João Martinho, é um narrador nato de histórias, amigo de há mais de 50 anos. Ele é daquelas pessoas com quem uma pessoa se sente feliz por ter tropeçado na vida. São dele as histórias aqui já publicadas Albertino Manelico, José Rosa e Manuel dos Santos Almeirão. A sua história de hoje, intitulada MANUEL FÉLIX, é mais uma bela prova do seu engenho e arte em descrever pessoas. Tenho o prazer de informar o leitor, que estas memórias irão ser publicados numa obra intitulada "TIOS E TIAS DO ESPINHEIRO" . O Editor
MANUEL FÉLIX
1936-198?
Por
João Martinho
Não há epíteto que melhor defina o estado anímico vivido por este espinheirense, na sua breve passagem pelo espaço terreno, do que a alcunha “O Risota” .
Nasceu na Etiópia , um agregado de casas com paredes de taipa implantado na orla do pinhal que, do Forno Telheiro, se estendia na direcção de sudoeste.
Risota viveu a alegria e a felicidade plena numa espécie de dádiva divina que faria inveja a tantos que, nadando em dinheiro, não encontram, neste mundo, a paz de espírito almejada.
Teve uma vida emoldurada pelo optimismo, encarando as agruras com descontracção e as dificuldades como meros acidentes de percurso, coisas insignificantes, incapazes de bulir com a firmeza do seu intelecto.
Merecia este conterrâneo que a ele fosse atribuído o titulo de decano da risoterapia, pois militou no campo oposto ao masoquismo, aliviando dores alheias, vergando até males físicos e sofrimentos onde a medicina tradicional não entrava.
Sendo filho do Ti Félix e da Ti Gaiata , um casal parco de bens materiais para quem um pedaço de pão duro servia, quanto bastasse, na partilha pela prole e era ponto de partida para o exercício do poder paternal com a correspondente formação baseada no respeito, Risota riu de tudo.
Riu da fome e do frio, da dor e do suor que lhe empapava o rosto na época das cavas e das debulhas. Riu das bicas, na colheita da resina, e riu de toda a gente arrancando gargalhadas por onde passava.
Em criança transpôs para a escola os bons hábitos adquiridos em casa não criando qualquer problema de ordem disciplinar, mostrando docilidade, obediência e receptividade, bendizendo a professora a pureza dos projectos educativos familiares das gentes das aldeias.
De olhos bem abertos, talvez surpreendido com a experiência de socialização a que ia ser sujeito e porque tinha ouvido dizer “muito riso pouco siso” reprimiu quanto lhe foi possível a tendência natural que o caracterizava. .
É claro que a empatia, gerada pelo bom relacionamento, com a professora acabou por permitir o afloramento completo da sua personalidade. Integrou-se nas matérias do currículo escolar e, rapidamente aprendeu a ler .
Um dia, durante uma aula de língua materna pediu-lhe a professora que lesse um texto do livro único adoptado nessa época e que tinha por título “A gatinha e a Boneca “
O Félix atacou com grande volume de voz que ia morrendo no decurso da leitura até emudecer. Estranhou a professora e invectivou-o:
-Anda rapaz..! Continua…!
Contrapunha o aluno:
Não quero….tenho vergonha…..! E.. ria….ria ..em gargalhadas que mais pareciam protestos e lamentos…
Notou a professora que a frase que o Félix evitava era a seguinte:
- Gosto mais da boneca mas não diga nada à bichana .
Indagou e veio a saber que , no Espinheiro , o termo bichana tinha uma conotação sexual e era dado como obsceno.
Risota, desempenhando as funções de coveiro, morreu com quarenta e poucos anos deixando o Espinheiro atónito e consternado. Foi conduzido em ombros à sua última morada onde ficou a perpetuar a máxima de Cícero “mors omnium rerum extremum est” (a morte é o fim de tudo) . Partiu com a espera a que cada um tem direito no chamado transe final.
Rapazes quando eu morrer
Levai-me devagarinho….
À porta do meu amor
Descansai um bocadinho…..……
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