
E o pior, é que todos os seus netos, desejavam ver-se livre dela, nem que fosse pelas suas férias, mas o que é certo é que ela ficava sempre em casa, dizendo que ali é que se sentia contente, rodeada das suas coisinhas.
Mas quando chegaram os 80 anos, chegámos à conclusão de que ela teria mesmo de vir viver connosco e, como havia um quartinho disponível, lá a conseguimos trazer, embora notando que ela mais desejava que fossemos nós a ir para a sua casa, em vez de ela para a nossa...
Claro que isso era impossível, porque ela vivia numa casa muito antiga e sem comodidade alguma, mas foi nela que nasceram todos os seus netos e a sua única filha.
A velhinha, aquela Rosa Agrieira, tinha muita piada e era muito esperta, muito atenta a tudo o que se passava à sua volta e sempre pronta a ajudar de quem dela se aproximasse, mas os netos estavam todos espalhados pelo país e dois em Inglaterra, pelo que a única disponível, teria de ser a minha esposa, até porque o gosto pelas férias, já se tinha atenuado, com o afastamento dos nossos filhos, e assim não fazia grande sacrifício em ficar constantemente com ela.
Passado pouco tempo de ela estar na nossa companhia, começou a queixar-se muito dumas dores nas costas que não abrandavam em qualquer posição, nem de dia, nem de noite...
Segundo o seu médico assistente, Dr. António Ventura, ela estava cheia de bicos de papagaio, mas como tinha uns bons pulmões e coração, teria que inevitavelmente, sofrer daquelas dores, até porque já sabia desde há muito, que o seu estômago não aguentava qualquer analgésico.
Quando ele ia a sair de nossa casa, ainda lhe perguntei: "Então vamos abandonar a velhinha ao seu sofrimento ?", ao que ele respondeu: «E ela vai ter muito que sofrer, porque com aqueles pulmões e coração, está para durar..:".
E fiquei a cismar, pois já tinha lido umas coisas sobre Ondas de Radio ou Diatermia, e era coisa que eu poderia fazer, por ter a profissão da electrónica e ser radioamador com indicativo CT1DT.
Mesmo com esta ideia na cabeça, falando pela radio com outro médico amigo, Dr. Fragoso de Almeida, também radioamador, como eu, mas com indicativo CT1PK, , ele me disse que dada a sua idade tão avançada, provavelmente não daria nada, mas se não fizessem bem, mal não faria...
Foi quanto bastou para eu entrar de imediato na construção dum gerador de ondas de radio e ao aplicar as suas placas nas costas da velhinha, logo verifiquei que ela tinha lá um grande alto, mesmo no meio das costas e muito doloroso. Assim, coloquei uma placa acima e a outra abaixo, e ajustei a potência até ela dizer que já estava morninho...e assim ficou durante 15 minutos.
Mas, ao fim deste tempo da aplicação da Ondas Curtas, ela que tinha sido levada ao colo, por mim e minha esposa, toda encolhida e gemendo com as dores, não desejou ajuda e, realmente se levantou da cama onde tinha feito o tratamento e muito direita, só dizia: «Isto é milagre... é milagre, só pode ser milagre...», e lá foi pelo seu pé, para o seu quartinho, tendo-se assentado num confortável "maple" e pegado numa costura que já estava parada há muito tempo, pondo um lenço branco sobre o seu cabelo já muito branco, por causa do Sol.
No dia seguinte, fui convidá-la para fazer uma segunda sessão, mas ela até respondeu que já nem necessitava... mas lá foi pelo seu pé e se colocou de lado, para fazer a nova aplicação.
Para nosso espanto, aquele inchaço havia desaparecido por completo e como ela era magrinha, até se podiam contar agora, as vértebras.
Mas eu sempre estranhei que ela só se alimentasse de sopas de café com leite, fazendo sopas com pão integral e não queria mais nada...a não ser um fruto qualquer...
A minha esposa é que me contou que aquilo já era a sua alimentação, desde há mais de 30 anos, desde que havia descoberto que aquela dieta experimental, não lhe provocava as tremendas dores de cabeça de que vinha a sofrer desde há muitos anos...
Mas certo dia, a velhinha aparece com vómitos e mais vómitos e só se viam coisas negras a sair pela boca, pelo que a minha esposa logo descobriu a malandrice... ela tinha ido ao alguidar das azeitonas, e como já não tinha dentes, sem que ninguém desse por nada, ela as ia papando, e cuspia para dentro do alguidar, os caroços, para que ninguém soubesse! Aquilo é que ela era uma velha marota...
Isto descobriu minha esposa, porque, ao chegar ao fim das azeitonas, estavam lá uma data de caroços...
Não havia ela de estar aos vómitos...mas sempre negando que se tivesse atirado a elas...
Mas já para cima dos 90 anos, a velhinha começou a dizer que via procissões a andar pelos cortinados do seu quarto e os meninos e o Sr. Prior... e outras vezes, eram touradas e cavalos... e danças...
Como seria aquilo possível, pois ela interrompia a conversa normal, que estava a ter connosco, para se referir ao que estava a ver e depois ria-se e dizia: «Isto deve ser da minha cabeça, porque realmente, não pode ser...»
Segundo conversa com os médicos, ela estava a ficar senil e isso era normal, quando algumas pessoas chegavam àquela idade.
Um dia, ia eu a passar em frente à sua porta, ela me chamou, pedindo-me para chamar a mãe daquela menina que estava ali mesmo, a chorar pela mãe...
Oh pá, aquilo era demais, pois não havia qualquer criança nem ali nem na casa, e pedi-lhe para me indicar onde é que essa menina estava, pelo que ela logo me disse; «aqui, aqui, », mas quando eu passei a mão pelo sitio, para lhe mostrar que não havia ali criança alguma, ela me disse: «ela fugiu para trás daquele móvel...»
Mas o que diabo eu poderia fazer ? Aquilo é que estava mesmo ali, uma açorda !!!
Mesmo assim, e porque o móvel não era muito pesado, ainda o afastei da parede para ela ver que não estava lá ninguém, mas a velhinha se mostrou um tanto amargurada, por eu não a ter visto e até me pareceu chocada, tal era a certeza de que a havia visto e até feito festas à criança... prometendo-lhe que iria procurar a sua mãe.
Aquilo só poderia ser um curto-circuito cerebral, entre a sua memória actual e a antiga, em certos períodos de tempo. Eu já havia ouvido falar daquilo, mas estar na presença da pessoa, é que nunca !
Se fosse hoje, talvez ainda experimentasse as mesmas Ondas Curtas...
Noutra altura, ela me chamou para me mostrar, muito envergonhada, puxando um niquinho a sua enorme saia, como tinha inchado um joelho e isso lhe dificultava imenso o andar.
Mas porque diabo ela não me teria dito isso há mais tempo? Realmente, aquele joelho tinha o dobro do tamanho do outro !
De imediato, lhe apliquei as Ondas Curtas e para meu novo espanto, no dia seguinte, os dois joelhos já estavam com o mesmo tamanho e ela já podia andar.
Pois passou a haver outro problema, pois sem dizer nada à neta, muito sorrateiramente, saía de casa e ia dar uma volta pela vizinhança, conversar com as velhas da sua idade, até que a minha esposa dava pela sua falta e lá andava à sua procura. Aquilo é que ela era uma velha matreira !!!
Um dia, e preocupado não fosse ela dar algum tombo e partir-se toda... ainda lhe falei no uso duma bengala, mas ela logo se insurgiu, dizendo; « Bengala eu ? Para quê? Para me chamarem de velha ?»
Aí respondi: «Mas oh Rosa, quando é que se convence de que já está velhinha ?»
»Pois é, Sr. Portugal...» que era a forma por que sempre me tratava: «Pois é...tem razão, eu sou mesmo uma velha tonta...", mas nunca a usou, preferindo andar aos tombos !
Certo dia, por eu ter comprado uma máquina de costura eléctrica, a convidei a experimentá-la, e ela assim se assentou à sua frente, e vai de pô-la a funcionar, carregando no pedal... mas aquilo arrancou a toda a velocidade, o que a pôs a rir às gargalhadas... Mas lá se habituou e passado algum tempo, já se entendia com ela, fazendo bainhas de cortinados e panos para limpar o pó, o que a distraía imenso.
Esta velhinha veio a falecer aos 95 anos, mas sempre muito lúcida, a ponto de nos ter pedido para chamarmos um Escrivão do Registo Civil e, para nosso espanto, ela deixou bem claro, perante testemunhas vizinhas, que deixaria a sua "terça" à minha esposa... por ter sido a única neta que lhe havia dado o carinho de que ela tanto necessitava, e durante os 8 anos que viveu connosco.
Este seu propósito, acabou por resultar em que todos os seus irmãos, lhe deixassem de falar...
Como minha esposa sabia que eu não podia estar ao pé de mortos, e ela já havia falecido uma hora antes de eu chegar a casa para almoçar, nada me disse, mantendo somente a porta do seu quarto fechada.
E aguentou-se sem chorar, durante todo o almoço, só se vislumbrando uma certa tristeza...
Quando a despiram pela última vez, ela mostrava bem um enorme volume na barriga, como se tivesse lá dentro um enorme fruto.
Ou seja, aquelas tremendas dores de cabeça que ela havia tido 30 anos antes, já seriam devido àquele tumor que estacionou, com a dieta das sopas de café com leite.
Vai uma pessoa entender estas coisas !!!!