver...
Uns minutos depois, voltei a aperceber-me de que ela queria dizer qualquer coisa, e logo aproximei o ouvido da sua boca, para ouvir:
Deixa-me morrer...por favor !!!!
Como seria aquilo possível, teria eu ouvido bem ? Mas ela repetiu e aí lhe perguntei:
Mas agora que acabámos de casar e temos um filho lindo... nem penses. Nem penses...
E ainda lhe perguntei: E não tinhas pena de me deixar neste mundo, sozinho, com um filho nos braços ?
Mas ela só respondeu: NÃO !
Eu nem queria acreditar, até porque me sentia imensamente amargurado por me reconhecer como culpado daquele tão longo sofrimento e daquele seu estado de espírito tão estranho para mim...
Ela queria morrer ali mesmo e sem pena nenhuma de tudo e de todos ! Devia estar a sentir-se perto do Céu !
Já NADA a atraía na Terra, absolutamente nada !
Aí senti-me tão culpado que até as lágrimas me saltaram, eu que a amava tanto ...
" Não, de maneira nenhuma", eu a iria deixar "partir" sem fazer todos os meus esforços para a aguentar viva.

Felizmente que a hemorragia havia parado, o miúdo continuava tranquilo, e só podia manter-me falando para não a deixar dormir...e ela sempre calada e de olhos fechados...

Como seria possível uma pessoa pedir, e POR FAVOR, para a deixarem morrer ? E a mim, que tanto amo a vida ? A mim, que há tão poucos anos, tinha estado entre a vida e a morte, mas tinha conseguido sobreviver ?

A tempestade lá fora, até me estava a ajudar, pois havia ruídos por todos os lados na casa...
Eu já estava a ficar esgotado de forças, mas mesmo por cima da roupa da cama, me deitei muito junto dela, agarrando o seu pulso e sentir o seu débil coração que se mantinha batendo, cada vez melhor, com o passar dos minutos e ela despertando muito lentamente...
"Vencemos, Alice, e tenho imenso orgulho em te ver despertar desse terrível pesadelo !"
E ela, finalmente, sorriu para mim, abrindo os olhos e não ouvindo o miúdo chorar, talvez pensando até que ele tivesse morrido, mas eu perguntei-lhe: Queres ver o miúdo? E ela disse SIM !
Com muito jeitinho, para não o acordar, aproximei dela, a sua alcofa e lhe fui dizendo, por graça, mas com convicção: Depois de lhe dares banho, eu vou-lhe cortar este enorme cabelo, que lhe cai sobre os olhinhos... e ela esboçou um agradável sorriso, até porque sabia que eu estaria a falar verdade.
No dia seguinte, muito cedo, apareceu a parteira e como a tempestade já havia acalmado, em todos os sentidos, eu assisti ao seu primeiro banho, vendo tudo muito bem, pois talvez tivesse de ser uma operação que tivesse de fazer depois.
E enquanto a parteira segurava a cabeça do miúdo, eu cortei aquele cabelo a mais, que ele tinha.
E assim, foi o seu primeiro corte de cabelo... já com minha esposa assentada na cama, a sorrir !
Ainda hoje eu fico admirado do poder tremendo de recuperação duma mulher, após tal abalo físico !

Mas aquela tremenda tempestade já havia acabado e tudo estava mais calmo.

Três dias depois, lá iniciámos a viagem de volta para Benavente, a 50 Km de Lisboa e fomos para uma casinha antiga e solitária no meio do campo, em Vale de Estacas.
O quarto de dormir ficava em cima, no primeiro andar, e a cozinha, a sala de jantar e o WC, em baixo.
Um dia, passados uns 6 meses, estava eu a comer o meu pequeno almoço na cama, que sempre foi feito de sopas de café com leite, mas o míudo ali ao meu lado, é que não deixava de protestar... embora tivesse mamado há pouco tempo.
Eu estava a pensar que o leite da mãe talvez não o satisfizesse e lembrei-me de lhe dar uma gotinha do café com leite, usando a ponta da minha colher, que ele adorou e logo me fez sinal de que queria mais, dando estalinhos com a língua, o que fui fazendo durante mais uns minutos, mas a minha esposa que estava a arranjar-se no lado de baixo da casa, é que estranhou o silêncio do miúdo e me gritou a perguntar o que é que eu tinha feito para calar o miúdo, ao que eu respondi que lhe tinha dado umas colheres do meu café com leite...
"Oh homem, tu matas-me o miúdo, pois ele ainda só tem 6 meses... " , e subiu rapidamente ao primeiro andar, verificando como o bebé estava realmente todo contente ! Era verão e estava bastante calor.
Assim, e vendo que não lhe havia feito mal, ele começou a beber leite de vaca enfraquecido e com café, tudo bem docinho, entremeado com mama, para não as deixar encaroçar, mas o que ele queria mesmo, era do pequeno almoço do papá, e passado pouco tempo, até já gostava dumas sopinhas, que engolia com facilidade.

Hoje, passados 55 anos, este bebé que se ficou a chamar Mário Portugal Santos e Leça Faria, tem sido sempre de boa saúde, embora tenha sofrido vários acidentes em desportos de alto risco, com fractura de costelas e tendões arrancados no ligamento do joelho esquerdo, etc. mas quem o vir, e nem souber, nem dará por isso, nos seus 54 anos de idade, visto aqui nesta foto de 1992 , entre a sua mãe e a minha.

Mas depois deste susto tremendo, os outros dois meus filhos, Maria Antonieta e Carlos José, foram nascer no hospital da Santa Casa da Misericórdia de Benavente, e assistidos pelo Dr. Joaquim Cândido Mendes de Almeida, amigo de infância de minha mulher e, graças a Deus, ainda vivo, embora tenha tido há uns anos, um AVC um tanto violento, pelo que se encontra inactivo, embora lúcido.

Infelizmente, um ano depois desta foto, minha esposa veio a falecer nos meus braços, com um malvado cancro de colon.

E assim, já com cada filho para seu lado, todos casados, eu fiquei completamente só, a tentar viver feliz e contando neste blog, as minhas, às vezes tristes recordações duma vida tão cheia de emoções, embora já rondando os 81 anos.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

O MEU FABULOSO IRMÃO CARLOS MAR

Quando este meu irmão nasceu, em 1924, foi uma alegria imensa para meu pai, em especial, porque da parte de minha mãe, que havia perdido um seu primeiro e grande amor, para salvar a sua mãe dum loucura que já se estava a manifestar, não havia a mesma alegria...

Minha mãe era açoriana, como eu, de gema, e além de muito bonita, tocava piano maravilhosamente, no seu belo piano de cauda.

Ela possuía uns normais olhos castanhos, como eu, mas ficou deslumbrada com uns olhos azuis que meu irmão trazia, muito parecidos aos do meu pai e, como sempre viveu rodeada de água do Oceano Atlântico, logo lhe deu o nome de MAR, com o que meu pai concordou de imediato, e assim, ficando como Carlos Mar Bettencourt Faria.

Este miúdo, um tanto sisudo, aos 3 anos de idade, começou a mostrar certas virtudes pouco usuais nas crianças de tão tenra idade, mostrando-se muito interessado, mais pelas mecânicas complicadas, do que por carrinhos e bonecos...


Meu pai que estava muito atento, logo lhe começou a oferecer Mécanos, brinquedo muito usado naquela época, com dezenas de peças metálicas furadas e milhentos parafusos, porcas, rodas e rodinhas, além das ferramentas miniatura, que as crianças podiam manejar facilmente.


A sua memória para os sons, também espantava toda a gente, pois bastava ouvir o ruído de um motor de automóvel e o seu pai lhe dissesse a marca do veículo, logo ele, mesmo brincando no meio da sala, muito compenetrado com o que estava a fazer, sempre ia dizendo: ali vai um Ford... agora um Citroen... agora um Fiat... e lá continuava a colocar as pecinhas do seu Mécano ...

« A casa onde eles viviam, era um dos mais belos edifícios da Av.Almirante Reis, e que fazia esquina com a Rua da Palma e Largo do Intendente, em Lisboa.




Por baixo, no rés-do-chão, era todo ocupado com a sua Empresa Nacional de Máquinas e foi por causa de uma venda para S.Miguel, duma destas máquinas, que ele foi dirigir a montagem, e que veio a conhecer minha mãe, por quem ficou, de imediato, loucamente apaixonado.



Ele não era o que se pode chamar de "pessoa dotada de beleza física", mas aquela sua forma de falar à moda continental, tão diferente da açoriana, era um gosto ouvir, e se ele tinha coisas interessantes para contar !




Embora nesta imagem, ele pareça que tinha os olhos escuros, eram verdes e o seu olhar penetrante, até parecia que "faiscava" de hipnotismo, junto duma voz grave muito bem timbrada !




Aquele homem tinha uma certa magia, pois falava de tudo com imensa facilidade, como se fosse um profissional de centenas de ofícios...




Meu avô que, além de médico, também era muito curioso e tinha no sótão (lá se chama falsa) imensas ferramentas para muitas ocupações, como mecânica, carpintaria, caça, fotografia, electricidade, etc, logo se mostrou encantado com a fluída conversa daquele Sr.José Augusto Martins Faria.


Ainda por cima, como adorava música séria e até sabia tocar violino, encantava toda a gente, menos minha mãe que vivia atormentada, por ter tido de apagar dos seus intentos, um amor de há alguns anos, por um oficial Madeirense, um tal Santos Pereira, mas que tinha uma irmã doente de loucura, doença que apavorava minha avó, muito em especial quando soube que uma irmã deste oficial, levava a vida torturada pela sua irmã louca, veio a dizer à minha avó, que estava desejosa daquele casamento, para ser minha mãe a aturar os desmandos daquela loucura.


Esta terrível situação, veio a despoletar na minha avó, uma artista nata ao piano, professora de Francês e inglês, ataques de loucura, fechando-se num quarto e lá se pondo aos gritos e proferindo nomes que de feios, ninguém admitia que pudessem sair da boca duma senhora tão fina...


Meu avô, vendo-a já no início da loucura, insistiu com minha mãe, para que parasse com aquele namoro, o que ela aceitou, com grande sacrifício, desfazendo o noivado com o oficial.

«Entretanto naquela casa cor-de-rosa em S.Miguel, nos Açores e na freguesia dos Ginetes, que reportei neste blog, em Junho de 2007, o seu belo piano de cauda, lá ia mantendo minha mãe entretida, muitas vezes chorando a sua tristeza !

Meu pai andava sempre de um lado para o outro, tanto em S.Miguel como no Continente, levando consigo o seu belo carro que fazia transportar de barco.

« O grande amor da minha mãe, estava a fazer serviço militar na ilha Terceira e quase todos os fins de semana, ia visitar o seu amor a S.Miguel.


Foi numa destas alturas, em que meu pai estava em S.Miguel, e nos Ginetes, a 25 Km de distância da cidade de Ponta Delgada, que ele se ofereceu para ir no seu carro, buscar o oficial, a Ponta Delgada, pois até estava interessado em saber quem seria aquele indivíduo que estava enamorado pela mulher por quem ele se havia enamorado também, mas vendo o carinho dele para com a minha mãe, retirou-se da sala e foi chorar de tristeza, debruçado sobre o volante do seu carro.


Meu avô foi assim dar com ele e ficou muito impressionado, em especial quando meu pai, lavado em lágrimas, lhe disse:
" Doutor, se por qualquer motivo, houvesse um desfazer daquele noivado, diga-me de imediato."

Foi por esta altura, que se deu o caso da loucura já abordada anteriormente, e mal meu pai soube da interrupção do noivado, de imediato apareceu, para grande alegria dos meus avós, e menos da minha mãe, como era óbvio, mas pedindo a sua mão para casamento quase imediato.

«Mas, como estava a descrever anteriormente, meu irmão lá ia crescendo e cada vez mais entusiasmado pelas coisas científicas, além de adorar a música, onde desde miudo mostrou habilidade para tocar piano, mas sempre achou que era muito aborrecido o ter de estudar música e assim se ficou a tocar de ouvido e de tal maneira, que muitos depois, gostava muito de mostrar às visitas à sua casa em Angola, no seu Observatório da Mulemba, as suas habilidades a tocar piano.

« Mas voltando uns anos atrás, num certo dia, quando ele tinha uns 3 anos, a minha mãe foi visitar uma senhora importante em Lisboa, levando meu irmão, e no meio da sala, estava uma mesa de luxo, carregada de pratas e coisas de muito valor.



Meu irmão, havia-se metido debaixo da mesa e verificado com os seus minúsculos dedinhos, já muito hábeis no Mecano, que podia retirar uma data de parafusos dourados, muito pouco apertados e às tantas, foi despejá-los no colo da minha mãe, que ficou apavorada, por logo terem verificado que a mesa estava prestes a desmoronar-se...
E, de imediato, olhando aqueles olhos azuis do meu irmão, lhe disse :
"O menino vai colocar esses parafusos todos nos seus sítios e as porcas também...!"
E ali ficaram as duas senhoras, apavoradas, sem saber o que dizer, mas a observar a habilidade e destreza com que meu irmão se voltou a meter debaixo da mesa e lá enfiou os parafusos e porcas que tinha conseguido retirar.

Mas, quando ainda só tinha uns 9 anos, e eu 5, e estávamos na instrução Primária, ele pensou em construir um violino, de raiz !


Na oficina do sótão de meu avô, havia muitos retalhos de madeira, e ele agarrou uma fita métrica, e foi fazer centenas de medidas do violino de meu pai, que estava sobre o piano.


Mas aquilo tinha muito de complicado, porque ambos os tampos, eram côncavos/convexos, e não se podia prender na bancada de carpinteiro, pelo que eu estava sempre a ser chamado para segurar aquilo, enquanto ele, munido das goivas e outras ferramentas, lá ia escavando aquelas tábuas.


Mas mesmo que eu me queixasse de que já me doíam muito as mãos, ele insistia...


Eu sou, por isso, a única pessoa no Mundo, que sabe deste e muitos outros acontecimentos.


E ele já sabia escolher as madeiras mais apropriadas para cada parte do seu violino, porque tinha tudo bem planificado.


Até que finalmente, aquilo começou a ser experimentado, "miando" como gatos, o que muito intrigou meu pai, no andar debaixo, pois até julgou que o "malvado" garoto estivesse a mexer no seu adorado violino, mas como o foi encontrar em cima do piano, vai de subir ao sótão e ver o violino de meu irmão, pegando nele, mirou-o por todos os lados, afinou as cordas e colocando-o debaixo do queixo, tocou uma melodia !


Aquilo era lindo demais ! Aquilo até tocava ! e os nossos olhos se encheram de lágrimas...

«Nessa época, já toda a família sabia que meu pai, ainda no Continente, em Lisboa, após ter agarrado uma enorme carga de diabetes, veio a despoletar-se uma tuberculose e assim ele havia pedido ao meu avô, para o deixar morrer junto da sua amada esposa e filhos, nos Açores.


Meu avô bem compreendeu a sua vontade, mas passou a andar muito preocupado com o possível contágio de qualquer um dos presentes, até porque meu pai não se mostrava muito preocupado em tossir para qualquer lado...como se estivesse somente constipado...


Mas o médico, um tal Dr. Brilhante, quando meu avô lhe foi falar do tempo que ele teria de vida, ouviu que não podia durar mais do que uns 3 ou 4 meses.


Assim, lá autorizou a sua ida para S.Miguel, onde ainda viveu 3 anos, morrendo com 45 anos.

Meu irmão estava sempre a evoluir, e é nesta altura da grave doença de meu pai, que nós recebemos de oferta do nosso professor de Instrução Primária, o Sr. Santos, um radio e pilhas, avariado, mas com a paciência de meu avô e a sua habilidade para as electricidades, nos pôs a limpar os contactos de todas as pilhas e lá começámos a ouvir milhares de coisas a piar pi-pi-pi, e que viemos a saber ser telegrafia, e as ondas de rádio.


Aquilo era demais interessante!
Meu irmão, melhor do que eu, e com o seu belo ouvido, de imediato aprendeu o código Morse e levava horas entretido a agarrar aquelas comunicações, pelo que desde muito cedo, com 13 anos, já dominava a telegrafia e muito da tecnologia electrónica, que "bebia" de todos os lados...

« Uns anos depois, chega a altura do Serviço Militar, que ele abominava, e vai parar ao Algarve, a Tavira, mas como tinha muita habilidade para o desenho, desmontou a sua arma toda, e desenhou-a, peça a peça, com vistas por todos os lados.

Aquilo deu um brado enorme no quartel, e o Comandante o incumbido de desenhar todas as armas existentes, ficando assim como instrutor e responsável pelo arquivo dos desenhos.


Mais uma vez, Carlos Mar se tinha evidenciado e tirado partido da sua habilidade, e ficando fora dos aborrecidos exercícios militares...


Assim, ele havia feito o Serviço Militar, a brincar com coisas muito interessantes.

«É desta época, o meu artigo Nº.85, "E meu irmão me salvou a vida", em Março de 2008.

«Eu fui assim, durante toda a minha vida, uma pálida sombra deste rapaz que eu tanto admirava e amava, embora muitas vezes não estivéssemos de acordo.



O seu enorme entusiasmo pela astrofisica, veio a pô-lo em constante contacto com a NASA, que foi visitar e até falar pessoalmente, com os astronautas.

Ele foi uma honra para Portugal, onde nunca foi compreendido...

Quando se soube que havia sido assassinado em Julho de 1976, sem nunca ter feito mal a ninguém, a minha vida se desmoronou !

«Gostaria de deixar aqui o meu profundo agradecimento à minha irmã Maria Leonor, que me ajudou imenso com alguns factos que eu até desconhecia, mas ela havia guardado das conversas com a nossa mãe, Maria da Luz Ferraz Bettencourt Leça Faria.