terça-feira, 21 de abril de 2009

E só faltava um pouco de música


Naquele dia em que a gerência da empresa onde eu trabalhava há muitos anos, a Rádio Free Europe, desejou oferecer um almoço à entidade máxima que estava a visitar Portugal, foram convidados todos os chefes de Serviço e suas esposas.
Como eu estava nessa altura, a chefiar a técnica do Centro de Recepção, também fui convidado e lá fomos todos para uma grande sala em Lisboa, onde haviam colocado uma data de mesas em linha, e às tantas, lá começou o grande almoço e muita conversa entre toda a gente.
Aquilo até estava interessante, mas como eram vários pratos, o almoço nunca mais acabava e às tantas, com toda a gente satisfeita, comecei a ver um certo enjoo e até alguns bocejos mal disfarçados, tanto dos homens como das mulheres…
É certo que a chefia continuava de amena conversa, mas como era muita gente, a maioria de nós não ouvia nada do que eles estavam a falar e nem nos podíamos levantar da mesa… tinhamos mesmo de aguentar…até a chefia dar por fim aquele imenso almoço e começarem as despedidas…
A um lado da enorme sala, havia um estrado onde se encontrava um belo piano e uma bateria, mas o silêncio era tal, que mais parecia um dia de velório…
Aquilo estava mesmo chato de aturar !
Aí lembrei-me que talvez não fosse uma grande asneira, ir tocar em surdina, umas músicas românticas e muito baixinho, e lá me aventurei e fui.
Naquela altura, eu sabia de cor, tocar uma data de músicas românticas, de ouvido, em especial brasileiras, como algumas da Maysa Matarazo, como aquele “Hoje eu quero a rosa mais linda que houver…”, ou “Ninguém me ama..:”, ou “Meu mundo caiu “, ou “Besame Mucho”, “Eu não existo sem você”, etc. e carregando no pedal da surdina, além de muito baixinho, comecei a tocar aquelas minhas músicas favoritas.
Eram slows, valsas, tangos, foxes, mas mal comecei a tocar, vejo subir para aquele palco, um jovem que se sentou na bateria e começou a fazer-lhe “festas”, fazendo ritmo que me vinha ajudar e bem. Até parecia que eu sabia de música…
Mal sabia aquela malta, que eu só tocava em tom de Fá maior e menor… e até ouvia muitas senhoras a cantarolar baixinho aquelas músicas tão em voga naquela altura…

As músicas entravam umas a seguir às outras, brincando com o teclado e arrancando dele os meus melhores sons. Aquilo era uma delícia !
Sentado ao piano, eu ficava de costas para a grande sala, mas às tantas, pareceu-me ouvir um sussurro nas minhas costas e quando olhei, fiquei pasmado, pois todos os casais da nossa mesa e de outras, se tinham levantado e estavam a dançar …
Tendo ficado muito mais a-vontade, tirei o pé esquerdo da surdina e levantei mais o som, sendo seguido de imensas palmas, de que não estava nada à espera…
Aquele “fim de festa”, até parece que acabou em grande, com tanta alegria de todos aqueles casais já cansados de esperar pelo seu fim e tudo acabou em bem. Realmente, até parecia que toda a gente estava à espera de um pouco de música...

quarta-feira, 25 de março de 2009

MEU AMIGO ARCÍLIO COSTA



Arcilio Costa, é um amigo que conservo há mais de 50 anos, desde Maio de 1951, e nunca tivemos um amargo de boca, uma ausência de carinho.
Desde que o conheci via rádio, na banda dos 40 metros, logo descobri uma pessoa invulgar, daquelas em que gostamos de “tropeçar” pela nossa vida, talvez por sentirmos que é GRANDE e, em muitas situações, maiores do que nós, daquelas pessoas a que hoje se chama, “amigo do peito”.
O radioamadorismo, é uma espécie do que hoje chamamos de “Blog”, onde conhecemos imensas pessoas, anos e anos, mas agora, com a grande facilidade de as podermos conhecer por fotografias, imagens e som.
O seu indicativo oficial, era CT1MI e a sua actividade radioamadorística, permitiu-lhe mais tarde, vir a conhecer perfeitamente, toda a aparelhagem electrónica da aviação, que estava a aparecer no mercado e a ensinar aos novos pilotos, como toda ela funcionava, para poder voar muito acima das nuvens, noite e dia.
Toda a gente queria que fosse ele o seu piloto de instrução, porque sabia da sua capacidade imensa de ensinar.
Quando usando a rádio, não se pode fazer a mais pequena ideia de quem está “do outro lado” e esta situação, muitas vezes, nos leva a grandes desaires, quando nos conhecemos pessoalmente… porque encontramos pessoas muito diferentes do que levámos anos a imaginar…
Mas há 50 anos, quando só se podia ouvir a sua voz, podíamos conversar horas e horas, sobre o que estávamos a fazer e o que havíamos feito, e podíamos comentar toda a nossa vida, desde a infância, à adolescência, os azares e grandes alegrias da vida, as nossas aventuras e desventuras, com a complacência dos Serviços de Escuta Oficiais da DSR, Direcção dos Serviços de Radiocomunicações..
Tanto podíamos ter uma vida muito desafogada, como cheia de dificuldades e em cada dia podíamos descobrir um assunto para conversar, uma experiência nova para fazer.
Assim viemos a descobrir infâncias um tanto difíceis, mas tão semelhantes, que até parecíamos irmãos.
Uma vontade insaciável de fazer experiências e arcarmos com as responsabilidades dos nossos, às vezes, incríveis projectos.
Ele, na sua adolescência, também se entusiasmou pela aviação e de tal forma que em algum tempo, havia evoluído até à instrução de novos pilotos, e aprendido a voar em imensas máquinas, praticamente todos os modelos ligeiros, existentes em Portugal.
Não havia avião que fosse autorizado a voar, sem ter passado pelas suas mãos e corrigido de algum defeito existente e perigoso. Era um autêntico “piloto de teste” e tinha de conhecer a fundo todos os defeitos e qualidades de cada avião, para auxiliar nas suas correcções e novos voos de ensaio, até ficar satisfeito. E, quando os aviões tinham de ser levados para a manutenção em Alverca, era ele que os transportava pelo ar e os experimentava antes da volta.
Em 1961, entusiasmei-me imenso pelos AUTOGIROS, aparelhos voadores de asas rotativas e desejava fazer os primeiros ensaios, a reboque de um automóvel.
Como ele já era um sábio na pilotagem dos pequenos aviões ligeiros assim como do reboque de planadores, sabia bem do perigo em que eu me iria meter, e veio de Oliveira de Azeméis, a 200 Km de distância, propositadamente para me rebocar de carro e conhecer o autogiro. Segundo a sua grande experiência, sabia que ia ser necessário uma série de corridas, até descobrir a velocidade a que o automóvel teria de andar, para se criar a sustentação ideal.
E assim foi feito, mas o rotor de sustentação, é que não ganhava a rotação suficiente, e teve que se fazer outra corrida um pouco mais rápida e muito constante.
A certa altura, as 360 rotações necessárias (RPM) aconteceram e o aparelho descolou muito suavemente, enquanto provocava um “zip-zip-zip” da corrente de ar no rotor e lá fui eu pendurado “naquela coisa”, a cerca de um metro de altura! Estava a voar e a comandar a minha máquina! Era a primeira máquina deste género, existente em Portugal.


Mas como a pista se estava a acabar e eu ainda nem sabia que para ir mais alto, teria de aumentar a velocidade, assim que tentei fazê-lo, exagerei tanto a inclinação nos comandos, que o grande rotor de 9 metros de diâmetro, acabou por tocar no solo, à minha retaguarda, e como se danificou, tive de fazer uma aterragem forçada, mas com tanta violência que se partiu o trem de aterragem e dei uma cambalhota batendo com a cabeça no chão e ficando completamente cego, embora consciente. Eu queria falar, mas não saía som nenhum… estava a ouvir tudo o que se passava à minha volta, mas não podia dizer que estava vivo e nem um dedo conseguia mover…
Então, depois dum grande esforço para fazer qualquer som, lá saiu um gemido e o Arcilio, ajudado por várias pessoas que logo apareceram, puseram-me em pé, perante o alvoroço dos presentes, que gritaram ao mesmo tempo: - Ele está vivo!. Como não conseguia ver nada, pedi-lhes para me tirarem a terra que devia ter nos olhos, mas eles responderam que não viam terra nenhuma e foi aí que pensei que
estava completamente cego ou que tivesse partido a coluna!
Foi realmente um momento de pânico, porque estava casado há pouco tempo e o que seria da minha vida, se tivesse ficado cego… mas muito lentamente, e amparado pelas pessoas para não cair, fui recuperando a visão e tudo voltou ao normal.

Mas tinha sido uma experiência inolvidável ! Tinha valido a pena !
Um camionista que se apercebeu do acidente, veio de imediato com ajudantes e colocaram os restos do meu autogiro, em cima do camião.
Quarenta anos depois deste acontecimento, um grande amigo meu, que já estava a voar em autogiro MAGNI, um lindíssimo aparelho comercial e nele acompanhou a volta aérea a Portugal, concedeu-me a alegria de voltar a voar naquela estranha mas lindíssim máquina.
Há poucos anos, e dada a sua curiosidade pela aviação, consegui que ele fosse experimentá-lo pela primeira vez, por convite do meu amigo Dr. Joaquim Figueiredo, dono e piloto do autogiro que tanta confusão lhe estava a fazer.


Eu e o meu amigo Arcílio, ambos amantes de tudo o que fosse científico, até entrámos pela medicina e construído aparelhos para tratamento de dores e inflamações, cada um com suas soluções . Embora ainda hoje defendamos pontos de vista diferentes !

Ele constrói tudo com muita perfeição, nem que seja pelo gozo de as estudar, construir, afinar e experimentar. Até os painéis são construídos por ele !
Como profissional exigente, percorreu o mundo de ponta a ponta, dos EUA ao Japão, para conseguir os melhores contratos e isso levou-o à Direcção Técnica de várias empresas, embora mantendo a pilotagem dos aviões.
Hoje vive da sua reforma, sempre muito distraído com tecnologias diferentes, com muito acesso aos computadores e usando o MSN que nos tem proporcionado imensas horas de contacto visual, embora nem sempre de acordo, como já é nosso velho habito.
Infelizmente, como a mim aconteceu também, perdeu a sua amada esposa, que lhe deixou 3 filhos muito amigos, que lhe vão emoldurando a vida, tal como a mim.
Com a sua enorme capacidade de realização, construiu uma belíssima auto-caravana, com tudo o que há de mais moderno, incluindo TV de satélite, HI-FI, painéis solares para recarga de baterias, frigorífico, etc, passando imensas horas rodando pelo país maravilhoso que temos, para não se deixar envelhecer e enferrujar, embora já esteja com um pouco mais de 70 anos...
Desculpa-me, Arcílio, o ter-te vindo “despir” um pouco em público, mas se o não fizesse hoje, talvez amanhã já fosse tarde.


E DEU -LHE O NOME DE CAMILA


Quando a minha amiga Ana Bela, mais conhecida na NET, por Ana Ramon, me disse que havia dado o nome de Camila, à sua linda cadelinha Serra da Estrela, que o seu empregado Sebastião lhe havia ofertado, até senti um baque no coração ! Mas como aquele minúsculo animal, iria ser mais uma preocupação para ela, não achou graça nenhuma à oferta... Só que Camila era a meiguice "em pessoa" e logo se afeiçoou à sua dona, só pedindo carinhos, o que tocou fundo no seu coração. Felizmente que os outros cães a aceitaram muito bem, embora sentisse a necessidade de se refugiar no colo da dona, mal eles se aproximavam...
Como a Ana tem na sua quinta, muitas ovelhas que tem de guardar e pôr a pastar, ainda não havia encontrado aquela raça de cão, que consiga acompanhar o rebanho, sem lhe fazer mal. Aquilo é um problema complicado, porque os seu cães de guarda, atiram-se aos recem nascidos e matam-nos. Tinha de ser um cão que desde pequenino, conseguisse dormir junto delas, para as considerar como "irmãs" a quem defender, embora tenha de ser bem ensinado...



Quando eu estava muito doente num sanatório do Caramulo, mas já me encontrava na linha dos curados, apareceu por lá um conjunto musical muito simpático, em que a estrela era uma linda garota de nome Camila.
Aquele pequeno conjunto de 3 artistas, em que os irmãos tocavam maravilhosamente viola a acompanhá-la e em que o mais virtuoso era canhoto tendo o braço da sua viola à direita, enquanto o outro irmão, que era destro o tinha à esquerda.
Assim a Camila, ficava ao meio, vestida de sevilhana, tecido de cetim azul, cantando lindamente em espanhol e rodopiando enquanto tocava as castanholas, com uma linda rosa vermelha agarrada ao cabelo.
Aquela visão duma tão jovem alourada, deu-me volta ao miolo…
Eu nunca havia estado perto duma “espanhola" tão linda, de pele acetinada, e que pronunciava tão distintamente o espanhol , como as que eu ouvia na rádio!
Dentro de toda a assistência, eu era o mais novo e fiquei mesmo à frente, a cerca de uns dois metros deles, porque não havia palco. Era uma sala normal de recreio.
Talvez já fosse hábito dela, afastar-se dos irmãos e vir cantar muito perto da assistência que a seguia hipnotizada.
No meu caso, ela quase que me tocava com o seu nariz no meu !!! Aquilo era bom DEMAIS… até porque tínhamos a mesma idade, e ambos solteiros.
Naquele tempo, ainda não havia televisão e os artistas tinham de andar sempre de terra em terra, à procura dos seus ouvintes. Era pois uma vida extremamente dura e mal paga , pelo que eles tinham muita dificuldade em sobreviver, até porque ela era todo o amparo da sua mãe, que estava cega.
Talvez por isso, a “minha Camila" adoeceu dos pulmões, mas como estava de visita ao Caramulo, logo foi vista e tratada pelos simpáticos médicos, e passado poucos meses, já estava a caminho da sua cura.
Como eu já estava curado, ainda a fui visitar ao seu sanatório, Senhora da Saúde, e conversar com ela muitas vezes, pelo que ela ficou a saber de toda a minha vida, também muito difícil e cheia de solidão.
Mas como eu não queria, de forma alguma, recair, nem um beijo lhe podia dar !
Entretanto, já curado, tive de a deixar lá, à procura da sua convalescença, e fui para Lisboa, sempre com aquela fisionomia na ideia. E pensava: será que ela se cura ? Será que ainda está viva ?
Eu não lhe podia oferecer nada, mesmo nada, a não ser aquela adoração.
Passados uns 10 anos, já com os meus 24 anos, casei-me e já tinha os meus 3 filhos miúdos, quando, já empregado numa firma americana, fui fazer umas férias a Albufeira, no Algarve e no meio daquela grande confusão da chegada das pessoas, vou dar de caras com ela, também já casada e com filhotes.
Ela estava tal e qual a havia conhecido, embora com roupa simples, de passeio, mas era o mesmo sorriso, aquela meiguice de olhar e sorrir, aquele falar baixinho que não fazia adivinhar a linda voz que ela tinha ao cantar !
De imediato a apresentei à minha esposa que também simpatizou imenso com ela, e se fizeram grandes amigas, nunca mais se separando durante aquelas férias.
Ela tinha-se casado com um rapaz, também doente num sanatório, que não a queria mais ver a cantar e a ter de correr meio mundo, para conseguir sobreviver. Assim, o seu casamento foi feito com a condição dela largar a vida artística, e estava agora, só a fazer a vida de qualquer dona de casa.



Nesta foto, está ela com uma mão debaixo do queixo, enquanto a minha esposa se entretinha sempre com as suas rendas e um olho na garotada.
Quem ficou a perder, foram os irmãos, que não conseguiram adaptar-se a outros conjuntos musicais muito barulhentos, e nem me lembro de que viveriam, agora sem a sua estrelinha, no meio deles.


E agora, viúvo e solitário, fico a pensar se ela ainda estará viva e livre... ERA BOM DEMAIS

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

E a criança mal podia respirar


Como estudioso de electrónica, desde há imensos anos, e sendo um radioamador, com indicativo oficial, CT1DT, tinha de estar muitas vezes empoleirado no telhado da minha casa, a montar e estudar o comportamento de antenas.
Para ter muitos contactos com os outros colegas radioamadores, eu sempre usei a banda dos 40 metros, ou sejam 7 MHz. banda muito útil para quase todas as horas do dia e noite

Um certo dia, apareceram-me umas dores no pescoço, muito incómodas, um torcicolo, e que não me deixavam voltar a cabeça para lado algum... mas como estava a estudar um circuito eléctrico numa placa do tamanho de um vulgar cheque de banco, e ao tentar ajustar a sua ressonância, escolhi um sítio isolado no meu corpo, uma perna, mas quando o circuito começava a aproximar-se do que eu procurava, a perna começava a aquecer e eu já estava a usar uma baixíssima potência do emissor, o que me fez enorme confusão, até porque já tinha lido muita coisa sobre diatermia, mas a medicina só usava potências enormes, da ordem dos 100 e mais Watts !
Como diabo tão minúscula potência, me estava a amornar a perna ?


Dada a minha torturante dor do pescoço, lembrei-me de a colocar no sítio onde me doía, metida dentro duma capa de cheques, e ali fiquei, feito parvo, à espera de ver o que estaria a acontecer, mas ao fim de 5 minutos, já farto de estar naquela posição, retirei-a, mas as dores haviam desaparecido ! Aquilo até parecia magia !
Chamei a minha esposa que, há muitos dias, tinha umas dores na coluna, devido a uns esforços que havia feito e perguntei-lhe se gostaria de experimentar "a coisa", pelo que ela, muito admirada de me ver já sem as dores no pescoço, logo se prontificou e se sentou ali ao meu lado, e eu coloquei a placa na zona sacro-ilíaca, entre as cuecas e a coluna, durante uns 15 minutos.
Qual não foi o nosso espanto, quando ela se refere a que as dores tinham desaparecido por completo e até levou as mãos ao chão, dobrando-se pela cintura, para me mostrar que o podia fazer agora, e sem dores...

Este assunto tão interessante, levou-me novamente à leitura de várias obras sobre as Ondas Curtas na Medicina, que possuo, todas em espanhol, mas em todos os aparelhos, eles usavam dois eléctrodos, enquanto eu só usava UM.. Ou seja eles usavam bipolaridade, enquanto eu estava a usar unipolaridade, além de minúscula potência...

Certo dia, uma vizinha me bateu à porta e trazia um livro de capa encarnada na mão e me disse:
"O Sr. Portugal, que muitas vezes vejo em cima do telhado com as suas antenas, e a trabalhar com ondas de radio, vejo aqui escrito que, para a sinusite, coisa que me atormenta há imenso tempo, eles dizem que as ondas de radio funcionam muito bem", e acrescentou: "O Sr. podia aplicar-me essas suas ondas de radio ? "

Como eu já tinha feito os ensaios comigo mesmo e com a minha esposa, prontifiquei-me a fazer mais um ensaio com a Placa, tendo o cuidado de lhe solicitar que mal ela sentisse um ligeiro amornamento, me dissesse, para eu ainda poder baixar mais a potência do gerador de radiofrequência, o meu emissor das telecomunicações.

Ao fim de 15 minutos, quando lhe retirei a Placa da testa, ela logo me disse: "Eu já sou outra e até respiro com muita facilidade e já nem tenho as dores de cabeça nem os olhos a chorar, nem o nariz a pingar..."
Aquilo era bom demais, mas indiquei-lhe que devia voltar no dia seguinte, para fazer mais uma sessão.
Realmente ela apareceu, mas já sem qualquer sofrimento, e dizendo que por estar tão bem, talvez já nem necessitasse de mais.
São passados muitos anos, pois isto ocorreu em 1980, e como encontro muitas vezes esta vizinha, sempre lhe pergunto como está, e a resposta é sempre a mesma : "Como nova".

Foi por esta altura, que estando de visita a um campo de aviação, vim a conhecer um jovem dentista que estava a aprender, como eu, a pilotar um avião ligeiro ULM QuickSilver. Era casado com uma médica, que estava presente e dum miúdo muito simpático, o Joãozinho, mas com aspecto muito triste...

"Mas você quer ver-se livre dessa teimosa sinusite, com duas sessões ?" - perguntei-lhe eu.
Como ele estava sempre com corrimento do nariz, e dores de cabeça, bem localizadas na testa, o que era péssimo para o seu oficio, dado estar sempre a necessitar das duas mãos, aceitou e nesse mesmo dia, que era sábado, ele me apareceu com a esposa e o miúdo.
Os médicos, normalmente, não querem nem por nada ouvir falar de medicinas alternativas, e a doutora ali estava ao meu lado, a assistir ao tratamento do marido, mas eu reparei que o miúdo estava com grande dificuldade em respirar... quase só lhe faltava chorar... muito quieto e calado... cheio de medo...
E vai daí, perguntei-lhe: "Mas esta criança está mesmo com falta de ar!?", ao que ela me respondeu que era um martírio, pois tinha de estar sempre com uma "bomba" à mão e muitas vezes haviam ido a um hospital, às tantas da madrugada, quando os ataques de falta de ar aumentavam, para lhe darem oxigénio...
"E pior" , acrescentou ela, "é que não vemos forma de resolver este problema".

Como sempre gostei muito de medicina e acompanhado meu avô médico, logo desde miúdo, como já tenho contado várias vezes neste blog, perguntei à Dra. "A senhora permite-me que o ausculte ?"
Embora com ar de muito admirada, e testa franzida, ainda me perguntou : "Mas o Sr. também sabe auscultar ?"
Logo agarrei num dos estetoscópios que sempre tenho em casa, para medir a minha tensão arterial.

Mas para meu espanto, ao ouvir o pulmão direito do garoto, onde podia ouvir a entrada e saída de ar, perfeitamente, no esquerdo, era silêncio total ! Não havia daquela criança estar tão aflita!
E entregando o estetoscópio à doutora convidei-a para repetir as minhas medidas e ela logo confirmou que realmente aquele pulmão parecia parado...
Perguntei-lhe: " Permite-me que lhe aplique uns 2 W de ondas de radio e só dois minutos ?", ao que ela respondeu que não via qualquer problema nisso e assim apliquei a Placa.
O pai do miúdo já tinha feito a sua sessão e já se sentia "desentupido" e aliviado, quando se foram embora, mas eu fiquei desejoso de ver o como o miúdo se iria mostrar no dia seguinte, pois era Domingo e era uma experiência com uma criança de tenra idade.

E assim aconteceu, voltando os três, no dia seguinte para uma segunda sessão do pai, embora estranhando muito o comportamento de calma do miúdo, já sem qualquer amostra de falta de ar, mas como os seus pais nada diziam, acabei por ir buscar o estetoscópio e vai de auscultar novamente o miúdo, já ouvindo lindamente o ar a entrar naquele pulmão esquerdo do garoto, agora activo uns 80 a 90 %. e voltei a entregar o estetoscópio à mãe para ela ver a diferença.
Aí perguntei-lhe: "Mas o miúdo tinha tido necessidade da "bomba" desde aquela sessão da véspera ?" ao que ela respondeu que não só não a havia pedido e até tinha levado o resto da tarde e todo o dia seguinte, em correria e alegria pela casa, coisa que há muitos meses ele não poderia fazer, com ataques de falta de ar.
Ainda lhe pedi um raio-x daquele minúsculo tórax, mas embora a mãe me dissesse que traria no dia seguinte, por qualquer motivo, que ainda hoje desconheço, não trouxe.

Tive de esperar uns 5 anos, porque não tinha a sua direcção nem telefone, até a voltar a encontrar em consultas, noutra terra, e mesmo pelo telefone, lhe perguntei pelo miúdo, ao que ela me respondeu que nunca mais tinha tido falta de ar, havia crescido imenso, era muito bom aluno e até fazia desporto, sem se cansar. Estava curado !

O entusiasmo pela diatermia feita com os pequenos emissores dos radioamadores, foi tal, que me obrigou a ter de construir mais de 400 Placas... mas ao chegar aos meus 80 anos, acabou-se a paciência e nunca mais construi nenhuma.

Entretanto, e durante todos estes anos, vários médicos me apareceram para experimentar a Placa neles ou em familiares e sempre com magníficos resultados.
Ainda hoje, sempre que o meu pulmão esquerdo começa a piar e a dar-me tosse, lá vão alguns minutos sobre a clavícula desse lado, e fico sem pieira, durante uma data de dias.

Vai uma pessoa entender estas coisas...

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Meu amigo João Pereira


Todos nós temos pessoas que se cruzam na nossa vida e há algumas que sobressaem por algo nos dizerem muito de especial. João Rodrigues Pereira, foi em deles.

Ele tinha uma figura interessante e até se parecia muito com o actor de cinema americano Clark Gable.
Quando adoeci dos pulmões, em 1945, fui encontrá-lo e conhecer, no sanatório CENTRAL do Caramulo, lá para os lados de Tondela, e ele tinha tuberculose num rim.
Felizmente que ele já estava em estado de cura e logo que me aconteceu o mesmo, nos colocaram na mesma mesa da sala de jantar, onde já estavam dois técnicos dos CTT, o Mário Martins, e o José Fonseca.

Naquela sala enorme, havia gente de todas as idades e profissões, mas eu era o mais novo.
Talvez por eu ser uma pessoa muito extrovertida, logo chamei a atenção de alguns outros doentes, uns em melhor estado do que eu, e outros bem pior.

Uma coisa de que eu gostava muito de fazer, era caricaturas e havia ali, naquela malta toda, imensas para fazer. Assim escolhi o que tinha uma cara mais fácil de caricaturar, o que os meus colegas da mesa, acharam imensa graça, porque estava mesmo parecida...

Como o meu amigo João Pereira, tinha muita habilidade para escrever versos, logo iniciámos uma página que era colocada no painel da sala de jogos, com os seus versos e as minhas caricaturas.

Este meu amigo João Pereira, era engenheiro Geógrafo, e toda aquela malta era casada, mas vivendo muito afastados das suas familias. Só eu era ainda solteiro.


Nas mesas mais próximas, estavam também doentes, médicos como o Dr. Amaro da Silva Rosa, o desenhador Alvaro Caffer e Reno, e muitos outros, pintores, caixeiros viajantes, professores e sei lá, quantas mais profissões.

Logo a seguir`ao almoço, onde nos tínhamos de apresentar de camisa, casaco e gravata, havia um espaço de tempo de quase uma hora, antes de termos de ir fazer as CURAS, em que todos tínhamos de estar deitados numas camas estreitas de ferro, num alpendre, a apanhar os belos ares da montanha, sem nos deixarmos dormir e sem falar.

Neste período de pausa entre o almoço e a CURA, o meu enorme quarto de dormir, era "Invadido" por estes amigos, embora fossem só uma meia dúzia dos mais selectos, mas como todos fumavam, quando dali saiam, era tanto o fumo, que eu tinha de abrir as janelas, para ele sair...

Cada um falava das suas coisas, das saudades das esposas e filhos e se contavam anedotas, quase sempre bem picantes...

Toda a outra malta se juntava numa sala de jogos no outro extremo do andar, a jogar as cartas ou o dominó.

Talvez, e não sei porquê, eu havia ficado no centro daqueles encontros mais ou menos ruidosos, mas também é certo de que era o maior quarto daquele sanatório, porque se havia curado o meu companheiro de quarto, o Isolino, e assim, eu estava com mais espaço disponível.


Foi na época da foto que encabeça esta crónica, que me entusiasmei em construir uma estação de rádio "pirata", muito pequena e sem conhecer nada de eletrônica, que a construi e pus a funcionar, mas os seus 2 ou 3 Watts, chegavam a quase todos os outros sanatorios.

Naquele tempo, nenhuma outra rádio lá chegava, e depois das CURAS, eu ainda tinha uma hora disponível, para irradiar o meu radio. Depois entrava a funcionar o Radio Polo Norte, também montado no Caramulo, por outro meu amigo, o Joaquim Seabra.

Como no inverno, todos andávamos de fortes capotes pretos, mais parecíamos uns pinguins e daí o ter dado o nome de Radio Clube dos Pinguins, (RCP) à estaçãozinha de rádio.

Como a energia eléctrica era fornecida por um grande gerador, à noite, a luz ficava tão fraca, que nenhuma telefonia conseguia tocar, mas como eu havia construído um elevador de tensão, já tinha energia para um rádio, e lá vinha aquela malta toda para o meu quarto, para ouvir as noticias, os discursos políticos, as rádio-novelas, a música e...fumar.

Como ele não tinha filhos, vivia com uma pena imensa das crianças doentes e internadas do SANATORIO INFANTIL, ali mesmo atrás da Ermida e que era controlado por freiras, até porque havia crianças de colo e todas cheias de saudade dos seus pais. Aquilo fazia mesmo pena !

Um dia, em que havia adquirido um pequeno projector de cinema de manivela, ele me perguntou: E se mandássemos vir uns filmes de desenhos animados, para entreter os miúdos?

Aquela ideia também me apaixonou e começámos a fazer peditórios destinados aquele fim, por todos os sanatorios, pelo que se conseguiu o dinheiro suficiente para mandar vir os filmes, e comprar uns pacotes de rebuçados, para entregar aos miúdos mais disciplinados...

Logo que chegavam os filmes, lá agarrava eu num tripé com o projector de 9,5mm, enquanto o João Pereira levava os filmes e os pacotes de rebuçados.

A criançada ficava louca de alegria e nós os dois também.

Depois de nos termos separado, porque ele se veio embora e curado, ainda lhe escrevi a dizer que estava a viver em Benavente, e ele me havia contado que estava a trabalhar nas medidas da Barragem do Alqueiva, em pleno Alentejo.

Não me lembro porquê, mas às tantas perdemos o contacto um do outro e ele até pensou que eu tivesse morrido.

Mas um dia em que um casal de Benavente, onde eu vivia, estava de férias no Alentejo, e no mesmo hotel do meu amigo, ele ouviu falar do meu nome e logo desejou fazer referência à minha pessoa, com ar muito contristado, por julgar que eu já não existisse, mas logo foi informado de que me conheciam perfeitamente e que já tinha casado com uma linda ribatejana e tinha 3 filhos !
De imediato me apareceu de visita, acompanhado da sua esposa, a D. Carlota, e tendo passado a viver em Samora Correia, a 6 Km de Benavente, agora empregado na Companhia das Lezirias.



E vivemos mais alguns anos, imensos fins de semana, até que ele começou a ter muita dificuldade de andar e vim a saber depois, que ele havia falecido de Parkison.

Entretanto, este tão grande amigo, de há mais de 50 anos, nunca mais esqueci e dele me recordo imensas vezes, com imensa saudade.