quinta-feira, 10 de setembro de 2009

E LEVEI A VIDA A BRINCAR





Crónica nº.107 de 11 de Setembro de 2009


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" E LEVEI A VIDA A BRINCAR "
(Î)
(Nota: Como vou ter de inserir muitas fotos, resolvi dividir esta crónica em várias partes.)

Quando se chega acima dos 80 anos, e se se teve uma vida muito cheia de vivência de muitos assuntos diferentes, e se se fizeram algumas fotografias, chega a parecer impossível que se tenha feito tanta coisa... mesmo que a maioria tenha sido como brincadeira.
Na verdade, quando se ama o que estamos a fazer, e foi o meu caso, tanto podem ser assuntos de amador como profissional. Por isso, intitulei esta crónica de "E levei a vida a brincar", embora mais de 35 anos, como profissional de electrónica, numa empresa americana, a RARET.

Mas olhando bem ao longe, acabo por verificar que pertenço a uma família muito especial e digna de alguma referência, até para entender o porquê de tanto eu como meu irmão Carlos Mar Bettencourt Faria, termos levado umas vidas um tanto especiais...

Me perdoe o leitor o não ir directo ao assunto, mas um meu grande amigo actual, um dia me perguntou onde eu e meu irmão, teriamos ido buscar este tremendo entusiasmo pela vida.
Mas quando desejei responder, tive de ir muito atrás aos meus ascendentes da ilha da Madeira.
Eu nunca fui grande entusiasta por ir meter o nariz no passado, mas sei que meu avô, de origem madeirense, duma terra chamada Madalena do Mar, e teve 13 irmãos, todos de nome Bettencourt Leça e, por isso, eu devo ter imensos primos por lá ! Estes Bettencourt estão espalhados por todas as ilhas açorianas, mas os Leça, são o ramo a que pertenço.







Originários de uma família talvez modesta, nem sei como conseguiram todos sobreviver e ainda conseguirem tirar cursos superiores, como meu avô em medicina e um que chegou a Cónego e muito admirado pelos seus vastos conhecimentos de astrofísica.
Estou em acreditar que todos se entre ajudariam, dado que meu avô, como não conseguia comprar os imensos e caríssimos livros de medicina, se refugiava na Biblioteca da Universidade e, como tinha muito jeito para desenhar, teve muito que riscar, não só para ele, mas também para um seu amigo...

Foi aí que ele entrou em contacto com outro aluno também pobre, mas não tinha tanta habilidade para o desenho, o José Alberto de Carvalho Ferraz, e assim foram estudando, muitas vezes na casa duma senhora pianista e com grande habilidade para línguas, que lá ia ensinando música, como treinando inglês e francês, além do português, às meninas inglesas que por lá abundavam na Madeira, filhas de doentes de tuberculose e lá encontrarem um clima muito ameno.
Em Dezembro de 2006, escrevi uma crónica intitulada " No centro das festas", sobre esta maravilhosa senhora, a D.Leonor Ester de Carvalho Ferraz, que acabaria por ser minha avó materna.

Foi esta senhora que custeava os estudos do seu irmão José Alberto, um jovem apaixonado pela música como a sua irmã, mas em violoncelo, tendo chegado a tocar em Lisboa, para sua magestade o Rei D.Carlos. Infelizmente morreu muito cedo, com uns 40 anos, mas tendo deixado o seu nome gravado numa rua em Belas, onde tinha ido viver e fazer medicina.

Minha avó, que era mais idosa do que o meu avô, uns 9 anos, sempre teve uns cabelos brancos de aspecto prata e era muito linda, mesmo de aspecto imponente !





Ela era muito nervosa, mas quando entrava em palco para se exibir, nos seus concertos de música séria, normalmente quase que a sala linha abaixo com palmas.
Em 7 de Julho de 2007, descrevi uma crónica dedicada a este meu tio José Alberto, que odiava política e tropa, e chegou a ficar cego, quando foi obrigado a estar na tropa em Lisboa.
Essa crónica, a intitulei, " E cegou de tristeza ".
Isto se passou antes do curso de medicina, que ele adorava poder fazer e só o conseguiu, quando minha avó e irmã, conseguiu ajudar financeiramente com o dinheiro das suas lições.
Como meu avô gostava imenso de música e tinha muita habilidade de mãos, não se ralou nada de vir a casar com aquela senhora mais idosa do que ele, 9 anos, e até numa situação muito triste para ela, porque já estava pedida em casamento por outro jovem que havia falecido pouco tempo antes, já com o dia de casamento marcado .
Mas ambos se fizeram médicos e brilhantes !
Como a vida de um jovem médico era muito difícil, naquela altura, meu avô aceitou um convite para médico de bordo de um navio que estava para sair para as Bermudas, mas ele se afundou e morreu toda a tripulação, tendo ficado minha avó desesperada novamente e viúva.
Felizmente que antes do navio desaparecer, meu avô estava a ser operado ao apêndice em terra numa ilha e quando noutro navio, voltou à Madeira, minha avó, muito nervosa, nunca mais o deixou embarcar, e foram ambos parar à ilha de S. Miguel, fazer assistência médica na freguesia da Maia, ao norte da ilha.
Aí nasceu o seu primeiro filho, a quem foi dado o nome de Francisco Assiz Bettencourt Leça.
Como não havia médico na costa Sul, meu avô se candidata a essa zona e foi parar a uma freguesia de nome Ginetes, onde veio a nascer a minha mãe, Maria da Luz Ferraz Bettencourt Leça, em Fevereiro de 1902.
Teria agora, 107 anos, se não tivesse falecido ha pouco tempo, e como a sua mãe, também era exímia tocadora de piano, de bordados e desenho em que era duma perfeição máxima, além de muito bonita.
Mal sabiam eles que os Ginetes, era um dos sítios mais procurados pelas pessoas mais gradas da ilha, e onde tinham os seus palácios. Ginetes fica num baixo, em que uma montanha não deixa ver o Oceano Atlântico, mas tem a vantagem de não receber os ventos frios do mar.
Todos os dias, minha avó tinha de tocar o seu piano de cauda e mal chegou o verão e as nobres pessoas da cidade de Ponta Delgada, para férias, todos se passaram a encontrar em reuniões elegantes, em casa do Dr. Carlos Abel Bettencourt Leça e sua esposa Leonor Ester Ferraz Bettencurt Leça.
Fim da primeira parte

terça-feira, 25 de agosto de 2009

E DERAM-ME 6 MESES DE VIDA
















Crónica nº.106- Agosto de 2009

ct1dt@sapo.pt
http://engenhocando2.blogspot.com/

http://engenhocando.blog.com/



Aqui há tempos, li, algures, uma observação que dizia: Conheci um velhinho que esteve a morrer, mais de 80 anos...

Achei uma certa graça a este comentário, porque logo em miúdo, meu avô, que era médico, estava sempre à procura de nódulos no meu pescoço e, dos meus irmãos, que eram 5, eu era o mais fraco e franzino, embora muito vivo, pelo que ele até me injectou imenso cálcio, com o que eu embirrava à brava...mas como lhe tinha muito respeito, gemendo e chorando, lá ia levando com as injecções...

Não é que eu entendesse aquela "mania", mas muitos anos depois, acabei por entender que ele estaria muito preocupado com a minha saúde, até porque meu pai estava com tuberculose pulmonar e me estava sempre a chamar para o pé dele, para o ajudar e não podia dizer que não...

Tanto meu avô como toda a família, também não podia fazer nada.

Como a minha mãe não tinha meios de sobrevivência, tirou um curso rápido de Professora Primária e acabou por se transferir para o Continente, em Portugal, uns anos depois, porque estávamos a viver em S.Miguel, nos Açores e aí comecei, talvez, os piores dias da minha vida, que já contei noutras crónicas deste blog . Os meus irmãos foram todos "arrumados" em vários lados, e eu fiquei um tanto abandonado à minha sorte com várias tentativas de continuar a estudar e trabalhar, quase não tendo tempo para comer, dormir, estudar ou namorar...

Minha mãe era bastante bonita e sabia tocar lindamente piano, mas isso não lhe foi aproveitado, e acabou por ir tomar o lugar de Administradora da cozinha da Santa Casa da Misericórdia em Lisboa, onde esteve muitos anos.


Embora meu pai tivesse falecido quando eu tinha 11 anos, acabei por adoecer da mesma doença, quando tinha os meus 17 anos e fui enviado para um sanatório do Caramulo, onde estive 4 anos em tratamento, mas como sempre fui um brincalhão, aproveitei o melhor possível, as horas em que me permitiam sair e vaguear pelas montanhas, nem que fosse para apreciar a natureza e ver bem de perto, cobras e lagartos...e onde arranjava um pouco mais de vontade de comer, com aquele belo ar das montanhas.

Logo aí, tive de me habituar às picadas do único tratamento que lá se fazia, os pnemotóraxes, em que uma bruta agulha me era enfiada a sangue frio, pela costelas a dentro, até encontrar a zona intrapleural, para deixar descansar os pulmões, mas nada daquilo me assustava, porque, como disse já, picadas de agulhas, eu já as tinha levado desde os tempos da minha Escola Primária e, se era preciso...que viessem. Eu só queria estar vivo !
Mas depois de um ano desta vida, o meu médico me chamou e me disse: Quando você aqui chegou, eu não lhe dava mais de 6 meses de vida, mas o que é certo é que você está em vias de cura, por estas radiografias e análises, que estou a ver...

Belo, pensei eu, será que desta me vou safar, tendo visto vários morrer, entretanto ?

Mas o tratamento ainda se manteve, de 15 em 15 dias e durante 4 anos, até esgotar o tempo da Assistência e tive de me vir embora , mas continuando com os malvados tratamentos... num médico da minha familia, o simpatiquíssimo Dr. Ancelmo Ferraz de Carvalho, já falecido há muito.


Eu era Funcionário Público no Arsenal do Alfeite, e como não sugeria que o clima aí, me fosse favorável, acabaram por mandar-me embora para uma pré-reforma.

Mas lá me fui aguentando e acabei por ir parar a uma Empresa americana, a RARET, que se estava a montar em Portugal, e tendo pedido ao seu Cônsul , emprego naquela empresa, até porque já havia aprendido muitas coisas de electrónica, como radioamador, com indicativo CT1DT, lá fui encaixado e lá trabalhei 35 anos, até ter atingido a reforma.

Minha adorável mãe, já havia envelhecido bastante, mas continuava linda, até falecer com 95 anos !


Mas depois de uma data de amigdalites, (que acabei por descobrir a sua cura, de um dia para o outro, com tintura de Gaiacol em zaragatoa) constipações e gripes, fui chamado ao médico da empresa, que me mandou ir fazer uma análise às glândulas supra-renais, e lá voltei para o meu trabalho em electrónica no Centro de Recepção, com a melhor aparelhagem do mundo.




Era uma saúde precária, mas lá ia vivendo sempre muito entretido com imensas actividades: Barcos à vela e com motor, aviões (largado com 4 horas de voo), motas, asas delta, autogiros, helicópteros, energias alternativas, tratamentos alternativos, pintura a óleo (12), caricaturas, fotografia, imprensa, publicado mais de 15000 páginas de assuntos técnicos, cinema, vídeo, tocado piano de ouvido, há mais de 70 anos, robots, jornalista, locutor de radio, Radioamador em muitas faixas, actividades que já contei no meu blog http://www.engenhocando2.blogspot.com/


É curioso notar que um dia, sou surpreendido pela notícia de que o blog do Brasil de Lima Coelho, havia descoberto o meu blog e me pediu para reeditar alguns dos meus artigos, o que aceitei com muito orgulho. Mal sabia eu que o meu simples blog, iria ser tão apreciado no Brasil, sempre com imensos e simpáticos comentários !


Minha esposa, que eu considerava muito bela, acabou por falecer nos meus braços, na sua cama, com um malvado cancro nos intestinos, em 1991, mas tendo podido ajudá-la com dezenas de injecções, para que não sofresse .

Assim, eu ia vivendo com o resto de saúde que era possível ter, casei, tive 3 filhos lindos, muito feliz, mas sempre com dificuldades financeiras....

Verdade seja dita, que nunca lutei por ganhar dinheiro e já ficava muito feliz, quando ele dava para o dia a dia. Realmente, pode-se ser muito feliz, com pouco dinheiro...


Às tantas, o mesmo médico que me havia "empurrado" para a análise às glândulas supra-renais uns 4 anos antes, me pediu para ir repetir o mesmo exame que era feito em Lisboa e tem de ser feita em dois dias. Ou seja, por aquilo que eu já me tinha apercebido, no primeiro dia, punham-me às portas da morte e, no segundo, me injectavam extracto de supra-renais, ou coisa parecida, para me "ressuscitarem..."... Nunca soube o nome daquela malvada análise...

Mas passados aqueles 4 anos desta análise, ele, admirado de eu ainda estar vivo, me pede para repeti-la, ao que eu aproveitei para lhe perguntar: mas o Dr. nunca me disse o resultado dessa análise que me ia matando !!!...

Ao que ele respondeu que, com o resultado dela, "não conhecia ninguém que tivesse sobrevivido, mais de 6 meses "... e eu ainda estava vivo ! Hoje penso: ainda bem que ele não me disse aquilo, quando veio o resultado do exame, pois só de pensar que iria só viver 6 meses...teria morrido mesmo !

Mas o mesmo médico, o Dr. Duarte Silva, mais ou menos da minha idade, me havia dito que tomava 7 e 8 cafés por dia, enquanto eu lhe disse: se eu fizesse isso, já tinha morrido e até adiantei: Eu só posso tomar um café e de manhã, porque se for à noite...adeus sono, ao que ele respondeu que isso era mania minha, porque o café só fazia bem...

Como ele me apanhou a fumar um cigarrinho, ainda me disse que aquilo é que era um suissidio !

Embora ele fosse especialista em cardiologia, o que é certo é que um ano depois desta nossa conversa, ele agarrou um AVC e lá se foi...


E eu, tal como o tal velhinho que tinha levado 80 anos a morrer, cá continuei a viver e, mais, com vontade de fazer, pelo menos, os 83 anos...se não puder ser mais...

quarta-feira, 17 de junho de 2009

E NASCEU UM ROBOT DE NOME MIGUEL


Há mais de 30 anos, ainda os meus filhos eram garotos, e agora já estão todos com mais de 50 anos, um dia me apareceram em casa, e me traziam dois motores eléctricos de subir e descer os vidros de algum automóvel e a perguntar-me se aquilo teria alguma utilidade, para os meus engenhos. Uma coisa que sempre me apaixonou, foi descobrir utilidades diferentes para material considerado "sucata" e logo pensei em construir um "brinquedo" qualquer e dar-lhe movimento. Para dizer com franqueza, esta paixão de engenhar ou engenhocar coisas, daí o ENGENHOCANDO, nasceu e cresceu comigo... Como eu só poderia usá-los, em forma de um robot, para lhe dar aspecto humanoide, disse à rapaziada que teria de usar latas de óleo vazias e logo se prontificaram para as ir descobrir. Passada uma hora, já aqui tinha uma data de latas de litro, para os braços, outras tantas de galão para as pernas, uma de 50 litros para a barriga, e uma de 10 litros, de tinta, para a cabeça. Como estavam todos muito entusiasmados, pú-los a soldar as latas umas às outras, e como ficou com dois metros de altura, como um dos jovens, era muito grande, e se chamava Miguel, logo o baptizaram por este nome. Para os ver contentes, comecei logo a estudar a forma de por os motores em funcionamento, levantando e baixando os braços intermitentemente, abri-lhe uma grande bocarra, coloquei dois farolins verdes a fazer de olhos, mas aquilo estava muito morto...ou seja, faltava-me as palmadas para o ver "nascer"... Assim, com a ajuda de vário material de electrónica, lá usei um velho e pequeno gravador de fita magnética, um altifalante, e um sistema mecânico que lhe pusesse a bocarra a abrir e fechar, além dos olhos a piscar em verde. Para proteger da chuva, construi-lhe um chapéu metálico, tipo Tailandês. Assim, já tinha outra graça, embora não servisse para nada, a não ser para entreter as imensas crianças que me começaram a aparecer, em caravana, todas acompanhadas das suas monitoras, logo que se constou aqui na terra, que havia cá um robot que até falava.. e gesticulava. «Eu sou o robot de ferro e lata, mas não sirvo para nada...» Como aquilo era alimentado por uma bateria de automóvel e tinha um elevado consumo, acabou por ficar abandonado a um canto da garagem.
Mas um certo dia, anos mais tarde, estava eu a transmitir e receber TV pelo meu rádio, para qualquer parte do Mundo, novo sistema de rádio nessa altura e conhecido por SSTV, quando vejo aparecer a chamar-me, um colega da Suiça e mostrava no seu cartão de visita, (QSL) um robot enorme ! Mas não era feito de latas e latinhas... Aquilo estava feito a plástico e também era com uns 2 metros de altura ! De imediato arrancámos a falar sobre aquele interessante projecto, mas que o suiço havia mostrado numa exposição e o entusiasmo havia sido tal, que teve de continuar a vida, a construí-los cada vez mais complexos e já assistidos por electrónica com muita informática e espalhados por todo o Mundo.


Nessa altura, eu já havia construído um braço-robot que era comandado por um microprocessador, só por curiosidade e até era muito giro de programar e ver funcionar sozinho, embora também não servisse para nada.
Ele podia rodar, levantar o braço, agarrar qualquer coisa, e ir largá-la onde se desejasse.



Fiquei marado, até porque eu já dominava muitas coisas de informática e mecânica, mas como nunca estive ligado à agricultura, o assunto ficou ali parado, anos e anos.


O meu amigo Prof. Nogueira, do blog wwwnovas.blogspot.com, está aqui "de conversa" com o segundo robot, o Miguel.



Os anos rodaram e aparece a Internet e os Blogs. Assim, vai de abrir um Blog e começar a descrever imensos assuntos e experiências da minha vida, até que fui informado de que havia um blog duma senhora portuguesa, lá para os lados de Viseu, de nome Ana Ramon, e que falava de meu assassinado irmão, Carlos Mar Bettencourt Faria, dono e construtor do Observatório da Mulemba, que havia conhecido ainda em solteira, com muito carinho. De imediato dei lá um salto ao blog e me apresentei. Ela nem sabia da minha existência... Tratava-se do http://www.apaixaodossentidos.blogspot.com/ .





(Aqui está ela na sua visita a Benavente, ha poucos dias)






De imediato, ela respondeu e nunca mais deixámos de contactar quase diariamente. É raro o dia em que ela não me conte novidades das suas experiências, sempre descritas de forma imponente ! É uma mulher extraordinária, de habilidade e curiosidade científica ! É uma mulher RARA ! Foi aí que ela me falou dos seus problemas com os bandos de pássaros, os corvos, que lhe faziam enormes prejuízos na agricultura e eu me lembrei do velho robot "Miguel", que lhe poderia oferecer, mas ele não estava em condições de ficar à chuva, vento, e Sol . Mas ela se mostrou imensamente interessada em o comprar...e que eu dissesse quanto custava. Obviamente que seria uma simples oferta, mas que vivendo ela a mais de 300 Km da minha vila, ela teria de arranjar forma de o vir buscar. Claro que quase tudo havia de ser alterado, porque até a tecnologia se havia alterado imenso e já se podia gravar e reproduzir som, sem fita magnética (digitalmente) e vai de pensar em executar as alterações necessárias, para que ele pudesse durar muitos meses. Mas será que dura ? Mas não era só o Miguel que estava velho...eu também e as alterações a fazer, demoraram muito mais tempo do que eu queria, mas finalmente, ela com o marido e um filho, cá vieram para o transportar. Assim, ele já está na sua quinta, e provavelmente, ela se referirá ao seu uso e comportamento, nalguma crónica do seu magnífico blog. Mas tenho pena de só agora, em que tão pouco tempo tenho de vida, já não poder recomeçar este projecto de novo, para lhe aplicar tantas e tantas ideias que tenho na cabeça...


terça-feira, 21 de abril de 2009

E só faltava um pouco de música


Naquele dia em que a gerência da empresa onde eu trabalhava há muitos anos, a Rádio Free Europe, desejou oferecer um almoço à entidade máxima que estava a visitar Portugal, foram convidados todos os chefes de Serviço e suas esposas.
Como eu estava nessa altura, a chefiar a técnica do Centro de Recepção, também fui convidado e lá fomos todos para uma grande sala em Lisboa, onde haviam colocado uma data de mesas em linha, e às tantas, lá começou o grande almoço e muita conversa entre toda a gente.
Aquilo até estava interessante, mas como eram vários pratos, o almoço nunca mais acabava e às tantas, com toda a gente satisfeita, comecei a ver um certo enjoo e até alguns bocejos mal disfarçados, tanto dos homens como das mulheres…
É certo que a chefia continuava de amena conversa, mas como era muita gente, a maioria de nós não ouvia nada do que eles estavam a falar e nem nos podíamos levantar da mesa… tinhamos mesmo de aguentar…até a chefia dar por fim aquele imenso almoço e começarem as despedidas…
A um lado da enorme sala, havia um estrado onde se encontrava um belo piano e uma bateria, mas o silêncio era tal, que mais parecia um dia de velório…
Aquilo estava mesmo chato de aturar !
Aí lembrei-me que talvez não fosse uma grande asneira, ir tocar em surdina, umas músicas românticas e muito baixinho, e lá me aventurei e fui.
Naquela altura, eu sabia de cor, tocar uma data de músicas românticas, de ouvido, em especial brasileiras, como algumas da Maysa Matarazo, como aquele “Hoje eu quero a rosa mais linda que houver…”, ou “Ninguém me ama..:”, ou “Meu mundo caiu “, ou “Besame Mucho”, “Eu não existo sem você”, etc. e carregando no pedal da surdina, além de muito baixinho, comecei a tocar aquelas minhas músicas favoritas.
Eram slows, valsas, tangos, foxes, mas mal comecei a tocar, vejo subir para aquele palco, um jovem que se sentou na bateria e começou a fazer-lhe “festas”, fazendo ritmo que me vinha ajudar e bem. Até parecia que eu sabia de música…
Mal sabia aquela malta, que eu só tocava em tom de Fá maior e menor… e até ouvia muitas senhoras a cantarolar baixinho aquelas músicas tão em voga naquela altura…

As músicas entravam umas a seguir às outras, brincando com o teclado e arrancando dele os meus melhores sons. Aquilo era uma delícia !
Sentado ao piano, eu ficava de costas para a grande sala, mas às tantas, pareceu-me ouvir um sussurro nas minhas costas e quando olhei, fiquei pasmado, pois todos os casais da nossa mesa e de outras, se tinham levantado e estavam a dançar …
Tendo ficado muito mais a-vontade, tirei o pé esquerdo da surdina e levantei mais o som, sendo seguido de imensas palmas, de que não estava nada à espera…
Aquele “fim de festa”, até parece que acabou em grande, com tanta alegria de todos aqueles casais já cansados de esperar pelo seu fim e tudo acabou em bem. Realmente, até parecia que toda a gente estava à espera de um pouco de música...

quarta-feira, 25 de março de 2009

MEU AMIGO ARCÍLIO COSTA



Arcilio Costa, é um amigo que conservo há mais de 50 anos, desde Maio de 1951, e nunca tivemos um amargo de boca, uma ausência de carinho.
Desde que o conheci via rádio, na banda dos 40 metros, logo descobri uma pessoa invulgar, daquelas em que gostamos de “tropeçar” pela nossa vida, talvez por sentirmos que é GRANDE e, em muitas situações, maiores do que nós, daquelas pessoas a que hoje se chama, “amigo do peito”.
O radioamadorismo, é uma espécie do que hoje chamamos de “Blog”, onde conhecemos imensas pessoas, anos e anos, mas agora, com a grande facilidade de as podermos conhecer por fotografias, imagens e som.
O seu indicativo oficial, era CT1MI e a sua actividade radioamadorística, permitiu-lhe mais tarde, vir a conhecer perfeitamente, toda a aparelhagem electrónica da aviação, que estava a aparecer no mercado e a ensinar aos novos pilotos, como toda ela funcionava, para poder voar muito acima das nuvens, noite e dia.
Toda a gente queria que fosse ele o seu piloto de instrução, porque sabia da sua capacidade imensa de ensinar.
Quando usando a rádio, não se pode fazer a mais pequena ideia de quem está “do outro lado” e esta situação, muitas vezes, nos leva a grandes desaires, quando nos conhecemos pessoalmente… porque encontramos pessoas muito diferentes do que levámos anos a imaginar…
Mas há 50 anos, quando só se podia ouvir a sua voz, podíamos conversar horas e horas, sobre o que estávamos a fazer e o que havíamos feito, e podíamos comentar toda a nossa vida, desde a infância, à adolescência, os azares e grandes alegrias da vida, as nossas aventuras e desventuras, com a complacência dos Serviços de Escuta Oficiais da DSR, Direcção dos Serviços de Radiocomunicações..
Tanto podíamos ter uma vida muito desafogada, como cheia de dificuldades e em cada dia podíamos descobrir um assunto para conversar, uma experiência nova para fazer.
Assim viemos a descobrir infâncias um tanto difíceis, mas tão semelhantes, que até parecíamos irmãos.
Uma vontade insaciável de fazer experiências e arcarmos com as responsabilidades dos nossos, às vezes, incríveis projectos.
Ele, na sua adolescência, também se entusiasmou pela aviação e de tal forma que em algum tempo, havia evoluído até à instrução de novos pilotos, e aprendido a voar em imensas máquinas, praticamente todos os modelos ligeiros, existentes em Portugal.
Não havia avião que fosse autorizado a voar, sem ter passado pelas suas mãos e corrigido de algum defeito existente e perigoso. Era um autêntico “piloto de teste” e tinha de conhecer a fundo todos os defeitos e qualidades de cada avião, para auxiliar nas suas correcções e novos voos de ensaio, até ficar satisfeito. E, quando os aviões tinham de ser levados para a manutenção em Alverca, era ele que os transportava pelo ar e os experimentava antes da volta.
Em 1961, entusiasmei-me imenso pelos AUTOGIROS, aparelhos voadores de asas rotativas e desejava fazer os primeiros ensaios, a reboque de um automóvel.
Como ele já era um sábio na pilotagem dos pequenos aviões ligeiros assim como do reboque de planadores, sabia bem do perigo em que eu me iria meter, e veio de Oliveira de Azeméis, a 200 Km de distância, propositadamente para me rebocar de carro e conhecer o autogiro. Segundo a sua grande experiência, sabia que ia ser necessário uma série de corridas, até descobrir a velocidade a que o automóvel teria de andar, para se criar a sustentação ideal.
E assim foi feito, mas o rotor de sustentação, é que não ganhava a rotação suficiente, e teve que se fazer outra corrida um pouco mais rápida e muito constante.
A certa altura, as 360 rotações necessárias (RPM) aconteceram e o aparelho descolou muito suavemente, enquanto provocava um “zip-zip-zip” da corrente de ar no rotor e lá fui eu pendurado “naquela coisa”, a cerca de um metro de altura! Estava a voar e a comandar a minha máquina! Era a primeira máquina deste género, existente em Portugal.


Mas como a pista se estava a acabar e eu ainda nem sabia que para ir mais alto, teria de aumentar a velocidade, assim que tentei fazê-lo, exagerei tanto a inclinação nos comandos, que o grande rotor de 9 metros de diâmetro, acabou por tocar no solo, à minha retaguarda, e como se danificou, tive de fazer uma aterragem forçada, mas com tanta violência que se partiu o trem de aterragem e dei uma cambalhota batendo com a cabeça no chão e ficando completamente cego, embora consciente. Eu queria falar, mas não saía som nenhum… estava a ouvir tudo o que se passava à minha volta, mas não podia dizer que estava vivo e nem um dedo conseguia mover…
Então, depois dum grande esforço para fazer qualquer som, lá saiu um gemido e o Arcilio, ajudado por várias pessoas que logo apareceram, puseram-me em pé, perante o alvoroço dos presentes, que gritaram ao mesmo tempo: - Ele está vivo!. Como não conseguia ver nada, pedi-lhes para me tirarem a terra que devia ter nos olhos, mas eles responderam que não viam terra nenhuma e foi aí que pensei que
estava completamente cego ou que tivesse partido a coluna!
Foi realmente um momento de pânico, porque estava casado há pouco tempo e o que seria da minha vida, se tivesse ficado cego… mas muito lentamente, e amparado pelas pessoas para não cair, fui recuperando a visão e tudo voltou ao normal.

Mas tinha sido uma experiência inolvidável ! Tinha valido a pena !
Um camionista que se apercebeu do acidente, veio de imediato com ajudantes e colocaram os restos do meu autogiro, em cima do camião.
Quarenta anos depois deste acontecimento, um grande amigo meu, que já estava a voar em autogiro MAGNI, um lindíssimo aparelho comercial e nele acompanhou a volta aérea a Portugal, concedeu-me a alegria de voltar a voar naquela estranha mas lindíssim máquina.
Há poucos anos, e dada a sua curiosidade pela aviação, consegui que ele fosse experimentá-lo pela primeira vez, por convite do meu amigo Dr. Joaquim Figueiredo, dono e piloto do autogiro que tanta confusão lhe estava a fazer.


Eu e o meu amigo Arcílio, ambos amantes de tudo o que fosse científico, até entrámos pela medicina e construído aparelhos para tratamento de dores e inflamações, cada um com suas soluções . Embora ainda hoje defendamos pontos de vista diferentes !

Ele constrói tudo com muita perfeição, nem que seja pelo gozo de as estudar, construir, afinar e experimentar. Até os painéis são construídos por ele !
Como profissional exigente, percorreu o mundo de ponta a ponta, dos EUA ao Japão, para conseguir os melhores contratos e isso levou-o à Direcção Técnica de várias empresas, embora mantendo a pilotagem dos aviões.
Hoje vive da sua reforma, sempre muito distraído com tecnologias diferentes, com muito acesso aos computadores e usando o MSN que nos tem proporcionado imensas horas de contacto visual, embora nem sempre de acordo, como já é nosso velho habito.
Infelizmente, como a mim aconteceu também, perdeu a sua amada esposa, que lhe deixou 3 filhos muito amigos, que lhe vão emoldurando a vida, tal como a mim.
Com a sua enorme capacidade de realização, construiu uma belíssima auto-caravana, com tudo o que há de mais moderno, incluindo TV de satélite, HI-FI, painéis solares para recarga de baterias, frigorífico, etc, passando imensas horas rodando pelo país maravilhoso que temos, para não se deixar envelhecer e enferrujar, embora já esteja com um pouco mais de 70 anos...
Desculpa-me, Arcílio, o ter-te vindo “despir” um pouco em público, mas se o não fizesse hoje, talvez amanhã já fosse tarde.