quarta-feira, 25 de março de 2009

E DEU -LHE O NOME DE CAMILA


Quando a minha amiga Ana Bela, mais conhecida na NET, por Ana Ramon, me disse que havia dado o nome de Camila, à sua linda cadelinha Serra da Estrela, que o seu empregado Sebastião lhe havia ofertado, até senti um baque no coração ! Mas como aquele minúsculo animal, iria ser mais uma preocupação para ela, não achou graça nenhuma à oferta... Só que Camila era a meiguice "em pessoa" e logo se afeiçoou à sua dona, só pedindo carinhos, o que tocou fundo no seu coração. Felizmente que os outros cães a aceitaram muito bem, embora sentisse a necessidade de se refugiar no colo da dona, mal eles se aproximavam...
Como a Ana tem na sua quinta, muitas ovelhas que tem de guardar e pôr a pastar, ainda não havia encontrado aquela raça de cão, que consiga acompanhar o rebanho, sem lhe fazer mal. Aquilo é um problema complicado, porque os seu cães de guarda, atiram-se aos recem nascidos e matam-nos. Tinha de ser um cão que desde pequenino, conseguisse dormir junto delas, para as considerar como "irmãs" a quem defender, embora tenha de ser bem ensinado...



Quando eu estava muito doente num sanatório do Caramulo, mas já me encontrava na linha dos curados, apareceu por lá um conjunto musical muito simpático, em que a estrela era uma linda garota de nome Camila.
Aquele pequeno conjunto de 3 artistas, em que os irmãos tocavam maravilhosamente viola a acompanhá-la e em que o mais virtuoso era canhoto tendo o braço da sua viola à direita, enquanto o outro irmão, que era destro o tinha à esquerda.
Assim a Camila, ficava ao meio, vestida de sevilhana, tecido de cetim azul, cantando lindamente em espanhol e rodopiando enquanto tocava as castanholas, com uma linda rosa vermelha agarrada ao cabelo.
Aquela visão duma tão jovem alourada, deu-me volta ao miolo…
Eu nunca havia estado perto duma “espanhola" tão linda, de pele acetinada, e que pronunciava tão distintamente o espanhol , como as que eu ouvia na rádio!
Dentro de toda a assistência, eu era o mais novo e fiquei mesmo à frente, a cerca de uns dois metros deles, porque não havia palco. Era uma sala normal de recreio.
Talvez já fosse hábito dela, afastar-se dos irmãos e vir cantar muito perto da assistência que a seguia hipnotizada.
No meu caso, ela quase que me tocava com o seu nariz no meu !!! Aquilo era bom DEMAIS… até porque tínhamos a mesma idade, e ambos solteiros.
Naquele tempo, ainda não havia televisão e os artistas tinham de andar sempre de terra em terra, à procura dos seus ouvintes. Era pois uma vida extremamente dura e mal paga , pelo que eles tinham muita dificuldade em sobreviver, até porque ela era todo o amparo da sua mãe, que estava cega.
Talvez por isso, a “minha Camila" adoeceu dos pulmões, mas como estava de visita ao Caramulo, logo foi vista e tratada pelos simpáticos médicos, e passado poucos meses, já estava a caminho da sua cura.
Como eu já estava curado, ainda a fui visitar ao seu sanatório, Senhora da Saúde, e conversar com ela muitas vezes, pelo que ela ficou a saber de toda a minha vida, também muito difícil e cheia de solidão.
Mas como eu não queria, de forma alguma, recair, nem um beijo lhe podia dar !
Entretanto, já curado, tive de a deixar lá, à procura da sua convalescença, e fui para Lisboa, sempre com aquela fisionomia na ideia. E pensava: será que ela se cura ? Será que ainda está viva ?
Eu não lhe podia oferecer nada, mesmo nada, a não ser aquela adoração.
Passados uns 10 anos, já com os meus 24 anos, casei-me e já tinha os meus 3 filhos miúdos, quando, já empregado numa firma americana, fui fazer umas férias a Albufeira, no Algarve e no meio daquela grande confusão da chegada das pessoas, vou dar de caras com ela, também já casada e com filhotes.
Ela estava tal e qual a havia conhecido, embora com roupa simples, de passeio, mas era o mesmo sorriso, aquela meiguice de olhar e sorrir, aquele falar baixinho que não fazia adivinhar a linda voz que ela tinha ao cantar !
De imediato a apresentei à minha esposa que também simpatizou imenso com ela, e se fizeram grandes amigas, nunca mais se separando durante aquelas férias.
Ela tinha-se casado com um rapaz, também doente num sanatório, que não a queria mais ver a cantar e a ter de correr meio mundo, para conseguir sobreviver. Assim, o seu casamento foi feito com a condição dela largar a vida artística, e estava agora, só a fazer a vida de qualquer dona de casa.



Nesta foto, está ela com uma mão debaixo do queixo, enquanto a minha esposa se entretinha sempre com as suas rendas e um olho na garotada.
Quem ficou a perder, foram os irmãos, que não conseguiram adaptar-se a outros conjuntos musicais muito barulhentos, e nem me lembro de que viveriam, agora sem a sua estrelinha, no meio deles.


E agora, viúvo e solitário, fico a pensar se ela ainda estará viva e livre... ERA BOM DEMAIS