Quando eu nasci em 1927, muitas vezes estava no colo da minha mãe, a mamar, enquanto ao seu lado, uma senhora de nome Perpétua, estava agarrada a uma máquina de costura que funcionava horas e horas, e até vários dias por semana, a costurar as muitas roupas de toda a gente da casa.

Assim, a primeira máquina que eu ouvi a fazer aquele tri tri tric, foi aquela Singer, porque naquela época, não havia roupa feita à venda, e toda tinha de ser construída pelas pessoas habilidosas. Esta senhora Perpétua, era uma delas, mas uns anos depois, quando eu já tinha 5 e 6 anos, tinha de ali estar em frente da costureira, enquanto ela me fazia as provas, coisa que eu muito detestava, porque ela tinha muito mau hálito e aquilo me impressionava bastante...estando sempre a voltar a cabeça para o lado, e ela, que queria ver se os colarinhos assentavam bem, lá me fazia rodar a cabeça, ficando eu com o meu nariz, mesmo ali à frente da sua boca !!!
Desta época, só possuo esta imagem já aparecida em outros artigos.
Assim, enquanto a minha mãe vinha pondo no mundo os seus 5 filhos, todos nós tínhamos de passar por aquele sacrifício... mas às tantas, a máquina enguiçava nas cozeduras mais duras de furar e, às vezes, lá se partia a agulha e nem sempre a D.Perpétua ou a minha mãe, a conseguia voltar a por a funcionar, pelo que havia que esperar a vinda de meu avô, que sendo médico, raramente estava disponível.
Mas quando ele chegava e ia "desenrascar" a máquina, eu ali estava de olhos bem abertos, a seguir a passo a passo, todas as suas manobras com toda a atenção. Eu bem via que aquelas "reparações" não agradavam mesmo nada a meu avô, que tinha de estar sempre extremamente limpo e aquilo sempre lhe sujava as mãos, mas não havia mais ninguém que fosse capaz de realizar aquele trabalho e o raio da máquina, estava sempre a ser necessária !
Até parecia que aquela máquina, era a coisa mais importante que existia lá em casa e nenhum de nós, os garotos, dela nos podíamos aproximar, quanto menos tocar ! Aquilo era uma máquina perigosissima !
Mas um dia, estava eu com uns 7 ou 8 anos, e tendo acompanhado meu avô numa das suas muitas consultas médicas e, fui descobrir que em muitas casas, havia uma máquina de costura, normalmente muito suja e maltratada, ali a um canto, mais ou menos abandonada e lá me aventurei a perguntar se a podia limpar, enquanto meu avô fazia as suas consultas.
Eles estranhavam que um miúdo de tão tenra idade, fosse capaz de o fazer, mas muito amavelmente lá mo permitiam e arranjavam uma latinha com petróleo, um pincel, óleo e uns trapos velhos, para eu fazer aquele trabalho.
Como eu já havia visto muitas vezes, meu avô fazer aquele trabalho, tirava a correia que ia para os pedais e punha a máquina de pernas ao ar, para ter acesso ao seu interior, e lá ia repetindo as manobras já conhecidas, deixando aquilo tudo a brilhar ! Desmontava a caixa da lançadeira e limpava a poeirada toda que lá se havia agarrado, bem como as alavancas do sobe e desce da agulha, aproveitando para lubrificar todos as peças que se movimentavam e sempre me parecia que já não levavam lubrificação há muitos anos...
Aquilo tinha de ser um trabalho muito rápido, porque o meu avô podia acabar a consulta rapidamente e eu não queria deixar o trabalho a meio...o que para mim, seria uma vergonha e frustração...
Passados estes setenta e tal anos, julgo que ele demorava mais do que o suficiente, as suas consultas, só para que eu pudesse realizar e aprender melhor como aquilo se fazia, até porque, como já referi, na nossa máquina lá de casa, ninguém deixava por a mão... Além disso, ele se escaparia aos sujos trabalhos na máquina da minha mãe e eu ganharia em experiência. Ele era muito meu amigo e eu me sentia imensamente feliz por ele me prestar atenção, sempre que tinha um momento de pausa, assentando-me ao seu colo e ensinando-me a ler correctamente, respirando fundo nas vírgulas...para conseguir ler o período, sem parar por falta de ar...
Sempre que eu deixava a máquina a funcionar bem e comprovava o seu funcionamento, observando os pontos por baixo e por cima dos cozidos, era certo e sabido que me vinham oferecer um cabaz de fruta ou algum franguinho para o meu almoço...depois de verem e ouvirem a máquina a funcionar muito mais silenciosa.
Algumas pessoas, talvez por amabilidade, até acrescentavam que a máquina estava melhor do que em nova !

Mas quando ele chegava e ia "desenrascar" a máquina, eu ali estava de olhos bem abertos, a seguir a passo a passo, todas as suas manobras com toda a atenção. Eu bem via que aquelas "reparações" não agradavam mesmo nada a meu avô, que tinha de estar sempre extremamente limpo e aquilo sempre lhe sujava as mãos, mas não havia mais ninguém que fosse capaz de realizar aquele trabalho e o raio da máquina, estava sempre a ser necessária !
Até parecia que aquela máquina, era a coisa mais importante que existia lá em casa e nenhum de nós, os garotos, dela nos podíamos aproximar, quanto menos tocar ! Aquilo era uma máquina perigosissima !
Mas um dia, estava eu com uns 7 ou 8 anos, e tendo acompanhado meu avô numa das suas muitas consultas médicas e, fui descobrir que em muitas casas, havia uma máquina de costura, normalmente muito suja e maltratada, ali a um canto, mais ou menos abandonada e lá me aventurei a perguntar se a podia limpar, enquanto meu avô fazia as suas consultas.
Eles estranhavam que um miúdo de tão tenra idade, fosse capaz de o fazer, mas muito amavelmente lá mo permitiam e arranjavam uma latinha com petróleo, um pincel, óleo e uns trapos velhos, para eu fazer aquele trabalho.
Como eu já havia visto muitas vezes, meu avô fazer aquele trabalho, tirava a correia que ia para os pedais e punha a máquina de pernas ao ar, para ter acesso ao seu interior, e lá ia repetindo as manobras já conhecidas, deixando aquilo tudo a brilhar ! Desmontava a caixa da lançadeira e limpava a poeirada toda que lá se havia agarrado, bem como as alavancas do sobe e desce da agulha, aproveitando para lubrificar todos as peças que se movimentavam e sempre me parecia que já não levavam lubrificação há muitos anos...
Aquilo tinha de ser um trabalho muito rápido, porque o meu avô podia acabar a consulta rapidamente e eu não queria deixar o trabalho a meio...o que para mim, seria uma vergonha e frustração...
Passados estes setenta e tal anos, julgo que ele demorava mais do que o suficiente, as suas consultas, só para que eu pudesse realizar e aprender melhor como aquilo se fazia, até porque, como já referi, na nossa máquina lá de casa, ninguém deixava por a mão... Além disso, ele se escaparia aos sujos trabalhos na máquina da minha mãe e eu ganharia em experiência. Ele era muito meu amigo e eu me sentia imensamente feliz por ele me prestar atenção, sempre que tinha um momento de pausa, assentando-me ao seu colo e ensinando-me a ler correctamente, respirando fundo nas vírgulas...para conseguir ler o período, sem parar por falta de ar...
Sempre que eu deixava a máquina a funcionar bem e comprovava o seu funcionamento, observando os pontos por baixo e por cima dos cozidos, era certo e sabido que me vinham oferecer um cabaz de fruta ou algum franguinho para o meu almoço...depois de verem e ouvirem a máquina a funcionar muito mais silenciosa.
Algumas pessoas, talvez por amabilidade, até acrescentavam que a máquina estava melhor do que em nova !

Esta era exactamente a máquina lá de casa.
Desta "odisseia", minha mãe teve conhecimento, até porque estranhava o aparecimento dos cabazes de fruta e um dia, em que a sua máquina enguiçou e nem para a frente nem para trás andava, e vendo-me ali ao perto, desejoso de lhe por as mãos, e sabendo que meu avô só estaria em casa, daí a horas, lá arriscou o perguntar-me se eu sabia resolver aquele problema... Ela já devia ter conhecimento das minhas "reparações" fora de casa, até porque muitas vezes apareciam pessoas a entregar bolos e doces, especialmente destinados ao "menino Mário"...
Ainda me lembro da alegria que senti, finalmente, por ela me ir deixar tocar na sua máquina, mas como para aqueles trabalhos, ela não se sentia nada vocacionada, nem a costureira, lá me deixou avançar e passados poucos minutos, eu já havia desencravado a agulha partida e entalada no berço da lançadeira, pondo-a a funcionar ! Ainda fiquei uns instantes, a ver se ela ao menos, me dava um beijo, mas havia tanto trabalho à espera da máquina, que lá me mandou ir brincar lá para fora, para a rua. Ela não era muito dada a meiguices nem carinhos e era mais fácil sair dali um puxão de orelhas, do que beijos... mas eu nunca lhe levei a mal isso, pois ela não parava o dia inteiro a acudir aos 5 filhos e a todos os "adeveres" duma mãe de família.
Ainda me lembro da alegria que senti, finalmente, por ela me ir deixar tocar na sua máquina, mas como para aqueles trabalhos, ela não se sentia nada vocacionada, nem a costureira, lá me deixou avançar e passados poucos minutos, eu já havia desencravado a agulha partida e entalada no berço da lançadeira, pondo-a a funcionar ! Ainda fiquei uns instantes, a ver se ela ao menos, me dava um beijo, mas havia tanto trabalho à espera da máquina, que lá me mandou ir brincar lá para fora, para a rua. Ela não era muito dada a meiguices nem carinhos e era mais fácil sair dali um puxão de orelhas, do que beijos... mas eu nunca lhe levei a mal isso, pois ela não parava o dia inteiro a acudir aos 5 filhos e a todos os "adeveres" duma mãe de família.

Minha mãe era realmente bonita mas pouco dada a meiguices...
Toda ela era sentimento para a música de piano, que tocava primorosamente e lhe exigia várias horas de treino por dia. Assim, a presença dos filhotes, só lhe complicava a vida...
Naquela época, eu gostava era muito de carrinhos e camionetas de carga, que a minha mãe e meu avô iam construir no sótão, à porta fechada, usando as caixas dos charutos que meu avô fumava, e me apareciam aos pés da árvore de Natal. Assim, aqueles brinquedos fabricados por eles, tinham de ser muito bem conservados e admirados.
Depois da minha mãe me ter concedido autorização para por a trabalhar a máquina de costura, muito me entretinha eu a fazer minúsculos sacos que ia encher de areia, para os poder transportar nos meus carrinhos e aproveitava para cozer os vestidos das bonecas das minhas irmãs, dado que elas não podiam nem tocar naquela máquina.
PS. Muito grato aos meus amigos Silvio Leiria, e António Sebastião, por me terem conseguido as belas fotos da máquina Singer