sexta-feira, 17 de novembro de 2006

MEU AMIGO MARTINHO

João Martinho, seguido de CT1UP (Fernando Percheiro)

e este vosso amigo Mário Portugal, num fresco dia de inverno.

Meu grande amigo de há mais de 50 anos, João Vitalino Martinho, que foi professor da instrução primária, durante toda a sua vida, é uma daquelas interessantes pessoas que um dia encontramos pelo decorrer dos anos e nunca mais esquecemos. É mais um marco importante na nossa vida !

Tendo por Signo Escorpião, é certo e sabido que para tudo está sempre pronto a dar uma "ferroada", quando a situação se apresenta favorável...

Quando em contacto pessoal, de grande facilidade de expressão, atento a tudo o que o rodeia, não deixa passar a oportunidade de uma boa gargalhada.

Uma das suas últimas, foi passada numa Repartição Pública, onde havia de ser preenchida uma ficha e a menina lhe perguntou qual era a sua profissão, ao que ele prontamente respondeu « Professor, mas reformado», mas ela omitiu a palavra professor e só escreveu Reformado...

De imediato, o amigo Martinho interpelou a funcionária e vai de perguntar : - Mas desde quando REFORADO era uma profissão...

A menina, toda encabulada, pediu desculpa e vai de agarrar outro impresso, mas agora com todo o cuidado, não lhe fosse escapar mais alguma, lá escreveu tudo correctamente...perante o olhar astuto do Martinho...

Outra vez, havia ido ao campo buscar uma pequena arvore de Natal, mas um pouco da ramagem, ficava à vista, fora do porta-bagagens. Nem de propósito, um polícia de trânsito, o mandou parar e vai de querer saber o que ali levava, mas ficou todo encabulado, quando o Martinho lhe pergunta: - Ora diga-me lá qual é o código de estrada que proíbe transportar uma pequena árvore de Natal no porta bagagens...O polícia engoliu em seco e lá o mandou seguir...

A maioria das pessoas para e pensa um pouco, antes de falar, mas para o Martinho, é instantâneo... dá mesmo a sensação de que já tem e sempre, na ponta da língua, o que tem de dizer...

Mas o Martinho, que os nossos leitores só conhecem destas tão curiosas reportagens feitas neste BLOG, além de professor, tem imensa habilidade de mãos e mete-as em tudo quanto aparece, nem que seja a substituição de tubos de rega da sua horta, às torneiras, à montagem de antenas de rádio, por ser radioamador com indicativo CT1AP, às construções mecânicas, sabendo usar imensas ferramentas, como torno, serras mecânicas, soldadura, como à construção de equipamentos electrónicos, a fotografia, etc.etc.

Ele até chegou a ser locutor de rádio no antigo Rádio Ribatejo e dava a sua colaboraçao a tudo quanto tivesse algo de científico.

Em 1960, é o primeiro radioamador português que intenta a construção e montagem duma estação de rádio móvel, CT1APM, o que veio despoletar um grande interesse por essa modalidade, nessa época muito complexa, devido à necessidade de se gerar mais de 500V DC para alimentar as válvulas do andar final, provinda da bateria do carro de somente 12Vdc, mas ele tanto furou que conseguiu descobrir pela radio, um amigo nos EUA, um tal Frank Rose, de quem viria a ficar muito amigo, e lhe descobriu naquele país, os transistores necessários para a fonte de alimentação comutada. Assim, e como gostava muito de passear de automóvel, ia fazendo as suas comunicações à volta do Mundo, de bordo do seu belo carrinho, depois duma luta atróz com a sintonia da sua minúscula antena.

Foi nesta altura que também entrei para esta modalidade, bem como o colega Valdemar Vidal, CT1 AYM, e foi organizado um concurso na banda dos 40 metros, sendo finalizado em Santarém, onde inúmeros colegas nos esperavam, alguns para nos conhecerem pessoalmente, e outros para verem as nossas estações móveis. O "Rei da festa", era o nosso anfitrião CT1PK, Dr. Fragoso de Almeida, infelizmente já falecido.

O João Vitalino Martinho, sempre foi e será até ao fim da sua vida, um poli-valente, como agora se diz frequentemente, um "free lancer".

Um dia, perante a saborosa leitura de um dos seus escritos, perguntei-lhe como é que ele havia descoberto aquelas pessoas já falecidas há tantos anos.

Aí ele me disse que era simples, pois dava uma volta pelo cemitério do Espinheiro, e observava as datas de vida de alguns falecidos que havia conhecido e ia à procura de quem os tivesse também conhecido. Assim, conversa daqui, conversa dali, reunia facilmente os dados das vidas dessas pessoas e depois, era só "compor o ramalhete", dando-lhes vida, aquela vida que tanto nos encanta ler.

Não havia dúvida que era uma boa ideia, embora um tanto trabalhosa, mas muito do agrado deste ribatejano tão ilustre, em contacto com os seus patrícios ribatejanos, que tanto o admiram e eu também.

João Martinho nasceu em Outubro de 1928, tendo completado o ensino primário em 1939, ingressando de imediato no Liceu de Santarém. Depois foi finalizar os seus estudos no liceu D. João III, em Coimbra e terminou o curso de Magistério Primário em 1951. De seguida foi Director das escolas nºs 1, 4 e 8 de Santarém, secretário das escolas de aplicação anexas à escola do Magistério Primário de Santarém e orientador de estágio de numerosos professores recém-formados e corpo docente da referia Escola do Magistério, leccionando Didáctica Geral e Especial, e organizou um gabinete de audiovisuais.

Aposentou-se em 1992

Notas do Editor

EPISÓDIOS DESENHADOS NUM HOSPITAL

CARICATURANDO NUM HOSPITAL

Quando a minha falecida esposa, teve de ser operada a um cancer nos intestinos, no Hospital de Vila Franca de Xira, eu tive de lá estar horas há espera de a poder ver, e fui-me dando conta de imensas situações mais ou menos cómicas, que me despoletaram a vontade de voltar a caricaturar, coisa que sempre gostei de fazer, desde a minha instrução primária.

Já num sanatório do Caramulo, onde tive o azar de ir bater com os costados, quando tinha 18 anos, lá encontrei imensas caras que eu conseguia caricaturar facilmente, pelo que durante anos, as fui fazendo, embora alguns doentes, não achassem graça nenhuma a se verem assim tão ridiculamente caricaturados...

Mas, quem se sente com habilidade para caricaturar, leva a vida a olhar para as pessoas, tentando encontrar os seus defeitos mais visíveis, mas há muitas gente com feições tão correctas, que não se pode exagerar NADA...

Uns anos depois, em 1951, quando da minha entrada para a RARET em Benavente, continuei com esta "mania", mas felizmente que toda a malta achava graça às suas caras caricaturadas e até muitos me pediram para as fazer em tamanho grande, para poderem emoldurar e colocar nas suas salas.

Logo por azar, o meu chefe, um tal Adriano Lopes Vieira, radioamador CT1CW, já falecido, que estava a chefiar a Empresa em Benavente, era das figuras mais simples de caricaturar, e isso quase me veio a custar a expulsão da Empresa, logo nos primeiros dias...

Ele era gordo de barriga, mas com umas pernas muito magras e uma testa que nunca mais acabava...

Peguei numa caneta e ali num papel qualquer, fiz a sua caricatura, mas perante o receio de que ele a viesse a descobrir, amachuquei-a toda e deitei-a no caixote do lixo. Infelizmente, o papel foi-se abrindo e o amigo Lopes Vieira logo a agarrou e mandou chamar-me.

Quando cheguei, os meus colegas um tanto espavoridos, comunicaram-me que o chefe estava à minha espera e lá vou eu bater à porta do seu micro-gabinete, já à espera duma valente descompostura e talvez o ser despedido...

Embora não se veja no desenho, estava um toiro na base da torre de uma antena, à espera que ele descesse...

Quando entrei no gabinete, ele tinha o meu desenho, todo amarrotado, sobre a mesa, e com a sua voz sempre autoritária e muito sério, pergunta-me: - Foi o senhor que fez isto ?- Eu fiquei todo a tremer...

Mas o que é que eu vou responder ? -Pois desculpe, mas eu não o queria ofender... lamentei-me eu de tão triste ideia que tinha tido...

-Então faça isto em papel grande e perfeito, porque eu quero emoldurar isto e por na minha sala.

Aquilo é que foi um alívio !!!! Quase chorei de alegria !

Uns anos depois, já casado e com filhos, em 1991, minha falecida esposa teve de ser internada no Hospital de Vila Franca De Xira, mas mal tinha a possibilidade de a visitar, com tanta e tanta gente à sua volta, que eu ali fiquei assentado ao lado, a ver passar a hora da visita, sem me poder a ela chegar e vai de fazer a caricatura marcada com o nº14 do grande role de caricaturas, mais de 40, que se haviam de seguir.

Embora não se veja, esta era a "famosa" nº. 14

Mas um enfermeiro que por lá me encontrou a desenhar, achou tanta graça, que logo me pediu para ir fazer fotocópias e mostrá-las não só aos colegas, mas a todos os médicos e pessoal administrativo.

Nunca me havia passado pela cabeça que tanta gente estivesse interessada naqueles desenhos !!! mas um certo dia, estranhei saber que só poderia entrar uma pessoa de cada vez, para visitar o seu doente e inquiri o enfermeiro sobre aquela tão profunda alteração. Mais, fiquei admirado quando ele me disse que a caricatura 14, havia chegado à Administração do Hospital e também as que mostravam uma data de malta a "chatear" os doentes com tanta gente à sua volta e que numa reunião da Administração, essas "terríveis" caricaturas, haviam levado àquela alteração.

Mal sabia eu que uma simples caricatura, como aquela nº14, iria dar tamanha bronca, mas que resultou !

A partir daquela altura, foi um alivio para os doentes e enfermeiros, com muito menos "alarido" na hora das visitas...

Como eu tinha muito tempo disponível, fui passeando mais ou menos silenciosamente por todo o lado e descobrindo muitas situações engraçadas, mas inventadas, em especial as que se referem ao " Xico esperto", porque eram uns mecânicos que lá andavam a vontade por todos os lados, porque tinham de reparar campainhas, candeeiros, etc.

Por isso, eles aparecem de fato de macaco, em que um "explica" ao outro, o que se está a fazer aos doentes.

Mas uma coisa eu havia reparado, pela frincha duma porta onde os médicos se reuniam para conversar; é que, embora por todos os lados houvessem cartazes a proibir fumar, quase todos estavam de cigarro na boca...

Aquilo tocou a médicos, enfermeiros, bombeiros, radiologista, serventes, etc.

" Malvadas portas automáticas "....

Mas obviamente, não posso aqui continuar a apresentar desenhos, porque são mais de 40... mas fica uma ideia do gozo que aquela malta sentia ao vê-los.

Se no entanto, houver alguma manifestação de interesse por mais algumas, é só dizerem.

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

Voando em Asa Delta

Em 1983, tive conhecimento de que já havia em Portugal, algumas asas delta e que estavam a voar por todo o lado com sucesso, mas aqui perto de Benavente, só se ouvia falar dum tal Gomes da Costa do Carregado e de um José Manuel da Azambuja, que também possuia uma bela máquina de fábrica e bilugar. . .

Um certo dia, ali para os lados da Barrosa, uns quilómetros mais à frente, apareceu o Gomes da Costa com um atrelado onde vinha sua linda asa delta, que logo foi armada e posta pronta a voar.

Ele deu-lhe à corda, e aquela "coisa" ficou a roncar durante uns minutos, até que numa corrida curta, estava no ar e por ali andou a alta velocidade por cima de nós, até que chegou a altura de aterrar, mas aquilo vinha com tal velocidade, que não achei graça nenhuma àquela aterragem !

-Então ? pergunta-me ele, vamos ao baptismo ?

Ná... aquilo não me estava a agradar mesmo nada nem entendia o porquê dele ter feito uma aterragem tão longa e com tanta velocidade ...mas ele me respondeu que tinha de ser mesmo assim, para ser mais seguro...

Passado pouco tempo, aparece um automóvel e dele sai um jovem que logo se dirigiu ao Gomes da Costa e pelos vistos era pessoa muito sua amiga, porque logo se montou na maquina e aí vai ele para o ar. Eu estava desejoso de observar a sua forma de aterrar, mas ele conseguiu fazê-la com tal perfeição e suavidade, que fiquei encantado ! Assim sim; pensei eu, assim já me encantas...pensei eu.

Na foto acima, lá me escarranchei no banco de trás e logo de seguida, entre as minhas pernas abertas, o piloto tomou o seu lugar e lá vamos nós ! Aquilo, afinal, também voava muito mais lentamente e assim, era menos assustador...

De imediato, e com meu genro a assistir e também a ter o seu baptismo de voo, logo nos resolvemos ter uma máquina daquelas, mas feita em casa, com o material de que pudéssemos dispor.

José Manuel explicando ao Jorge como se faz, para pilotar as asas delta.

Nas explicações de pilotagem, há sempre muita mímica.

Passado pouco tempo, já o triciclo estava a correr pela estrada, mas sem asa, só para experimentar um pequeno motor de automóvel Citroen de 2HP, e só nos faltava adquirir uma asa de fábrica.

Um certo dia, veio visitar-nos o José Manuel que vendo o estado do triciclo, logo nos acrescentou que tinha lá para vender, uma asa de voo livre, mas que com uns certos reforços, poderia perfeitamente voar com o peso do nosso triciclo e ficou logo ali resolvida a sua compra por 80 contos. Era uma Choucás francesa, que ele no dia seguinte nos trouxe e rapidamente se aprontou o sistema de a agarrar ao triciclo e vai de levar o "estojo" para a Quinta da Foz, onde o brinquedo foi posto a funcionar e pilotado pelo próprio José Manuel, e aquilo foi canja ! Voava que era uma maravilha !

Mas nem eu nem o meu genro, percebíamos nada daquilo, e especialmente eu, estava com um medinho dos diabos... Felizmente que o meu genro já tinha voado muito em Angola, de helicoptero de que era mecânico, mas pilotar aquele "aranhiço" era outra coisa !!!

Nós nem sabíamos que para fazer qualquer máquina voadora subir, era necessário meter motor e pensávamos que bastaria aumentar o ângulo de insidência das asas, o que originava de imediato uma perda de velocidade e, certamente uma entrada em perda, sem qualquer controlo...

Aquilo metia-me muito receio, porque estas asas se abrem como um guarda-chuva e elas ficam esticadas, à custa num pequeno trinco ! Se aquilo salta, com a asa em voo, fechando-se a asa, é morte certa... e já não era a primeira vez que isso havia acontecido a outras pessoas... Assim, vai de reforçar este "trinco" !

Assim, vai de correr com a máquina, mas mal aquilo descolava, logo ele aterrava ! Assim andou aos saltinhos de meio metro, mas coragem para ir mais alto...é que nada !

-Oh Jorge, então quando é que tens coragem para ir mais alto ?, perguntava eu. Então já fazes a pista toda pelo ar e aterras lindamente, porque não te "astreves" (como se diz por aqui) a ir mais alto ? - Tenho medo, muito medo de não conseguir fazer a aterragem, por se ter acabado a pista, respondia ele !

Mas certo fim de semana, estava uma tarde lindíssima e ele já tinha feito várias "rapadas" perfeitamente controladas, quando me lembrei de lhe fazer uma partida; iria barrar-lhe o caminho e ele não teria outro remédio que não fosse ganhar altura e passar-me sobre a cabeça, o que veio a acontecer e a partir desse instante, ele ganhou toda a confiança e passou a voar bem por cima dos 5 e 10 e 20 metros, deixando sempre terreno suficiente, para fazer uma aterragem decente, o que sempre conseguia.

Voando cada vez mais alto...

Outro fim de semana, estávamos nós a brincar com a máquina e eu só a ver....quando apareceu da Azambuja, o José Manuel e mais uma data de rapaziada para aprender, mas numa das suas voltas, a sua máquina enguiçou e ele teve de fazer uma aterragem de emergência muito longe da pista, aí uns 1000 metros para o lado.

O Jorge lá continuava sempre com a brisa de frente, nas suas corridas desde o início ao fim da pista, quando eu lhe disse:- Oh pá, vai lá ver o que se passou, para sabermos se temos de lá ir de automovel, ver se alguém se magoou. Ele ficou um tanto amarelo, por saber que iria voar com vento lateral e por trás, situação por que ainda não tinha passado, mas lá entusiasmou e depois de ganhar altura, finalmente, saiu pelo lado da pista e voando a uns 50 ou 60 metros de altura, lá foi e depois voltou e aterrou perfeitamente, informando que não tinha havido azar especial, porque estavam a desenrascar-se.

Tínhamos um novo piloto de asa delta, mas agora em Benavente.

Mas ele queria mais potência disponível, pelo que vai de engenhar outro motor e mais outros, mais hélices e menos hélices. Aquilo estava a prometer, mas as máquinas estavam cada vez mais pesadas, pelo que ele se entusiasmou e foi comprar um motor ROTAX 503, de 40 HP e uma asa Cosmos novinha que foi buscar a França.

Agora, havia que construir uma coisa mais aperfeiçoada, chegando-se a construir 6 triciclos, agora bi-lugar e já se podiam fazer voos muito mais longos e confortáveis. O triciclo abaixo, foi todo feito em tubos de aço inox que eu soldava mesmo aqui na garagem, a electrogéneo, num soldador de construção caseira.

A minha filha que nunca teve medo de nada...passou a andar constantemente com o marido e se deliciava com o voo, muitas vezes até, em Porto Covo, a ir de asa delta para a praia ... perante a admiração e espanto de toda aquela gente.

Também lá, voei com ele sobre aquelas lindíssimas praias e também aterrei na praia, tendo uma vez ficado bastante molhado, porque mal íamos a tocar na areia, vem uma onda espraiar-se na areia dura e ...pimba, rodas na água e tudo encharcado ! Depois de lá estarmos a apanhar uns bons banhos de Sol, voltámos a descolar e ir pousar num pequeno terreno que nos haviam facultado, por estar livre de agricultura.

Infelizmente, uns anos depois, aquele casamento deu o estoiro e o meu genro desapareceu do mapa, constando que havia fugido para Moçambique, cheio de dívidas e por lá morrido.

Assim se acabou a história das asas delta !

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

MANUEL FÉLIX ...... Por João Martinho

« MANUEL FÉLIX »

João Martinho, é um narrador nato de histórias, amigo de há mais de 50 anos. Ele é daquelas pessoas com quem uma pessoa se sente feliz por ter tropeçado na vida. São dele as histórias aqui já publicadas Albertino Manelico, José Rosa e Manuel dos Santos Almeirão. A sua história de hoje, intitulada MANUEL FÉLIX, é mais uma bela prova do seu engenho e arte em descrever pessoas. Tenho o prazer de informar o leitor, que estas memórias irão ser publicados numa obra intitulada "TIOS E TIAS DO ESPINHEIRO" . O Editor
MANUEL FÉLIX

1936-198?


Por
João Martinho

Não há epíteto que melhor defina o estado anímico vivido por este espinheirense, na sua breve passagem pelo espaço terreno, do que a alcunha “O Risota” .


Nasceu na Etiópia , um agregado de casas com paredes de taipa implantado na orla do pinhal que, do Forno Telheiro, se estendia na direcção de sudoeste.


Risota viveu a alegria e a felicidade plena numa espécie de dádiva divina que faria inveja a tantos que, nadando em dinheiro, não encontram, neste mundo, a paz de espírito almejada.


Teve uma vida emoldurada pelo optimismo, encarando as agruras com descontracção e as dificuldades como meros acidentes de percurso, coisas insignificantes, incapazes de bulir com a firmeza do seu intelecto.


Merecia este conterrâneo que a ele fosse atribuído o titulo de decano da risoterapia, pois militou no campo oposto ao masoquismo, aliviando dores alheias, vergando até males físicos e sofrimentos onde a medicina tradicional não entrava.


Sendo filho do Ti Félix e da Ti Gaiata , um casal parco de bens materiais para quem um pedaço de pão duro servia, quanto bastasse, na partilha pela prole e era ponto de partida para o exercício do poder paternal com a correspondente formação baseada no respeito, Risota riu de tudo.


Riu da fome e do frio, da dor e do suor que lhe empapava o rosto na época das cavas e das debulhas. Riu das bicas, na colheita da resina, e riu de toda a gente arrancando gargalhadas por onde passava.



Em criança transpôs para a escola os bons hábitos adquiridos em casa não criando qualquer problema de ordem disciplinar, mostrando docilidade, obediência e receptividade, bendizendo a professora a pureza dos projectos educativos familiares das gentes das aldeias.


De olhos bem abertos, talvez surpreendido com a experiência de socialização a que ia ser sujeito e porque tinha ouvido dizer “muito riso pouco siso” reprimiu quanto lhe foi possível a tendência natural que o caracterizava. .


É claro que a empatia, gerada pelo bom relacionamento, com a professora acabou por permitir o afloramento completo da sua personalidade. Integrou-se nas matérias do currículo escolar e, rapidamente aprendeu a ler .


Um dia, durante uma aula de língua materna pediu-lhe a professora que lesse um texto do livro único adoptado nessa época e que tinha por título “A gatinha e a Boneca “


O Félix atacou com grande volume de voz que ia morrendo no decurso da leitura até emudecer. Estranhou a professora e invectivou-o:


-Anda rapaz..! Continua…!


Contrapunha o aluno:


Não quero….tenho vergonha…..! E.. ria….ria ..em gargalhadas que mais pareciam protestos e lamentos…


Notou a professora que a frase que o Félix evitava era a seguinte:


- Gosto mais da boneca mas não diga nada à bichana .


Indagou e veio a saber que , no Espinheiro , o termo bichana tinha uma conotação sexual e era dado como obsceno.


Risota, desempenhando as funções de coveiro, morreu com quarenta e poucos anos deixando o Espinheiro atónito e consternado. Foi conduzido em ombros à sua última morada onde ficou a perpetuar a máxima de Cícero “mors omnium rerum extremum est” (a morte é o fim de tudo) . Partiu com a espera a que cada um tem direito no chamado transe final.


Rapazes quando eu morrer


Levai-me devagarinho….


À porta do meu amor


Descansai um bocadinho…..……

sábado, 11 de novembro de 2006

A LAGOA DAS SETE CIDADES e outras

« A LAGOA DAS SETE CIDADES E OUTRAS »

Quem nunca foi visitar as ilhas dos Açores, não pode fazer a mais pequena ideia do que aquilo é !

Verdade seja dita que eu só conheci a ilha de S. Miguel, onde nasci em 1927, mas até para os açorianos, não era fácil nem barato, conhecer a ilha toda, até porque ainda são umas léguas de comprimento !...

Para qualquer continental, aquilo é um bocadinho de terra com água por todos os lados, mas pensando em LÉGUAS... já se pode ter uma ideia da sua dimensão !

« As lagoas verde e azul, das Sete Cidades »

Lá em baixo, uma pequena povoação, com o mesmo nome da sua lagoa, lá vive e reza na sua linda igreja, para que aquele Paraíso seja mantido pela Providência.

Nascida de vários vulcões extintos há imensos anos, é composta de enormes crateras onde as nascentes e as chuvas, formam lindíssimos e enormes lagos, repletos de arvoredo luxuriante por todos os lados, reflectindo nas suas límpidas águas doces, toda a vegetação circundante.

« Um recanto da Lagoa das Furnas »

Sendo um micro-clima, as chuvas são tão abundantes, que não se encontra um metro quadrado de terreno sem planas e todas elas viçosas e regadas constantemente por Deus Nosso Senhor. Ali, e dadas as temperaturas tão amenas, tudo se cria na terra, nem que seja nas valetas, facto que obriga a que os cantoneiros, estejam sempre de enxada na mão a limpá-las... Aquilo chega a ter a sua graça, porque é frequente encontrarmos pés de milho com mais de 2 metros de altura, nas valetas...

É por isso que S.Miguel é conhecida pela "Ilha Verde", onde o pó não existe, por mais vento que se levante...e o gado se cria a pastar com um pé amarrado, para se ir alimentando das ervas frescas e que vai "adubando" enquanto anda em círculos com uns 10 metros de diâmetro. Os pastores só têm de lá ir retirar as estacas, de vez enquando, para o mudar de sítio, retirar o seu magnífico leite, de que produzem os belos queijos açorianos, e , ao chegar da noite, o gado ali fica a dormir ao relento, com o seu pêlo malhado de preto e branco brilhante.

Assim, é frequente vermos diariamente cavalos carregados de dois latões a cada lado e o pastor em cima, viajando pelas estradas cobertas de túneis de árvores, onde o Sol mal consegue penetrar.

O clima é pois propício para o desenvolvimento de plantas como o Chá e os ananases, embora estes sejam criados em estufas, o vinho tinto, a groselha, o araçal, os figos, etc.etc.



Numa piscina das Furnas, a água jorra tão quente e sulfurosa, que imensas pessoas de todo o Mundo, lá vão à procura de cura para as suas doenças de ossos, reumatismos e doenças de pele.

Ali mesmo ao lado, um magnífico hotel está à espera destas pessoas que podem gozar de passeios a pé, a toda a hora, por entre aqueles espectaculares e aromáticos jardins.

« O Hotel Terra Nostra, junto da Lagoa das Furnas »

Nenhuma destas belezas se vê, quando se entra em S. Miguel pelo mar, porque tudo está "escondido" no seu interior, mas felizmente que actualmente, em poucos minutos de viagem, de automóvel, as podemos ver e, normalmente em miradouros habilmente escolhidos onde, num repente, se abrem a nossos pés estas imagens poderosas de encanto e surpresa ! Parece que se abre o Céu na nossa frente, e até parece que nos falta o ar ! Como é possível haver tanta beleza, e aqui a uma hora de avião !

Depois podemos viajar até lá abaixo, a mais de 300 metros de profundidade, para apreciarmos de perto aquelas indiscritíveis maravilhas, num ambiente celestial de silêncio, perfume e limpeza !

Mas a ilha "está viva", "respirando" constantemente pelas suas imensas "narinas", onde se pode ver, ali mesmo a nossos pés, água a ferver e gases, o seu hálito especial, a sair das suas profundidades, nas Fumarolas , e tirando os sapatos, podemos sentir que a terra e as ervas estão mornas ! Por baixo de nós, está a terra a ferver, mas ninguém se assusta... Aquilo é mesmo assim, há centenas de anos, e até achamos graça...

A meio metro de profundidade, estrategicamente enfiados pela terra abaixo, os açorianos enfiaram tubos de cimento, cheios de buracos de lado e por onde jorram os violentos "calores" da terra, como maçaricos, e lá se podem colocar panelas com comida que, passada uma meia hora, se apresenta toda cozida e pronta a comer !

Conta-se por lá, com muito gozo, que um cientista estrangeiro, lá foi visitar essas furnas fumarentas e mal sentiu o calor que brotava da terra a seus pés, e o rugido das "narinas" das entranhas da terra, fugiu assustadíssimo, com todo o seu material científico às costas, garantindo que aquilo estava eminente de explodir...

« As "fumarolas" na Lagoa das Furnas »

Esta tremenda agitação vulcânica, deu origem, há uns anos, ao seu aproveitamento, com uma estação geotérmica construída na freguesia da Ribeira Grande, onde S.Miguel aproveita 30% da sua energia eléctrica, com água captada a cerca de 1000 metros de profundidade, à temperatura de 200ºC.

A Central Geotérmica da Ribeira Grande

Um rico inglês que há imensos anos foi visitar estas "Furnas" ficou de tal forma extasiado e fascinado com o clima que lá encontrou, que mandou vir de imensas partes do Mundo, plantas exóticas que lá plantou e, assim, podemos apreciar as luxuriantes plantas do Japão, Indonésia, Brasil, etc.etc. É tudo do que há de mais belo.

Descrever por palavras, esta ilha tão especial, só por Grandes Escritores.

E eu, relembrando tudo isto, penso ter tido a sorte de ter nascido no Céu !