Ela lá está na lindíssima terra de Ginetes, em S. Miguel, Açores.
Do lado de lá um cabeço, onde eu fui tentar ver cair um raio e fui bem castigado, por isso...
É a história contada em 11 de Setembro de 2006 e intitulado "À espera dum raio que não me partisse ".
Parece impossível que tenham passados tantos anos, e numa terra muito dada a tremores de terra, a casa de meu avô ainda lá esteja, em perfeito estado de conservação ! Tudo tinha sido feito para durar !
Na realidade, ela foi feita com imensos cuidados de resistência, pois estava assente sobre 5000 cunhais de pedra, com cerca de um metro de comprimento e uns 50 cm de largura e altura.
Esta bela foto, foi-me enviada por uma prima que lá vive perto, a Maria Leonor Leça, e há poucos dias, contando-me como tudo aquilo está diferente de há 80 anos, estradas então de terra, agora alcatroadas, muitas outras moradias na mesma rua, Escola EB2, campos de jogos polivalentes, enfim, imensas novidades !
Nesta altura, está desactivado o Campo de Crocket, que existia em frente à casa, mas o meu primo Alberto Leça, como Vereador da Câmara, insistiu que fosse feito um outro, do outro lado da rua, quase em frente à "casa cor-de-rosa". Estes enormes campos, são muito parecidos a uma grande mesa de bilhar, em que os jogadores, munidos de tacos e bolas de madeira, obrigam as bolas a passar em certas direcções, os arcos implantados no solo. O terreno tem de ser o mais perfeito possível e é norma cobrí-lo de areia que é alisada a rodo, antes de cada jogo.
Como é óbvio, sendo uma terra vulcânica, toda a areia é preta, conforme se pode ver na foto.
Mal se entrava a porta, pelo lado esquerdo, à esquerda era o quarto de meus pais e à direita, a sala, onde o piano de cauda tocava a toda a hora. A seguir era o quarto da garotada e em frente, a sala de jantar com uma enorme mesa no meio. Logo de seguida o quarto dos meus avós e à esquerda, o consultório, a que se tinha acesso voltando à direita do portão de ferro.
Um pequeno corredor, dava acesso à cozinha e uma escada para a falsa (sótão), onde podíamos brincar a-vontade.
Nesta "falsa" ainda existia o quarto da criadagem feminina, que dava acesso a essa janela em cima, e do lado oposto, uma outra janela igual, dava acesso à oficina de meu avô, com todas as ferramentas a que ele tinha acesso, como carpintaria, torno mecânico, fotografia, caça, tipografia, forja, etc. etc. Era aqui que ele "fabricava" os tacos e bolas para o jogo do crocket e fazia os brinquedos que nos ofereciam pelo Natal, e onde aprendi a manusear as ferramentas.

Ele possuía um dos primeiros rádios alimentados por uma grande caixa de pilhas, mas estava avariado e um dia nos perguntou, se o gostaríamos de possuir mesmo assim, e nesse mesmo dia, entusiasmadíssimos, o fomos buscar.
Eu carreguei com as pesadíssimas pilhas, enquanto meu irmão se ia deliciando a olhar os seus "intestinos", aquelas brilhantes válvulas, as bobines e condensadores variáveis... Nunca havíamos visto um rádio, aquela máquina estranha, que captava estações de rádio a muitos milhares de quilómetros, e meu avô, mal chegámos a casa, nos pôs a desmontar pilha a pilha, e a limparmos os bornes. Depois ele atestou cada vaso com líquidos "especiais" e ao voltar a ligar a maquina, ela começou logo a funcionar ! Que maravilha...tantas centenas de estações a fazerem pio,pio,pio (telegrafia) e outras com noticias e música.
Naturalmente, no dia seguinte, logo fomos informar o professor Santos, de que a máquina já estava a funcionar e aí eles nos explicou como deveríamos fazer uma grande antena, e até nos ofertou uma folhinha de papel, com uma data de risquinhos e pontinhos, que ele dizia ser o código de Morse, aqueles pios,pios, pios, que se ouviam aos milhares. Meu irmão, mais velho do que eu 3 anos, logo a agarrou e fomos construir, com a ajuda de meu avô, duas "chaves de Morse", para podermos "falar" um com o outro à distância duma centena de metros . Estávamos lançados na rádio !!!
Mas, ao relembrar esta remota época, vem-me à ideia o porquê de ele, meu avô, ter escolhido os Ginetes para viver, quando era um médico madeirense e ainda por cima, naquele sítio; foi muito bem escolhido !
Ele tinha estado a viver uns tempos, no lado Norte da Ilha, na Maia, mas aquilo lhe dava imenso trabalho e poucos proventos. Assim, resolveu um dia, dar uma volta a oeste da ilha, no seu "char-a-banc", porque estava uma vaga aberta de médico, naquelas zonas. Assim, percorreu todo o lado Oeste, até aos Mosteiros, onde um retornado emigrante lhe disse que o melhor seria escolher os Ginetes, porque ficava no centro de todas as freguesias. E assim aconteceu.
A freguesia dos Ginetes, talvez seja das muito poucas em S. Miguel, que não tem vista para o mar, o longo mar do Oceano Atlântico . Ela está implantada num grande vale de vários hectares, com muitos terrenos de cultivo de milho e naquele tempo, na minha rua, só existia a "casa cor-de-rosa" e mais adiante, a do meu tio Assis, do mesmo lado. Na foto baixo, só se consegue ver uma parte da realidade e ela foi tirada de cima do grande morro, que separar os Ginetes, do Oceano Atlântico.

Aqui e mais além, outras belas casas só serviam para férias de verão, de pessoas mais abastadas de Ponta Delgada, que também encontraram nos Ginetes a terra ideal, para as suas férias e alguns eram donos daqueles terrenos de cultivo, onde o milho alcançava mais de 2 metros de altura, com 3 e 4 massarocas enormes em cada pé. Para que cada pé conseguisse aguentar tal peso, tinham o diâmetro dum pulso de adulto, e estavam todos dispostos por forma a que se pudesse andar por entre eles, como numa floresta cheia de árvores... e nós corríamos entre eles, miúdos, mas ficando com a cara toda arranhada pelas folhas... quando não descascávamos um pé, para chupar, como se de uma enorme banana se tratasse... e se aquilo era doce...mais parecia "cana de açúcar".

Julgo que ainda hoje, por ser tão fértil este milho, quase só existe o enorme pão de milho e aqueles pãezinhos em que se misturava açúcar e eram a nossa alegria.
Por isso, o granel teria de ter uma forma cónica e as massarocas faziam de telhas.
Um destes visitantes, o José Manuel Raposo, deve ser o actual dono da "casa cor-de-rosa" e ele tinha de tudo o que era bom, incluindo umas belas espingardas de ar comprimido, que nos emprestava, de tempos a tempos, e foi com ela, que tanto eu como meu irmão Carlos Mar, aprendemos a fazer a pontaria e disparar. E se ele era bom naquilo !
No seu "char-a-banc", quase todos os dias, ora para nascente, Candelária ou Feteiras, ou para poente, Várzea , Mosteiros e Lagoa das 7 Cidades, lá ia meu avô , troc,troc,troc, ver os seus doentes.
e sem capota, também podia levar umas 6 pessoas, frente a frente, como aqui, em que as pessoas entravam por uma portinhola na traseira, e lá se iam assentando de forma a que o máximo peso, caísse sobre o rodado do carro. Era como nos aviões, em que os pesos são distribuídos de forma a manter o veiculo bem equilibrado.
A "casa cor-de-rosa" estava realmente muito bem assente no meio daquele vale, mas o seu dono, seu amigo Chalupa, nunca vendeu o terreno a meu avô. Assim, a casa estava feita em terreno alheio, mas ele não teve outra escolha ! As pessoas daqueles tempos, eram muito agarradas às suas coisas e às suas memórias.
E não se vê o mar, porque existe uma montanha entre o extenso vale e ele, montanha que mais parece um enorme ginete (cavalo) deitado. Talvez por isso, a freguesia teria ficado chamada de Ginetes, mas há muita confusão sobre a palavra.
Como a "casa cor-de-rosa" está, uma grande parte do tempo, sem ninguém, ela serviu durante algum tempo à Junta de Freguesia, e a sua parte debaixo, esteve a ser usada pelos escuteiros do sítio, o agrupamento 1065 e, à sua frente, a Escola Carlos Bettencourt Leça (meu avô), que lecciona até ao 9º ano, toda a juventude, desde os Mosteiros às Feteiras, e 7 Cidades. Depois de tantos anos, continua a ser o centro nevrálgico de toda aquela zona.
Neste subterrâneo, podem ver-se e apalpar-se os milhares de blocos de pedra dos alicerces, como se, de enormes tijolos se tratassem.
Quando em 1900, a terra foi agitada com a chegada de meu avô, também lá apareceu um seu amigo íntimo, pessoa robusta, vinda da Maia, e que era o farmacêutico, o Sr. Moniz, pelo que a «Pharmácia» passou a ser não só para medicamentos, mas também Central dos Correios e uns anos depois, de telefone, o único que lá existia, em 1936. Era ao mesmo tempo, o sítio onde se reuniam para boas conversas, as pessoas mais gradas da terra.
Um destes 4 filhos, o Rogério Vargas Moniz, chegou a Director Técnico do Arsenal do Alfeite, e que deu origem neste Blogue, ao artigo "Meu amigo Eng. Rogério Vargas Moniz", publicado em 25/3/2007, e outro irmão, o Jacinto Vargas Moniz, um importante médico obstétrico em Lisboa.
A freguesia dos Ginetes é ladeada de enormes e profundas GROTAS, impenetráveis, devido à imensa vegetação, lugares paradisíacos, onde a mão do homem só lá tem entrado, para ajudar a admirar a sua beleza !
A nossa televisão, a TVI, tem aproveitado a sua estadia em S. Miguel, onde filmou uma tele-novela a que deu o nome de "Ilha dos Amores", muito bem feita e interpretada genialmente por muitos artistas do Continente. Talvez que a "Mariana" tenha estado aqui, descalça e alegre, nesta grota, tomando banho.

Para se ter de lá entrar, tinham de usar a porta que era da cozinha para a rua, onde está a escadaria de pedra, tendo sido fechada, certamente, a porta que dá acesso à casa "cor-de-rosa", propriamente dita.
Eles agora lhe chamam "cave", mas há 80 anos, aquilo se chamava "subterrâneo" e, só não íamos todos para lá brincar, porque aquilo até metia medo de escuro e tinha muitas teias de aranha... mas ainda me lembro de ter lá encontrado um baú velho e de onde arranquei a tampa, para fazer de barco, no enorme tanque de lavar a roupa ! E se aquilo me dava gozo ! Era o meu "navio" , embora me deixasse o rabo todo molhado...
Tinha eu uns 6 ou 7 anos...

Em frente à "casa cor-de-rosa" está-se a abrir, perpendicularmente, um rua, onde irá ficar o Corpo de Bombeiros. Já estou mesmo a ver; quando o quartel dos Bombeiros lá estiver, mesmo em frente à "minha casa", quando houver toque a rebate...nunca mais haverá lá, quem pregue o olho, e lá se vai o silêncio idílico dos Ginetes... Progressos ...hi hi hi
Como os Ginetes estão mudados !
