sábado, 31 de maio de 2008

DEIXEM-ME MORRER...POR FAVOR

Naquele dia 11 de Fevereiro de 1954 estava a cidade de Lisboa debaixo duma tremenda tempestade, com rajadas ciclónicas que faziam andar pelos ares toda a coisa fácil de levantar voo, ramos de árvores rodopiando por todos os lados, trapos, plásticos e papeis, raios e coriscos.
A chuva era torrencial e, embora sendo 17 horas, parecia já quase noite !

Pois foi neste dia que a minha esposa Alice Rosa, se "lembrou" de dar à luz o nosso primeiro filho !!!
A D. Glória, a senhora parteira, com quem já havíamos falado, dizia que assistiria a mais este nascimento e, na casa da minha mãe em Lisboa, num bairro de nome Encarnação, lá estávamos à espera do grande acontecimento, ingenuamente pensando que aquilo iria ser trabalho de pouco tempo, mas as águas rebentaram e minha esposa me pediu para estar sempre perto dela, o que aliás nem era necessário dizer, pois era essa a minha intenção, dada a minha curiosidade pelos assuntos científicos e, muito em especial, por ir assistir ao nascimento duma criança.
Mas infelizmente, o miúdo é que não estava nada voltado para esse evento...

Umas semanas antes, a minha mãe já nos tinha levado a visitar um médico açoriano, seu amigo de infância, e que já havia assistido aos partos quase todos da minha mãe, menos ao meu, e ela depositava nele, a maior confiança, o Dr. Jacinto Vargas Moniz, médico obstetra, que fazia medicina em Lisboa.
Eu ainda não o conhecia e fiquei um tanto surpreso quando ele se abraçou à minha mãe, num terno e carinhoso abraço de grande amizade...
Minha mãe já nos havia mostrado umas fotografias da sua juventude em S. Miguel, nos Ginetes, onde se viam os quatro simpáticos irmãos Vargas Moniz, e ela, muito bonita, entre eles, todos muito novinhos, com 13 ou 14 anos.
E foi até um deles, o Rogério Vargas Moniz, que como Engenheiro e Director Técnico no Arsenal do Alfeite, que tinha facilitado uns anos antes, a minha entrada e de meu irmão Carlos Mar, para a Administração desse Arsenal.
Deste evento, eu o descrevi neste blog, no artigo "Meu amigo Eng. Rogério Vargas Moniz", em Março de 2007, artigo 52.

Há uns 30 anos que eles não se viam e notava-se muito bem a amizade que tinham guardado, durante tantos anos. Depois, muito carinhoso, foi auscultar a minha esposa e disse que lhe parecia tudo estar bem e que o miúdo estaria em boa posição para o nascimento, mas que era muito grande...
Assim, ficámos muito descansados, embora ele referisse que havia toda a conveniência em que aquele parto fosse feito num hospital, não fosse haver qualquer ocorrência estranha, mas dada a nossa ignorância e a boa vontade da parteira, a minha esposa preferiu tê-lo em casa.

E, enquanto a tempestade horrorosa se desenvolvia lá fora, rugindo furiosa, por todas as frinchas das portas e janelas, as contracções da minha mulher, cada vez estavam mais aproximadas, e certamente que o bebé, estaria na rua, daí a pouco...
Só que, embora já houvesse dilatação mais do que suficiente, em minha opinião... e a sua cabecinha mesmo ali à mão, ela "embirrava" em baixo e cada vez a minha esposa estava mais exausta ! Aquilo era sofrimento a mais para um ser humano !
Nessa altura, eu agarrei o telefone para falar e pedir ajuda ao Dr. Vargas Moniz, mas infelizmente, ele havia saído e não se sabia a que horas viria...
A minha alma estava positivamente desesperada, e não pude conter as lágrimas !
Aí eu perguntei à parteira, porque não metia a sua mão por baixo para levantar uns centímetros aquela cabecinha, mas ela dizia que a Natureza é que sabia o melhor... mas eu fiquei muito indignado, porque me parecia muito óbvio... Seria como usar uma calçadeira para facilitar a entrada dum pé num sapato...
Mas a parteira, embora aparentando uma certa calma, quando se viu desesperada, lá se resolveu dizer-me para ir chamar uma médica que lá vivia perto, a Doutora Capinha, e, debaixo daquela tempestade horrorosa, lá vou eu no meu velho carro, à sua procura, mas como ela estava ocupada com uma cliente, ainda demorou uns minutos a entrar para o meu carro e passado um minuto, já estava ao lado da minha esposa e o miúdo, acabado de nascer, na sua alcofa e, ainda de casacão de inverno vestido, ao ver que a placenta não se largava e ela estava a esvair-se em sangue, mesmo sem lavar as mãos, agarrou no cordão umbilical com uma, e com a outra, fez umas compressões violentas na barriga da minha esposa, até que lá saiu aquela treta toda...a placenta.
Entretanto, como o miúdo já cá estava fora e muito tranquilo na sua alcofa, talvez esgotado pela força que tinha feito, para minha grande alegria, lá fui levar a Doutora a casa, embora ela me fosse dizendo que não a deixasse dormir, porque naquele estado, já não acordaria mais... e vigiasse o aparecimento da saída de mais sangue, dando-lhe de imediato uma injecção que já estava preparada, mas já era noite e bem noite, e ela nem estaria em condições de ser transportada para nenhum hospital.
Como a parteira já estava exausta, também se foi embora, e ali fiquei sozinho a tentar manter a minha esposa acordada, conversando sobre o miúdo que era lindo e com muito cabelo...mas ela estava muito desejosa, era de deixar-se dormir, talvez para sempre !
O Dr. Vargas Moniz, tinha razão, o miúdo era enorme e pesava 4,180 Kg !


Eu ali estava, mais que atento, quando a ouço dizer qualquer coisa, muito baixinho e perguntei o que ela estaria a dizer, entendendo que ela dizia estar a sentir sair mais sangue, e logo aí eu saltei para uma cómoda onde estava o coaguleno e a seringa, mas aquilo havia que misturar um liquido dum frasco, com um pó existente num outro e chocalhar bem, operação que, embora nunca tivesse feito antes, me pareceu simples, mas eu só tinha experiência de dar injecções nas nádegas, e ali, teria de ser numa perna, e já nem sabendo se devia espetar a agulha, de cima para baixo ou de baixo para cima ou se a direito... mas que atrapalhação, santo Deus !
Felizmente que o miúdo se mantinha a dormir, mas eu estava a estranhar minha mulher sem o querer ver e nem abrir os olhos para me ver ou falar...Estava tão branca, que mais parecia um cadáver...
Uns minutos depois, voltei a aperceber-me de que ela queria dizer qualquer coisa, e logo aproximei o ouvido da sua boca, para ouvir:
Deixa-me morrer...por favor !!!!
Como seria aquilo possível, teria eu ouvido bem ? Mas ela repetiu e aí lhe perguntei:
Mas agora que acabámos de casar e temos um filho lindo... nem penses. Nem penses...
E ainda lhe perguntei: E não tinhas pena de me deixar neste mundo, sozinho, com um filho nos braços ?
Mas ela só respondeu: NÃO !
Eu nem queria acreditar, até porque me sentia imensamente amargurado por me reconhecer como culpado daquele tão longo sofrimento e daquele seu estado de espírito tão estranho para mim...
Ela queria morrer ali mesmo e sem pena nenhuma de tudo e de todos ! Devia estar a sentir-se perto do Céu !
Já NADA a atraía na Terra, absolutamente nada !
Aí senti-me tão culpado que até as lágrimas me saltaram, eu que a amava tanto ...
" Não, de maneira nenhuma", eu a iria deixar "partir" sem fazer todos os meus esforços para a aguentar viva.

Felizmente que a hemorragia havia parado, o miúdo continuava tranquilo, e só podia manter-me falando para não a deixar dormir...e ela sempre calada e de olhos fechados...

Como seria possível uma pessoa pedir, e POR FAVOR, para a deixarem morrer ? E a mim, que tanto amo a vida ? A mim, que há tão poucos anos, tinha estado entre a vida e a morte, mas tinha conseguido sobreviver ?

A tempestade lá fora, até me estava a ajudar, pois havia ruídos por todos os lados na casa...
Eu já estava a ficar esgotado de forças, mas mesmo por cima da roupa da cama, me deitei muito junto dela, agarrando o seu pulso e sentir o seu débil coração que se mantinha batendo, cada vez melhor, com o passar dos minutos e ela despertando muito lentamente...
"Vencemos, Alice, e tenho imenso orgulho em te ver despertar desse terrível pesadelo !"
E ela, finalmente, sorriu para mim, abrindo os olhos e não ouvindo o miúdo chorar, talvez pensando até que ele tivesse morrido, mas eu perguntei-lhe: Queres ver o miúdo? E ela disse SIM !
Com muito jeitinho, para não o acordar, aproximei dela, a sua alcofa e lhe fui dizendo, por graça, mas com convicção: Depois de lhe dares banho, eu vou-lhe cortar este enorme cabelo, que lhe cai sobre os olhinhos... e ela esboçou um agradável sorriso, até porque sabia que eu estaria a falar verdade.
No dia seguinte, muito cedo, apareceu a parteira e como a tempestade já havia acalmado, em todos os sentidos, eu assisti ao seu primeiro banho, vendo tudo muito bem, pois talvez tivesse de ser uma operação que tivesse de fazer depois.
E enquanto a parteira segurava a cabeça do miúdo, eu cortei aquele cabelo a mais, que ele tinha.
E assim, foi o seu primeiro corte de cabelo... já com minha esposa assentada na cama, a sorrir !
Ainda hoje eu fico admirado do poder tremendo de recuperação duma mulher, após tal abalo físico !

Mas aquela tremenda tempestade já havia acabado e tudo estava mais calmo.

Três dias depois, lá iniciámos a viagem de volta para Benavente, a 50 Km de Lisboa e fomos para uma casinha antiga e solitária no meio do campo, em Vale de Estacas.
O quarto de dormir ficava em cima, no primeiro andar, e a cozinha, a sala de jantar e o WC, em baixo.
Um dia, passados uns 6 meses, estava eu a comer o meu pequeno almoço na cama, que sempre foi feito de sopas de café com leite, mas o míudo ali ao meu lado, é que não deixava de protestar... embora tivesse mamado há pouco tempo.
Eu estava a pensar que o leite da mãe talvez não o satisfizesse e lembrei-me de lhe dar uma gotinha do café com leite, usando a ponta da minha colher, que ele adorou e logo me fez sinal de que queria mais, dando estalinhos com a língua, o que fui fazendo durante mais uns minutos, mas a minha esposa que estava a arranjar-se no lado de baixo da casa, é que estranhou o silêncio do miúdo e me gritou a perguntar o que é que eu tinha feito para calar o miúdo, ao que eu respondi que lhe tinha dado umas colheres do meu café com leite...
"Oh homem, tu matas-me o miúdo, pois ele ainda só tem 6 meses... " , e subiu rapidamente ao primeiro andar, verificando como o bebé estava realmente todo contente ! Era verão e estava bastante calor.
Assim, e vendo que não lhe havia feito mal, ele começou a beber leite de vaca enfraquecido e com café, tudo bem docinho, entremeado com mama, para não as deixar encaroçar, mas o que ele queria mesmo, era do pequeno almoço do papá, e passado pouco tempo, até já gostava dumas sopinhas, que engolia com facilidade.

Hoje, passados 55 anos, este bebé que se ficou a chamar Mário Portugal Santos e Leça Faria, tem sido sempre de boa saúde, embora tenha sofrido vários acidentes em desportos de alto risco, com fractura de costelas e tendões arrancados no ligamento do joelho esquerdo, etc. mas quem o vir, e nem souber, nem dará por isso, nos seus 54 anos de idade, visto aqui nesta foto de 1992 , entre a sua mãe e a minha.

Mas depois deste susto tremendo, os outros dois meus filhos, Maria Antonieta e Carlos José, foram nascer no hospital da Santa Casa da Misericórdia de Benavente, e assistidos pelo Dr. Joaquim Cândido Mendes de Almeida, amigo de infância de minha mulher e, graças a Deus, ainda vivo, embora tenha tido há uns anos, um AVC um tanto violento, pelo que se encontra inactivo, embora lúcido.

Infelizmente, um ano depois desta foto, minha esposa veio a falecer nos meus braços, com um malvado cancro de colon.

E assim, já com cada filho para seu lado, todos casados, eu fiquei completamente só, a tentar viver feliz e contando neste blog, as minhas, às vezes tristes recordações duma vida tão cheia de emoções, embora já rondando os 81 anos.

29 comentários:

Anónimo disse...

Embora já rondando os 81 anos como disse, o Mário tem sempre mostrado uma alegria muito grande de viver. Tomara que todos nós pudéssemos chegar à sua idade com essa vida que demonstra ter, com esa enorme lucidez e vontade de partilhar e experimentar coisas novas.
Por isso, não diga que vá talvez ser o derradeiro post. Um dia de cada vez ... e assim se vai caminhando.
Um abraço meu, com muito carinho.
Dulce

Escrito por: Anónimo em 2008/06/01 - 17:29:25

Anónimo disse...

Assustei-me quando li este título pensando que seria um desabafo seu perante uma grande contrariedade. Mas afinal era a lembrança de uma hora de grande angústia que felizmente se resolveu quando o sorriso assomou nos lábios da sua mulher.
O Mário diz que se sente esgotado para escverevr mais coisas. Mas as suas memórias são tão ricas e ainda tão vivas, que se deixar passar um pouco de tempo até sentir outra vez essa energia, vai ver que lhe vão surgir novos temas para publicar neste seu blog fazendo as nossas delícias com a sua maneira tão peculiar de narrar.
E cá estamos todos à espera. Beijinhos

Escrito por: Ana Ramon em 2008/06/02 - 20:38:01

Mário Portugal Leça Faria disse...

Para conhecimento de todos os leitores, publica-se abaixo os 25 comentários publicados no site brasileiro Lima Coelho "http://www.limacoelho.jor.br/vitrine/ler.php?id=1463#comentarios" a propósito deste post "Deixem-me morrer... por favor"

Anónimo disse...

Obrigada Mário! Quantas lições sua crônica encerram...

Comentário Enviado Por: Eliana Moreira
Em: 07/6/2008

Anónimo disse...

Adorei ler sua crônica. Agradeço-lhe compartilhar suas memórias

Comentário Enviado Por: Mariana Mangabeira
Em: 07/6/2008

Anónimo disse...

Mário você é um cronista dos muito bons

Comentário Enviado Por: Nélio José
Em: 05/6/2008

Anónimo disse...

Mário eu fico impressionado com sua memória a cada nova crônica. C omo aprecio lê-las!

Comentário Enviado Por: Marcondes Ferraz
Em: 05/6/2008

Anónimo disse...

Parabéns Mário

Comentário Enviado Por: Ribamar Muniz
Em: 04/6/2008

Anónimo disse...

Oi Mário, você é um exemplo de pessoa que se sente últil ao mun do escrev endo suas memórias. Obrigado

Comentário Enviado Por: Manuel Ferreira
Em: 03/6/2008

Anónimo disse...

Muito bem Mário. Adoro ler tuas crônicas

Comentário Enviado Por: Ludmila Braga
Em: 03/6/2008

Anónimo disse...

OiMário, valeu amigo do coração

Comentário Enviado Por: Pérola Ramos
Em: 03/6/2008

Anónimo disse...

Oi Mário, que memória a sua!

Comentário Enviado Por: Gilda Abreu
Em: 02/6/2008

Anónimo disse...

Mário vc é um mestre da crônica. Parabéns

Comentário Enviado Por: Olavo Silva
Em: 02/6/2008

Anónimo disse...

Blz, Mário! Adorei

Comentário Enviado Por: Malu Carneiro Rodovalho
Em: 02/6/2008

Anónimo disse...

Adorei. Um relato de muito sentimento.

Comentário Enviado Por: Mayra
Em: 02/6/2008

Anónimo disse...

Gostei, como gostei de todas as suas crônicas que li aqui e em seu blog. Eu o admiro muito

Comentário Enviado Por: Adão Pereira
Em: 02/6/2008

Anónimo disse...

Muito triste, mas com momentos alegres. Assim como é a vida de todos nós

Comentário Enviado Por: Rui Carneiro
Em: 02/6/2008

Anónimo disse...

Gostei muito, pois é uma crônica que revela a sensibilidade e a solidariedade de um marido que começa a aprender a ser pai. Achei triste, mas muito bonito o relato

Comentário Enviado Por: Albertina Fialho
Em: 02/6/2008

Anónimo disse...

Blz Mário!

Comentário Enviado Por: Bárbara Heliodora
Em: 02/6/2008

Anónimo disse...

Prezado Mário, como gosto de ler os seus escritos!

Comentário Enviado Por: Jarina Soeiro
Em: 02/6/2008

Anónimo disse...

Obrigado, mais uma vez Mário

Comentário Enviado Por: Charles Lamounier
Em: 02/6/2008

Anónimo disse...

Oi Mário, como gosto de ler suas crônicas!

Comentário Enviado Por: Daniela Vieira Bacelar
Em: 02/6/2008

Anónimo disse...

Mário vc é fabuloso!

Comentário Enviado Por: Paulo Cordeiro
Em: 02/6/2008

Anónimo disse...

Muito bem Mário!

Comentário Enviado Por: Gilberto Noleto
Em: 02/6/2008

Anónimo disse...

Ô Mário, fiquei muito tensa ao ler a sua crônica, só fiquei aliviad depois de ler quando você deu café pro seu miúdo e ele gostou

Comentário Enviado Por: Dilma Moreira
Em: 02/6/2008

Anónimo disse...

Parabéns Mário, por compartilhar comtantos detalhes fatos vividos

Comentário Enviado Por: Talita
Em: 02/6/2008

Anónimo disse...

Olá Mário, fico sempre muito impressionada com as suas memórias e gosto de lê-las

Comentário Enviado Por: Camila Farias
Em: 02/6/2008

Anónimo disse...

Uma crônica que narra fatos difíceis, mas é uma memória muito importante

Comentário Enviado Por: Zuíla Teixeira Rosado
Em: 02/6/2008

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