domingo, 4 de outubro de 2009

E LEVEI A VIDA A BRINCAR " lV"





Crónica Nº. 110 de Outubro de 2009
CT1DT@SAPO.PT


Mal eu me casei, a minha esposa logo me ofereceu, em poucos anos, 3 miúdos de enxurrada, que aqui estão, numa foto mais à frente, num alegre passeio a uma linda Barragem existente a 11 Km da minha casa, pelo que todos os fins de semana, quer fosse inverno ou verão, era o sítio mais agradável e pouco dispendioso, para onde podíamos ir passear, porque até mesmo à borda de água, havia sombras ou Sol e era só escolher.

Era como se fosse uma eterna Primavera, embora com dias mais frescos do que os outros...
Só que, sendo uma barragem para irrigação dos imensos campos de arroz, o seu acesso era muito difícil, por um caminho de pedras e mais pedras, além de muitos buracos...



Um dia, como o meu carro era um velho Ford, muito usado pela polícia de muitos anos antes, resolvi tentar ir ver o que estaria umas centenas de metros à frente e, para nosso espanto, encontrámos aquela Barragem.

Este encontro suscitou-me o escrever muitos anos depois, uma crónica no meu blog, a que intitulei "Descobri o paraíso", em 10-11-2006.

Era uma pena que aquilo não fosse conhecido de outras pessoas, porque não havia nada igual, muito quilómetros em redor e, como conhecia um velho amigo dos tempos em que havia estado num sanatório, e que era Eng. Geógrafo, o João Pereira, que apresentei no blog, em 25-2-2009, ele foi logo lá ver e fazer medidas, para ver se a Junta Nacional de Estradas autorizaria fazer ali uma estrada, o que foi autorizado de imediato, em especial por eu ter descrito aquela maravilha sem acesso, num jornal da terra, o então Aurora do Ribatejo.

Como eu já andava a tentar pintar a óleo qualquer coisa que alegrasse as paredes da minha casa, até pintei um dedicado a ela e mais uns 15.




O meu primeiro barco, de fundo plano, era um autêntico susto e perigoso, por usar um motor VW muito velho, com hélice fora de água, como uma avioneta qualquer. Felizmente que um amigo aviador, de nome Abílio de Matos, me forneceu os planos de construção de um hélice em madeira, para montagem directa ao veio dum motor deste tipo e assim foi ele construído, mas na prática, o velho motor não tinha potência para ele... provavelmente devido aos atritos na água.



Mas não fosse surgir algum problema grave, o "comandante" já levava uma câmara de ar cheia de ar e à cautela... O hélice era posto em movimento, do lado de fora, mas aquilo era mesmo perigoso nas voltas. Assim foi logo abandonada a ideia do motor fora de água, e montado um motor fora de borda, em que já se podia andar, mas sempre perigoso nas voltas.

Mas de seguida, construi uma "coisa" que eram dois flutuadores em madeira, com uma velha moto montada no meio deles, e sem rodas, mas por vários defeitos nunca andou como eu estava à espera... e tanto desejava, e também foi abandonado depois de um caminhão, de marcha atrás, e com esta geringonça em terra, o ter esborrachado. Eu devia ter colocado uma pequena inclinação nos flutuadores, para afastar a água que, no andamento se sentia apertada e subia por entre os flutuadores, ficando o piloto todo molhado...

Mas depois do incidente, nada daquilo se aproveitou...


Conforme de pode ver pela foto, estávamos em 1956 e o meu filho mais velho, já tinha 2 anos, pelo que fui construir um tractor com motor de 50 cm3 e usando dois pneus velhos, mas à frente, só consegui arranjar duas rodinhas dum triciclo, muito leves, pelo que o tractor ficando muito leve à frente, se encontrasse uma certa inclinação de terreno, tinha, como os grandes, a tendência para seguir em sentido contrário ao desejado, o que logo o meu filho protestou...e até tinha razão...


Nos tractores profissionais, eles colocam à frente, umas centenas de Kg, de ferro, para agarrar bem o rodado da frente , ao terreno.
Mas achei graça aos protestos do um miúdo de 2 anos, a algo que estava errado...


Em 1959, e contando com o aparecimento de mais filhos, como veio a acontecer, construi um carrinho em chapa de ferro e rodas velhas de motoretas, em que cada uma, possuía umas jantes de chapa de ferro e não tinha câmaras de ar, porque o peso era diminuto.


Algum tempo depois, construi um reboque e lá andava ele com dois e 3 garotos dentro, a passear.





Por volta de 1961, estava eu apaixonado pelas máquinas voadoras, porque não havia por perto, um campo de aviação e me pareceu que tivesse a possibilidade de ver uma voar, mas por vários motivos e falta de potência, isso não foi possível.


Como se pode ver, a caixa de velocidades havia sido colocada rodada 90º e bloqueado o diferencial do lado de baixo. Só lá ficaram os carretos da 1ª e 2ª e a embraiagem, que podia ser ajustada para um arranque suave dos rotores.


O sistema de comando global e cíclico estava no topo e a meio deste semi-eixo. estava o sistema de variação de passo do hélice da cauda que era controlado pelos pés do piloto.

Como eu nunca tinha visto um helicóptero em "pessoa" aquela tecnologia me encantava...por ser mais um desafio...

Verdade seja dita que já havia encontrado um pequeno livro, em espanhol, sobre "El vuelo vertical", e pouco ele explicava, a não ser que sempre haviam encontrado problemas de falta de potência, porque naquela época, 1927, os motores eram todos em ferro e muito pesados... Mas como eu tinha tido acesso a um de alumínio, um VW, estava com uma certa fé.

Não serviu para nada, a não ser encontrar explicações que me facilitaram muito mais tarde, por volta de 1990, poder encontrar muita facilidade na pilotagem dum Hugges-300, no Campo da Aerolazer, em Benavente onde o piloto me passou integralmente os comandos, após uma leve estabilização a meio metro do solo, feita por ele, me obrigou a andar de lado, pairar e subir até uns 50 metros, pairar e ir aterrá-lo no ponto de onde havíamos arrancado.


Em 1959, ainda com meus filhos muito novinhos, resolvi construir um pequeno automóvel com um motor de um cilindro, a gasolina, de 100 Cm3, um JAP, que eles deliraram e todos aprenderam a conduzir, embora o mais novo, o Carlos José, conseguisse chegar aos pedais...




As rodas, eram pneus muito velhos, completamente lisos, e que encontrei na sucata, e as jantes eram discos de chapas de ferro, que apertavam os dois lados dos pneus, com 4 parafusos.

A embraiagem era feita ao esticar da correia de desmultiplicação e o travão era carregando sobre a saída dum pequeno tambor, no motor.

Este motor, que arrancava com uma corda, estava colocado atrás, bem como um minúsculo deposito de gasolina de um litro. Só tinha uma velocidade e lenta, para não dar azo a algum acidente grave...embora se pudesse acelerar mais ou menos.
Como havia muito poucos automóveis na terra, uns 4 ou 5, quando o meu filho ia colocar gasolina à bomba, era uma festa de rapaziada atrás dele !

« Mas com tanta água ali mesmo à mão, eu tinha de enveredar pelos barcos.




Tanto a minha esposa, como a minha mãe, nunca podiam estar de mãos a abanar e o que elas mais gostavam de fazer, eram rendas e bordados, mas entretanto, já se haviam passado uns anos e todos os meus filhos, já estavam na Escola Primária . Nesta foto, estavam a gozar com qualquer coisa cómica que estivesse a acontecer na barragem , dentro de água...


. «Felizmente que um dia, e com moldes de cartão, consegui construir um em grande e, tão rapidamente, que ficou a chamar-se de DOIS DIAS, porque foi realmente o tempo que se gastou a juntar, colar e aparafusar as placas de contraplacado marítimo.




Colocou-se um motor emprestado de 10 HP e foi nele que os meus filhos aprenderam a conduzir e a fazer ski, e prancha.
Aqui vai ele num arranque a fundo, pelo meu filho Mário, já com uns 12 anos.

Depois, um amigo me ofertou um Snype e até mo veio trazer, mas um tanto mal-tratado, mas logo foi arranjado e levado numa rullote para a água da mesma barragem, e começamos com este barco, a fazer muito bons passeios à vela, que a minha filha Antonieta adorava e levando consigo as muitas amigas que por lá apareciam. Nesta altura, ela ainda era solteira.





Aconteceu aqui, que um amigo muito experimentado em barcos à vela, e até era Eng.Técnico, o Fernando das Neves Rocha, exigiu que fosse ele mostrar-me como aquilo se pilotava, porque exigia muitos conhecimentos de aerodinâmica, ângulos de ataque do vento, etc. etc. e no dia de bota-abaixo, assim aconteceu, mas como quase não havia vento, o barco dali não saía, da borda de água, porque naquele sítio, havia muito arvoredo e a vela não enchia. Mas eu estava a sentir uma ligeira brisa na cara e lhe disse que o barco estaria errado de direcção... Então ele, um tanto amargurado, me convidou a agarrar o leme e eu lá lhe dei uns puxões rápidos, para o dirigir uns graus para o lado, até ver a vela encher e de imediato o barco começar a andar e bem, mesmo sem eu ter tido uma primeira aprendizagem a velejar...


Mais tarde, e como uns malandros me tinham destruído parte dele, acabei por ofertá-lo ao Eng. que o aprimorou e pintou, mas que eu saiba, nunca mais foi à agua, e até hoje...


«Foi por esta altura que, um outro amigo nosso, e que havia mandado construir um belo barco, mas que estava abandonado num quintal, por ser ingovernável, eu e o meu filho, lá o fomos buscar e realmente, já com motor de 50 HP, ela era ingovernável ao tentar-se fazer uma volta mais ou menos apertada, pois dava uma sarrascada muito violenta, para o lado oposto e para ali ficava, sarrascada para a direita e esquerda, pelo que até ficou conhecido por "saltitão" e foi logo abandonado.


Era pois mais um aliciante problema que eu teria de resolver, até porque o barco era muito bonito e robusto.

Estudado o problema , logo foi resolvido, retirando umas réguas salientes, que acompanhavam o casco de uma ponta à outra. Depois de se ter eliminado estas réguas do meio para a proa, betumado o sítio , polido e pintado, o problema desapareceu por completo e foi o nosso melhor barco de recreio.



A partir daquela data, começaram a aparecer turistas de todos os lados e com milhares de pessoas, além de muitos barcos de corrida, e pessoas para aprenderem a skiar, não só para os experimentar, e até fazerem corridas e alguns barcos à vela. Nos últimos anos, apareceram as motos de água que sujavam a água de óleo e já nem se podia nadar, porque elas vinham quase a terra, chateando toda a gente que estivesse a tomar banho...

Por outro lado e infelizmente, com esta malta toda e falta de civismo, vieram as músicas aos berros, as sardinha assadas e com espinhas largadas por todos os lados, além da fumarada do assar sardinhas e o largar de plásticos por todos os lados..., sem o mínimo de respeito por quem lá estava para descansar.
Foi, como diz o povo; "pérolas a porcos "

Foi o fim

E parece que de barcos, embora ainda houvessem outros, chega, e já agora, boa viagem e muito gozo, mas o mais curioso é que foi tudo gratuito "e se ia vivendo a brincar".

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

E LEVEI A VIDA A BRINCAR (lll)














Crónica Nº. 109

1 de Outubro de 2009

CT1DT@SAPO.PT



E LEVEI A VIDA A BRINCAR (l l l)

Nesta secção da crónica, estou tentado a mostrar algumas das minhas actividades entretanto realizadas há muitos anos, mas como as fotografias então feitas, eram a preto e branco, porque as fotos a cores, ainda não existiam, a maioria terá de ser a preto e branco.

Espero que o leitor encontre algum interesse nesta crónica, pois talvez até tenha sido ou deseje fazer pela sua vida fora, algo parecido, para sentir como eu, uma vida muito entretida e com muitos assuntos diversos.

Quando se ama o que estamos a fazer, estamos realmente a brincar, quer se tenha 2 anos ou 82.

Quando se chega à minha idade, e se se procurou uma actividade profissional que se possa executar com prazer, e se temos em casa, também uma actividade agradável, estaremos a viver a brincar.
Nesta imagem rara, estamos em S.Miguel. Açores, na freguesia de Ginetes, mas em 1938.

Ela é especial para mim, porque nos extremos, estão meus dois primos nascidos nos Ginetes e de todos os outros, só eu sou açoriano de gema e aí estou todo encaracolado, sobre o Austin-7 que meu avô tinha acabado de adquirir, depois de se ter desfeito do "Char à banc" que era puxado por um dócil e belo cavalo castanho.

O resto da trupe, eram os meus irmãos, todos nascidos em Portugal Continental, enquanto meu pai ultimava o funcionamento da sua Empresa Nacional de Máquinas, em 1926, devido às contantes revoluções militares e às trocas de Governos.

Como se pode ver, estavamos todos na Escola Primária.

Como as estradas eram todas muito más, aquele carrinho era tratado com muito cuidado e até a manjedoira foi tapada para fazer dela uma pequena bancada de trabalho de beneficiação do carrinho, todo cheio de ferramentas de meu pai, que havia chegado do continente para consumir os seus últimos dias de vida. Ele estava atacado duma doença muito grave e que não perdoava, se não fosse tratada a tempo, mas mesmo assim, como gostava muito de "brincar" se manteve até ao fim da sua vida, entretido com vários tecnologias, desde a reparação de todo o tipo de relógios à complicada afinação de órgãos de igreja, agricultura, e outras engenharias, além de ir dando uns passeios a pé ou no carro de meu avô.

Eu o descrevi na crónica "Martins Faria, uma vida de sonhos ", em 9 de Março de 2007.

A sua grave doença, por ser muito contagiosa, exigia que todos estivéssemos à distância, o que muito nos entristecia, e incluindo minha mãe que teve de ir dormir com filhos, para o sótão, por imposição de meu avô !
Até a sala de convívio e música, foi mudada para outra sala, para que meu pai tivesse pouca possibilidade de contagiar a familia e as visitas, pelo que tudo foi mudado. Foi uma imensa reviravolta de todas as nossas vidas.

Até antes de ele chegar, especialmente eu, todos levávamos uma vida de grande entretenimento a fazer e gozar com os nossos brinquedos. Talvez o que mais gozo me deu, foi um a que chamei de monocicleta, que era um pau de vassoura com uma forquilha em baixo, onde eu havia colocado uma roda de ferro, duma velha máquina de moer café e, para me agarrar, coloquei um pau transversal, com um travão puchado por um cordel e empurrava uma tábuinha sobre a roda, travando-a. A outra ponta, apoiava-se no meu ombro e podia correr lindamente com aquilo, pois me cansava muito pouco.

Talvez por ter sido meu avô que me ajudou a vir a este mundo, ele mostrava uma especial atenção a tudo o que eu fazia e me divertia e, como ele era muito engenhocas, também "brincava" muito no seu "laboratório" que era uma grande oficina que tomava 1/3 do sótão , que em S.Miguel se chama falsa, e onde guardava imensas coisas, para seu entretenimento, como torno a pedal, todo montado em ferro, uma bancada de marcenaria dotada de muitas ferramentas, uma forja, material de caça, prelo de impressão com milhares de letras de muitos tipos, e o seu "laboratório fotográfico" , além de muitas outras coisas mais.

Assim que ele abria a porta da sua oficina, aí estava eu, pronto a fazer perguntas e a querer ajudar em tudo, o que ele me ia permitindo e sempre explicando.

Era no torno, uma espécie de grande máquina de costura, onde ele torneava as bolas e tacos do jogo de croquet, que eu punha o meu pé para ajudar e a sentir cair-me nos cabelos, as imensas aparas da madeira que iam saltando.

Mas quando ele se metia na casa da fotografia, depois de ter preparado cuidadosamente os banhos de revelação e fixagem, é que eu mais gostava... embora tivesse de ficar horas à espera que ele de lá saísse para eu ver as chapas de vidro com as fotografias em negativo! Aquilo até parecia magia !

Mas como o mais que ele me poderia dizer, era que "agora não...", eu acabei por pedir-lhe para assistir e ele deixou, pelo que mesmo nos bicos dos pés, porque a bancada era alta, consegui assistir a todo aquele trabalho maravilhoso feito a uma fraca luz vermelha, porque as chapas eram ortocromáticas, naquela época !

Só muito mais tarde é que eu vim a saber que havia as pancromáticas e como era sensível ao vermelho, essa cor não poderia ser usada, mas sim uma verde muito escura.

No andar debaixo, provavelmente estaria minha avó ou minha mãe a tocar ou a aperfeiçoar as suas lindas músicas de piano.

Aquela "casa cor de rosa", era mais bonita naquela altura, porque todas as janelas tinham persianas encarnadas, mas agora, já com outros donos, embora continue cor-de-rosa, já não as tem.

Esta foto foi tirada há pouco tempo e já com outra em frente, além duma escola.

Como os tectos eram muito altos, dessa janela que se vê em cima, havia outra do lado oposto, e era onde o meu avô tinha a sua oficina, enquanto nesta que se vê à esquerda, era por onde poderíamos ver tudo o que se passava em baixo, embora com certa dificuldade, porque nessa altura, há 70 anos, a casa era toda rodeada de frondosas árvores.

A entrada para a casa, era por este portão de ferro que interrompe o muro branco e que acompanha todo o terreno, de uns 50 metros.

Mesmo em frente da porta principal, havia 3 degraus em pedra, onde se faziam belas fotos.

Como os rapazes estavam a jogar no croquet, um deles, à esquerda, até tem o seu taco de jogo, ao ombro, certamente para ir ficar presente na fotografia.

Esta foto é certamente histórica e foi tirada em frente da casa, nos degraus acima citados, e onde se pode ver uma das janelas de persianas fechadas.

À esquerda de todos, pode ver-se de chapéu, o farmacêutico Sr. Vargas Moniz, pois naquela época, onde existisse médico, tinha de haver um farmacêutico para fazer os remédios. Assim, a farmácia era um ponto de encontro para as pessoas mais gradas da terra, além do posto telefónico e de notícias.

Ele também veio da Maia, com alguns dos seus 4 filhos mais velhos, enquanto outros ficaram amigos íntimos da minha mãe, como o Eng. Vargas Moniz, que foi Eng. Chefe do Arsenal do Alfeite e que descrevi neste blog, em "Meu amigo Eng. Rogério Vargas Moniz", publicado em 25 de Março de 2007. Um dos outros irmãos, se formou em genecologia, e todos atingiram graus académicos importantes .

Tenho reparado que este jogo do croquet, por não ser cá conhecido em Portugal continental, tem dado azo a muitas confusões, dada a sua semelhança com o jogo do cricket, mas é muito diferente, embora também jogado com tacos a bolas do tamanho de laranjas.
É que no croquet, temos de destruir o jogo dos adversários, atirando a nossa bola, com muita precisão, até à grande distancia dos cerca de 20 metros do campo e, se lhe tocarmos, temos direito a fazer um croque, prendendo bem a nossa bola com um pé e batendo-lhe com o maço com a força necessária para que a bola do nosso adversário, e que está encostada à nossa, fosse parar o mais longe possível, estragando-lhe o jogo. Obviamente que esta operação tem de ser feita com cuidado, senão bateríamos no nosso próprio pé...
Tendo conseguido o croque, podíamos continuar a jogar, crocando para este e para aquele, até onde pudéssemos. Depois seguia-se o outro adversário. Assim, quem tivesse mais habilidade, e muitos croques, quase nunca mais parava...

Assim, todo o jogo é feito e calculado para destruir o jogo dos nossos adversários e irmos, entretanto, passando os 8 arcos de ferro colocados fortemente no terreno e, além disso irmos passando por dois arcos em cruz, com uma campainha pendurada e que está no meio do campo.
Além disso, onde se começa e se acaba o jogo, existem dois paus na vertical (estacas) e onde lhe temos de bater com a nossa bola, no fim do jogo. Todos os arcos de ferro, só podem ser passados num sentido.
Destes constantes CROQUES (choques) é que teria surgido o nome de JOGO DO CROQUET.

No nosso caso, para que os assistentes pudessem estar à sombra, havia um caramanchão forrado de plantas aromáticas, por todos os lados, excepto à frente e a toda a volta, muitas árvores como o plátano, em forma de tecto.

Eu estava desejoso de pode chegar às fotos de alguns dos meus brinquedos, mas como isto já está muito grande, vou ter de o fazer, se ainda estiver vivo... na crónica seguinte, a Nº. lV.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

E LEVEI A VIDA A BRINCAR (ll)











Crónica nº.108
Setembro 2009
e-mail ct1dt"sapo.pt

" E LEVEI A VIDA A BRINCAR " (ll)


Há pouco tempo, li um pensamento chinês que dizia:

« Se ouvir, esqueço, mas se vir, nunca mais esqueço » (Confúcio)
Até chegar à idade da imagem com que inicio esta crónica, muito se passou na minha vida, e desde muito criança, e a assistir a coisas sempre interessantes, pelo que ficaram retidas na minha memória, para sempre !
Ainda estava antes da Escola Primária, e por isso entre os 5 e os 6 anos, e porque meu avô, já com mais de 60 anos, me deixava estar junto dele, quando ele "brincava" com muitas coisas, eu fiquei a pensar que ele devia ser um bom brincalhão...
Ele era médico, mas possuía uma habilidade imensa, para muitas profissões e no sótão da sua casa, onde eu havia nascido, em 1927, de que já tenho falado imensas vezes, como " A CASA COR DE ROSA", havia milhões de coisas interessantes, porque ele sempre tinha uma paixão entre mãos e, podia adquirir as ferramentas apropriadas para cada trabalho.

Aquilo estava tudo guardado no sótão, fechado à chave, mas de tempos a tempos ele abria aquela sala misteriosa, que eu tanto adorava visitar.

Ele não era uma pessoa muito faladora, talvez enjoado por me ouvir a perguntar constantemente, para que era aquilo...como aquilo funcionava, como se chamava, tantos porquês que talvez ele tivesse dificuldade em responder, porque eu só tinha 6 anos, e ele devia sentir que eu era curioso demais. Assim, preferia ir fazendo as coisas, sem botar "faladura".

Naquela enorme sala, que se tornava muito baixa, por causa da inclinação do telhado, lá para os cantos, aquilo estava cheio de tralha e era impossível lá ir alguém, a menos que levasse luz de uma lanterna eléctrica, mas eram tantas as aranhas, e suas teias, que aquilo até metia medo...

Mas eu nem me lembro de tudo o que lá existia, embora me recorde de ver umas caixas com sacos pequenos e cheios de pós brancos, que mais tarde vim a saber que eram produtos químicos para gerar fogo de artifício ! Aquilo é que meu avô era um brincalhão !!!
Mas me recordo de ter encontrado uma máquina para moer café e tinha duas rodas em ferro, e ali estava abandonada por já não moer bem.
De imediato pensei a fazer uma MONOCICLETA, ou seja, na ponta dum pau de vassoura, apliquei duas tábuas à laia de "garfo" onde coloquei uma roda.
Mais ou menos a meio, coloquei atravessado, um pau, onde podia agarrar. Depois era só correr com aquilo e guiar a roda para as curvas.
Aquilo até era engraçado, pois eu ficava inclinado para a frente, e podia correr á vontade sem me cansar tanto...
Sim, porque não havia dinheiro para uma bicicleta... e sempre era mais um brinquedo...
Mais tarde um pouco, construi uma BICICLETA, usando um pau em ângulo recto, onde me escanchava e apertava as pernas, e numa rampa qualquer, eu me conseguia deixar correr, bem equilibrado... Claro que não tinha pedais nem corrente, nem onde por os pés , nem rodas dentadas, porque bicicleta de fábrica, era só para ricos...
Havia naquele sótão, uma armação em madeira, com uma dúzia de tabuleiros, com milhares de letras metálicas, e que era uma máquina de imprensa, onde eu um dia aprendi a imprimir o papel para as receitas com o nome de meu avô, papel de cartas e envelopes, para ele e para a família, e aqui a podemos ver, muitos anos depois, quando na RARET, estava a imprimir fotos no nosso Boletim Técnico RARET, e porque havia uns pingos de chuva, de tempos a tempos, no inverno, o meu chefe de nome Fernando Calhau, que era muito brincalhão também, foi procurar um guarda-chuva para ficar "melhor na fotografia"...

Meu avô me havia deixado por herança a sua máquina de impressão, por ter sido o único dos seus 7 netos, que se havia mostrado interessado a manejá-la.
Aquilo era um tanto complicado, porque havia que compor o escrito, usando as letras que desejávamos, e adicionando os espaços. Isto era feito numa peça em chapa de aço e dobrada em "L", em que se apertavam os conjuntos de letras e se amarravam fortemente. Este conjunto de letras, de maior e menor tamanho, era colocado com muito cuidado, numa moldura em latão, que levava uns enchimentos em madeira e uns parafusos laterais seguravam todas as letras, para serem agarradas à máquina de impressão.
Mas havia depois, que colocar sobre o Prato circular da tintagem, que era em aço, uma certa quantidade de tinta espeça e se tinha de a espalhar muito bem, em todos os sentidos, com um rolo de borracha, para que o Prato ficasse todo igualmente tintado, com uma fina camada de tinta.
Mas antes disso, já se haviam feito os rolos da tintagem, com gelatina e mel, nuns tubos metálicos, (as formas), que já levavam no meio, uns varões de aço, onde se haviam enrolado uns cordéis, onde a gelatina se iria agarrar, mas deixando uns roletes de aço, para que eles ficassem perfeitamente centrados, e eu a prestar muita atenção...
Uma vez endurecida a gelatina com mel, os dois tambores eram colocados na máquina, ainda sem a moldura com as letras, e se andava para cima e para baixo com a alavanca, tantas vezes quanto necessário, até que estes dois rolos agarrassem a tinta que ia sendo "roubada" do dito Prato.
Este Prato só podia rodar para um lado, por uma unha metálica que por baixo dele, o fazia rodar uns 30 ou 40 graus, que cada vez que o braço vinha abaixo e fazia um prelimpimpim, ao levantar o braço.
Um prato quadrado, onde se agarravam uma data de folhas de papel, umas 12, à laia de cama, e era sobre esta Cama, que as letras já com tinta, iam ser comprimidas e impressa cada folha. Esta cama era um tanto chata de montar, para que a impressão não ficasse vincando as letras...nem com falhas de tinta por esta cama não ter a altura suficiente.
Na foto a seguir, pode-se ver a máquina com o Prato da tinta, um pouco inclinado e a moldura da Cama onde se colocavam as folhas de papel a ser impressas e o braço em que o operador tinha de carregar, por cada cópia impressa.
Eu, embora com 5 e 6 anos, já tinha visto e aprendido todas estas operações, e como as cópias eram umas centenas, eu havia notado que meu avô se chateava de fazer aquele trabalho, por ser muito repetitivo, e um dia, lhe pedi para experimentar a ver se tinha força para puxar aquela enorme alavanca, e ele me deixou fazer, pelo que logo me disse que me pagaria 1$00 , se conseguisse printar umas centenas de folhas, o que assim aconteceu e eu todo contente...
Quando terminei o trabalho e o fui entregar, ele sacou da sua algibeira uma carteirinha de rede de prata, de onde tirou o escudo prometido e, "montado" na minha monocicleta, lá fui rapidamente a uma loja, para comprar dois lápis e uma borracha.

De cada vez que o braço da máquina, vinha abaixo...prelimmm, e saía uma folha impressa.
Mas o mais amargo daquilo, era que eu tinha de limpar com petróleo, não só toda a máquina, além da moldura onde estavam as letras, e ainda teria de colocar as letras todas e os espaços, nos respectivos tabuleiros... mas tinha de ser... e lá ficava este pirralho de gente, todo borrado de tinta preta... Esta operação era-me muito confusa, porque eu havia começado a ler, mas não conseguia ler as letras metálicas... Mas que chato !!!!
Bem que as voltava e olhava , de todas as formas, quase as metendo pelos olhos dentro, mas meu avô, que estava atento e a ver a minha dificuldade, pegou numa receita e me perguntou: "Que letra é esta ?" e eu respondi que era um "C", "E agora esta ?", é um "A". " E agora esta ? ", é um "R". E continuou, "Estas letras estão como se fossem vistas ao espelho, de marcha atrás"... Finalmente eu havia entendido que tinha de ser assim, para que se entenda, quando são impressas.
Assim entendido, logo comecei a colocar as letras no grande tabuleiro, onde eu mal chegava ao cacifo dos "AAAA" ou dos "aaaaa", por ter os braços curtos demais.
Havia sido mais fácil entender o meu professor, o Sr. Silva, que me ensinou a ler, escrever e contar, antes de eu entrar para a instrução primária, mas essa de ver as letras ao espelho...é que ele não me havia ensinado....

Como já contei, havia um torno mecânico em ferro, mas a pedal, onde eu havia visto meu avô tornear as esferas em madeira, para o jogo de croquet, muito popular em S. Miguel, e pequenas peças metálicas, uma mesa de marceneiro com belas polainas e muitos formões, uma mesa onde ele carregava centenas de cartuchos de caça, e um cubículo muito escuro, que só era iluminado por um vidro encarnado, ao que ele chamava de Câmara escura.

Nesta época, só havia chapas ortocromáticas e, por isso, nada sensíveis à luz encarnada. Por isso, a sua iluminação, para todo o trabalho na câmara escura, só podia ser feito com esta cor.

A sua enorme máquina fotográfica, era muito parecida a esta da foto, e o seu operador, tinha de usar um pano muito escuro, para fazer uma perfeita focagem, no seu vidro despolido, com ela bem agarrada a um valente tripé. Depois da focagem, saía o vidro despolido e entrava no seu lugar, uma cassete com a chapa virgem, para ser feita a fotografia.

Aquele sítio, escuro como breu, era uma paixão para a minha curiosidade e eu já sabia que, quando ele para lá entrava, durante horas, não podia abrir a porta. O que estaria ele a fazer com tanta paixão, naquela quartinho escuro ? Pela certa que estaria a "brincar"...
Mas um dia, vi-o a preparar os banhos necessários para revelar fotografias, porque já tinha visto que depois de ele fazer uma fotografia, ele tinha de ir preparar os banhos de revelação e fixagem.

Ele tinha uma balança de ourives onde colocava uns papelinhos cobrados em "V", onde colocava com muito cuidado, uns produtos químicos, chamados Sulfito de Sódio, Hidroquinona, Metol, o Carbonato de sódio, e Alumen. Ele colocava cada um, dentro de água aquecida, a uns 50ºC, para se dissolverem facilmente e aquilo era feito sempre a seguir, no que eu já podia ajudar, porque ele deixava-me andar a mover o líquido com uma vareta de vidro. Depois de todos juntos, ele filtrava o conjunto e despejava dentro de uma cuvete. Era o Revelador.
Depois ia buscar um grande frasco com Hipossulfito de Sódio, que dizia ele ser o Fixador, e depois dele estar bem dissolvido, num litro de água, colocava-o numa outra cuvete.

E ele ia-me explicando:

Este Sulfito de Sódio, o conservador, é para tornar o líquido alcalino e ser mais fácil dissolver o Hidroquinone e o Metol. Sabia eu lá o que era "alcalino..."

Depois entra o Carbonato de Sódio, porque este banho tem de ser fortemente alcalino...

Depois entrava uma pitada de Brometo de potássio, para evitar um véu que se poderia formar, durante a oxidação da prata exposta à luz, pela objectiva, com as imagens. Sabia eu lá, o que era " Oxidação"...

Ou seja, as altas luzes, como um Céu bem iluminado, depois do banho revelador, tornava-se negro e os negros como os cabelos das pessoas, ficavam brancos. Ou seja, a imagem ficava invertida, era o Negativo.

Na passagem ao papel, tudo se trocava e obtinha-se o Positivo que já podia ser bem lavado e posto a secar.

Segundo ele, como a chapa ficava com muita prata virgem, o Brometo de prata, era necessário o banho Fixador que retirava toda esta prata mais ou menos virgem, e já não haver perigo de apanhar luz.
Na câmara escura, ele colocava 5 cuvetes, sendo a primeira com água, a seguir o Revelador, depois outra com água, depois a outra com o Fixador e, ao fim de certos tempos em cada processo, com todos à temperatura de 18ºC, já podíamos abrir a porta.

Meu avô devia ficar intrigado por eu querer saber os nomes e manobras, que eu ia decorando, até que certo dia, mesmo nos bicos dos pés, para poder espreitar o que iria acontecer, ele me convidou para ir assistir ao que ele ia fazer na câmara escura e aquilo de ver uma chapa de vidro, toda branca, só iluminada pela luz vermelha, e progressivamente ver o aparecimento duma imagem, foi das coisas mais interessantes que me havia de acontecer ! Aquilo parecia magia !

Naquela época, só se fotografava em chapas de vidro muito caras e por isso, nos preparativos para fazer uma foto, toda a gente envolvida na fotografia, tinha de estar muito bem arranjada...


Aqui estamos os cinco, no campo do croquet.
Eu tinha mesmo de possuir uma máquina fotográfica, nem que a tivesse de fazer, porque já havia entendido os porquês daquilo tudo e já um pouco mais velho, conseguiria fazer uma, nem que levasse um ano inteiro...



Embora com muitos defeitos, esta foi a minha primeira fotografia, mas tinha tido a honra de pedir a meu avô que disparasse a máquina, o que ele fez todo sorridente, o que me encheu a alma de alegria, porque ele me deixou repetir todas as operações da preparação dos Banhos e usar a sua Câmara escura ! Julgo que ele devia também, estar a achar muita graça à minha coragem , para aquela aventura...
Como ele ia deitar fora os banhos fotográficos, iria fugir das tentaivas das pesagens e do ter de manter os banhos a 18ºC...
Este gosto pela fotografia, me ficou agarrado à pele, para sempre !
Felizmente que começaram a existir as máquinas fotográficas da Kodak e eu já estava na Escola Industrial , com 11 anos, mas só aos 13 anos, me ofereceram uma que de pouco serviu, porque a película era muito cara...
Mas recordo que era o único aluno que possuía uma máquina fotográfica de construção caseira e que levei para a Escola, mas já lhe havia aplicado uma parte dum sistema de relojoaria, de um velho despertador, para eu a disparar e poder ficar na foto. Assim, coloquei-a num banco, dei corda ao maquinismo e corri para o conjunto, tendo-lhe posto antes, uma pedra em cima para ela ficar fixa, mas o mecanismo explodiu, com rodas dentadas por todo o lado e fiquei sem saber se ela teria disparado ou não... Um dos meus colegas mais velho, levou a película para revelar num fotógrafo profissional, e para meu espanto, ela tinha mesmo disparado um instantâneo e havia feito uma bela foto daquela malta toda...mas não fiquei com nenhuma... ou então esqueci-me...

Já nesta altura, eu havia construído vários projectores de cinema , lanternas mágicas...e andava desejoso de fazer um projector com movimento, usando fita de cinema perfurada, e quando pedi ao Mestre da Escola, que me deixasse fazê-la, ele logo me disse que eu iria necessitar do torno, ferramenta a que os alunos só tinham acesso nos anos a seguir, mas eu logo referi que tinha alguma prática do torno de meu avô, e lá me deixou construir. Ela é imprescindível para fazer saltar as imagens e dar-lhes movimento.
Nessa altura, eu já sabia de que iria necessitar duma peça, muito difícil de construir, e que se chamava Cruz de Malta, mas consegui construí-la.

Esse projector, que andava à manivela, é o que vê na foto a seguir e à direita em baixo, mas eu já estava noutra, com o encanto pela rádio.

Em 31/10/2006, eu já havia publicado uma crónica chamada "A magia de vida", e na mesma data, um outro que intitulei "E era um garoto como os outros ".
Não me lembro já, como teria o Grande poeta brasileiro Lima Coelho, descoberto o meu blog, mas a partir de 2007, e com a grande ajuda da muito conhecida e querida MEL, ele começou a reeditar quase todas as crónicas que aqui iam saindo.
Gostaria de lembrar que meu avô só ia "brincar" com as suas paixões, quando não tinha pacientes à espera, mas era tal a sua paixão com a medicina, que a vivia duma forma intensa, nem que estivesse horas à cabeceira dos seus doentes, mas ficava imensamente triste, quando via algum morrer..., por não lhe ter acertado com o tratamento.

Está-me a parecer que esta crónica já estará a ficar muito grande e, por isso, e porque tenho imenso para contar, talvez seja melhor ficar por aqui agora, até à terceira parte.
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quinta-feira, 10 de setembro de 2009

E LEVEI A VIDA A BRINCAR





Crónica nº.107 de 11 de Setembro de 2009


Blogs:


" E LEVEI A VIDA A BRINCAR "
(Î)
(Nota: Como vou ter de inserir muitas fotos, resolvi dividir esta crónica em várias partes.)

Quando se chega acima dos 80 anos, e se se teve uma vida muito cheia de vivência de muitos assuntos diferentes, e se se fizeram algumas fotografias, chega a parecer impossível que se tenha feito tanta coisa... mesmo que a maioria tenha sido como brincadeira.
Na verdade, quando se ama o que estamos a fazer, e foi o meu caso, tanto podem ser assuntos de amador como profissional. Por isso, intitulei esta crónica de "E levei a vida a brincar", embora mais de 35 anos, como profissional de electrónica, numa empresa americana, a RARET.

Mas olhando bem ao longe, acabo por verificar que pertenço a uma família muito especial e digna de alguma referência, até para entender o porquê de tanto eu como meu irmão Carlos Mar Bettencourt Faria, termos levado umas vidas um tanto especiais...

Me perdoe o leitor o não ir directo ao assunto, mas um meu grande amigo actual, um dia me perguntou onde eu e meu irmão, teriamos ido buscar este tremendo entusiasmo pela vida.
Mas quando desejei responder, tive de ir muito atrás aos meus ascendentes da ilha da Madeira.
Eu nunca fui grande entusiasta por ir meter o nariz no passado, mas sei que meu avô, de origem madeirense, duma terra chamada Madalena do Mar, e teve 13 irmãos, todos de nome Bettencourt Leça e, por isso, eu devo ter imensos primos por lá ! Estes Bettencourt estão espalhados por todas as ilhas açorianas, mas os Leça, são o ramo a que pertenço.







Originários de uma família talvez modesta, nem sei como conseguiram todos sobreviver e ainda conseguirem tirar cursos superiores, como meu avô em medicina e um que chegou a Cónego e muito admirado pelos seus vastos conhecimentos de astrofísica.
Estou em acreditar que todos se entre ajudariam, dado que meu avô, como não conseguia comprar os imensos e caríssimos livros de medicina, se refugiava na Biblioteca da Universidade e, como tinha muito jeito para desenhar, teve muito que riscar, não só para ele, mas também para um seu amigo...

Foi aí que ele entrou em contacto com outro aluno também pobre, mas não tinha tanta habilidade para o desenho, o José Alberto de Carvalho Ferraz, e assim foram estudando, muitas vezes na casa duma senhora pianista e com grande habilidade para línguas, que lá ia ensinando música, como treinando inglês e francês, além do português, às meninas inglesas que por lá abundavam na Madeira, filhas de doentes de tuberculose e lá encontrarem um clima muito ameno.
Em Dezembro de 2006, escrevi uma crónica intitulada " No centro das festas", sobre esta maravilhosa senhora, a D.Leonor Ester de Carvalho Ferraz, que acabaria por ser minha avó materna.

Foi esta senhora que custeava os estudos do seu irmão José Alberto, um jovem apaixonado pela música como a sua irmã, mas em violoncelo, tendo chegado a tocar em Lisboa, para sua magestade o Rei D.Carlos. Infelizmente morreu muito cedo, com uns 40 anos, mas tendo deixado o seu nome gravado numa rua em Belas, onde tinha ido viver e fazer medicina.

Minha avó, que era mais idosa do que o meu avô, uns 9 anos, sempre teve uns cabelos brancos de aspecto prata e era muito linda, mesmo de aspecto imponente !





Ela era muito nervosa, mas quando entrava em palco para se exibir, nos seus concertos de música séria, normalmente quase que a sala linha abaixo com palmas.
Em 7 de Julho de 2007, descrevi uma crónica dedicada a este meu tio José Alberto, que odiava política e tropa, e chegou a ficar cego, quando foi obrigado a estar na tropa em Lisboa.
Essa crónica, a intitulei, " E cegou de tristeza ".
Isto se passou antes do curso de medicina, que ele adorava poder fazer e só o conseguiu, quando minha avó e irmã, conseguiu ajudar financeiramente com o dinheiro das suas lições.
Como meu avô gostava imenso de música e tinha muita habilidade de mãos, não se ralou nada de vir a casar com aquela senhora mais idosa do que ele, 9 anos, e até numa situação muito triste para ela, porque já estava pedida em casamento por outro jovem que havia falecido pouco tempo antes, já com o dia de casamento marcado .
Mas ambos se fizeram médicos e brilhantes !
Como a vida de um jovem médico era muito difícil, naquela altura, meu avô aceitou um convite para médico de bordo de um navio que estava para sair para as Bermudas, mas ele se afundou e morreu toda a tripulação, tendo ficado minha avó desesperada novamente e viúva.
Felizmente que antes do navio desaparecer, meu avô estava a ser operado ao apêndice em terra numa ilha e quando noutro navio, voltou à Madeira, minha avó, muito nervosa, nunca mais o deixou embarcar, e foram ambos parar à ilha de S. Miguel, fazer assistência médica na freguesia da Maia, ao norte da ilha.
Aí nasceu o seu primeiro filho, a quem foi dado o nome de Francisco Assiz Bettencourt Leça.
Como não havia médico na costa Sul, meu avô se candidata a essa zona e foi parar a uma freguesia de nome Ginetes, onde veio a nascer a minha mãe, Maria da Luz Ferraz Bettencourt Leça, em Fevereiro de 1902.
Teria agora, 107 anos, se não tivesse falecido ha pouco tempo, e como a sua mãe, também era exímia tocadora de piano, de bordados e desenho em que era duma perfeição máxima, além de muito bonita.
Mal sabiam eles que os Ginetes, era um dos sítios mais procurados pelas pessoas mais gradas da ilha, e onde tinham os seus palácios. Ginetes fica num baixo, em que uma montanha não deixa ver o Oceano Atlântico, mas tem a vantagem de não receber os ventos frios do mar.
Todos os dias, minha avó tinha de tocar o seu piano de cauda e mal chegou o verão e as nobres pessoas da cidade de Ponta Delgada, para férias, todos se passaram a encontrar em reuniões elegantes, em casa do Dr. Carlos Abel Bettencourt Leça e sua esposa Leonor Ester Ferraz Bettencurt Leça.
Fim da primeira parte

terça-feira, 25 de agosto de 2009

E DERAM-ME 6 MESES DE VIDA
















Crónica nº.106- Agosto de 2009

ct1dt@sapo.pt
http://engenhocando2.blogspot.com/

http://engenhocando.blog.com/



Aqui há tempos, li, algures, uma observação que dizia: Conheci um velhinho que esteve a morrer, mais de 80 anos...

Achei uma certa graça a este comentário, porque logo em miúdo, meu avô, que era médico, estava sempre à procura de nódulos no meu pescoço e, dos meus irmãos, que eram 5, eu era o mais fraco e franzino, embora muito vivo, pelo que ele até me injectou imenso cálcio, com o que eu embirrava à brava...mas como lhe tinha muito respeito, gemendo e chorando, lá ia levando com as injecções...

Não é que eu entendesse aquela "mania", mas muitos anos depois, acabei por entender que ele estaria muito preocupado com a minha saúde, até porque meu pai estava com tuberculose pulmonar e me estava sempre a chamar para o pé dele, para o ajudar e não podia dizer que não...

Tanto meu avô como toda a família, também não podia fazer nada.

Como a minha mãe não tinha meios de sobrevivência, tirou um curso rápido de Professora Primária e acabou por se transferir para o Continente, em Portugal, uns anos depois, porque estávamos a viver em S.Miguel, nos Açores e aí comecei, talvez, os piores dias da minha vida, que já contei noutras crónicas deste blog . Os meus irmãos foram todos "arrumados" em vários lados, e eu fiquei um tanto abandonado à minha sorte com várias tentativas de continuar a estudar e trabalhar, quase não tendo tempo para comer, dormir, estudar ou namorar...

Minha mãe era bastante bonita e sabia tocar lindamente piano, mas isso não lhe foi aproveitado, e acabou por ir tomar o lugar de Administradora da cozinha da Santa Casa da Misericórdia em Lisboa, onde esteve muitos anos.


Embora meu pai tivesse falecido quando eu tinha 11 anos, acabei por adoecer da mesma doença, quando tinha os meus 17 anos e fui enviado para um sanatório do Caramulo, onde estive 4 anos em tratamento, mas como sempre fui um brincalhão, aproveitei o melhor possível, as horas em que me permitiam sair e vaguear pelas montanhas, nem que fosse para apreciar a natureza e ver bem de perto, cobras e lagartos...e onde arranjava um pouco mais de vontade de comer, com aquele belo ar das montanhas.

Logo aí, tive de me habituar às picadas do único tratamento que lá se fazia, os pnemotóraxes, em que uma bruta agulha me era enfiada a sangue frio, pela costelas a dentro, até encontrar a zona intrapleural, para deixar descansar os pulmões, mas nada daquilo me assustava, porque, como disse já, picadas de agulhas, eu já as tinha levado desde os tempos da minha Escola Primária e, se era preciso...que viessem. Eu só queria estar vivo !
Mas depois de um ano desta vida, o meu médico me chamou e me disse: Quando você aqui chegou, eu não lhe dava mais de 6 meses de vida, mas o que é certo é que você está em vias de cura, por estas radiografias e análises, que estou a ver...

Belo, pensei eu, será que desta me vou safar, tendo visto vários morrer, entretanto ?

Mas o tratamento ainda se manteve, de 15 em 15 dias e durante 4 anos, até esgotar o tempo da Assistência e tive de me vir embora , mas continuando com os malvados tratamentos... num médico da minha familia, o simpatiquíssimo Dr. Ancelmo Ferraz de Carvalho, já falecido há muito.


Eu era Funcionário Público no Arsenal do Alfeite, e como não sugeria que o clima aí, me fosse favorável, acabaram por mandar-me embora para uma pré-reforma.

Mas lá me fui aguentando e acabei por ir parar a uma Empresa americana, a RARET, que se estava a montar em Portugal, e tendo pedido ao seu Cônsul , emprego naquela empresa, até porque já havia aprendido muitas coisas de electrónica, como radioamador, com indicativo CT1DT, lá fui encaixado e lá trabalhei 35 anos, até ter atingido a reforma.

Minha adorável mãe, já havia envelhecido bastante, mas continuava linda, até falecer com 95 anos !


Mas depois de uma data de amigdalites, (que acabei por descobrir a sua cura, de um dia para o outro, com tintura de Gaiacol em zaragatoa) constipações e gripes, fui chamado ao médico da empresa, que me mandou ir fazer uma análise às glândulas supra-renais, e lá voltei para o meu trabalho em electrónica no Centro de Recepção, com a melhor aparelhagem do mundo.




Era uma saúde precária, mas lá ia vivendo sempre muito entretido com imensas actividades: Barcos à vela e com motor, aviões (largado com 4 horas de voo), motas, asas delta, autogiros, helicópteros, energias alternativas, tratamentos alternativos, pintura a óleo (12), caricaturas, fotografia, imprensa, publicado mais de 15000 páginas de assuntos técnicos, cinema, vídeo, tocado piano de ouvido, há mais de 70 anos, robots, jornalista, locutor de radio, Radioamador em muitas faixas, actividades que já contei no meu blog http://www.engenhocando2.blogspot.com/


É curioso notar que um dia, sou surpreendido pela notícia de que o blog do Brasil de Lima Coelho, havia descoberto o meu blog e me pediu para reeditar alguns dos meus artigos, o que aceitei com muito orgulho. Mal sabia eu que o meu simples blog, iria ser tão apreciado no Brasil, sempre com imensos e simpáticos comentários !


Minha esposa, que eu considerava muito bela, acabou por falecer nos meus braços, na sua cama, com um malvado cancro nos intestinos, em 1991, mas tendo podido ajudá-la com dezenas de injecções, para que não sofresse .

Assim, eu ia vivendo com o resto de saúde que era possível ter, casei, tive 3 filhos lindos, muito feliz, mas sempre com dificuldades financeiras....

Verdade seja dita, que nunca lutei por ganhar dinheiro e já ficava muito feliz, quando ele dava para o dia a dia. Realmente, pode-se ser muito feliz, com pouco dinheiro...


Às tantas, o mesmo médico que me havia "empurrado" para a análise às glândulas supra-renais uns 4 anos antes, me pediu para ir repetir o mesmo exame que era feito em Lisboa e tem de ser feita em dois dias. Ou seja, por aquilo que eu já me tinha apercebido, no primeiro dia, punham-me às portas da morte e, no segundo, me injectavam extracto de supra-renais, ou coisa parecida, para me "ressuscitarem..."... Nunca soube o nome daquela malvada análise...

Mas passados aqueles 4 anos desta análise, ele, admirado de eu ainda estar vivo, me pede para repeti-la, ao que eu aproveitei para lhe perguntar: mas o Dr. nunca me disse o resultado dessa análise que me ia matando !!!...

Ao que ele respondeu que, com o resultado dela, "não conhecia ninguém que tivesse sobrevivido, mais de 6 meses "... e eu ainda estava vivo ! Hoje penso: ainda bem que ele não me disse aquilo, quando veio o resultado do exame, pois só de pensar que iria só viver 6 meses...teria morrido mesmo !

Mas o mesmo médico, o Dr. Duarte Silva, mais ou menos da minha idade, me havia dito que tomava 7 e 8 cafés por dia, enquanto eu lhe disse: se eu fizesse isso, já tinha morrido e até adiantei: Eu só posso tomar um café e de manhã, porque se for à noite...adeus sono, ao que ele respondeu que isso era mania minha, porque o café só fazia bem...

Como ele me apanhou a fumar um cigarrinho, ainda me disse que aquilo é que era um suissidio !

Embora ele fosse especialista em cardiologia, o que é certo é que um ano depois desta nossa conversa, ele agarrou um AVC e lá se foi...


E eu, tal como o tal velhinho que tinha levado 80 anos a morrer, cá continuei a viver e, mais, com vontade de fazer, pelo menos, os 83 anos...se não puder ser mais...