segunda-feira, 14 de setembro de 2009

E LEVEI A VIDA A BRINCAR (ll)











Crónica nº.108
Setembro 2009
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" E LEVEI A VIDA A BRINCAR " (ll)


Há pouco tempo, li um pensamento chinês que dizia:

« Se ouvir, esqueço, mas se vir, nunca mais esqueço » (Confúcio)
Até chegar à idade da imagem com que inicio esta crónica, muito se passou na minha vida, e desde muito criança, e a assistir a coisas sempre interessantes, pelo que ficaram retidas na minha memória, para sempre !
Ainda estava antes da Escola Primária, e por isso entre os 5 e os 6 anos, e porque meu avô, já com mais de 60 anos, me deixava estar junto dele, quando ele "brincava" com muitas coisas, eu fiquei a pensar que ele devia ser um bom brincalhão...
Ele era médico, mas possuía uma habilidade imensa, para muitas profissões e no sótão da sua casa, onde eu havia nascido, em 1927, de que já tenho falado imensas vezes, como " A CASA COR DE ROSA", havia milhões de coisas interessantes, porque ele sempre tinha uma paixão entre mãos e, podia adquirir as ferramentas apropriadas para cada trabalho.

Aquilo estava tudo guardado no sótão, fechado à chave, mas de tempos a tempos ele abria aquela sala misteriosa, que eu tanto adorava visitar.

Ele não era uma pessoa muito faladora, talvez enjoado por me ouvir a perguntar constantemente, para que era aquilo...como aquilo funcionava, como se chamava, tantos porquês que talvez ele tivesse dificuldade em responder, porque eu só tinha 6 anos, e ele devia sentir que eu era curioso demais. Assim, preferia ir fazendo as coisas, sem botar "faladura".

Naquela enorme sala, que se tornava muito baixa, por causa da inclinação do telhado, lá para os cantos, aquilo estava cheio de tralha e era impossível lá ir alguém, a menos que levasse luz de uma lanterna eléctrica, mas eram tantas as aranhas, e suas teias, que aquilo até metia medo...

Mas eu nem me lembro de tudo o que lá existia, embora me recorde de ver umas caixas com sacos pequenos e cheios de pós brancos, que mais tarde vim a saber que eram produtos químicos para gerar fogo de artifício ! Aquilo é que meu avô era um brincalhão !!!
Mas me recordo de ter encontrado uma máquina para moer café e tinha duas rodas em ferro, e ali estava abandonada por já não moer bem.
De imediato pensei a fazer uma MONOCICLETA, ou seja, na ponta dum pau de vassoura, apliquei duas tábuas à laia de "garfo" onde coloquei uma roda.
Mais ou menos a meio, coloquei atravessado, um pau, onde podia agarrar. Depois era só correr com aquilo e guiar a roda para as curvas.
Aquilo até era engraçado, pois eu ficava inclinado para a frente, e podia correr á vontade sem me cansar tanto...
Sim, porque não havia dinheiro para uma bicicleta... e sempre era mais um brinquedo...
Mais tarde um pouco, construi uma BICICLETA, usando um pau em ângulo recto, onde me escanchava e apertava as pernas, e numa rampa qualquer, eu me conseguia deixar correr, bem equilibrado... Claro que não tinha pedais nem corrente, nem onde por os pés , nem rodas dentadas, porque bicicleta de fábrica, era só para ricos...
Havia naquele sótão, uma armação em madeira, com uma dúzia de tabuleiros, com milhares de letras metálicas, e que era uma máquina de imprensa, onde eu um dia aprendi a imprimir o papel para as receitas com o nome de meu avô, papel de cartas e envelopes, para ele e para a família, e aqui a podemos ver, muitos anos depois, quando na RARET, estava a imprimir fotos no nosso Boletim Técnico RARET, e porque havia uns pingos de chuva, de tempos a tempos, no inverno, o meu chefe de nome Fernando Calhau, que era muito brincalhão também, foi procurar um guarda-chuva para ficar "melhor na fotografia"...

Meu avô me havia deixado por herança a sua máquina de impressão, por ter sido o único dos seus 7 netos, que se havia mostrado interessado a manejá-la.
Aquilo era um tanto complicado, porque havia que compor o escrito, usando as letras que desejávamos, e adicionando os espaços. Isto era feito numa peça em chapa de aço e dobrada em "L", em que se apertavam os conjuntos de letras e se amarravam fortemente. Este conjunto de letras, de maior e menor tamanho, era colocado com muito cuidado, numa moldura em latão, que levava uns enchimentos em madeira e uns parafusos laterais seguravam todas as letras, para serem agarradas à máquina de impressão.
Mas havia depois, que colocar sobre o Prato circular da tintagem, que era em aço, uma certa quantidade de tinta espeça e se tinha de a espalhar muito bem, em todos os sentidos, com um rolo de borracha, para que o Prato ficasse todo igualmente tintado, com uma fina camada de tinta.
Mas antes disso, já se haviam feito os rolos da tintagem, com gelatina e mel, nuns tubos metálicos, (as formas), que já levavam no meio, uns varões de aço, onde se haviam enrolado uns cordéis, onde a gelatina se iria agarrar, mas deixando uns roletes de aço, para que eles ficassem perfeitamente centrados, e eu a prestar muita atenção...
Uma vez endurecida a gelatina com mel, os dois tambores eram colocados na máquina, ainda sem a moldura com as letras, e se andava para cima e para baixo com a alavanca, tantas vezes quanto necessário, até que estes dois rolos agarrassem a tinta que ia sendo "roubada" do dito Prato.
Este Prato só podia rodar para um lado, por uma unha metálica que por baixo dele, o fazia rodar uns 30 ou 40 graus, que cada vez que o braço vinha abaixo e fazia um prelimpimpim, ao levantar o braço.
Um prato quadrado, onde se agarravam uma data de folhas de papel, umas 12, à laia de cama, e era sobre esta Cama, que as letras já com tinta, iam ser comprimidas e impressa cada folha. Esta cama era um tanto chata de montar, para que a impressão não ficasse vincando as letras...nem com falhas de tinta por esta cama não ter a altura suficiente.
Na foto a seguir, pode-se ver a máquina com o Prato da tinta, um pouco inclinado e a moldura da Cama onde se colocavam as folhas de papel a ser impressas e o braço em que o operador tinha de carregar, por cada cópia impressa.
Eu, embora com 5 e 6 anos, já tinha visto e aprendido todas estas operações, e como as cópias eram umas centenas, eu havia notado que meu avô se chateava de fazer aquele trabalho, por ser muito repetitivo, e um dia, lhe pedi para experimentar a ver se tinha força para puxar aquela enorme alavanca, e ele me deixou fazer, pelo que logo me disse que me pagaria 1$00 , se conseguisse printar umas centenas de folhas, o que assim aconteceu e eu todo contente...
Quando terminei o trabalho e o fui entregar, ele sacou da sua algibeira uma carteirinha de rede de prata, de onde tirou o escudo prometido e, "montado" na minha monocicleta, lá fui rapidamente a uma loja, para comprar dois lápis e uma borracha.

De cada vez que o braço da máquina, vinha abaixo...prelimmm, e saía uma folha impressa.
Mas o mais amargo daquilo, era que eu tinha de limpar com petróleo, não só toda a máquina, além da moldura onde estavam as letras, e ainda teria de colocar as letras todas e os espaços, nos respectivos tabuleiros... mas tinha de ser... e lá ficava este pirralho de gente, todo borrado de tinta preta... Esta operação era-me muito confusa, porque eu havia começado a ler, mas não conseguia ler as letras metálicas... Mas que chato !!!!
Bem que as voltava e olhava , de todas as formas, quase as metendo pelos olhos dentro, mas meu avô, que estava atento e a ver a minha dificuldade, pegou numa receita e me perguntou: "Que letra é esta ?" e eu respondi que era um "C", "E agora esta ?", é um "A". " E agora esta ? ", é um "R". E continuou, "Estas letras estão como se fossem vistas ao espelho, de marcha atrás"... Finalmente eu havia entendido que tinha de ser assim, para que se entenda, quando são impressas.
Assim entendido, logo comecei a colocar as letras no grande tabuleiro, onde eu mal chegava ao cacifo dos "AAAA" ou dos "aaaaa", por ter os braços curtos demais.
Havia sido mais fácil entender o meu professor, o Sr. Silva, que me ensinou a ler, escrever e contar, antes de eu entrar para a instrução primária, mas essa de ver as letras ao espelho...é que ele não me havia ensinado....

Como já contei, havia um torno mecânico em ferro, mas a pedal, onde eu havia visto meu avô tornear as esferas em madeira, para o jogo de croquet, muito popular em S. Miguel, e pequenas peças metálicas, uma mesa de marceneiro com belas polainas e muitos formões, uma mesa onde ele carregava centenas de cartuchos de caça, e um cubículo muito escuro, que só era iluminado por um vidro encarnado, ao que ele chamava de Câmara escura.

Nesta época, só havia chapas ortocromáticas e, por isso, nada sensíveis à luz encarnada. Por isso, a sua iluminação, para todo o trabalho na câmara escura, só podia ser feito com esta cor.

A sua enorme máquina fotográfica, era muito parecida a esta da foto, e o seu operador, tinha de usar um pano muito escuro, para fazer uma perfeita focagem, no seu vidro despolido, com ela bem agarrada a um valente tripé. Depois da focagem, saía o vidro despolido e entrava no seu lugar, uma cassete com a chapa virgem, para ser feita a fotografia.

Aquele sítio, escuro como breu, era uma paixão para a minha curiosidade e eu já sabia que, quando ele para lá entrava, durante horas, não podia abrir a porta. O que estaria ele a fazer com tanta paixão, naquela quartinho escuro ? Pela certa que estaria a "brincar"...
Mas um dia, vi-o a preparar os banhos necessários para revelar fotografias, porque já tinha visto que depois de ele fazer uma fotografia, ele tinha de ir preparar os banhos de revelação e fixagem.

Ele tinha uma balança de ourives onde colocava uns papelinhos cobrados em "V", onde colocava com muito cuidado, uns produtos químicos, chamados Sulfito de Sódio, Hidroquinona, Metol, o Carbonato de sódio, e Alumen. Ele colocava cada um, dentro de água aquecida, a uns 50ºC, para se dissolverem facilmente e aquilo era feito sempre a seguir, no que eu já podia ajudar, porque ele deixava-me andar a mover o líquido com uma vareta de vidro. Depois de todos juntos, ele filtrava o conjunto e despejava dentro de uma cuvete. Era o Revelador.
Depois ia buscar um grande frasco com Hipossulfito de Sódio, que dizia ele ser o Fixador, e depois dele estar bem dissolvido, num litro de água, colocava-o numa outra cuvete.

E ele ia-me explicando:

Este Sulfito de Sódio, o conservador, é para tornar o líquido alcalino e ser mais fácil dissolver o Hidroquinone e o Metol. Sabia eu lá o que era "alcalino..."

Depois entra o Carbonato de Sódio, porque este banho tem de ser fortemente alcalino...

Depois entrava uma pitada de Brometo de potássio, para evitar um véu que se poderia formar, durante a oxidação da prata exposta à luz, pela objectiva, com as imagens. Sabia eu lá, o que era " Oxidação"...

Ou seja, as altas luzes, como um Céu bem iluminado, depois do banho revelador, tornava-se negro e os negros como os cabelos das pessoas, ficavam brancos. Ou seja, a imagem ficava invertida, era o Negativo.

Na passagem ao papel, tudo se trocava e obtinha-se o Positivo que já podia ser bem lavado e posto a secar.

Segundo ele, como a chapa ficava com muita prata virgem, o Brometo de prata, era necessário o banho Fixador que retirava toda esta prata mais ou menos virgem, e já não haver perigo de apanhar luz.
Na câmara escura, ele colocava 5 cuvetes, sendo a primeira com água, a seguir o Revelador, depois outra com água, depois a outra com o Fixador e, ao fim de certos tempos em cada processo, com todos à temperatura de 18ºC, já podíamos abrir a porta.

Meu avô devia ficar intrigado por eu querer saber os nomes e manobras, que eu ia decorando, até que certo dia, mesmo nos bicos dos pés, para poder espreitar o que iria acontecer, ele me convidou para ir assistir ao que ele ia fazer na câmara escura e aquilo de ver uma chapa de vidro, toda branca, só iluminada pela luz vermelha, e progressivamente ver o aparecimento duma imagem, foi das coisas mais interessantes que me havia de acontecer ! Aquilo parecia magia !

Naquela época, só se fotografava em chapas de vidro muito caras e por isso, nos preparativos para fazer uma foto, toda a gente envolvida na fotografia, tinha de estar muito bem arranjada...


Aqui estamos os cinco, no campo do croquet.
Eu tinha mesmo de possuir uma máquina fotográfica, nem que a tivesse de fazer, porque já havia entendido os porquês daquilo tudo e já um pouco mais velho, conseguiria fazer uma, nem que levasse um ano inteiro...



Embora com muitos defeitos, esta foi a minha primeira fotografia, mas tinha tido a honra de pedir a meu avô que disparasse a máquina, o que ele fez todo sorridente, o que me encheu a alma de alegria, porque ele me deixou repetir todas as operações da preparação dos Banhos e usar a sua Câmara escura ! Julgo que ele devia também, estar a achar muita graça à minha coragem , para aquela aventura...
Como ele ia deitar fora os banhos fotográficos, iria fugir das tentaivas das pesagens e do ter de manter os banhos a 18ºC...
Este gosto pela fotografia, me ficou agarrado à pele, para sempre !
Felizmente que começaram a existir as máquinas fotográficas da Kodak e eu já estava na Escola Industrial , com 11 anos, mas só aos 13 anos, me ofereceram uma que de pouco serviu, porque a película era muito cara...
Mas recordo que era o único aluno que possuía uma máquina fotográfica de construção caseira e que levei para a Escola, mas já lhe havia aplicado uma parte dum sistema de relojoaria, de um velho despertador, para eu a disparar e poder ficar na foto. Assim, coloquei-a num banco, dei corda ao maquinismo e corri para o conjunto, tendo-lhe posto antes, uma pedra em cima para ela ficar fixa, mas o mecanismo explodiu, com rodas dentadas por todo o lado e fiquei sem saber se ela teria disparado ou não... Um dos meus colegas mais velho, levou a película para revelar num fotógrafo profissional, e para meu espanto, ela tinha mesmo disparado um instantâneo e havia feito uma bela foto daquela malta toda...mas não fiquei com nenhuma... ou então esqueci-me...

Já nesta altura, eu havia construído vários projectores de cinema , lanternas mágicas...e andava desejoso de fazer um projector com movimento, usando fita de cinema perfurada, e quando pedi ao Mestre da Escola, que me deixasse fazê-la, ele logo me disse que eu iria necessitar do torno, ferramenta a que os alunos só tinham acesso nos anos a seguir, mas eu logo referi que tinha alguma prática do torno de meu avô, e lá me deixou construir. Ela é imprescindível para fazer saltar as imagens e dar-lhes movimento.
Nessa altura, eu já sabia de que iria necessitar duma peça, muito difícil de construir, e que se chamava Cruz de Malta, mas consegui construí-la.

Esse projector, que andava à manivela, é o que vê na foto a seguir e à direita em baixo, mas eu já estava noutra, com o encanto pela rádio.

Em 31/10/2006, eu já havia publicado uma crónica chamada "A magia de vida", e na mesma data, um outro que intitulei "E era um garoto como os outros ".
Não me lembro já, como teria o Grande poeta brasileiro Lima Coelho, descoberto o meu blog, mas a partir de 2007, e com a grande ajuda da muito conhecida e querida MEL, ele começou a reeditar quase todas as crónicas que aqui iam saindo.
Gostaria de lembrar que meu avô só ia "brincar" com as suas paixões, quando não tinha pacientes à espera, mas era tal a sua paixão com a medicina, que a vivia duma forma intensa, nem que estivesse horas à cabeceira dos seus doentes, mas ficava imensamente triste, quando via algum morrer..., por não lhe ter acertado com o tratamento.

Está-me a parecer que esta crónica já estará a ficar muito grande e, por isso, e porque tenho imenso para contar, talvez seja melhor ficar por aqui agora, até à terceira parte.
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quinta-feira, 10 de setembro de 2009

E LEVEI A VIDA A BRINCAR





Crónica nº.107 de 11 de Setembro de 2009


Blogs:


" E LEVEI A VIDA A BRINCAR "
(Î)
(Nota: Como vou ter de inserir muitas fotos, resolvi dividir esta crónica em várias partes.)

Quando se chega acima dos 80 anos, e se se teve uma vida muito cheia de vivência de muitos assuntos diferentes, e se se fizeram algumas fotografias, chega a parecer impossível que se tenha feito tanta coisa... mesmo que a maioria tenha sido como brincadeira.
Na verdade, quando se ama o que estamos a fazer, e foi o meu caso, tanto podem ser assuntos de amador como profissional. Por isso, intitulei esta crónica de "E levei a vida a brincar", embora mais de 35 anos, como profissional de electrónica, numa empresa americana, a RARET.

Mas olhando bem ao longe, acabo por verificar que pertenço a uma família muito especial e digna de alguma referência, até para entender o porquê de tanto eu como meu irmão Carlos Mar Bettencourt Faria, termos levado umas vidas um tanto especiais...

Me perdoe o leitor o não ir directo ao assunto, mas um meu grande amigo actual, um dia me perguntou onde eu e meu irmão, teriamos ido buscar este tremendo entusiasmo pela vida.
Mas quando desejei responder, tive de ir muito atrás aos meus ascendentes da ilha da Madeira.
Eu nunca fui grande entusiasta por ir meter o nariz no passado, mas sei que meu avô, de origem madeirense, duma terra chamada Madalena do Mar, e teve 13 irmãos, todos de nome Bettencourt Leça e, por isso, eu devo ter imensos primos por lá ! Estes Bettencourt estão espalhados por todas as ilhas açorianas, mas os Leça, são o ramo a que pertenço.







Originários de uma família talvez modesta, nem sei como conseguiram todos sobreviver e ainda conseguirem tirar cursos superiores, como meu avô em medicina e um que chegou a Cónego e muito admirado pelos seus vastos conhecimentos de astrofísica.
Estou em acreditar que todos se entre ajudariam, dado que meu avô, como não conseguia comprar os imensos e caríssimos livros de medicina, se refugiava na Biblioteca da Universidade e, como tinha muito jeito para desenhar, teve muito que riscar, não só para ele, mas também para um seu amigo...

Foi aí que ele entrou em contacto com outro aluno também pobre, mas não tinha tanta habilidade para o desenho, o José Alberto de Carvalho Ferraz, e assim foram estudando, muitas vezes na casa duma senhora pianista e com grande habilidade para línguas, que lá ia ensinando música, como treinando inglês e francês, além do português, às meninas inglesas que por lá abundavam na Madeira, filhas de doentes de tuberculose e lá encontrarem um clima muito ameno.
Em Dezembro de 2006, escrevi uma crónica intitulada " No centro das festas", sobre esta maravilhosa senhora, a D.Leonor Ester de Carvalho Ferraz, que acabaria por ser minha avó materna.

Foi esta senhora que custeava os estudos do seu irmão José Alberto, um jovem apaixonado pela música como a sua irmã, mas em violoncelo, tendo chegado a tocar em Lisboa, para sua magestade o Rei D.Carlos. Infelizmente morreu muito cedo, com uns 40 anos, mas tendo deixado o seu nome gravado numa rua em Belas, onde tinha ido viver e fazer medicina.

Minha avó, que era mais idosa do que o meu avô, uns 9 anos, sempre teve uns cabelos brancos de aspecto prata e era muito linda, mesmo de aspecto imponente !





Ela era muito nervosa, mas quando entrava em palco para se exibir, nos seus concertos de música séria, normalmente quase que a sala linha abaixo com palmas.
Em 7 de Julho de 2007, descrevi uma crónica dedicada a este meu tio José Alberto, que odiava política e tropa, e chegou a ficar cego, quando foi obrigado a estar na tropa em Lisboa.
Essa crónica, a intitulei, " E cegou de tristeza ".
Isto se passou antes do curso de medicina, que ele adorava poder fazer e só o conseguiu, quando minha avó e irmã, conseguiu ajudar financeiramente com o dinheiro das suas lições.
Como meu avô gostava imenso de música e tinha muita habilidade de mãos, não se ralou nada de vir a casar com aquela senhora mais idosa do que ele, 9 anos, e até numa situação muito triste para ela, porque já estava pedida em casamento por outro jovem que havia falecido pouco tempo antes, já com o dia de casamento marcado .
Mas ambos se fizeram médicos e brilhantes !
Como a vida de um jovem médico era muito difícil, naquela altura, meu avô aceitou um convite para médico de bordo de um navio que estava para sair para as Bermudas, mas ele se afundou e morreu toda a tripulação, tendo ficado minha avó desesperada novamente e viúva.
Felizmente que antes do navio desaparecer, meu avô estava a ser operado ao apêndice em terra numa ilha e quando noutro navio, voltou à Madeira, minha avó, muito nervosa, nunca mais o deixou embarcar, e foram ambos parar à ilha de S. Miguel, fazer assistência médica na freguesia da Maia, ao norte da ilha.
Aí nasceu o seu primeiro filho, a quem foi dado o nome de Francisco Assiz Bettencourt Leça.
Como não havia médico na costa Sul, meu avô se candidata a essa zona e foi parar a uma freguesia de nome Ginetes, onde veio a nascer a minha mãe, Maria da Luz Ferraz Bettencourt Leça, em Fevereiro de 1902.
Teria agora, 107 anos, se não tivesse falecido ha pouco tempo, e como a sua mãe, também era exímia tocadora de piano, de bordados e desenho em que era duma perfeição máxima, além de muito bonita.
Mal sabiam eles que os Ginetes, era um dos sítios mais procurados pelas pessoas mais gradas da ilha, e onde tinham os seus palácios. Ginetes fica num baixo, em que uma montanha não deixa ver o Oceano Atlântico, mas tem a vantagem de não receber os ventos frios do mar.
Todos os dias, minha avó tinha de tocar o seu piano de cauda e mal chegou o verão e as nobres pessoas da cidade de Ponta Delgada, para férias, todos se passaram a encontrar em reuniões elegantes, em casa do Dr. Carlos Abel Bettencourt Leça e sua esposa Leonor Ester Ferraz Bettencurt Leça.
Fim da primeira parte

terça-feira, 25 de agosto de 2009

E DERAM-ME 6 MESES DE VIDA
















Crónica nº.106- Agosto de 2009

ct1dt@sapo.pt
http://engenhocando2.blogspot.com/

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Aqui há tempos, li, algures, uma observação que dizia: Conheci um velhinho que esteve a morrer, mais de 80 anos...

Achei uma certa graça a este comentário, porque logo em miúdo, meu avô, que era médico, estava sempre à procura de nódulos no meu pescoço e, dos meus irmãos, que eram 5, eu era o mais fraco e franzino, embora muito vivo, pelo que ele até me injectou imenso cálcio, com o que eu embirrava à brava...mas como lhe tinha muito respeito, gemendo e chorando, lá ia levando com as injecções...

Não é que eu entendesse aquela "mania", mas muitos anos depois, acabei por entender que ele estaria muito preocupado com a minha saúde, até porque meu pai estava com tuberculose pulmonar e me estava sempre a chamar para o pé dele, para o ajudar e não podia dizer que não...

Tanto meu avô como toda a família, também não podia fazer nada.

Como a minha mãe não tinha meios de sobrevivência, tirou um curso rápido de Professora Primária e acabou por se transferir para o Continente, em Portugal, uns anos depois, porque estávamos a viver em S.Miguel, nos Açores e aí comecei, talvez, os piores dias da minha vida, que já contei noutras crónicas deste blog . Os meus irmãos foram todos "arrumados" em vários lados, e eu fiquei um tanto abandonado à minha sorte com várias tentativas de continuar a estudar e trabalhar, quase não tendo tempo para comer, dormir, estudar ou namorar...

Minha mãe era bastante bonita e sabia tocar lindamente piano, mas isso não lhe foi aproveitado, e acabou por ir tomar o lugar de Administradora da cozinha da Santa Casa da Misericórdia em Lisboa, onde esteve muitos anos.


Embora meu pai tivesse falecido quando eu tinha 11 anos, acabei por adoecer da mesma doença, quando tinha os meus 17 anos e fui enviado para um sanatório do Caramulo, onde estive 4 anos em tratamento, mas como sempre fui um brincalhão, aproveitei o melhor possível, as horas em que me permitiam sair e vaguear pelas montanhas, nem que fosse para apreciar a natureza e ver bem de perto, cobras e lagartos...e onde arranjava um pouco mais de vontade de comer, com aquele belo ar das montanhas.

Logo aí, tive de me habituar às picadas do único tratamento que lá se fazia, os pnemotóraxes, em que uma bruta agulha me era enfiada a sangue frio, pela costelas a dentro, até encontrar a zona intrapleural, para deixar descansar os pulmões, mas nada daquilo me assustava, porque, como disse já, picadas de agulhas, eu já as tinha levado desde os tempos da minha Escola Primária e, se era preciso...que viessem. Eu só queria estar vivo !
Mas depois de um ano desta vida, o meu médico me chamou e me disse: Quando você aqui chegou, eu não lhe dava mais de 6 meses de vida, mas o que é certo é que você está em vias de cura, por estas radiografias e análises, que estou a ver...

Belo, pensei eu, será que desta me vou safar, tendo visto vários morrer, entretanto ?

Mas o tratamento ainda se manteve, de 15 em 15 dias e durante 4 anos, até esgotar o tempo da Assistência e tive de me vir embora , mas continuando com os malvados tratamentos... num médico da minha familia, o simpatiquíssimo Dr. Ancelmo Ferraz de Carvalho, já falecido há muito.


Eu era Funcionário Público no Arsenal do Alfeite, e como não sugeria que o clima aí, me fosse favorável, acabaram por mandar-me embora para uma pré-reforma.

Mas lá me fui aguentando e acabei por ir parar a uma Empresa americana, a RARET, que se estava a montar em Portugal, e tendo pedido ao seu Cônsul , emprego naquela empresa, até porque já havia aprendido muitas coisas de electrónica, como radioamador, com indicativo CT1DT, lá fui encaixado e lá trabalhei 35 anos, até ter atingido a reforma.

Minha adorável mãe, já havia envelhecido bastante, mas continuava linda, até falecer com 95 anos !


Mas depois de uma data de amigdalites, (que acabei por descobrir a sua cura, de um dia para o outro, com tintura de Gaiacol em zaragatoa) constipações e gripes, fui chamado ao médico da empresa, que me mandou ir fazer uma análise às glândulas supra-renais, e lá voltei para o meu trabalho em electrónica no Centro de Recepção, com a melhor aparelhagem do mundo.




Era uma saúde precária, mas lá ia vivendo sempre muito entretido com imensas actividades: Barcos à vela e com motor, aviões (largado com 4 horas de voo), motas, asas delta, autogiros, helicópteros, energias alternativas, tratamentos alternativos, pintura a óleo (12), caricaturas, fotografia, imprensa, publicado mais de 15000 páginas de assuntos técnicos, cinema, vídeo, tocado piano de ouvido, há mais de 70 anos, robots, jornalista, locutor de radio, Radioamador em muitas faixas, actividades que já contei no meu blog http://www.engenhocando2.blogspot.com/


É curioso notar que um dia, sou surpreendido pela notícia de que o blog do Brasil de Lima Coelho, havia descoberto o meu blog e me pediu para reeditar alguns dos meus artigos, o que aceitei com muito orgulho. Mal sabia eu que o meu simples blog, iria ser tão apreciado no Brasil, sempre com imensos e simpáticos comentários !


Minha esposa, que eu considerava muito bela, acabou por falecer nos meus braços, na sua cama, com um malvado cancro nos intestinos, em 1991, mas tendo podido ajudá-la com dezenas de injecções, para que não sofresse .

Assim, eu ia vivendo com o resto de saúde que era possível ter, casei, tive 3 filhos lindos, muito feliz, mas sempre com dificuldades financeiras....

Verdade seja dita, que nunca lutei por ganhar dinheiro e já ficava muito feliz, quando ele dava para o dia a dia. Realmente, pode-se ser muito feliz, com pouco dinheiro...


Às tantas, o mesmo médico que me havia "empurrado" para a análise às glândulas supra-renais uns 4 anos antes, me pediu para ir repetir o mesmo exame que era feito em Lisboa e tem de ser feita em dois dias. Ou seja, por aquilo que eu já me tinha apercebido, no primeiro dia, punham-me às portas da morte e, no segundo, me injectavam extracto de supra-renais, ou coisa parecida, para me "ressuscitarem..."... Nunca soube o nome daquela malvada análise...

Mas passados aqueles 4 anos desta análise, ele, admirado de eu ainda estar vivo, me pede para repeti-la, ao que eu aproveitei para lhe perguntar: mas o Dr. nunca me disse o resultado dessa análise que me ia matando !!!...

Ao que ele respondeu que, com o resultado dela, "não conhecia ninguém que tivesse sobrevivido, mais de 6 meses "... e eu ainda estava vivo ! Hoje penso: ainda bem que ele não me disse aquilo, quando veio o resultado do exame, pois só de pensar que iria só viver 6 meses...teria morrido mesmo !

Mas o mesmo médico, o Dr. Duarte Silva, mais ou menos da minha idade, me havia dito que tomava 7 e 8 cafés por dia, enquanto eu lhe disse: se eu fizesse isso, já tinha morrido e até adiantei: Eu só posso tomar um café e de manhã, porque se for à noite...adeus sono, ao que ele respondeu que isso era mania minha, porque o café só fazia bem...

Como ele me apanhou a fumar um cigarrinho, ainda me disse que aquilo é que era um suissidio !

Embora ele fosse especialista em cardiologia, o que é certo é que um ano depois desta nossa conversa, ele agarrou um AVC e lá se foi...


E eu, tal como o tal velhinho que tinha levado 80 anos a morrer, cá continuei a viver e, mais, com vontade de fazer, pelo menos, os 83 anos...se não puder ser mais...

quarta-feira, 17 de junho de 2009

E NASCEU UM ROBOT DE NOME MIGUEL


Há mais de 30 anos, ainda os meus filhos eram garotos, e agora já estão todos com mais de 50 anos, um dia me apareceram em casa, e me traziam dois motores eléctricos de subir e descer os vidros de algum automóvel e a perguntar-me se aquilo teria alguma utilidade, para os meus engenhos. Uma coisa que sempre me apaixonou, foi descobrir utilidades diferentes para material considerado "sucata" e logo pensei em construir um "brinquedo" qualquer e dar-lhe movimento. Para dizer com franqueza, esta paixão de engenhar ou engenhocar coisas, daí o ENGENHOCANDO, nasceu e cresceu comigo... Como eu só poderia usá-los, em forma de um robot, para lhe dar aspecto humanoide, disse à rapaziada que teria de usar latas de óleo vazias e logo se prontificaram para as ir descobrir. Passada uma hora, já aqui tinha uma data de latas de litro, para os braços, outras tantas de galão para as pernas, uma de 50 litros para a barriga, e uma de 10 litros, de tinta, para a cabeça. Como estavam todos muito entusiasmados, pú-los a soldar as latas umas às outras, e como ficou com dois metros de altura, como um dos jovens, era muito grande, e se chamava Miguel, logo o baptizaram por este nome. Para os ver contentes, comecei logo a estudar a forma de por os motores em funcionamento, levantando e baixando os braços intermitentemente, abri-lhe uma grande bocarra, coloquei dois farolins verdes a fazer de olhos, mas aquilo estava muito morto...ou seja, faltava-me as palmadas para o ver "nascer"... Assim, com a ajuda de vário material de electrónica, lá usei um velho e pequeno gravador de fita magnética, um altifalante, e um sistema mecânico que lhe pusesse a bocarra a abrir e fechar, além dos olhos a piscar em verde. Para proteger da chuva, construi-lhe um chapéu metálico, tipo Tailandês. Assim, já tinha outra graça, embora não servisse para nada, a não ser para entreter as imensas crianças que me começaram a aparecer, em caravana, todas acompanhadas das suas monitoras, logo que se constou aqui na terra, que havia cá um robot que até falava.. e gesticulava. «Eu sou o robot de ferro e lata, mas não sirvo para nada...» Como aquilo era alimentado por uma bateria de automóvel e tinha um elevado consumo, acabou por ficar abandonado a um canto da garagem.
Mas um certo dia, anos mais tarde, estava eu a transmitir e receber TV pelo meu rádio, para qualquer parte do Mundo, novo sistema de rádio nessa altura e conhecido por SSTV, quando vejo aparecer a chamar-me, um colega da Suiça e mostrava no seu cartão de visita, (QSL) um robot enorme ! Mas não era feito de latas e latinhas... Aquilo estava feito a plástico e também era com uns 2 metros de altura ! De imediato arrancámos a falar sobre aquele interessante projecto, mas que o suiço havia mostrado numa exposição e o entusiasmo havia sido tal, que teve de continuar a vida, a construí-los cada vez mais complexos e já assistidos por electrónica com muita informática e espalhados por todo o Mundo.


Nessa altura, eu já havia construído um braço-robot que era comandado por um microprocessador, só por curiosidade e até era muito giro de programar e ver funcionar sozinho, embora também não servisse para nada.
Ele podia rodar, levantar o braço, agarrar qualquer coisa, e ir largá-la onde se desejasse.



Fiquei marado, até porque eu já dominava muitas coisas de informática e mecânica, mas como nunca estive ligado à agricultura, o assunto ficou ali parado, anos e anos.


O meu amigo Prof. Nogueira, do blog wwwnovas.blogspot.com, está aqui "de conversa" com o segundo robot, o Miguel.



Os anos rodaram e aparece a Internet e os Blogs. Assim, vai de abrir um Blog e começar a descrever imensos assuntos e experiências da minha vida, até que fui informado de que havia um blog duma senhora portuguesa, lá para os lados de Viseu, de nome Ana Ramon, e que falava de meu assassinado irmão, Carlos Mar Bettencourt Faria, dono e construtor do Observatório da Mulemba, que havia conhecido ainda em solteira, com muito carinho. De imediato dei lá um salto ao blog e me apresentei. Ela nem sabia da minha existência... Tratava-se do http://www.apaixaodossentidos.blogspot.com/ .





(Aqui está ela na sua visita a Benavente, ha poucos dias)






De imediato, ela respondeu e nunca mais deixámos de contactar quase diariamente. É raro o dia em que ela não me conte novidades das suas experiências, sempre descritas de forma imponente ! É uma mulher extraordinária, de habilidade e curiosidade científica ! É uma mulher RARA ! Foi aí que ela me falou dos seus problemas com os bandos de pássaros, os corvos, que lhe faziam enormes prejuízos na agricultura e eu me lembrei do velho robot "Miguel", que lhe poderia oferecer, mas ele não estava em condições de ficar à chuva, vento, e Sol . Mas ela se mostrou imensamente interessada em o comprar...e que eu dissesse quanto custava. Obviamente que seria uma simples oferta, mas que vivendo ela a mais de 300 Km da minha vila, ela teria de arranjar forma de o vir buscar. Claro que quase tudo havia de ser alterado, porque até a tecnologia se havia alterado imenso e já se podia gravar e reproduzir som, sem fita magnética (digitalmente) e vai de pensar em executar as alterações necessárias, para que ele pudesse durar muitos meses. Mas será que dura ? Mas não era só o Miguel que estava velho...eu também e as alterações a fazer, demoraram muito mais tempo do que eu queria, mas finalmente, ela com o marido e um filho, cá vieram para o transportar. Assim, ele já está na sua quinta, e provavelmente, ela se referirá ao seu uso e comportamento, nalguma crónica do seu magnífico blog. Mas tenho pena de só agora, em que tão pouco tempo tenho de vida, já não poder recomeçar este projecto de novo, para lhe aplicar tantas e tantas ideias que tenho na cabeça...


terça-feira, 21 de abril de 2009

E só faltava um pouco de música


Naquele dia em que a gerência da empresa onde eu trabalhava há muitos anos, a Rádio Free Europe, desejou oferecer um almoço à entidade máxima que estava a visitar Portugal, foram convidados todos os chefes de Serviço e suas esposas.
Como eu estava nessa altura, a chefiar a técnica do Centro de Recepção, também fui convidado e lá fomos todos para uma grande sala em Lisboa, onde haviam colocado uma data de mesas em linha, e às tantas, lá começou o grande almoço e muita conversa entre toda a gente.
Aquilo até estava interessante, mas como eram vários pratos, o almoço nunca mais acabava e às tantas, com toda a gente satisfeita, comecei a ver um certo enjoo e até alguns bocejos mal disfarçados, tanto dos homens como das mulheres…
É certo que a chefia continuava de amena conversa, mas como era muita gente, a maioria de nós não ouvia nada do que eles estavam a falar e nem nos podíamos levantar da mesa… tinhamos mesmo de aguentar…até a chefia dar por fim aquele imenso almoço e começarem as despedidas…
A um lado da enorme sala, havia um estrado onde se encontrava um belo piano e uma bateria, mas o silêncio era tal, que mais parecia um dia de velório…
Aquilo estava mesmo chato de aturar !
Aí lembrei-me que talvez não fosse uma grande asneira, ir tocar em surdina, umas músicas românticas e muito baixinho, e lá me aventurei e fui.
Naquela altura, eu sabia de cor, tocar uma data de músicas românticas, de ouvido, em especial brasileiras, como algumas da Maysa Matarazo, como aquele “Hoje eu quero a rosa mais linda que houver…”, ou “Ninguém me ama..:”, ou “Meu mundo caiu “, ou “Besame Mucho”, “Eu não existo sem você”, etc. e carregando no pedal da surdina, além de muito baixinho, comecei a tocar aquelas minhas músicas favoritas.
Eram slows, valsas, tangos, foxes, mas mal comecei a tocar, vejo subir para aquele palco, um jovem que se sentou na bateria e começou a fazer-lhe “festas”, fazendo ritmo que me vinha ajudar e bem. Até parecia que eu sabia de música…
Mal sabia aquela malta, que eu só tocava em tom de Fá maior e menor… e até ouvia muitas senhoras a cantarolar baixinho aquelas músicas tão em voga naquela altura…

As músicas entravam umas a seguir às outras, brincando com o teclado e arrancando dele os meus melhores sons. Aquilo era uma delícia !
Sentado ao piano, eu ficava de costas para a grande sala, mas às tantas, pareceu-me ouvir um sussurro nas minhas costas e quando olhei, fiquei pasmado, pois todos os casais da nossa mesa e de outras, se tinham levantado e estavam a dançar …
Tendo ficado muito mais a-vontade, tirei o pé esquerdo da surdina e levantei mais o som, sendo seguido de imensas palmas, de que não estava nada à espera…
Aquele “fim de festa”, até parece que acabou em grande, com tanta alegria de todos aqueles casais já cansados de esperar pelo seu fim e tudo acabou em bem. Realmente, até parecia que toda a gente estava à espera de um pouco de música...