domingo, 12 de outubro de 2008

E O VAPOR AGUENTOU-SE...


Esta crónica, devia estar inserida no artigo que escrevi há tempos e intitulado "Amanhã já não tens avô", em Junho do Ano passado, pois foi o que aconteceu no dia exacto do seu falecimento e, porque já tinha a viagem comprada de navio, de S.Miguel para Lisboa, nem me foi possível assistir ao seu enterro.
Era realmente, um dia tristíssimo para mim, mas essa viagem não podia ser adiada, porque não podia mesmo, até porque tinha de estar no Continente, para entrar na Escola Industrial Marquês de Pombal, onde já estava matriculado.
Eu só conseguia recordar a sua expressão sorridente, com a sua cara deitada sobre a sua mão esquerda, mas já falecido.
Aquela impressão de que nunca mais veria aquele meu adorado avô que tanto carinho me havia dado, fazia-me doer e muito a alma...
Até fiquei com a impressão de ele estava à espera daquele dia, para se despedir de mim.
Eu só tinha 16 anos, mas sempre vivi muito agarrado àquela simpatia, àquele carinho que só um avô pode dar a um neto e ele sabia que nunca mais me poderia acariciar nem me ensinar o tanto que sabia, nem me ouvir a ler as notícias dos jornais, ali deitado ao lado dele, na sua cama, embora só recostado, como num sofá.
Como não havia luz eléctrica, ali estava eu horas e horas a ler-lhe as notícias, à luz dum candeeiro de carbureto, que todos os dias era carregado pelo empregado, o Sr. Manuel que, além de ir buscar água numa carrocinha de mão, também tratava de manter o seu carrinho Austin-7 impecável, além de fazer as cobranças anuais das avenças, vinte escudos que cada agregado familiar entregava ao médico, para ter direito a assistência médica em todo o ano, fosse uma ou uma dúzia de pessoas...
Antes disto, eu lhes escrevia do Continente, cartas enormes a descrever como estávamos a viver, das nossas dificuldades e falta de dinheiro...
Foi a este propósito, que escrevi neste blog, o artigo " Um açoriano abandonado em Lisboa", em Fevereiro de 2007.

Sair e entrar nas ilhas açorianas, naquele tempo, só de navio e haviam vários.
Eram necessários 3 dias de viagem, sendo 1,5 até à ilha da Madeira, e outro tanto, da Madeira ao Continente.

Assim que o navio se pôs ao largo, até parecia uma lagoa, quase sem ondulação, e ali íamos direitinhos à Ilha da Madeira, onde ele teria de ser carregado de bananas, anonas, uvas, maracujás, etc.
Comigo, iam outros rapazes, mais ou menos da minha idade, também para estudar no Continente e como o vapor ia carregado de gente, tudo servia de graça e toda a gente se ria por qualquer coisa, embora fôssemos todos na proa do navio, onde há mais balanço, e por isso é a 3ª.Classe.
Como não havia balanço, até parecia que íamos num paquete de luxo, não fora o termos de dormir nos porões, por não haver mais beliches disponíveis !

Eu devia ser o passageiro mais triste que ali ia, e até um tanto ridículo, porque na véspera do falecimento de meu avô, ele me havia pedido para levar comigo a sua viola, uma linda peça de música, de que eu já sabia todos os acordes e afiná-la.
Mas a minha tristeza era maior do que ter à mão aquela viola, e sem coragem para a agarrar, embora a malta protestasse de eu não a tocar...
Mal sabiam eles de onde vinha aquela viola, e a razão porque eu não lhe tocava.

Como o mar estava imensamente calmo, quase todos os passageiros da 3ª. classe, se encontravam debruçados na amurada, da proa, a verem imensos golfinhos, como a tentarem andar mais depressa que o navio...

No dia seguinte, ainda era quase noite, começámos a ouvir uma certa algazarra, porque alguém já sabia que devia estar a terra à vista e vai tudo de se levantar, até porque para muitas pessoas que lá iam, era a primeira vez que iriam ver terra, de bordo de um navio e isso era uma situação empolgante!
Para mim, já era a quarta vez que cruzava o Oceano Atlântico entre os Açores e o Continente, pelo que nada daquilo já me interessava, mas realmente o ver-se terra, tem sempre um certo mistério, pois ao contrário do que se poderia pensar, não se vê uma ilha na penumbra, lá muito longe, mas sim umas casinhas colocadas entre as nuvens, uma aqui, outra ali... a centenas de metros de altura !
Para toda aquela gente, que tinha a sua primeira viagem, eram gritos de alegria ao descobrir: olha ali outra... e outra ali mais abaixo... olha tantas no Céu....
Uma neblina teimosa, bloqueia toda a visão, mas como os navios iam direitos à ilha, de hora a hora, cada vez aparecem mais casas que se perdem pelo céu a dentro, a perder de vista, por entre as nuvens...
Ou seja, nós já estávamos muito perto da ilha, e só aquelas casinhas no céu se podiam ver, mas mal nos aproximamos mais, e a neblina desaparece, estamos somente a umas centenas de metros de terra, e até dá a impressão de que o navio vai entrar de proa pela terra a dentro...
Chega tão perto, que se podem ver as pessoas e os carros a andar, os pequenos barcos de pesca, todo aquele imenso verdejante florido que entra pelo céu a dentro, como se a ilha não tivesse fim, em altura !
E sente-se na pele o que teriam sentido os marinheiros das nossas caravelas, ao avistar terra!...
Mas, subitamente, o navio roda 90 graus e vai a acompanhar a costa da ilha, até num repente, se entrar na baía do Funchal e se poder assistir à azáfama da sua população com a nossa chegada.
De terra vem um aroma imenso de flores e frutos exóticos, inebriante.

Num repente, nos vemos acompanhados de imensos barquinhos minúsculos, com duas pessoas, um adulto que rema, e uma criança de tenra idade, que vai em pé na proa, que se atira à água, depois de ver que alguém de bordo, lhes atira moedas e que eles num repente, enquanto elas fazem zig-zag nas águas cristalinas, eles as agarram, metem na boca, e voltam para o seu barquinho, mostrando ufanos, que as conseguiram agarrar, esperando cada vez mais moedas e assim acontece durante uma boa hora, enquanto o navio se encosta à doca.
Chega a ser impressionante o tempo em que aquelas crianças tão jovens de 5 e 6 anos se aguentam sem respirar e a ir buscar as moedas. E chega-se a ficar preocupado...
Aquilo é especialmente emocionante, porque estando a água tão transparente, se pode ver o trabalho daquelas crianças, e a sua habilidade para nadar a tão grande profundidade, pelo que os passageiros do navio, acompanham estas proezas e mal eles chegam cá a cima, atiram mais e mais moedas, cada vez mais valiosas, e eles lá voltam a mergulhar continuamente...

Depois do navio encostar, é toda a azáfama de ir visitar a aromática cidade do Funchal, esbarrando com imensas pessoas a quererem vender cachos e cachos de bananas lindas, por poucos escudos, e cestos de fruta pronta a comer de tão madura e aromática.
Mas depois dumas horas em que podemos visitar terra, o navio apita e lá vem toda aquela gente, tanto passageiros como vendedores de lembranças e fruta, cada vez mais barata, e é ver um caudal de cachos enormes de bananas chamadas "de prata", por serem gordinhas, muito doces e aromáticas, às costas dos passageiros, convencidos de que as podem trazer até ao Continente e presentear as suas famílias, além de terem fruta para imensos dias....

E acabou a festa, já quase de noite, quando o navio se põe ao largo, agora carregadíssimo de paletes de cachos de banana enchendo os porões, e o convés, mal deixando um cantinho onde a malta se possa deitar para dormir um pouco.
Mas agora, o caminho é outro, pois temos de aproar a uma outra ilha, Porto Santo, a caminho do Continente, mas naquele dia, apanhámos um temporal dos diabos, em que ninguém se aguentava em pé, a não ser às ombradas contra as paredes e toda a gente a vomitar, gritando para que a rapaziada lhes tirasse da frente os cachos de banana, e as caixas de maracujá, e as belas uvas, e as anonas, etc. etc. e que assim vão desaparecendo das portas dos camarins, embora ninguém se atreva a levantar dos beliches, tais são os balanços!

Eu já tinha apanhado mar mexido, mas aquilo era demais !
Mesmo com a proibição de se sair na proa, eu ainda me consegui esgueirar e fugir para a ré, subindo os degraus que levam para junto da chaminé, onde se podia apreciar a robustez daquele navio, a tentar não se transformar em submarino, mas metendo toda a sua altíssima proa pelas enormes vagas frontais, entrando toneladas de água por cima da proa e convés, para logo a seguir, subir uma nova vaga, subir, subir , até já com ela toda livre, e quase metade do navio sem água por baixo, voltar a enfiar-se pela nova vaga a dentro, estremecendo de proa a popa, num estrebuchar violento dum monstro, que perecia estar a guerrear, para não morrer sufocado...

E toda a noite foi assim, até que tudo acalmou e lá fui para o porão da frente, deitar-me um pouco, no meio duma tremenda confusão de caixas de banana espalhadas por todos os lados...
Só ao acordar, é que todos estranhámos que o navio estava todo de lado... Que coisa estranha, quase a emborcar... numa posição realmente ridícula para um navio daquele porte...
Quando chegámos cá fora, é que vimos o porquê daquela situação. É que as grades de caixotes que vinham no convés, tinham deslizado todas para o lado esquerdo, desequilibrando imenso o navio!!!
Estávamos à entrada do Rio Tejo e o navio parado, todo tombado, numa figura realmente ridícula !
E ali estivemos horas e horas, à espera que nos viessem rebocar, qual navio pronto a emborcar-se, mas o vapor, se aguentou !

Quem hoje se faz transportar de avião, não faz a mais pequena ideia do que era uma viagem de barco, o encanto de pensar nas caravelas, nos descobrimentos, nem as paisagens que se podem ver durante horas, enquanto os navios vão andando até entrarem no porto do Funchal.
E só dão pelo intenso aroma da ilha, quando saem dos aviões, mas muito longe da cidade do Funchal, das suas gentes e das habilidades daquelas dezenas de crianças alegres e corajosas, que se atiravam à água na ânsia de ganhar mais umas moedas.
Na realidade, uma viagem por mar, à ilha da Madeira, onde meus avós nasceram e se criaram, era das coisas mais emocionantes por que uma pessoa pode passar.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

A FADA DO MEU LAR

Mesmo após tantos anos, da minha esposa ter falecido, não há um Natal, em que não me lembre dela, aquela mulher que tanto se esforçou, por me dar felicidade, durante quase 50 anos, de casado...

Na realidade, tivemos uma vida um tanto difícil e sempre com dificuldades financeiras, para podermos acompanhar os nossos 3 filhos a terem uma vida saudável , feliz e simplificada.

Mesmo agora, com 81 anos, mesmo um tanto longe dos meus filhos que sempre têm as suas vidas diferentes e os seus Natais especiais, eu sinto e julgo que sempre sentirei a sua falta. Ela era bem a minha outra metade...

E é nestas datas, em que mais recordações me vêm ao espírito, aquela azáfama da véspera, aquela quantidade de doces que ela sempre fazia, a contar com todos os filhos, além duma velhinha, a sua avó materna, que esteve a viver uma data de anos na nossa companhia, e de que já falei naquela crónica recente, e intitulada " Senilidade...coisa estranha...".

Verdade seja dita que, talvez por nunca termos vivido com abundância de nada, nem eu, nem os meus filhos rapazes, fomos atraídos por andar à procura de prendas, mas bem pelo contrário, a minha filha Antonieta, era ao contrário, tal e qual a mãe, e vivia todo o ano à procura de alguma coisa a que todos achassem graça naqueles dias 25 de Dezembro e, ainda todos de pijama, nos reuníamos na sala, para ver o que nos teria calhado de oferta.

Nós, os rapazes, raramente conseguíamos descobri algo para aumentar aquela enorme rima da embrulhos e caixas coloridas, não tanto pelas despesas que teríamos de fazer, mas por falta de habilidade, embora sempre esperando que alguém se tivesse lembrado de nós...

Mas era emocionante ver aquela pilha de presentes amontoados, à espera que a minha esposa começasse a ver os nomes que estavam escritos em cada embrulho e assim, sempre havia presentes para toda a gente, coisas sempre baratinhas, pois como ela só trabalhava em casa, tinha todo o comando nas verbas que eu ia recebendo todos os meses, de ordenado, e lhe entregava totalmente, pois já sabia que ela teria o cuidado de reservar alguns tostões para os meus cigarrinhos e alguns litros de combustível para o nosso velho carrinho.

E sempre ficávamos deslumbrados com as coisas que ela descobria, sorrateiramente e ia guardando ao longo do ano, para aquele dia festivo, tudo bem escondido nos armários.

A gente não necessitava de dizer se precisava disto ou daquilo, porque ela até sabia melhor do que nós e já andava a procurar no mercado os seus preços, para as adquirir em conformidade com as suas possibilidades financeiras, para não por em perigo a nossa alimentação, educação, a renda de casa, a água, a luz, o telefone e algumas roupas mais necessárias.

Ela tinha a habilidade de ter tudo na mão, adaptando os fatos dos mais velhos, para os mais novos, e embonecando a nossa casinha com imensos bordados e rendas lindíssimas, que nós íamos vendo crescer dia a dia, todo o ano.

Recordo aqui, que em certa altura, ela se havia queixado de que o relógio despertador, a que ela dava corda todos os dias, sempre estava na sua mesa de cabeceira, e fazia muito barulho com o seu tic-tac constante, durante a noite, e resolvi ir à procura de um mais silencioso, para lhe oferecer num Natal, o que consegui e muito bem embrulhadinho, o fui guardar dentro das minhas tralhas, longe da vista dela.

Mas no profundo silêncio que existia à volta daqueles armários, ela estranhou um tic-tac e tanto procurou, que foi encontrar o bonito embrulho onde ele estava e logo pensou...cá está o relógio que ele me vai ofertar pelo Natal, mas calou-se muito calada e matreira...

Esse relógio era um despertador amarelo, realmente muito silencioso e, como todos, possuía um "cabelo" agarrado ao seu volante, para lhe manter o movimento de vai-vem.

Por graça, às tantas eu lhe dizia: "E é amarelo...." e ela sorria, simplesmente... gozando...

"E é redondo..." e ela sorria...

"E tem cabelo...." e ela sorria, enquanto eu julgava que ela nunca mais saberia do que eu estava a falar.



Até que chegou o Natal e ela na mesma sorridente, depois de ver o relógio, me disse que já sabia, porque um dia, tinha ido à oficina dos meus brinquedos e havia ouvido o seu tic-tac..., mas beijou-me agradecida, na mesma.

É engraçado recordar que esse mesmo relógio, continua sobre a sua mesa de cabeceira, parado desde o dia em que ele faleceu... há já uma data de anos...

Aquilo era um dia de beijos para toda a gente e a cada prenda que era desembrulhada, a expectativa de cada um na sua descoberta, a alegria imensa de poder receber uma prenda tão desejada.

Qualquer coisinha que nos calhasse, já era uma festa, nem que fosse um lenço ou uns peúgos !

Mas a minha filha Antonieta, essa era demais, pois até ia comprando coisas para ela, durante o ano, na mira de ter mais uns embrulhos para abrir e fazia uma grande festa... ao abri-las...
Nós, rapazes, nunca sabíamos de quem vinham tantos presentes.

Quando apareceram as panelas à pressão, eu havia ficado deslumbrado, pois sabia que estando a água à pressão, aumentava muito a sua temperatura, e por isso, se podia cozinhar mais rapidamente.

Ainda eram raras no mercado, mas eu consegui uma e vai de ser mais uma prenda para a minha esposa, embora lhe notasse umas certas reticências, quanto ao seu uso... não fosse aquilo explodir... mas um tanto contrafeita, vai de colocar-lhe tudo o que necessitava uma boa sopa de feijão e lá a colocou ao lume.

Mas mal a água começou a levantar a válvula e a fazer pxi pxi pxi, ela largou tudo e fugiu da cozinha, cheia de medo, espreitando de longe, não fosse aquilo fazer PUMMMM! Estava mesmo apavorada !

Ela não acreditava muita nestas coisas, ditas modernas e ficava sempre de pé atrás...

Claro que eu logo entrei na cozinha e reduzi o lume, até porque só interessa um leve pxipixi, indicando que a pressão está a 2 Kg, ou sejam 200ºC... julgo eu.

Depois, ela desejou ver se já tudo estaria cozido e houve que a abrir, pelo que vendo que ela não tinha coragem, lá fui levantar a válvula e depois de baixar a pressão a zero, fui colocá-la debaixo da torneira da água fria, para a poder abrir, o que ela acompanhou e, a partir dessa data, até ao fim da sua vida, sempre usou panelas de pressão, que em várias festividades, eu sempre ia conseguindo comprar e assim ela ficou a possuir umas 3 ou 4, que ainda hoje existem.

Em todos os Natais, a minha esposa fazia um grande alguidar de velhoses, aquela massa de abóbora, que é fermentada durante muitas horas e depois de crescida, se põe a fritar ao lume, em pequenas bolas, e depois é polvilhada com açúcar e canela. Aquilo era realmente, uma delícia !

Como éramos muitos, tinha de fazer sempre uma boa quantidade e as ia guardando num armário.

Como disse há bocadinho, estava connosco, aquela velhinha simpática a D. Rosa, que se juntava a nós no abrir das prendas, e sempre recebia coisas de que necessitava, rindo, agradecida por se terem lembrado dela.

A sua alimentação, tinha de ser muito especial, praticamente sopa de legumes e sopas de café com leite, além de uma peça de fruta, coisas que ela pudesse comer e trincar com as gengivas, pois dentes é que já não tinha há muitos anos.

Mas na véspera daquele Natal, ela caiu à cama e até nos parecia que iria morrer a qualquer instante...

Muito quieta e pálida, mais parecia uma defunta, enquanto a minha filha muito amargurada, andava à sua volta a pedir-lhe para não morrer nesse dia e esperasse para depois do dia 26, para não estragar a sua festa. Mas a velhinha, ali continuava, de olhos fechados, e sem dizer palavra, só respirando!

Todos estávamos muito tristes, pois ela já tinha imensa idade e não entendíamos o porquê de ela estar assim a passar-se, mas ao fim do dia 24, ela abre os olhos e sorrindo, muito matreira, nos diz que esteve muito agoniada, com a quantidade de velhoses que, à socapa, ia roubando das travessas...

Felizmente que as suas aflições passaram e no dia 25, já estava pronta para receber as ofertas e voltar às maravilhosas e fôfas velhoses que a minha Alice sabia fazer como ninguém.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

SENILIDADE...COISA ESTRANHA !!!!!!

Aqui há muitos anos, tive o prazer de ter na minha casa, uma avó da minha esposa, que por ter ficado afastada dos seus 5 netos, estava a viver sozinha na sua casa, embora tivéssemos encontrado uma jovem que até podia ser filha dela, que a ela se dedicou, mas não podia estar as 24 horas de cada dia.

E o pior, é que todos os seus netos, desejavam ver-se livre dela, nem que fosse pelas suas férias, mas o que é certo é que ela ficava sempre em casa, dizendo que ali é que se sentia contente, rodeada das suas coisinhas.

Mas quando chegaram os 80 anos, chegámos à conclusão de que ela teria mesmo de vir viver connosco e, como havia um quartinho disponível, lá a conseguimos trazer, embora notando que ela mais desejava que fossemos nós a ir para a sua casa, em vez de ela para a nossa...

Claro que isso era impossível, porque ela vivia numa casa muito antiga e sem comodidade alguma, mas foi nela que nasceram todos os seus netos e a sua única filha.

A velhinha, aquela Rosa Agrieira, tinha muita piada e era muito esperta, muito atenta a tudo o que se passava à sua volta e sempre pronta a ajudar de quem dela se aproximasse, mas os netos estavam todos espalhados pelo país e dois em Inglaterra, pelo que a única disponível, teria de ser a minha esposa, até porque o gosto pelas férias, já se tinha atenuado, com o afastamento dos nossos filhos, e assim não fazia grande sacrifício em ficar constantemente com ela.

Passado pouco tempo de ela estar na nossa companhia, começou a queixar-se muito dumas dores nas costas que não abrandavam em qualquer posição, nem de dia, nem de noite...

Segundo o seu médico assistente, Dr. António Ventura, ela estava cheia de bicos de papagaio, mas como tinha uns bons pulmões e coração, teria que inevitavelmente, sofrer daquelas dores, até porque já sabia desde há muito, que o seu estômago não aguentava qualquer analgésico.

Quando ele ia a sair de nossa casa, ainda lhe perguntei: "Então vamos abandonar a velhinha ao seu sofrimento ?", ao que ele respondeu: «E ela vai ter muito que sofrer, porque com aqueles pulmões e coração, está para durar..:".

E fiquei a cismar, pois já tinha lido umas coisas sobre Ondas de Radio ou Diatermia, e era coisa que eu poderia fazer, por ter a profissão da electrónica e ser radioamador com indicativo CT1DT.

Mesmo com esta ideia na cabeça, falando pela radio com outro médico amigo, Dr. Fragoso de Almeida, também radioamador, como eu, mas com indicativo CT1PK, , ele me disse que dada a sua idade tão avançada, provavelmente não daria nada, mas se não fizessem bem, mal não faria...

Foi quanto bastou para eu entrar de imediato na construção dum gerador de ondas de radio e ao aplicar as suas placas nas costas da velhinha, logo verifiquei que ela tinha lá um grande alto, mesmo no meio das costas e muito doloroso. Assim, coloquei uma placa acima e a outra abaixo, e ajustei a potência até ela dizer que já estava morninho...e assim ficou durante 15 minutos.

Mas, ao fim deste tempo da aplicação da Ondas Curtas, ela que tinha sido levada ao colo, por mim e minha esposa, toda encolhida e gemendo com as dores, não desejou ajuda e, realmente se levantou da cama onde tinha feito o tratamento e muito direita, só dizia: «Isto é milagre... é milagre, só pode ser milagre...», e lá foi pelo seu pé, para o seu quartinho, tendo-se assentado num confortável "maple" e pegado numa costura que já estava parada há muito tempo, pondo um lenço branco sobre o seu cabelo já muito branco, por causa do Sol.


No dia seguinte, fui convidá-la para fazer uma segunda sessão, mas ela até respondeu que já nem necessitava... mas lá foi pelo seu pé e se colocou de lado, para fazer a nova aplicação.

Para nosso espanto, aquele inchaço havia desaparecido por completo e como ela era magrinha, até se podiam contar agora, as vértebras.

Mas eu sempre estranhei que ela só se alimentasse de sopas de café com leite, fazendo sopas com pão integral e não queria mais nada...a não ser um fruto qualquer...

A minha esposa é que me contou que aquilo já era a sua alimentação, desde há mais de 30 anos, desde que havia descoberto que aquela dieta experimental, não lhe provocava as tremendas dores de cabeça de que vinha a sofrer desde há muitos anos...

Mas certo dia, a velhinha aparece com vómitos e mais vómitos e só se viam coisas negras a sair pela boca, pelo que a minha esposa logo descobriu a malandrice... ela tinha ido ao alguidar das azeitonas, e como já não tinha dentes, sem que ninguém desse por nada, ela as ia papando, e cuspia para dentro do alguidar, os caroços, para que ninguém soubesse! Aquilo é que ela era uma velha marota...

Isto descobriu minha esposa, porque, ao chegar ao fim das azeitonas, estavam lá uma data de caroços...

Não havia ela de estar aos vómitos...mas sempre negando que se tivesse atirado a elas...

Mas já para cima dos 90 anos, a velhinha começou a dizer que via procissões a andar pelos cortinados do seu quarto e os meninos e o Sr. Prior... e outras vezes, eram touradas e cavalos... e danças...

Como seria aquilo possível, pois ela interrompia a conversa normal, que estava a ter connosco, para se referir ao que estava a ver e depois ria-se e dizia: «Isto deve ser da minha cabeça, porque realmente, não pode ser...»

Segundo conversa com os médicos, ela estava a ficar senil e isso era normal, quando algumas pessoas chegavam àquela idade.

Um dia, ia eu a passar em frente à sua porta, ela me chamou, pedindo-me para chamar a mãe daquela menina que estava ali mesmo, a chorar pela mãe...

Oh pá, aquilo era demais, pois não havia qualquer criança nem ali nem na casa, e pedi-lhe para me indicar onde é que essa menina estava, pelo que ela logo me disse; «aqui, aqui, », mas quando eu passei a mão pelo sitio, para lhe mostrar que não havia ali criança alguma, ela me disse: «ela fugiu para trás daquele móvel...»

Mas o que diabo eu poderia fazer ? Aquilo é que estava mesmo ali, uma açorda !!!

Mesmo assim, e porque o móvel não era muito pesado, ainda o afastei da parede para ela ver que não estava lá ninguém, mas a velhinha se mostrou um tanto amargurada, por eu não a ter visto e até me pareceu chocada, tal era a certeza de que a havia visto e até feito festas à criança... prometendo-lhe que iria procurar a sua mãe.

Aquilo só poderia ser um curto-circuito cerebral, entre a sua memória actual e a antiga, em certos períodos de tempo. Eu já havia ouvido falar daquilo, mas estar na presença da pessoa, é que nunca !

Se fosse hoje, talvez ainda experimentasse as mesmas Ondas Curtas...

Noutra altura, ela me chamou para me mostrar, muito envergonhada, puxando um niquinho a sua enorme saia, como tinha inchado um joelho e isso lhe dificultava imenso o andar.

Mas porque diabo ela não me teria dito isso há mais tempo? Realmente, aquele joelho tinha o dobro do tamanho do outro !

De imediato, lhe apliquei as Ondas Curtas e para meu novo espanto, no dia seguinte, os dois joelhos já estavam com o mesmo tamanho e ela já podia andar.

Pois passou a haver outro problema, pois sem dizer nada à neta, muito sorrateiramente, saía de casa e ia dar uma volta pela vizinhança, conversar com as velhas da sua idade, até que a minha esposa dava pela sua falta e lá andava à sua procura. Aquilo é que ela era uma velha matreira !!!

Um dia, e preocupado não fosse ela dar algum tombo e partir-se toda... ainda lhe falei no uso duma bengala, mas ela logo se insurgiu, dizendo; « Bengala eu ? Para quê? Para me chamarem de velha ?»
Aí respondi: «Mas oh Rosa, quando é que se convence de que já está velhinha ?»

»Pois é, Sr. Portugal...» que era a forma por que sempre me tratava: «Pois é...tem razão, eu sou mesmo uma velha tonta...", mas nunca a usou, preferindo andar aos tombos !

Certo dia, por eu ter comprado uma máquina de costura eléctrica, a convidei a experimentá-la, e ela assim se assentou à sua frente, e vai de pô-la a funcionar, carregando no pedal... mas aquilo arrancou a toda a velocidade, o que a pôs a rir às gargalhadas... Mas lá se habituou e passado algum tempo, já se entendia com ela, fazendo bainhas de cortinados e panos para limpar o pó, o que a distraía imenso.

Esta velhinha veio a falecer aos 95 anos, mas sempre muito lúcida, a ponto de nos ter pedido para chamarmos um Escrivão do Registo Civil e, para nosso espanto, ela deixou bem claro, perante testemunhas vizinhas, que deixaria a sua "terça" à minha esposa... por ter sido a única neta que lhe havia dado o carinho de que ela tanto necessitava, e durante os 8 anos que viveu connosco.


Este seu propósito, acabou por resultar em que todos os seus irmãos, lhe deixassem de falar...

Como minha esposa sabia que eu não podia estar ao pé de mortos, e ela já havia falecido uma hora antes de eu chegar a casa para almoçar, nada me disse, mantendo somente a porta do seu quarto fechada.

E aguentou-se sem chorar, durante todo o almoço, só se vislumbrando uma certa tristeza...

Quando a despiram pela última vez, ela mostrava bem um enorme volume na barriga, como se tivesse lá dentro um enorme fruto.

Ou seja, aquelas tremendas dores de cabeça que ela havia tido 30 anos antes, já seriam devido àquele tumor que estacionou, com a dieta das sopas de café com leite.

Vai uma pessoa entender estas coisas !!!!

domingo, 24 de agosto de 2008

E DESTA, QUASE MORRI...

Aqui há uns tempos, fui encontrar no meu quintal, que não é mais do que um corredor cimentado de 2 metros de largo e uns 10 de comprimento, com muros com mais de 2 metros de altura, uma gata siamesa que para lá tinha saltado, ainda nem sei como... para ir ter 5 lindos gatinhos, mas ao tentar fazer-lhes festas, eles protestaram, mostrando os seus aguçados dentes...e soprando...

Isto é que está aqui um imbróglio, porque eu teria de os alimentar, quando a sua mãe já não os pudesse alimentar de leite ou eles tivessem idade para saltar bem alto.
Para eu dizer com franqueza, eu nunca entendi de gatos, nem muito menos de bravios...mas estava-me a fazer confusão o ter de lhes dar de comer todos os dias e, sei lá o quê....
Como não encontrei ninguém interessado neles, e até uns me diziam que os matasse, mas isso é que eu nunca faria... matar, só formigas, moscas, baratas e mosquitos...

Por outro lado, se os deixava entrar em casa, bem que os poderia andar a correr com uma vassoura, por baixo de todos os móveis, o que para os meus 81 anos, já não é nada fácil...
Ainda por cima, andei uns dias à procura de mau cheiro que tinha em casa e só depois de me deitar ao comprido no chão, junto duma cama de casal disponível, é que verifiquei que a malvada gata, lá tinha deixado aquele "presente" tão mal-cheiroso e havia que o retirar rapidamente.

Com a ajuda duma pá de lixo, e voltando a deitar-me totalmente no chão e até por baixo da cama, é que lá consegui chegar, mas só depois de lavar com água perfumada, é que o mau cheiro acabou.

Mas a certa altura, tive mesmo que ir ao quintal para fazer umas medidas duma antena e não queria deixar a porta metálica, de alumínio, e de esquinas muito vivas, aberta, pois era certo e sabido que a gata entraria...

Assim, deixei só uma nesga aberta, para poder meter um cotovelo, ao entrar, mas logo por azar, quando ia a entrar, tropecei no degrau e, como trazia as duas mãos ocupadas, lá vou eu disparado à esquina viva da porta, fazendo um grande golpe onde a testa acaba e começa o cabelo, que começou, de imediato a jorrar uma data de sangue pela cara abaixo.
Apavorado, vi logo que aquele golpe de 4 centímetros estava furioso de hemorragia e havia que travá-la, o mais depressa possível, pois a jorrar sangue daquela maneira, eu nem podia ir buscar ajuda a lado algum até porque era Domingo e até os vizinhos haviam saído.
Estava mesmo sozinho !
Mas o pior é que aquilo era sangue demais para estancar e conforme é meu costume, na casa de banho, tenho sempre tudo o que é necessário, como tinturas, gaze, algodão, pensos, água oxigenada e até tesoura.
Mas eu estava a sentir-me desmaiar e já sabia que se isso me acontecesse, estaria mesmo perdido, pois não tinha ninguém por perto para me ajudar, mas lá ganhei coragem e pensei com toda a força, que não me podia deixar abandonar àquela hemorragia, pelo que segurei uma compressa sobre a ferida e tentei acalmar-me, o que ainda levou algum tempo, mas acalmei.
Assim, e vendo que havia muito cabelo sobre a ferida, agarrei a tesoura e vai de cortar todos aqueles cabelos empapados de sangue e que estavam a deixar escorrer aquela tinta tão vermelha, pelos olhos, nariz e boca, escorrendo para o lavatório.

Com uma compressa de gaze lá fui lavando com água da torneira, tudo aquilo, e tentando não deixar nem um cabelo sobre a ferida e como queria colocar tintura, necessitava das duas mãos disponíveis, mas isso me obrigaria a ter de largar o penso.
Como sempre tenho à mão, uma tintura em SPRAY, a Collu Hextril, que uso há anos, para todas as feridas, ou irritação de pele, agarrei nela e esguichei para cima da ferida, enquanto a hemorragia foi parando, até que estancou e até o couro cabeludo secou. Até parecia magia !
Estava salva a situação !
Com outra gaze lavei toda aquela zona e como só tinha à mão uns pensos adesivos pequenos, pois foi mesmo com eles que tapei a ferida e assim ficou durante quatro dias.
No quinto dia, com muito cuidado, fui levantando os adesivos que já se mostravam a descolar, e para minha alegria, a ferida estava de óptimo aspecto.
Agora iria ficar mais uns dias ao ar, antes de poder tomar um banho e assim aconteceu.
E não levou pontos nem agrafes... nem mudanças de pensos, e estava feliz, mas a perda de sangue é que me deixou mesmo abalado, pelo que só depois de umas semanas, é que comecei a poder fazer qualquer coisa de normal, embora muito cansado.

Isto de chegar a esta idade, tem destes problemas, porque uma pessoa já não anda... mas vai arrastando os pés, que teimam em tropeçar em tudo... nem que seja um tapete, ou até um pé, no outro !!
É bonito chegar a esta idade, mas há que deixar SEMPRE, uma mão disponível...

sábado, 9 de agosto de 2008

ESTATELADO NO CHÃO E TODO NÚ.....

Aqui há pouco tempo, um amigo me enviou um e-mail com uma fotografia de um velhinho muito simpático e sorridente, e com este delicioso comentário:

"A foto mostra Henry Allinghom, nascido em Inglaterra em 1896, quando ainda reinava a Rainha Vitória.
É veterano da 1ª guerra mundial, participou das batalhas de Ypres e Jutlândia e fez parte do primeiro esquadrão da RAF, a força aérea britânica, da qual é o último descendente ainda vivo.
Allinham diz que viveu 112 anos, à base de cigarros, Whisky e mulheres fogosas... "

Tendo eu estado a viver à custa de milagres da Providência, e tendo chegado aos 81 anos, naturalmente que fiquei a sorrir e quase a ter de dar uma boa gargalhada , ao ver aquela cara toda enrugada, mas feliz, a referir o seu modo de vida, como aquela referência, certamente jocosa de "mulheres fogosas": Pois ele devia ter passado a vida a pensar no bom que teria sido, poder voltar aos seus 20 ou 25 anos, quando lindamente fardado de aviador, teria à sua beira, talvez, as mais lindas mulheres com que um homem pode sonhar.
Mas, aos 112 anos... ná, amigo Henry, dessa não me convences !!!!

Mas uma coisa era certa, ele tinha vivido uma batelada de anos e ainda estava feliz.

Aqui há pouco tempo, quando escrevi neste blog "Que bom chegar a velhinho" , em Maio deste ano 2008, eu também me estava e estou, graças a Deus, a sentir um velhinho cheio de sorte e feliz !

Aqui há uma data de anos, uns dez, apercebi-me de que me estavam a aparecer nas fezes, uns laivos de sangue e como já sabia que por ali, ninguém pode ter sangue, fiquei bastante alarmado e fui logo fazer um clister opaco, em que o relatório, era claro: dois pólipos, um no cólon ascendente e outro igual, no descendente, mas infelizmente já do tamanho de morangos. Ou seja, eles teriam de ser retirados de imediato, pois segundo as minhas leituras, 90% destes pólipos, resultam em cancro.
Assim, e embora já perto dos 70 anos, me resolvi operar, embora contestado por algumas pessoas de família, de que eu já era velho demais para aguentar tal operação... mas mesmo assim, fui mesmo fazê-la.
Como não era considerada operação de urgência, ainda tive de esperar um ano, até que num telefonema do hospital, o médico que me iria operar, me perguntou como é que eu estava e se nem constipado estava e que lá aparecesse lavado por dentro e por fora... às 9 da manhã e em jejum.

Assim fiz e lá apareci, mas uns tempos antes, havia estado numa consulta com uma médica do hospital em que lhe contei que já vivia por milagre, desde os meus 18 anos, pois todos os médicos que me haviam tratado, já haviam morrido há muito e que, provavelmente eu não aguentaria nem com a anestesia...
Mas ela, mais ou menos sorridente, me foi dizendo que não havia razão para eu estar assim tão preocupado, porque me via muito bem disposto e brincalhão e aquilo nem seria complicado de operar.

O telefonema do operador, lá me "acordou" daquela preocupação e fui à procura da Sala de Operações, do Hospital de Vila Franca de Xira, onde me obrigaram a beber dois litros dum líquido mal-gostoso, e que, segundo o enfermeiro, era para me limpar por dentro, completamente...
Bem que eu entendi, pois abrir os intestinos que não estivessem bem limpos, é que podia ser uma carga de trabalhos para o operador e para mim...
Assim, levei aquilo à risca e realmente chegou à altura de estar completamente limpo por dentro e por fora: o líquido que saía, tinha a mesma cor do que entrava.

Mas como eu fumo um macinho de cigarros por dia, levei com o meu pijama e mais alguma roupa, e sabonete, um macinho de cigarros e isqueiro, embora soubesse que seria expressamente proibido fumar lá dentro...

Quando estava a beber aquele malvado liquido, apareceu à minha frente, um rapaz novo, talvez com uns 25 anos, junto com a sua esposa, uma mulher positivamente linda, e ele a gemer de uma operação ao apêndice que tinha feito.
Aí perguntei-lhe: Você fuma ? Ao que ele me respondeu que sim, mas que nem um cigarro tinha para matar o vício...e ainda lhe custava mais o não poder fumar, do que as dores que tinha na barriga.
Então, fui à minha cama e saquei do meu macinho de cigarros, bem escondido, e disse-lhe: você vai ao WC, e fume um cigarrinho, porque fica logo melhor.
O rapaz todo sorridente e com a ajuda da sua linda esposa, muito devagar, com a sua mão direita na virilha direita, lá foi até ao WC e depois de uns 15 minutos, voltou com uma cara de muito contente e agradecido.

Mas no dia seguinte, logo pela manhã, entra um enfermeiro pelo meu quarto e enfia-me uma agulha num braço e mandou-me subir para uma maca que foi empurrada por um corredor, até à Sala de Operações, onde entrei e vi vários médicos e uma anestesista, que me voltou a picar e começou a fazer-me perguntas simples, como era o meu nome e que idade tinha... mas num repente... pimba, adormeci. Apaguei-me...
Estava completamente anestesiado e noutro mundo !
Só acordei umas horas depois, noutra sala, mas ainda me lembro de ter pensado, por que diabo eu me teria deixado operar e até estava raivoso... embora nada me doesse, mas não me lembrava de nada da operação. Por que diabo eu estava tão raivoso ? Seria que eu havia sentido dores e não sabia?
Estava na Sala dos pós operados e passado pouco tempo, lá me empurraram a maca pelo corredor fora, indo-me colocar numa sala com outros para operar e que me começaram a fazer perguntas...
Quando olhei à minha volta, tinha tubos de plástico metidos por tudo quando eram buraquinhos do meu corpo, à excepção dos ouvidos... e tinha um grande "remendo" na barriga, que ia de cima do umbigo uns 10 centímetros, a outros 10 centímetros abaixo dele! "Mas que grande naifada eles me tinham dado..."
Nuns suportes altos, estavam pendurados uns frascos de soro e outro de alimentação e outro de anestesia e eu ali estava tranquilo, mas sem saber o que me tinham feito.

No dia seguinte, entram 3 enfermeiros, em que um trazia uma bacia de água quente, enquanto os outros dois me desnudaram todo, e vai de lavar-me, como se eu estivesse todo sujo ! Irra, que raio de ideia a deles, porque tiveram de me rebolar para lavar por cima e por baixo, e isso é que me fazia doer um bom bocado...
E lá estava eu todo entubado, já cheio de vontade de fumar um cigarrinho, mas tive mesmo de aguentar.
O pior, é que no dia seguinte, veio um outro enfermeiro e verificou que já podia retirar alguns tubos, os que me entravam pelo nariz, outro da pilinha, outros das garrafas e me disse: "Agora vai tomar banho sozinho"...
Olha que gaita, pensei eu... Lavar-me novamente e porquê, se eu nem estava nada sujo nem suado... aquilo já era mania, mas com um pouco de ajuda, saí da cama, agarrei a toalha, o sabonete e outro pijama, além da máquina de barbear, e lá vou eu, corredor fora, até à casa de banho, sala grande, mas toda encharcada, para me lavar e sozinho !
Mas que raio de ideia a deles, pois o rasgão que me haviam feito na barriga, embora tivesse tapado por um grande adesivo impermeável, aquilo doía, mas lá me consegui pôr todo nu e vou tentar abrir o chuveiro.
Mas, mal dou uns passos no chão escorregadio de água e sabão dos outros que já lá tinham estado a tomar banho, escorreguei os dois pés, e com enormes dores, me vejo estatelado no chão e todo nu !
Aquilo é que estava ali um imbróglio, porque as dores eram muitas e não havia forma de me conseguir por em pé, mas lá fui de gatas, até à sanita, onde coloquei as mãos e me consegui erguer.
Seria que teria rebentado com os pontos ?
Então pensei: mas o que é que eu estou aqui a fazer, se ainda ontem me deram banho? Ná! Enxuguei-me, lavei a cara, depois de me ter barbeado, e muito calado, vesti o pijama lavado e voltei sorrateiramente para a minha cama, como se tivesse tomado um valente banho !
Mas às tantas, veio um enfermeiro e enfiou-me novamente os tubos nas veias e ajustou o pinga.pinga e foi-se embora.
Passada uma ou mais horas, ele voltou e vendo que tinha pingado pouco, abriu mais um pouco a torneirinha e o pinga-pinga aumentou de ritmo... e eu a ver... e foi-se embora.
Mas passadas mais umas horas, ele voltou com outro frasco na mão, e disse; então este frasco já devia estar vazio !!!
E vai de abrir mais um pouco a torneirinha, mas passada uma meia hora, eu vi que o ritmo dos pingos já havia diminuído e sem que ninguém visse, fui à torneira e experimentei a rodá-la, pondo aquilo a correr mais.
Dai a bocado, o enfermeiro voltou e ficou todo contente de já poder substituir a garrafa de plástico...
Mal sabia ele que eu é que tinha estado a regular o pinga-pinga, quase de meia em meia hora...
Mas no outro dia, lá me vieram com aquela mania de eu ir tomar banho novamente, eu que estava tão limpinho... Já era mania !
Assim, sorrateiramente, agarrei o macinho de cigarros e isqueiro, toalha e pijama e lá fui para a casa de banho, mas foi para fumar dois cigarrinhos seguidos tal era a saudade... e depois voltei para a cama de barba feita e todo bem cheiroso do sabonete que também tinha levado.
Como entretanto o líquido que evacuava, já estava só rosado, mandaram-me comer uma comida leve e no dia seguinte, eu já era outro. Parecia que estava tudo reparado.

Ao fim de 5 dias daquela marmelada, mandaram-me embora, mesmo perto da hora das visitas e foi no carro da minha filha, que voltei para casa, e lá tive de voltar uma semana depois, para tirar o adesivo e até vi que a enfermeira estava toda contente, porque não se havia infectado nenhum ponto, e com um alicate especial, tirou os agrafes todos.
Pudera, o meu maior cuidado, tinha sido não molhar o adesivo, não fosse molhar o rasgão da barriga e arranjar alguma infecção...que era o que eu tinha mais medo...

Mas eu sabia que no mês seguinte, teria de lá voltar para ouvir o médico sobre a biopsia que tinham feito aos pólipos e eu ali estava à sua frente, a vê-lo com uma cara muito carrancuda, a ler um extenso relatório.
O médico até era simpático e se chamava Bruto da Costa, mas eu estava num estado de nervos terrível, pois estava mesmo à espera que fosse algo canceroso e tivesse de ir fazer quimioterapia...
Mas quando ele chegou ao fim, fez um sorriso, avançou-me com a sua mão direita e me deu os parabéns, porque eram só tumores benignos e podia ir descansado para casa.
Aí, é que não consegui aguentar mais e desatei num pranto de lágrimas incontroláveis, mas feliz, mesmo muito feliz.
E nunca mais lá voltei, e até hoje e a pensar: Será que eu vou viver até aos 112 anos, como aquele piloto inglês Henry Allingham!
Isso é que era bom e, demais !

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

E A MINHA CADEIRA PEGOU FOGO...

Era Inverno, mas eu havia estado tranquilamente assentado na véspera, na minha cadeira favorita, de costas para a janela que dá para a rua, e dele me vinha a luz, mais do que a suficiente, para poder ler e pensar tranquilamente, ou ouvir deliciado as minhas músicas favoritas e irradiadas pelas minhas brutais colunas de HI-FI, dado ser um apaixonado pelo som de alta qualidade.

Como toda a gente, eu também gostava muito daquele meu cantinho, que tem sido desde há muitos anos, mais de 30, o meu lugar preferido e de tão tranquilo e calmo, que imensas vezes, me deixo adormecer por algum tempo.

Dele posso comandar toda a aparelhagem de HI-FI, Gira-discos, Videotape, DVD e CD's, além dum receptor de TV de médias dimensões, só com o estender dum braço.

O mais engraçado, é que quase toda esta aparelhagem, me foi oferecida para deitar ao lixo e talvez poder aproveitar algumas peças. Mas como Deus me deu um pouco de habilidade e paciência, mais ou menos , sempre fui encontrando maneira de as repor em funcionamento ... nem que para tal, tivesse de usar semanas e semanas de trabalho... muita persistência e estudo.

Quase todas estas reparações, deram origem à escrita de artigos técnicos que ia publicando na única revista técnica portuguesa, de rádio, que se publica em Portugal, em Viseu, e que se chama QSP, onde descrevi como havia executado as reparações, com a ideia de entusiasmar outras pessoas a optarem por reparar elas mesmas, em vez de simplesmente, deitar ao lixo.

Pelos comentários e correio que alguns dos seus 8000 leitores, me iam fazendo, a pouco e pouco fui ficando talvez demasiadamente conhecido... mas só nessa revista, já publiquei quase 1000 paginas, e desde há muitos anos.


Verdade seja dita que as minhas conversas via rádio, com tanta gente desconhecida, também ajudaram a que as minhas comunicações deixassem transbordar um pouco desta alegria de ajudar os outros e assim ganhei centenas ou milhares de amigos.
Hoje, com 81 anos, sinto a felicidade profunda de ter podido ajudar imensa gente com ideias e opiniões.

Mas para estar melhor de temperatura, eu havia colocado um cobertor eléctrico sobre as pernas, desses pequenos, que só colocava sobre as pernas, transversalmente, na cama, até que havendo chegado a hora de jantar, sacudi-o de cima de mim, e desliguei a corrente eléctrica geral do meu "quarto dos brinquedos", onde tenho quase tudo o que é ligado à rede de energia, como PC, equipamento de comunicações rádio em muitas bandas, imensa aparelhagem de análise de electrónica, Printers, Piano electrónico, além da biblioteca repleta de artigos técnicos de todo o estilo, até mesmo médicos, montanhas de discos LP, cassetes e CD's, máquinas fotográficas, cinema, video, etc...

Esta operação exige um disjuntor geral e, para ter a certeza de que não fica nenhum aparelho ligado, desligando-o, posso abandonar a sala em descanso.

No dia seguinte, e por norma, enquanto me estou a "alindar", ligo esse disjuntor e o computador, deixando-o a carregar tudo o que é normal, incluindo o correio electrónico.

Assim, mal me sinto suficientemente "alindado", venho ver o que o PC deixou entrar e logo começo a faina do dia, vendo os mails e respondendo a todos os que têm de ser respondidos, ou gozando com muito do correio entrado, algum mesmo de me fazer rir, de tão jocoso que é, e outros me deliciam a ver imagens de todo o Mundo, daqueles "pps", com imagens de sonho, ou pequenos filmes do YOUTUBE. Ou seja, deixo entrar no meu quarto, O MUNDO !

Mas naquele dia "malvado", enquanto me estava a "alindar", notei cheiro a fumo e logo me dirigi à cozinha, sítio mais provável de me ter esquecido de alguma coisa ligada, até porque a minha governante estava lá, mas não; o cheiro vinha do meu quarto dos brinquedos, para onde corri, mas embora estivesse a luz acesa, não via nada!!!

Estava completamente às escuras com espesso fumo negro e, de imediato, ainda sem saber o que estaria a originar aquela fumarada, logo desliguei o disjuntor, mas nesse preciso instante, o cobertor eléctrico entrou a arder em poderosas chamas! Explodiu!

Pior, agora já não era só o fumo, mas o calor das chamas era insuportável !

Ainda corri ao WC à procura dum balde de água, mas já não conseguia apagar o fogo que se agarrou aos cortinados da janela e já as chamas iam no tecto, com a minha cadeira a arder e até as madeiras da janela, além do chão e duma secretária cheia de material electrónico, que está mesmo ao lado!

Ainda berrei à porta de entrada, para me chamarem os bombeiros, mas eu já sabia que se eles aparecesse, e até só estavam a uns 500 ou 600 metros de distância, toda a minha valiosa aparelhagem, iria para a sucata com a água que eles me iriam lançar sobre ela... provavelmente...

Felizmente que a minha governante, a D. Paula Pirico, mulher intrépida e muito desenrascada nas lides do campo e com as fogueiras que tinha de fazer todos os anos, para se ver livre do pasto seco, logo se lembrou que o melhor seria abrir a janela e atirar com o cadeirão a arder por ela fora, e se alguém lá estivesse a passar, que se afastasse!

Uma coisa era certa, não havia mais tempo a perder e a falta de ar era enorme, além do calor abrasador que inundava o quarto todo ! Felizmente que era um rés-do-hão !

Mas como chegar à janela, se aquilo era um mar de chamas ?

Com enorme coragem, a D. Paula enrolou uma toalha no seu braço direito, estendeu-o por entre as chamas e conseguiu abri-la de par em par, e com a minha ajuda, lá conseguimos nós os dois, agarrar os dois pés da frente do cadeirão, nuns centímetros que ainda não estavam a arder e num repente, atirámos com o "maple" para a rua, onde já estava toda a vizinhança a ver o espectáculo... do outro lado da rua.

Daí a momentos, surgem os bombeiros que abafaram o incêndio do cadeirão, aquela coisa estranha e incrível, pois provavelmente ninguém entendia porque estaria um cadeirão a arder daquela forma...

Eu já não podia mais respirar e estava quase a desfalecer, mas a minha intrépida governante, arrancou os restos dos cortinados que ainda estavam a arder, enquanto eu ia buscar mais água e assim, lá conseguimos acabar com aquele incêndio, mas a sala estava toda negra de fumo, paredes e todos os aparelhos existentes !

Que tristeza de quarto, mas felizmente a estante dos livros não tinha sido afectada e com imensa paciência, peça a peça, lá se foi limpando cada uma e inclusive o soalho de madeira, até tive de arrancar muitos tacos que já estavam a arder e eram só carvão.

Nos dias seguintes, havia imenso que fazer, como lavar as paredes enegrecidas, até voltar a ter o meu cantinho dos brinquedos, em condições de se poder lá estar, se levou muito tempo, pois havia que deixar secar tudo e inclusive pintar o quarto de creme, que era a sua cor normal, e o tecto de branco, trabalho que a minha governante teimou em fazer por suas mãos.

Para a D. Paula, aquilo tinha sido só mais um incêndio, mas para mim, não !


Por que diabo o cobertor eléctrico se teria incendiado ?

Na verdade, bêbado de sono, na véspera, eu não me lembrava de o ter desligado, quando o tirei de cima de mim e ele tinha ficado mais ou menos dobrado, quando eu liguei o disjuntor no dia seguinte.

Ou seja, naquelas dobras do cobertor, a temperatura tinha subido drasticamente em poucos minutos, logo se seguindo o disparar do incêndio.

Aquilo nunca mais me deveria acontecer e até escrevi depois, um artigo para uma revista técnica de radio, para que nunca se deixasse um cobertor eléctrico dobrado e ligado.

E fiquei a pensar nos imensos incêndios que estes cobertores eléctricos têm proporcionado, por este motivo.

São coisas muito bem feitas, mas têm de estar sempre alisados e nunca os tratar como simples e vulgares cobertores. Eles não permitem dobras.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

NÃO ME DEIXES SOFRER....

Desde que conheci a minha adorada esposa Alice Rosa dos Santos, há mais de 53 anos, que vim a saber que ela sofria de dores de cabeça mais ou menos intensas, de tempos a tempos, e a medicina nunca encontrava uma explicação, pelo que os analgésicos, era do que ela se enchia, nessas alturas...

Depois tinha períodos de acalmia e às tantas umas cólicas tremendas de rins, tendo-se descoberto que ainda havia mais duas pedras num rim e que, provavelmente, mais cedo ou mais tarde, lhe iriam dar enorme sofrimento...
Fora aquelas dores de cabeça, e o saber que mais dia, menos dia, iria sofrer de outra cólica de rins, até parecia uma pessoa muito saudável e alegre, sorrindo para toda a gente, duma forma muito franca e simpática.

Depois do rocambolesco nascimento do nosso primeiro filho, que descrevi em "Deixa-me morrer...por favor", e quando já existia até o nosso segundo filho, a Antonieta, ela vem a ter a malvada e terrível cólica renal de que já estávamos à espera e de tanto sofrer, horas e horas, até dizia que preferia as dores dum parto, àquelas dores que nunca se sabia quando iriam terminar..., pois não havia analgésico que resultasse... e eu ali a vê-la penar, sem poder fazer mais nada, horas e horas, até ser expulsa aquela malvada pedrinha com o formato de um feijão, mas cheio de bicos, pelo que a sua passagem por tantos lados estreitos, a deixaram muito combalida e até ferida, rasgada toda por dentro ! !!!

Mas ela era uma mulher de armas e embora sabendo que ainda havia outra pedra para sair, e nunca se saberia quando, lá foi vivendo normalmente e sempre muito activa, embora como boa dona de casa e mãe.
Entretanto aparece o nosso terceiro e último filho, um ano depois, o Carlos, criança exageradamente activa e sempre desejando sair de casa, para o que sempre inventava forma de abrir a porta e desaparecer das nossas vistas, o que nos obrigava a andar sempre à sua procura...
Aquilo é que o rapazinho sentia uma necessidade de liberdade ! Ele sabia que ia levar uns sopapos, mas não lhe servia de emenda...

Mas havia uma coisa que continuava a aparecer de tempos a tempos, as tais dores violentas de cabeça, em que só queria ficar isolada e às escuras, horas e horas, e lá se ia tentando tratar à custa de mais analgésicos, pelo que a nossa gaveta dos medicamentos, já estava cheia deles, sempre à espera que fosse descoberto aquele que melhor efeito tivesse, porque segundo diziam os médicos, só ela saberia, pelas tentativas, descobrir os mais recomendados...
Aquilo muito me intrigava, até porque e felizmente, até hoje, ainda não sei o que são dores de cabeça fortes, mas alguma coisa devia ela ter em qualquer outra parte do seu corpo e que pudesse despoletar aquelas tremendas dores...
Também era verdade, que ela sempre tinha mostrado muita prisão de ventre, de dias e já sabia que certas comidas lhe originavam as dores de cabeça, como eram as sopas de feijão, talvez pelos gases que se geram...
Mas um dia, ela me veio dizer que estava a perder sangue pelos intestinos, e aí entrei em órbita, pois embora sabendo que as mulheres têm os seus períodos de saúde com alguma hemorragia mensal, mas por ali é que eu não estava mesmo nada à espera e corri à sua médica que logo mandou fazer um clister opaco, manobra extremamente difícil, porque o bário não entrava, nem por nada! Ou seja o que havia entrado, nem dava para fazer um raio-x suficientemente informativo.
O próprio radiologista, estava espantado com o que estava a acontecer...
Aquele aparecimento de algum sangue nas fezes, seria bem evidente de haver algo grave nos seus intestinos e que, por mais laxantes que experimentasse, não resultavam, ou até pioravam.
Tinha de haver outra explicação !

Nos dias de hoje, ela já há muito que teria feito uma Ressonância Magnética, ou uma Ecografia, ou uma TAC, e talvez tivesse podido ser operada a tempo...

Um dia fui visitar a sua médica, uma jovem, e ela, depois de ter estado ao telefone com um médico operador do Hospital de Vila Franca de Xira, não conseguiu esconder umas lágrimas que lhe saltaram dos olhos e, perante grande comoção, me entregou a papelada necessária para levar minha mulher, urgentemente ao Hospital de Vila Franca, e depois dela ser analisada, dolorosamente, por uma equipa médica, foi encaminhada de imediato para a sala de operações.

Aquilo tinha de ser mesmo grave, fiquei eu a pensar, enquanto deambulava pelo hospital, à espera de noticias, até que um médico me vem dizer que ela tinha sido operada e "limpa" e que tinha de lá ficar.
E eu a pensar naquele "limpa" ! Mas limpa de quê ? Teriam retirado o tumor ?

E como eu ali não podia fazer mais nada, saí do hospital e me assentei sozinho num banco de jardim, chorando como uma criança. pela primeira vez sozinho e completamente destroçado!
Nessa noite, sozinho na cama e na casa, eu nem consegui dormir e só esperando pelo dia seguinte e hora das visitas, para a voltar a ver, falar e beijar.
Quando desejei saber mais algum pormenor, todos fugiam de me esclarecer correctamente, até que vim a saber que ela tinha um grande tumor no cólon transverso, e lhe haviam colocado um ânus artificial, aquele saco, no extremo superior do cólon ascendente, ali junto às suas costelas, pendurado na barriga.

Mas que pouca sorte a dela e da minha !!!

Aquela hora da visita era torturante, porque vinham os amigos e amigas que rodeavam a sua cama, tudo num grande falatório, enquanto eu ali ficava ao lado, assentado numa cadeira, à espera de uns segundos para a ver.
Foi logo nessa altura que desenhei uma caricatura dum homem triste a abandonado, sem sequer poder ver a esposa tão enferma.
Mal sabia eu que essa caricatura, e mais 40 que se seguiram, havia sido caçada por um enfermeiro e havia corrido a mostrar em todo o Hospital, até à sua Gerência, a ponto de se ter alterado profundamente a hora das visitas e que só poderia entrar uma pessoa de cada vez, e que quando saísse, entregaria a senha a uma outra...
Nessas caricaturas, eu gozava com toda a gente, em especial com os médicos, pois havendo proibição de fumar dentro do hospital, quase todos fumavam...

Depois de umas semanas de visitas, o médico-chefe, me disse que a poderia transportar para casa, porque Vila Franca estava em festa e havia demasiado barulho e confusão... e assim a trouxe, sendo informado do que teria de fazer para a substituição do saco, sua desinfecção e limpeza diária, porque nada mais se poderia fazer...

Entretanto minha mulher já tinha visto outros doentes em estado terminal e me pediu simplesmente, " não me deixes sofrer"... como se eu, um pobre diabo de 28 anos, tivesse alguma coisa que pudesse fazer, para não a deixar sofrer...
Felizmente que ela não estava a sofrer, nem tinha as tais terríveis dores de cabeça, pelo que eu me tive de habituar a toda a lide de casa, porque ela não queria ter por perto, mais ninguém, a não ser eu.
Eu entendi aquele seu desejo, até porque se tinha de descobrir exageradamente e a isso não se desejava expor...
Assim, se foi passando o tempo, com ela cada vez mais fraca, e a ter de a abandonar todos os dias, uns minutos, para ir buscar comida e fazer alguma para ela, tendo aprendido a fazer papas de Maizena, que era ainda do que mais ela apreciava, mas onde ela sempre encontrava uns grumos e me obrigava a ir fazer outras...
Depois era o lavar de toda a roupa e ir passando a ferro, mesmo ali numa marquise a seu lado, enquanto ela, muito calada, ia apreciando e até um dia me disse: "Já vejo que te estás a salvar sozinho."
Ela nunca me disse que sabia do tumor que tinha, nem do medo de morrer por causa dele, só que não queria sofrer...
Um médico amigo, Dr. Tomé, infelizmente já falecido, a quem perguntei o que estaria nas minhas mãos, para não a deixar sofrer, quando chegassem as dores... ele só me respondeu que lhe desse a injecção de Cocaina, quando ela pedisse, mas que não estranhasse, porque ela se iria habituar ao bem-estar por elas provocado e me iria estar sempre a pedi-la, mal acordasse e sentisse mal-estar...

Eu já sabia dar injecções, desde miúdo, de tanto as ver meu avô dar, e enfiava as agulhas nas nádegas das bonecas das minhas irmãs, que até achavam graça... mas ir espetar a minha própria esposa, é que me doía e bem, fazendo o melhor para que ela nem as picadelas sentisse, sendo muito rápido a picar e muito lento a injectar, além de medir com muito cuidado, o sítio de dá-las, para não apanhar o nervo ciático.

Como eu nada estava a fazer ao seu lado, enquanto ela dormia, resolvi agarrar uma câmara de TV e a coloquei num tripé, aos pés da sua cama e do quarto ao lado, eu podia ver se ela acordava e de mim precisasse.
Mas ela deu por isso, porque mal se movia, eu logo aparecia e isso a levou a perguntar-me: "Como é que sabias que eu necessitava de fazer xixi ?" , e eu lhe fiz ver que estava sempre com o olho nela, pela televisão.
Mas um dia, mais morto que vivo, deixei-me adormecer, mas algo havia acontecido, com um ruído estranho que havia ouvido e na TV, ela não estava lá! Num salto, vou encontrá-la estatelada no chão, sem se poder mover, dizendo-me que só queria ir ao bacio, mas tinha ido parar ao chão...
Com grande dificuldade, lá a consegui levar para o bacio e depois para a cama.
Felizmente que nada mais aconteceu.

Como ela gostava muito de se sentir lavada, penteada e perfumada, eu lá fazia o que ela me ia dizendo e um dia me disse: "O que seria de mim, sem ti...?"
Mas já perto do seu fim, ela nem queria que fosse eu a dar-lhe o comer e protestava da minha boa vontade, sem se aperceber de que já nem conseguia acertar na sua boca e tudo caía na cama, o que me obrigava a ter de ir substituir toda a roupa suja.

Passados poucos dias, e eram 3 da manhã, e eu estava ali ao seu lado a tentar dormir um pouco, porque ela queria mais uma injecção de duas em duas horas, mal acordava, quando eu notei que ela já não me conhecia nem a vista se movia, e parecia de vidro, e mal sentia o seu pulso.
Seria que eu estaria a fazer-lhe uma eutanásia sem saber ?
E ali fiquei assentado ao seu lado, a pensar que teria de dar a triste noticia aos meus filhos, que estavam longe, mas isso só lhes iria por em pânico, e de nada serviria, pois se ela já nem me reconhecia, ainda pior aos filhos.
Assim aguardei até de manhã, para lhes telefonar e passado pouco tempo, ali estavam eles a verem o seu calmo apagamento sem um "ai". Eu até sentia uma certa "felicidade" de a ter ajudado a morrer sem sofrer.
Eram 10 horas da manhã, quando o seu coração parou e começou a esfriar.
Era o dia 27 de Novembro de 1991.
Como o caixão não conseguia nem entrar nem sair do quarto para o corredor que estava em frente, o meu filho mais velho, num acto heróico, agarrou no cadáver da sua mãe e levou-o ao colo, até ao sítio onde se pudesse colocá-lo no caixão, a uns 15 metros de distância.
Posted by Picasa

Tenho pena se esta crónica fez sofrer um pouco o leitor amigo, mas talvez tenha compreendido que em todas as situações da vida, sempre há uma altura em que podemos mostrar o nosso grande amor por alguém.

terça-feira, 17 de junho de 2008

QUE BOM PODER RECORDAR.....pessoas interessantes !

Estava eu em Março de 2007, por isso, o ano passado, quando um amigo me vem informar de que havia um blog duma senhora portuguesa, em que ela falava de coisas interessantes sobre meu irmão Carlos Mar, de que tenho falado várias vezes neste blog, como em "Meu irmão me salvou a vida", o que me levou, de imediato, a ver de quem se tratava e fui abrir o seu blog de nome http://paixaodossentidos.blogspot.com/
Na realidade, eu havia entrado num blog muito especial, muito diferente de todos os que já conhecia e onde viria a encontrar uma senhora de nome Ana Ramon que com 15 anos, havia entrado num pequeno grupo de jovens entusiastas pelas coisas do espaço, aquele imensa aventura dos astronautas, os satélites, os foguetões, a NASA, o nosso Mundo visto do espaço sideral, etc. quando ainda estava a estudar em Almada.

A sua forma deliciosa de escrever e relatar, era emocionante !
Realmente, lá estava um seu artigo intitulado "O ALBUM DE RECORTES", onde vim a saber do seu enorme entusiasmo pelas coisas científicas, tanto de meu gosto, e raro nas senhoras, e dedicava carinhosas palavras ao meu então assassinado irmão, em Angola, em Julho de 1976, Carlos Mar, no seu Observatório da Mulemba.
Ela e o seu pequeno grupo de entusiastas, lembraram-se de pedir apoio a este meu irmão, e dele recebeu de imediato, correspondência com muitas explicações do que poderiam fazer em prol do desenvolvimento destes assuntos tão transcendentes, na época, e em especial para jovens, cheios de dificuldades financeiras e especialmente uma garota tão linda.


Como ele gostava e tinha muita habilidade para desenhar, as suas cartas eram repletas de desenhos explicativos.
Assim, além de o ter conhecido pessoalmente e o ouvido tocar piano, que ele adorava tocar de ouvido, ainda ficou a saborear as suas experiências no Observatório, e da forma como ele lá ia conseguindo manter aquilo tudo em funcionamento, usando materiais de sucata, como latas e latinhas de todos os feitios e tamanhos...velhas máquinas fotográficas e muito material de rádio, pistolas para pesca submarina...etc.etc.
É provável que a Ana Ramon, tivesse até ficado "deslumbrada" com aqueles olhos azuis e tão fluente forma de falar de coisas tão sérias e complicadas para eles todos...

Naquela época, nem se tinha ainda ouvido falar de Internet, nem blogs, nem nada...
Só se ouvia falar de NASA, de foguetões, de satélites, de radiocomunicações, em que ele era exímio como radioamador com indicativo CR6CH, especialmente em transmissão de Morse...etc.etc.

Mal sabia ela, de que esse Carlos Mar Bettencourt Faria, era o meu único irmão e só 3 anos mais velho do que eu...a única pessoa neste Mundo, que conviveu com ele, em garoto e, com a ajuda do nosso professor Primário, Sr.Santos, nos ajudou a entender o que era a rádio e as telecomunicações, que estavam a nascer.
Assim, como ela tem lá o seu e-mail, eu lhe escrevi a agradecer as tão simpáticas palavras e os elogios que tinha feito a meu irmão e até enviar-lhe uma foto minha e falando do que eu tinha estado a fazer não só em miúdo, na companhia de meu irmão Carlos, mas também a minha vida mais ou menos rocambolesca que tenho descrito neste blog, imensas vezes...
Como esta Ana não tem os "dedos enferrujados", logo iniciámos uma troca diária de correio que se tem prolongado até aos dias de hoje, em que ela, sempre muito engraçada e versátil, me vai descrevendo o seu dia a dia, numa enorme quinta que possui, lá para o Norte de Portugal, perto de Viseu, agora casada e feliz, já com filhos e netos.
É curioso que tendo MSN, eu já a vi a dedilhar o seu teclado, num dia em que estava um seu neto a brincar no MSN e eu o chamei e ele me respondeu. Mas, como eram horas de almoçar, ainda vi a Ana pela WEBCAM e a dizer-lhe para parar com aquilo, para irem almoçar, mas lá falar para mim... é que nada!
Ela diz, perante os meus protestos, que prefere "falar pelos dedos"... Há aqui um mistério enorme para eu desvendar !!!

Aquela vida no meio do campo, como não podia deixar de ser, a entusiasma profundamente, não só ao assistir ao nascimento de imensos animais, mas com tristeza, assistir à morte de alguns ou até a um incêndio pavoroso que lhe invadiu a propriedade e lhe destruiu imenso arvoredo e imensas árvores de fruto !
Mas esta Ana não esmoreceu e conseguiu ir recuperando toda a área ardida, embora se veja aflita com a sua conservação e protecção, para não ter de assistir, novamente, à entrada de fogos.
Ela quer saber os nomes de tudo e os porquês, mas logo de seguida, entra pela INTERNET a dentro, ou procura literatura apropriada, à procura de mais detalhes explicativos e quando o assunto lhe agrada, vem para o seu blog, explicar por onde andou e do que ficou a saber, dando origem a fabulosos escritos explicativos em minúcia.

Ela aqui está, como é hoje!


Nós rimos e brincamos com tudo o que nos vai acontecendo no dia a dia e umas vezes explica-me ela, noutras explico eu e assim vamos brincando com uma amizade que não pode ser melhor.

Um dia, e relembrando um doce de figos que a minha falecida esposa fazia e era muito admirado, eu fui ver no livrinho de apontamentos da minha esposa, como aquilo era feito e enviei-lhe via e-mail.
Pois como ela tinha lá alguns figos ainda, foi logo experimentar e descrever no seu blog, com fotografias das várias etapas, como tinha feito e no que tinha resultado, em 22 de Outubro do ano passado, a que deu o título jocoso mas muito amável, "Quando os homens da ciência, falam de compotas", onde tece muitas palavras de carinho, sobre a "fórmula" do doce de figo e, com belas fotos a acompanhar, da sequência dos preparativos.

Só falta agarrar um dos figos pelo seu pé, e meter na boca à dentada, ficando, pela certa, todo lambuzado, mas deliciado, como ela ficou !!!
Vive sempre rodeada de música de muitos estilos, ou cantarolando junto dos filhos e netas, ou manuseando as várias máquinas de que necessita para os trabalhos de campo, ou trocando as posições dos ovos na sua chocadeira, ainda consegue tempo para se dedicar ao seu blog, nem que seja até às tantas da madrugada...

Falar desta mulher, é realmente muito difícil, dada a sua versatilidade e tão depressa está a falar de cogumelos, como de flores exóticas, como de doenças nos animais, como doenças nas plantas, como passa para outros imensos assuntos, todos deliciosos de ler.
Ana Ramon, é das pessoas mais interessantes que nestes meus 80 anos, vim a descobrir pela NET, embora muito só, porque o marido trabalha em Lisboa, mas sempre rodeada dos seus ferozes cães...não vá o diabo tecê-las !

sexta-feira, 6 de junho de 2008

AMANHÃ JÁ NÃO TENS AVÔ...

Eu já sabia que aquele meu tão querido avô, não andava bem de saúde, há algum tempo e, nas suas cartas para o Continente, onde eu já estava a viver, ele já ia dizendo que estava a findar a sua estadia em S.Miguel, nos Açores, até porque já lá não estava a fazer nada, e só pensava em vir viver para Lisboa.
A sua vida estava no fim, e a sua maior paixão, seria de poder vivê-la junto de nós, em Portugal.
Assim ele me ia contando que já se havia desfeito do seu belo carrinho, a que ele chamava "as minhas pernas", e até iria vender a sua casa, aquela "casa-cor-de-rosa" de que tantas vezes falei neste meu blog !


Aquela casa, onde tanta alegria tinha havido, com tanta gente feliz e o seu velho piano sempre a tocar dia e noite, já nada lhe dizia, nem à minha avó, que também já havia perdido muito da sua intensa habilidade para o tocar.
Já não se ouvia a flauta, nem o cavaquinho da Madeira, nem a sua viola, que ele tocava, nem aquela valsa que ele tão bem tocava ao piano.
Tudo se estava a desmoronar !
Um amigo ajudou-o a fazer os cálculos para ele saber o quanto valeria a sua casa, mas como o terreno tinha sido alugado, nem ela valia quase nada... Teria de abandonar S.Miguel, quase na miséria...
Embora só tivesse 73 anos, já nem as suas visitas aos seus doentes, lhe interessavam muito e já nem tinha grande paciência para sair a pé, montanha acima, montanha abaixo, vendo que as pessoas já nem podiam pagar-lhe as avenças de que ele tanto necessitava para sobreviver.

Como eu o amava e admirava !

Dos seus 7 netos, toda a gente dizia que eu era o que mais me parecia com ele, e isso me causava grande alegria, embora ele fosse fisicamente de aspecto muito robusto, mas elegante, sempre vestido a rigor e bem perfumado ! Eu tinha imenso orgulho naquela figura, e ele sentia isso !

Quando tive direito a férias, resolvi voltar a S.Miguel, para matar saudades daqueles tão adoráveis velhotes, e poder estar mais algum tempo ao seu lado, mas fui encontrá-lo muito debilitado, incapaz de se mover sozinho e até eu o tinha de transportar ao WC, acompanhado dum criado que já lá estava há muitos anos, e o agarrava pelo outro lado, porque ele já não podia fazer nada sozinho, nem para se lavar e limpar !
Que pena eu tive de o ver assim, naquela casa tão sombria e silenciosa, sem ouvir sequer a voz da minha avó, que muito calada, por ali andava tão preocupada com o que estava a assistir, pois se meu avô não melhorasse, não podia já pensar em vir viver para o Continente, para junto da sua amada filha, a minha mãe, os seus últimos dias de vida...



Aquela minha linda avó, que sempre se mostrava sorridente para toda a gente, andava agora, com aspecto muito sombrio, embora sempre linda, com uma pele acetinada, embora já rondando os 80 anos !
E só recordo de assistir às "fúrias" de meu avô, quando depois de ter levado uma hora a escrever à máquina algum documento oficial, e ela o lia muito cuidadosamente, lhe dizia: olha que Farmácia já não se escreve com "PH", nem Gaiacol como "guayacol", nem pele como "pelle", nem aplicação como "applicação"... e lá ia ele, praguejando acerca da "malvada" revolução ortográfica...

Mas eu queria saber o porquê do estado de saúde do meu avô e ela me contou que numa noite de inverno, ele havia sido chamado de urgência, à linda Lagoa das 7 Cidades e toda a viagem teria de ser feita a cavalo, cumieira acima e depois cumieira abaixo, mas a corta-mato, para ser mais rápido, em que o dono do cavalo o levava à mão, munido duma velha lanterna, por entre toda aquele luxuriante vegetação. Aquela noite estava realmente, imensamente escura ! Parecia de breu !

Meu avô embora fosse um grande cavaleiro, porque durante muitos anos, fazia as suas visitas médicas a cavalo, ia assentado de lado sobre uma albarda, mas às tantas, ao dar-se uma guinada rápida para fugir a um obstáculo inesperado, meu avô cai de costas, com grande sofrimento, pois mal podia respirar...
Mesmo assim, mas agora a pé, gemendo de dor, tossindo e cuspindo, lá foi andando cumieira abaixo, até à freguesia onde a doente o esperava, na sua grande aflição para ter um parto.
Felizmente, para ela, mesmo com meu avô perante tão grande dificuldade para respirar, lá conseguiu por o bebé cá fora, são e salvo, mas já sem força para caminhar, só quando chegou o dia, arranjaram para transporte, uma carroça vulgar e sem comodidade alguma, além de que meu avô já tinha sentido o gosto terrível de sangue na boca e estava a cuspir sangue !
Algo de muito grave lhe teria acontecido e ele já pensava numa costela partida e que lhe estivesse a perfurar um pulmão.


Aquela seria a sua última viagem àquele santuário da Natureza, aquela linda Lagoa das 7 Cidades, que ele havia visitado centenas de vezes, no cumprimento dos seus deveres clínicos.

Mas o pior ainda estava para vir, pois começou a ter imensa falta de ar e gritava para que lhe abrissem as janelas de par em par, para poder respirar melhor... estava com uma angina de peito !
Minha avó logo foi ao telefone, telefonar ao médico mais próximo, um tal Dr. Pavão, que fazia clínica a uns 5 Km de distância, na Várzea, que passados poucos minutos, já estava a pedir a meu avô para arregaçar a manga do pijama para lhe dar uma injecção (?), mas eu nunca tinha visto uma coisa assim... parecia que meu avô tinha o braço cheio de minhocas ou cobras por baixo da pele que se ondulava toda e gritava para que o colega acabasse com aquilo depressa.

Um minuto depois, realmente sossegava das crises de falta de ar e finalmente acalmava.
Ele era muito bom médico, mas um terrível e pavoroso doente... pelos vistos, nem podia ver uma agulha que o fosse picar !
Por outro lado, este médico, muito mais novo do que ele, havia feito uma propaganda muito assanhada contra a medicina que meu avô sabia, e que ele é que tinha muitas "cadeiras de universidade", que meu avô não tinha.
Aquilo era assim naquele tempo; os médicos tinham de ter uma espécie de "peão de brega" que ia pelas terras fazendo a sua propaganda e à caça de mais clientes, certamente dizendo mal dos outros...
Uns anos antes, em que meu avô sempre brincalhão, viu uma carroça passar na rua, e carregada de cadeiras, me disse: Olha ali vão as "cadeiras" que o Dr. Pavão diz que tem a mais do que eu ...
Mas agora, já não podia brincar mais, até porque estava nas suas mãos.

Eu entretanto, levava todo o tempo deitado a seu lado, vestido, lendo-lhe as notícias dos jornais, iluminado por um bom candeeiro de acetilene. Infelizmente, os 15 de férias a que eu tinha direito, estavam a acabar e já estava marcada a minha viagem de regresso, para o dia seguinte.
Minha avó, como sempre muito exacta em tudo o que fazia, a ponto de estar de relógio na mão, para saber quando teria de nos dar um remédio crítico, de 6 em 6 horas, me veio lembrar de que eu me devia ir deitar, porque a camioneta que me levaria para Ponta Delgada, passava lá nos Ginetes, muito cedo.
E foi aí que eu ouvi meu avô dizer: amanhã, já não tens avô !
Mas como ele estava muito calmo, eu lhe disse: "Nem pense nisso! Agora que já está tão bonzinho..." o beijei na mão pedindo "a sua bênção" e me fui deitar.
Era muito cedo, umas 6 da manhã, quando sinto minha avó chamar-me para me levantar , e dizendo até que o meu avô já tinha falecido!
Eu nem queria acreditar no que estava a ouvir e num repente, estava a olhá-lo, deitado de lado com a sua cara deitada sobre a sua mão esquerda e a outra sobre o peito. Era a posição em que o tinha deixado na véspera.
A sua expressão até era sorridente, parecendo que estaria a dormir, pelo que baixinho, para não o acordar, perguntei à minha avó: Mas ele está mesmo morto ? Parece tão feliz...
Mas ela acenou-me com a cabeça que sim, embora eu não visse nem uma lágrima naqueles olhos...
Até me pareceu que estivesse feliz por saber que ele não iria sofrer mais. Ela era muito forte e encarava estes factos com absoluta normalidade.
Realmente ele estava muito frio e me senti todo arrepiado e me afastei, pois havia que tomar o pequeno almoço e seguir viagem para a cidade, onde iria apanhar o navio Carvalho Araújo.
E assim, nem assisti ao seu enterro.
Segundo me contaram depois, teve um enterro miserável, com meia dúzia de pessoas que talvez ele tenha ajudado a pôr neste mundo ou salvo a vida.
Em contrapartida, a morte de meu pai, que tão pouca gente conhecia, uns 5 anos antes, havia levado aos Ginetes, centenas e centenas de pessoas, e até a banda de música Filarmónica Minerva, ia tocando a marcha fúnebre, aquela banda que meu avô havia fundado uns anos antes.

Poucos meses depois, chegava a Lisboa a minha avó Leonor Ester Ferraz Bettencourt Leça, e que sempre muito lúcida, veio a falecer aos 85 anos, depois de um AVC seguido de coma, em que só se sabia que ainda estava viva, porque o rosário que tinha nas suas mãos, passava uma bolinha, de quando em quando, até que parou, por se ter "apagado".
Eu não assisti, porque nessa altura, estava num sanatório do Caramulo, a brigar com a morte que me queria levar aos 20 anos, e de que graças a Deus me livrei, até hoje.

sábado, 31 de maio de 2008

DEIXEM-ME MORRER...POR FAVOR

Naquele dia 11 de Fevereiro de 1954 estava a cidade de Lisboa debaixo duma tremenda tempestade, com rajadas ciclónicas que faziam andar pelos ares toda a coisa fácil de levantar voo, ramos de árvores rodopiando por todos os lados, trapos, plásticos e papeis, raios e coriscos.
A chuva era torrencial e, embora sendo 17 horas, parecia já quase noite !

Pois foi neste dia que a minha esposa Alice Rosa, se "lembrou" de dar à luz o nosso primeiro filho !!!
A D. Glória, a senhora parteira, com quem já havíamos falado, dizia que assistiria a mais este nascimento e, na casa da minha mãe em Lisboa, num bairro de nome Encarnação, lá estávamos à espera do grande acontecimento, ingenuamente pensando que aquilo iria ser trabalho de pouco tempo, mas as águas rebentaram e minha esposa me pediu para estar sempre perto dela, o que aliás nem era necessário dizer, pois era essa a minha intenção, dada a minha curiosidade pelos assuntos científicos e, muito em especial, por ir assistir ao nascimento duma criança.
Mas infelizmente, o miúdo é que não estava nada voltado para esse evento...

Umas semanas antes, a minha mãe já nos tinha levado a visitar um médico açoriano, seu amigo de infância, e que já havia assistido aos partos quase todos da minha mãe, menos ao meu, e ela depositava nele, a maior confiança, o Dr. Jacinto Vargas Moniz, médico obstetra, que fazia medicina em Lisboa.
Eu ainda não o conhecia e fiquei um tanto surpreso quando ele se abraçou à minha mãe, num terno e carinhoso abraço de grande amizade...
Minha mãe já nos havia mostrado umas fotografias da sua juventude em S. Miguel, nos Ginetes, onde se viam os quatro simpáticos irmãos Vargas Moniz, e ela, muito bonita, entre eles, todos muito novinhos, com 13 ou 14 anos.
E foi até um deles, o Rogério Vargas Moniz, que como Engenheiro e Director Técnico no Arsenal do Alfeite, que tinha facilitado uns anos antes, a minha entrada e de meu irmão Carlos Mar, para a Administração desse Arsenal.
Deste evento, eu o descrevi neste blog, no artigo "Meu amigo Eng. Rogério Vargas Moniz", em Março de 2007, artigo 52.

Há uns 30 anos que eles não se viam e notava-se muito bem a amizade que tinham guardado, durante tantos anos. Depois, muito carinhoso, foi auscultar a minha esposa e disse que lhe parecia tudo estar bem e que o miúdo estaria em boa posição para o nascimento, mas que era muito grande...
Assim, ficámos muito descansados, embora ele referisse que havia toda a conveniência em que aquele parto fosse feito num hospital, não fosse haver qualquer ocorrência estranha, mas dada a nossa ignorância e a boa vontade da parteira, a minha esposa preferiu tê-lo em casa.

E, enquanto a tempestade horrorosa se desenvolvia lá fora, rugindo furiosa, por todas as frinchas das portas e janelas, as contracções da minha mulher, cada vez estavam mais aproximadas, e certamente que o bebé, estaria na rua, daí a pouco...
Só que, embora já houvesse dilatação mais do que suficiente, em minha opinião... e a sua cabecinha mesmo ali à mão, ela "embirrava" em baixo e cada vez a minha esposa estava mais exausta ! Aquilo era sofrimento a mais para um ser humano !
Nessa altura, eu agarrei o telefone para falar e pedir ajuda ao Dr. Vargas Moniz, mas infelizmente, ele havia saído e não se sabia a que horas viria...
A minha alma estava positivamente desesperada, e não pude conter as lágrimas !
Aí eu perguntei à parteira, porque não metia a sua mão por baixo para levantar uns centímetros aquela cabecinha, mas ela dizia que a Natureza é que sabia o melhor... mas eu fiquei muito indignado, porque me parecia muito óbvio... Seria como usar uma calçadeira para facilitar a entrada dum pé num sapato...
Mas a parteira, embora aparentando uma certa calma, quando se viu desesperada, lá se resolveu dizer-me para ir chamar uma médica que lá vivia perto, a Doutora Capinha, e, debaixo daquela tempestade horrorosa, lá vou eu no meu velho carro, à sua procura, mas como ela estava ocupada com uma cliente, ainda demorou uns minutos a entrar para o meu carro e passado um minuto, já estava ao lado da minha esposa e o miúdo, acabado de nascer, na sua alcofa e, ainda de casacão de inverno vestido, ao ver que a placenta não se largava e ela estava a esvair-se em sangue, mesmo sem lavar as mãos, agarrou no cordão umbilical com uma, e com a outra, fez umas compressões violentas na barriga da minha esposa, até que lá saiu aquela treta toda...a placenta.
Entretanto, como o miúdo já cá estava fora e muito tranquilo na sua alcofa, talvez esgotado pela força que tinha feito, para minha grande alegria, lá fui levar a Doutora a casa, embora ela me fosse dizendo que não a deixasse dormir, porque naquele estado, já não acordaria mais... e vigiasse o aparecimento da saída de mais sangue, dando-lhe de imediato uma injecção que já estava preparada, mas já era noite e bem noite, e ela nem estaria em condições de ser transportada para nenhum hospital.
Como a parteira já estava exausta, também se foi embora, e ali fiquei sozinho a tentar manter a minha esposa acordada, conversando sobre o miúdo que era lindo e com muito cabelo...mas ela estava muito desejosa, era de deixar-se dormir, talvez para sempre !
O Dr. Vargas Moniz, tinha razão, o miúdo era enorme e pesava 4,180 Kg !


Eu ali estava, mais que atento, quando a ouço dizer qualquer coisa, muito baixinho e perguntei o que ela estaria a dizer, entendendo que ela dizia estar a sentir sair mais sangue, e logo aí eu saltei para uma cómoda onde estava o coaguleno e a seringa, mas aquilo havia que misturar um liquido dum frasco, com um pó existente num outro e chocalhar bem, operação que, embora nunca tivesse feito antes, me pareceu simples, mas eu só tinha experiência de dar injecções nas nádegas, e ali, teria de ser numa perna, e já nem sabendo se devia espetar a agulha, de cima para baixo ou de baixo para cima ou se a direito... mas que atrapalhação, santo Deus !
Felizmente que o miúdo se mantinha a dormir, mas eu estava a estranhar minha mulher sem o querer ver e nem abrir os olhos para me ver ou falar...Estava tão branca, que mais parecia um cadáver...
Uns minutos depois, voltei a aperceber-me de que ela queria dizer qualquer coisa, e logo aproximei o ouvido da sua boca, para ouvir:
Deixa-me morrer...por favor !!!!
Como seria aquilo possível, teria eu ouvido bem ? Mas ela repetiu e aí lhe perguntei:
Mas agora que acabámos de casar e temos um filho lindo... nem penses. Nem penses...
E ainda lhe perguntei: E não tinhas pena de me deixar neste mundo, sozinho, com um filho nos braços ?
Mas ela só respondeu: NÃO !
Eu nem queria acreditar, até porque me sentia imensamente amargurado por me reconhecer como culpado daquele tão longo sofrimento e daquele seu estado de espírito tão estranho para mim...
Ela queria morrer ali mesmo e sem pena nenhuma de tudo e de todos ! Devia estar a sentir-se perto do Céu !
Já NADA a atraía na Terra, absolutamente nada !
Aí senti-me tão culpado que até as lágrimas me saltaram, eu que a amava tanto ...
" Não, de maneira nenhuma", eu a iria deixar "partir" sem fazer todos os meus esforços para a aguentar viva.

Felizmente que a hemorragia havia parado, o miúdo continuava tranquilo, e só podia manter-me falando para não a deixar dormir...e ela sempre calada e de olhos fechados...

Como seria possível uma pessoa pedir, e POR FAVOR, para a deixarem morrer ? E a mim, que tanto amo a vida ? A mim, que há tão poucos anos, tinha estado entre a vida e a morte, mas tinha conseguido sobreviver ?

A tempestade lá fora, até me estava a ajudar, pois havia ruídos por todos os lados na casa...
Eu já estava a ficar esgotado de forças, mas mesmo por cima da roupa da cama, me deitei muito junto dela, agarrando o seu pulso e sentir o seu débil coração que se mantinha batendo, cada vez melhor, com o passar dos minutos e ela despertando muito lentamente...
"Vencemos, Alice, e tenho imenso orgulho em te ver despertar desse terrível pesadelo !"
E ela, finalmente, sorriu para mim, abrindo os olhos e não ouvindo o miúdo chorar, talvez pensando até que ele tivesse morrido, mas eu perguntei-lhe: Queres ver o miúdo? E ela disse SIM !
Com muito jeitinho, para não o acordar, aproximei dela, a sua alcofa e lhe fui dizendo, por graça, mas com convicção: Depois de lhe dares banho, eu vou-lhe cortar este enorme cabelo, que lhe cai sobre os olhinhos... e ela esboçou um agradável sorriso, até porque sabia que eu estaria a falar verdade.
No dia seguinte, muito cedo, apareceu a parteira e como a tempestade já havia acalmado, em todos os sentidos, eu assisti ao seu primeiro banho, vendo tudo muito bem, pois talvez tivesse de ser uma operação que tivesse de fazer depois.
E enquanto a parteira segurava a cabeça do miúdo, eu cortei aquele cabelo a mais, que ele tinha.
E assim, foi o seu primeiro corte de cabelo... já com minha esposa assentada na cama, a sorrir !
Ainda hoje eu fico admirado do poder tremendo de recuperação duma mulher, após tal abalo físico !

Mas aquela tremenda tempestade já havia acabado e tudo estava mais calmo.

Três dias depois, lá iniciámos a viagem de volta para Benavente, a 50 Km de Lisboa e fomos para uma casinha antiga e solitária no meio do campo, em Vale de Estacas.
O quarto de dormir ficava em cima, no primeiro andar, e a cozinha, a sala de jantar e o WC, em baixo.
Um dia, passados uns 6 meses, estava eu a comer o meu pequeno almoço na cama, que sempre foi feito de sopas de café com leite, mas o míudo ali ao meu lado, é que não deixava de protestar... embora tivesse mamado há pouco tempo.
Eu estava a pensar que o leite da mãe talvez não o satisfizesse e lembrei-me de lhe dar uma gotinha do café com leite, usando a ponta da minha colher, que ele adorou e logo me fez sinal de que queria mais, dando estalinhos com a língua, o que fui fazendo durante mais uns minutos, mas a minha esposa que estava a arranjar-se no lado de baixo da casa, é que estranhou o silêncio do miúdo e me gritou a perguntar o que é que eu tinha feito para calar o miúdo, ao que eu respondi que lhe tinha dado umas colheres do meu café com leite...
"Oh homem, tu matas-me o miúdo, pois ele ainda só tem 6 meses... " , e subiu rapidamente ao primeiro andar, verificando como o bebé estava realmente todo contente ! Era verão e estava bastante calor.
Assim, e vendo que não lhe havia feito mal, ele começou a beber leite de vaca enfraquecido e com café, tudo bem docinho, entremeado com mama, para não as deixar encaroçar, mas o que ele queria mesmo, era do pequeno almoço do papá, e passado pouco tempo, até já gostava dumas sopinhas, que engolia com facilidade.

Hoje, passados 55 anos, este bebé que se ficou a chamar Mário Portugal Santos e Leça Faria, tem sido sempre de boa saúde, embora tenha sofrido vários acidentes em desportos de alto risco, com fractura de costelas e tendões arrancados no ligamento do joelho esquerdo, etc. mas quem o vir, e nem souber, nem dará por isso, nos seus 54 anos de idade, visto aqui nesta foto de 1992 , entre a sua mãe e a minha.

Mas depois deste susto tremendo, os outros dois meus filhos, Maria Antonieta e Carlos José, foram nascer no hospital da Santa Casa da Misericórdia de Benavente, e assistidos pelo Dr. Joaquim Cândido Mendes de Almeida, amigo de infância de minha mulher e, graças a Deus, ainda vivo, embora tenha tido há uns anos, um AVC um tanto violento, pelo que se encontra inactivo, embora lúcido.

Infelizmente, um ano depois desta foto, minha esposa veio a falecer nos meus braços, com um malvado cancro de colon.

E assim, já com cada filho para seu lado, todos casados, eu fiquei completamente só, a tentar viver feliz e contando neste blog, as minhas, às vezes tristes recordações duma vida tão cheia de emoções, embora já rondando os 81 anos.