quinta-feira, 10 de setembro de 2009
E LEVEI A VIDA A BRINCAR
terça-feira, 25 de agosto de 2009
E DERAM-ME 6 MESES DE VIDA

http://engenhocando.blog.com/
Aqui há tempos, li, algures, uma observação que dizia: Conheci um velhinho que esteve a morrer, mais de 80 anos...
Achei uma certa graça a este comentário, porque logo em miúdo, meu avô, que era médico, estava sempre à procura de nódulos no meu pescoço e, dos meus irmãos, que eram 5, eu era o mais fraco e franzino, embora muito vivo, pelo que ele até me injectou imenso cálcio, com o que eu embirrava à brava...mas como lhe tinha muito respeito, gemendo e chorando, lá ia levando com as injecções...
Não é que eu entendesse aquela "mania", mas muitos anos depois, acabei por entender que ele estaria muito preocupado com a minha saúde, até porque meu pai estava com tuberculose pulmonar e me estava sempre a chamar para o pé dele, para o ajudar e não podia dizer que não...
Como a minha mãe não tinha meios de sobrevivência, tirou um curso rápido de Professora Primária e acabou por se transferir para o Continente, em Portugal, uns anos depois, porque estávamos a viver em S.Miguel, nos Açores e aí comecei, talvez, os piores dias da minha vida, que já contei noutras crónicas deste blog . Os meus irmãos foram todos "arrumados" em vários lados, e eu fiquei um tanto abandonado à minha sorte com várias tentativas de continuar a estudar e trabalhar, quase não tendo tempo para comer, dormir, estudar ou namorar...
Minha mãe era bastante bonita e sabia tocar lindamente piano, mas isso não lhe foi aproveitado, e acabou por ir tomar o lugar de Administradora da cozinha da Santa Casa da Misericórdia em Lisboa, onde esteve muitos anos.

Embora meu pai tivesse falecido quando eu tinha 11 anos, acabei por adoecer da mesma doença, quando tinha os meus 17 anos e fui enviado para um sanatório do Caramulo, onde estive 4 anos em tratamento, mas como sempre fui um brincalhão, aproveitei o melhor possível, as horas em que me permitiam sair e vaguear pelas montanhas, nem que fosse para apreciar a natureza e ver bem de perto, cobras e lagartos...e onde arranjava um pouco mais de vontade de comer, com aquele belo ar das montanhas.
Logo aí, tive de me habituar às picadas do único tratamento que lá se fazia, os pnemotóraxes, em que uma bruta agulha me era enfiada a sangue frio, pela costelas a dentro, até encontrar a zona intrapleural, para deixar descansar os pulmões, mas nada daquilo me assustava, porque, como disse já, picadas de agulhas, eu já as tinha levado desde os tempos da minha Escola Primária e, se era preciso...que viessem. Eu só queria estar vivo !
Belo, pensei eu, será que desta me vou safar, tendo visto vários morrer, entretanto ?
Mas o tratamento ainda se manteve, de 15 em 15 dias e durante 4 anos, até esgotar o tempo da Assistência e tive de me vir embora , mas continuando com os malvados tratamentos... num médico da minha familia, o simpatiquíssimo Dr. Ancelmo Ferraz de Carvalho, já falecido há muito.
Eu era Funcionário Público no Arsenal do Alfeite, e como não sugeria que o clima aí, me fosse favorável, acabaram por mandar-me embora para uma pré-reforma.
Mas lá me fui aguentando e acabei por ir parar a uma Empresa americana, a RARET, que se estava a montar em Portugal, e tendo pedido ao seu Cônsul , emprego naquela empresa, até porque já havia aprendido muitas coisas de electrónica, como radioamador, com indicativo CT1DT, lá fui encaixado e lá trabalhei 35 anos, até ter atingido a reforma.
Mas depois de uma data de amigdalites, (que acabei por descobrir a sua cura, de um dia para o outro, com tintura de Gaiacol em zaragatoa) constipações e gripes, fui chamado ao médico da empresa, que me mandou ir fazer uma análise às glândulas supra-renais, e lá voltei para o meu trabalho em electrónica no Centro de Recepção, com a melhor aparelhagem do mundo.
Assim, eu ia vivendo com o resto de saúde que era possível ter, casei, tive 3 filhos lindos, muito feliz, mas sempre com dificuldades financeiras....
Mas passados aqueles 4 anos desta análise, ele, admirado de eu ainda estar vivo, me pede para repeti-la, ao que eu aproveitei para lhe perguntar: mas o Dr. nunca me disse o resultado dessa análise que me ia matando !!!...
Ao que ele respondeu que, com o resultado dela, "não conhecia ninguém que tivesse sobrevivido, mais de 6 meses "... e eu ainda estava vivo ! Hoje penso: ainda bem que ele não me disse aquilo, quando veio o resultado do exame, pois só de pensar que iria só viver 6 meses...teria morrido mesmo !
Mas o mesmo médico, o Dr. Duarte Silva, mais ou menos da minha idade, me havia dito que tomava 7 e 8 cafés por dia, enquanto eu lhe disse: se eu fizesse isso, já tinha morrido e até adiantei: Eu só posso tomar um café e de manhã, porque se for à noite...adeus sono, ao que ele respondeu que isso era mania minha, porque o café só fazia bem...
Como ele me apanhou a fumar um cigarrinho, ainda me disse que aquilo é que era um suissidio !
Embora ele fosse especialista em cardiologia, o que é certo é que um ano depois desta nossa conversa, ele agarrou um AVC e lá se foi...
E eu, tal como o tal velhinho que tinha levado 80 anos a morrer, cá continuei a viver e, mais, com vontade de fazer, pelo menos, os 83 anos...se não puder ser mais...
quarta-feira, 17 de junho de 2009
E NASCEU UM ROBOT DE NOME MIGUEL

Nessa altura, eu já havia construído um braço-robot que era comandado por um microprocessador, só por curiosidade e até era muito giro de programar e ver funcionar sozinho, embora também não servisse para nada.
terça-feira, 21 de abril de 2009
E só faltava um pouco de música

Como eu estava nessa altura, a chefiar a técnica do Centro de Recepção, também fui convidado e lá fomos todos para uma grande sala em Lisboa, onde haviam colocado uma data de mesas em linha, e às tantas, lá começou o grande almoço e muita conversa entre toda a gente.
Aquilo até estava interessante, mas como eram vários pratos, o almoço nunca mais acabava e às tantas, com toda a gente satisfeita, comecei a ver um certo enjoo e até alguns bocejos mal disfarçados, tanto dos homens como das mulheres…
É certo que a chefia continuava de amena conversa, mas como era muita gente, a maioria de nós não ouvia nada do que eles estavam a falar e nem nos podíamos levantar da mesa… tinhamos mesmo de aguentar…até a chefia dar por fim aquele imenso almoço e começarem as despedidas…
A um lado da enorme sala, havia um estrado onde se encontrava um belo piano e uma bateria, mas o silêncio era tal, que mais parecia um dia de velório…
Aquilo estava mesmo chato de aturar !
Aí lembrei-me que talvez não fosse uma grande asneira, ir tocar em surdina, umas músicas românticas e muito baixinho, e lá me aventurei e fui.
Naquela altura, eu sabia de cor, tocar uma data de músicas românticas, de ouvido, em especial brasileiras, como algumas da Maysa Matarazo, como aquele “Hoje eu quero a rosa mais linda que houver…”, ou “Ninguém me ama..:”, ou “Meu mundo caiu “, ou “Besame Mucho”, “Eu não existo sem você”, etc. e carregando no pedal da surdina, além de muito baixinho, comecei a tocar aquelas minhas músicas favoritas.
Eram slows, valsas, tangos, foxes, mas mal comecei a tocar, vejo subir para aquele palco, um jovem que se sentou na bateria e começou a fazer-lhe “festas”, fazendo ritmo que me vinha ajudar e bem. Até parecia que eu sabia de música…
Mal sabia aquela malta, que eu só tocava em tom de Fá maior e menor… e até ouvia muitas senhoras a cantarolar baixinho aquelas músicas tão em voga naquela altura…
As músicas entravam umas a seguir às outras, brincando com o teclado e arrancando dele os meus melhores sons. Aquilo era uma delícia !
Sentado ao piano, eu ficava de costas para a grande sala, mas às tantas, pareceu-me ouvir um sussurro nas minhas costas e quando olhei, fiquei pasmado, pois todos os casais da nossa mesa e de outras, se tinham levantado e estavam a dançar …
Tendo ficado muito mais a-vontade, tirei o pé esquerdo da surdina e levantei mais o som, sendo seguido de imensas palmas, de que não estava nada à espera…
Aquele “fim de festa”, até parece que acabou em grande, com tanta alegria de todos aqueles casais já cansados de esperar pelo seu fim e tudo acabou em bem. Realmente, até parecia que toda a gente estava à espera de um pouco de música...
quarta-feira, 25 de março de 2009
MEU AMIGO ARCÍLIO COSTA

Desde que o conheci via rádio, na banda dos 40 metros, logo descobri uma pessoa invulgar, daquelas em que gostamos de “tropeçar” pela nossa vida, talvez por sentirmos que é GRANDE e, em muitas situações, maiores do que nós, daquelas pessoas a que hoje se chama, “amigo do peito”.
O radioamadorismo, é uma espécie do que hoje chamamos de “Blog”, onde conhecemos imensas pessoas, anos e anos, mas agora, com a grande facilidade de as podermos conhecer por fotografias, imagens e som.
O seu indicativo oficial, era CT1MI e a sua actividade radioamadorística, permitiu-lhe mais tarde, vir a conhecer perfeitamente, toda a aparelhagem electrónica da aviação, que estava a aparecer no mercado e a ensinar aos novos pilotos, como toda ela funcionava, para poder voar muito acima das nuvens, noite e dia.
Toda a gente queria que fosse ele o seu piloto de instrução, porque sabia da sua capacidade imensa de ensinar.
Quando usando a rádio, não se pode fazer a mais pequena ideia de quem está “do outro lado” e esta situação, muitas vezes, nos leva a grandes desaires, quando nos conhecemos pessoalmente… porque encontramos pessoas muito diferentes do que levámos anos a imaginar…
Mas há 50 anos, quando só se podia ouvir a sua voz, podíamos conversar horas e horas, sobre o que estávamos a fazer e o que havíamos feito, e podíamos comentar toda a nossa vida, desde a infância, à adolescência, os azares e grandes alegrias da vida, as nossas aventuras e desventuras, com a complacência dos Serviços de Escuta Oficiais da DSR, Direcção dos Serviços de Radiocomunicações..
Tanto podíamos ter uma vida muito desafogada, como cheia de dificuldades e em cada dia podíamos descobrir um assunto para conversar, uma experiência nova para fazer.
Assim viemos a descobrir infâncias um tanto difíceis, mas tão semelhantes, que até parecíamos irmãos.
Uma vontade insaciável de fazer experiências e arcarmos com as responsabilidades dos nossos, às vezes, incríveis projectos.
Ele, na sua adolescência, também se entusiasmou pela aviação e de tal forma que em algum tempo, havia evoluído até à instrução de novos pilotos, e aprendido a voar em imensas máquinas, praticamente todos os modelos ligeiros, existentes em Portugal.
Não havia avião que fosse autorizado a voar, sem ter passado pelas suas mãos e corrigido de algum defeito existente e perigoso. Era um autêntico “piloto de teste” e tinha de conhecer a fundo todos os defeitos e qualidades de cada avião, para auxiliar nas suas correcções e novos voos de ensaio, até ficar satisfeito. E, quando os aviões tinham de ser levados para a manutenção em Alverca, era ele que os transportava pelo ar e os experimentava antes da volta.
E assim foi feito, mas o rotor de sustentação, é que não ganhava a rotação suficiente, e teve que se fazer outra corrida um pouco mais rápida e muito constante.
A certa altura, as 360 rotações necessárias (RPM) aconteceram e o aparelho descolou muito suavemente, enquanto provocava um “zip-zip-zip” da corrente de ar no rotor e lá fui eu pendurado “naquela coisa”, a cerca de um metro de altura! Estava a voar e a comandar a minha máquina! Era a primeira máquina deste género, existente em Portugal.
Mas como a pista se estava a acabar e eu ainda nem sabia que para ir mais alto, teria de aumentar a velocidade, assim que tentei fazê-lo, exagerei tanto a inclinação nos comandos, que o grande rotor de 9 metros de diâmetro, acabou por tocar no solo, à minha retaguarda, e como se danificou, tive de fazer uma aterragem forçada, mas com tanta violência que se partiu o trem de aterragem e dei uma cambalhota batendo com a cabeça no chão e ficando completamente cego, embora consciente. Eu queria falar, mas não saía som nenhum… estava a ouvir tudo o que se passava à minha volta, mas não podia dizer que estava vivo e nem um dedo conseguia mover…
Então, depois dum grande esforço para fazer qualquer som, lá saiu um gemido e o Arcilio, ajudado por várias pessoas que logo apareceram, puseram-me em pé, perante o alvoroço dos presentes, que gritaram ao mesmo tempo: - Ele está vivo!. Como não conseguia ver nada, pedi-lhes para me tirarem a terra que devia ter nos olhos, mas eles responderam que não viam terra nenhuma e foi aí que pensei que estava completamente cego ou que tivesse partido a coluna!
Foi realmente um momento de pânico, porque estava casado há pouco tempo e o que seria da minha vida, se tivesse ficado cego… mas muito lentamente, e amparado pelas pessoas para não cair, fui recuperando a visão e tudo voltou ao normal.
Mas tinha sido uma experiência inolvidável ! Tinha valido a pena !
Um camionista que se apercebeu do acidente, veio de imediato com ajudantes e colocaram os restos do meu autogiro, em cima do camião.
Quarenta anos depois deste acontecimento, um grande amigo meu, que já estava a voar em autogiro MAGNI, um lindíssimo aparelho comercial e nele acompanhou a volta aérea a Portugal, concedeu-me a alegria de voltar a voar naquela estranha mas lindíssim máquina.
Há poucos anos, e dada a sua curiosidade pela aviação, consegui que ele fosse experimentá-lo pela primeira vez, por convite do meu amigo Dr. Joaquim Figueiredo, dono e piloto do autogiro que tanta confusão lhe estava a fazer.
Eu e o meu amigo Arcílio, ambos amantes de tudo o que fosse científico, até entrámos pela medicina e construído aparelhos para tratamento de dores e inflamações, cada um com suas soluções . Embora ainda hoje defendamos pontos de vista diferentes !
Ele constrói tudo com muita perfeição, nem que seja pelo gozo de as estudar, construir, afinar e experimentar. Até os painéis são construídos por ele !Como profissional exigente, percorreu o mundo de ponta a ponta, dos EUA ao Japão, para conseguir os melhores contratos e isso levou-o à Direcção Técnica de várias empresas, embora mantendo a pilotagem dos aviões.
Hoje vive da sua reforma, sempre muito distraído com tecnologias diferentes, com muito acesso aos computadores e usando o MSN que nos tem proporcionado imensas horas de contacto visual, embora nem sempre de acordo, como já é nosso velho habito.
Infelizmente, como a mim aconteceu também, perdeu a sua amada esposa, que lhe deixou 3 filhos muito amigos, que lhe vão emoldurando a vida, tal como a mim.
Com a sua enorme capacidade de realização, construiu uma belíssima auto-caravana, com tudo o que há de mais moderno, incluindo TV de satélite, HI-FI, painéis solares para recarga de baterias, frigorífico, etc, passando imensas horas rodando pelo país maravilhoso que temos, para não se deixar envelhecer e enferrujar, embora já esteja com um pouco mais de 70 anos...
Desculpa-me, Arcílio, o ter-te vindo “despir” um pouco em público, mas se o não fizesse hoje, talvez amanhã já fosse tarde.



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