terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

AS MINHAS LINDAS "ALVAROZES "



O Sr. Agostinho, era o pai da minha linda tia Maria, e tinha sido emigrante nos EUA por muitos anos, trazendo de lá, já farto de trabalhar e ganhar algum, a sua filha, uma garota muito bonita e dócil, mais ou menos da idade da minha mãe.

Esta minha tia Maria, era um encanto de pessoa, sempre pronta a rir e até cantava muito bem, a acompanhar-se das músicas americanas que a sua grafonola tocava em discos de 78 rpm, sempre tendo o cuidado de lhe mudar as agulhas, para que os seus discos não se estragassem. Aquela grafonola, devia ser única, nos Ginetes e ela não deixava que mais ninguém lhe tocasse...

Ela teve dois filhos mais ou menos de seguida, o Eduardo (falecido no fim de 2008), e o Armando, o mais velho, era até da idade do meu irmão Carlos Mar. Quando eu nasci, já eles tinham uns 3 anos.

Só muito mais tarde, uns 20 anos depois, é que ela "emprenhou" , como se diz nos Açores, e até foi uma briga, porque meu tio Assis, seu marido, queria à viva força, que fosse um menina, mas naquele tempo, nunca se sabia o que dali viria daquela barriga, e minha mãe sempre lhe dizia, que isso de sexo, só a Deus caberia, mas meu tio logo ripostava , muito chateado, que ela nem pensasse em lhe parir, como por lá se dizia, outro rapaz...

Tinha que ser uma menina !

Toda a gente gozava com aquela mania de meu tio, mas o que é certo é que apareceu mais outro rapaz, o Alberto dos Reis Leça, hoje Vereador da Câmara Municipal de Ponta Delgada.



Esta linda senhora, havia nascido nos EUA e lá educada, pelo que falava fluentemente o inglês e o português que sempre falava com seu pai. Ela adorava música americana e até tinha de memória, as suas letras, sabendo lindamente cantá-las. Como ela tinha visto pessoalmente espectáculos ao vivo, até dançava




Mesmo, depois de velhinha, mantinha aquele ar doce e sorriso que tanto me havia encantado em toda a minha juventude.


Meu tio Assis, ficou tão aborrecido que até deixou de lhe falar por muito tempo...

Aquilo é que ele ficou mesmo chateado, porque a diferença de idade dos filhos já crescidos, para a daquele, mais parecia ser um neto... enquanto a minha mãe tinha dois rapazes e 3 garotas...

Este meu tio era uma pessoa muito calada e até, nunca me lembro de o ter visto sorrir... nem muito menos, dar uma gargalhada...

Embora tivesse duas espingardas, nunca o vi ir à caça, sendo uma de calibre 12 e uma outra linda, de dois canos, de 9mm , que eu adorava pegar ! Meu avô, que tinha imensa habilidade e treino de tiro, até me dizia que meu tio não tinha grande habilidade para aquilo...

Como todos os rapazes da família, tinham aprendido a língua inglesa, ele não teve dificuldade em conseguir, mais tarde, entrar para a Armada, até porque além do inglês, que ele havia aprendido com a minha avó, e a seu mãe Maria, genuinamente americana, e que falava fuentemente, também havia aprendido Morse, o que lhe era exigido para a sua profissão de Director Semafórico do seu observatório marítimo, ali muito perto do imponente Farol dos Ginetes, mais conhecido por Farol da Ferraria.

Daquele sítio, se abarcava todo o horizonte marítimo do Sul de S.Miguel e, quando era dia, e aparecia a léguas de distância, um navio qualquer de grande porte, ele tinha por obrigação comunicar com ele, para saber a sua nacionalidade, de onde vinha e para onde ia, além do que transportava.

Algumas vezes, até conseguia ajudar os navios, com pessoas que lá se encontravam doentes e podia preparar a entrada dos navios em Ponta Delgada, para assistência médica imediata.


Hoje, há os rádios, mas naquela época, ainda estava na sua infância, e só se podia comunicar a tão grandes distância, por meio de Morse por luz, ou com bandeirolas, uma em cada mão. Como ele ficava com as duas mãos ocupadas, tinha de memorizar, muito calado, os sinais que estava a receber pelo seu enorme óculo que estava seguro por um valente tripé.

Depois, dirigia-se para a sua chave de Morse, e comunicava para o seu Quartel General, o acontecido, alem de registar no seu livro diário.

Todos nós, os rapazes, quase todos da mesma idade, embora eu fosse o mais novo, frequentavamos a Escola Primária, enquanto as minhas irmãs ficavam em casa a brincar com as suas bonecas ou a estudar francês com a minha avó, ou a estudar música.

Aquele observatório do meu tio, ficava um bocado longe e tínhamos de ir a pé, mas aqui e ali, lá nos íamos alimentando de amoras silvestres e "rebuçados", além de bebermos água fresquinha, que brotava aqui e ali, das grotas sempre frescas.




Infelizmente, não possuo nenhuma fotografia do Observatorio onde trabalhava meu tio, mas aquilo era um largo cimentado e circular, tendo ao meio um enorme mastro de navio, por onde meu tio fazia içar certas bandeiras que estavam muito bem guardadas, e à vista, numa casinha pequena, logo seguida dum outro compartimento onde se encontrava a aparelhagem de medida, como higrómetros, barómetros, medidor da força do vento, termómetros. etc. etc. além duma secretária onde ele "clicava" em código Morse, por linha telefónica, todos os dados para a Capitania na cidade de Ponta Delgada.


Talvez que, devido aos horários da Armada, ele nem tinha tempo para sorrir, e sempre foi uma pessoa muito soturna. Mas havia alguns períodos em que não havia trabalho e já podíamos brincar por ali à volta ou/e a fazer-lhe perguntas.


Um dia, quando lhe perguntei o porquê de haver tantas "cordas" naquele mastro, ele sempre dizia que, em marinha, só havia cabos e que só havia duas cordas: a do sino e a do relógio...


Meu irmão Carlos Mar, é que não perdia toda aquela azáfama das transmissões do Morse e aquelas agitadas operações das transmissões com as bandeiras. Talvez por isso, muitos anos mais tarde, em Angola, em 1940, ele veio a construir o seu Observatório da Mulemba, muito ligado à NASA. Em 1976, foi assassinado por malvadez militar.
Meu primo Eduardo, estava mais entusiasmado com os faróis, o poder acompanhar os faroleiros até ao seu mais alto andar, onde estavam os sistemas de rotação dos espelhos, as fortissimas luzes, e a "corda" que os faroleiros tinham de carregar, com uma bruta manivela e muita força de braços. Esta "corda", não era mais do que um brutal peso que estava pendurado desde lá de cima, até ao rés-do-chão.

Fiquei muito orgulhoso, aqui ha poucos anos, quando o Almirante Duarte Lopes, radioamador CT1VV, me envia uma revista da Armada onde, na sub-capa, se mostrava a foto do Farol da Ferraria e se fazia a alusão a uma descoberta deste meu primo Eduardo Reis Bettencourt Leça, de um sistema electrico que tinha vindo resolver o trabalho da recarga da "corda" dos faróis.


Talvez por este motivo, ele tenha vindo a ser faroleiro em toda a sua vida: Mas, tal como todos os outros faroleiros, tinham de andar sempre a mudar de casa, à volta da ilha de S. Miguel, para dar assistência aos imensos faróis existentes, em que alguns estavam implantados em rochedos incríveis, com o Oceano Atlântico sempre a bater-lhes, o que só pessoas mesmo intrépidas podiam fazer, para transportar os pesadíssimos bidões de combustível em barco a remos, e retirá-los para os rochedos, ficando normalmente, completamente encharcados !



Aquilo é que era um ofício chato !!!!


Ele sabia que havia outros faroleiros fixos, mais graduados, onde podiam ter as suas famílias. Mas isso exigia uma preparação técnica que ele não possuia ainda: a electrónica.


Já perto do fim da sua vida, e a esposa com um cancro na cabeça, ele me pediu para lhe ensinar muitas coisas sobre electrónica, para poder fazer exame e subir na carreira, o que felizmente conseguiu, embora sua esposa falecesse pouco tempo depois.


Mas voltando um pouco atrás, aquele Sr. Agostinho, que era uma pessoa forte mas muito calada, quando o tempo chovia, ele se entretinha a responder por carta, aos seus amigos do EUA, e eu ficava extasiado a vê-lo escrever !


Aquilo era tão lindo de ver... até porque ele rodeava as letras maiúsculas, duns floriados muito belos e todas as letras eram escritas com imensa perfeição! Eu nunca havia visto uma pessoa escrever assim, e aquilo era lindo de ver!

Ele ali ficava na mesa da cozinha, enquanto a minha tia Maria ia fazendo os seus trabalhos domésticos e quando cozia pão de milho, sempre nos guardava uns pãezinhos de farinha de milho, com açúcar, porque sabia do quanto eu gostava deles.
Eu julgo que toda a casa tivesse sido feita por ele, e do lado de trás, havia um aumento para uma casa de banho e o lavadouro manual da roupa. Mas a sua casinha, até tinha sala e tudo muito limpo, mas era raro entrarmos nesta sala, não fossemos levar terra nos pés, lá para dentro...


Não sei porquê, nunca ouvi lá falar do que havia sido o seu trabalho nos EUA, mas uma coisa era certa, ele havia trazido uma data de ferramentas que tinha guardadas e muito bem fechadas, no sótão da sua casa, sítio onde dormiam os meus dois primos.

Ainda me lembro que no dia da matança do porco, a tia Maria lá nos metia a todos para dormir, o que dava sempre, um tremendo forrobodó, com aquela mistura de rapazes e meninas.


A sua casa era modesta e pequena, mas muito aconchegante, além de ter imensas coisas por ele construídas, pois era uma pessoa que estava sempre ocupada a semear, plantar, colher, guardar, a construir mobília, e até havia comprado uma terrinha, onde fazia a cultura de certos frutos e tabacos que depois, em casa e com as folhas bem secas, fazia um molhe bem apertado, como se fosse cortar couves para um caldo verde, e numa maquineta do tipo de corta-bacalhau, por ele construída, "migava" o seu tabaco, que enrolava nas mortalhas, para poder fumar.

Quando ele estava a fazer este trabalho, tinha de abrir o seu "esconderijo" das ferramentas, por onde eu podia espreitar as suas lindas ferramentas... todas muito bem arrumadinhas e limpas...


Mas quando ele tinha de fazer qualquer obra de carpintaria, ele vestia umas calças azuis, cheias de bolsos, e que eram a minha adoração! Ele dizia que se chamavam "over trousers", mas como aquela palavra era muito difícil de pronunciar, para mim, eu lhes chamava de "Alvarozes"...

Aquilo eram as calças que eu mais adoraria possuir, não só porque eram compridas, mas a minha mãe é que foi difícil de convencer... Mas um dia, tanto a chateei e beijei, que ela foi comprar ganga azul e lá me construiu as minhas adoradas "alvarozes", onde metia nas algibeiras, toda a tralha que necessitava para brincar, como um canivete para construir com um galho apropriado, em forma de "Y" , as muitas fisgas que ia construindo.


Talvez que o trabalho profissional do Sr Agostinho, nos EUA, fosse de muita exigência mecânica, e como nesta foto, talvez pudesse ser ele, com as suas "alvarozes", a mais de 100 metros de altura...
Hoje estas "alvarozes" são muito usadas pelas garotas na ilha da Madeira. Acho uma certa graça, que após passado tanto tempo, a TVI tivesse ido fazer uma telenovela intitulada "Flor do Mar", a esta ilha, onde tudo anda à volta duma garota rica, que emprenhou dum rapaz pobre, sempre vestido de "alvarozes", e que foi abandonar a sua filhinha, à porta da casa do seu pai.

Como o Sr. Agostinho sempre tinha sido mecânico de qualquer coisa, nunca me lembro de o ter visto naquela casa cor-de-rosa, onde eu nasci e me criei, até ter de sair de S.Miguel, para estudar no Continente, em Lisboa, embora a sua alegre casinha estivesse ali a menos de 100 metros de distância.

Hoje tenho pena dele não ter sido mais acarinhado e até, devido ao seu feitio acanhado e reservado, nunca o vi junto das pessoas que todos os anos visitavam a casa cor-de-rosa.

Era gente "fina demais", para seu gosto...

16 comentários:

Mário Portugal Leça Faria disse...

Para conhecimento de todos os leitores, publica-se abaixo os 14 comentários publicados no site brasileiro "Lima Coelho" a propósito deste post "As minhas lindas "Alvarozes"

Anónimo disse...

Muito legal!
Comentário Enviado Por: Mabel Em: 12/2/2009

Anónimo disse...

Oi Mário, beleza de memórias...
Comentário Enviado Por: Carla Porto Em: 12/2/2009

Anónimo disse...

Mhário, você é um memorialista sensacional
Comentário Enviado Por: Ibrahim Moura Em: 12/2/2009

Anónimo disse...

Realmente muito boa esta crônica
Comentário Enviado Por: Zezé Em: 12/2/2009

Anónimo disse...

Oi Mário, que beleza de crônica
Comentário Enviado Por: Paulo César Medeiros Em: 12/2/2009

Anónimo disse...

Valeu Mário!!!!
Comentário Enviado Por: Zezé Em: 13/2/2009

Anónimo disse...

Muito bom mesmo! Parabéns Mário
Comentário Enviado Por: Geisa Paixão Em: 13/2/2009

Anónimo disse...

Caro Mário, que histórias! Parabéns
Comentário Enviado Por: Bianca Roma Em: 13/2/2009

Anónimo disse...

Muito bem grande memorialista.
Comentário Enviado Por: Carlos Augusto Em: 13/2/2009

Anónimo disse...

Gosto de ler suas crônicas
Comentário Enviado Por: Rogério Lemos Em: 14/2/2009

Anónimo disse...

Beleza, Mário!
Comentário Enviado Por: Carolina Coelho Em: 15/2/2009

Anónimo disse...

Oi Mário, que recordações!
Comentário Enviado Por: Cássia Oliveira Em: 15/2/2009

Anónimo disse...

Oi Mário, que crônica adorável
Comentário Enviado Por: Sheila Medeiros Em: 16/2/2009

Anónimo disse...

Beleza de crônica
Comentário Enviado Por: Luan Brito Mendes Em: 16/2/2009

Yolanda disse...

É tão bom trazer à tona nossas memórias de um tempo passado, mas que vivemos de uma forma gostosa.
E sua memória é boa, vai eu tentar relembrar algo com tantos detalhes da minha infância eheheheheh
Gostei muito.
Depois volto com mais tempo para continuar lendo.
Beijinhos e boa noite para si, pois para mim ainda é dia. E voltando ao assunto memórias, semana passada vi dois filmes portugueses antiquíiiiissimos, Aldeia da Roupa Branca e Pátio das Cantigas.