sexta-feira, 14 de setembro de 2007

MANUEL BARÂO pelo Prof. João Vitalino Martinho




Nota: Pela mão do meu amigo Prof. João Vitalino Martinho, aqui vai mais uma das suas interessantes crónicas sobre o ESPINHEIRO, sua terra natal.









Manuel Barão dos Santos Justo (1926 - 1998 )


O Manuel Justo...recordá-lo acarreta um sofrimento que faz doer a alma e oprime o coração.

Um moço irrequieto e buliçoso...cheio de sonhos...de sorriso aberto...abraçando a vida com entusiasmo, amigo do seu amigo, brincalhão e disponível para ajudar...espalhou simpatia e foi um bem amado da gente do Espinheiro.

Quem não se lembra dele a cantarolar na Ribeira, de balde ao ombro, em direcção ao Açude onde ia fazer as regas encomendadas pela mãe, D. Elvira...nos bailes onde se distinguia pela distinção com que se dirigia às raparigas...no lagar do pai onde participava em todas as operações comandadas pelo mestre, ti Florindo...na vivacidade com que participava nas discussões entre rapazes do seu tempo.

Manuel encarou a vida com um salutar optimismo até que, passados alguns anos, na sua juventude, se apercebeu do erro que cometeu quando se negou a seguir estudos que o libertassem da duvidosa subsistência proveniente da agricultura. O facto de o pai ser possuidor duma das mais abastadas casas do Espinheiro, não o motivou para seguir uma carreira diferente da que, por atavismo, lhe estava destinada, mas a breve trecho se foi apercebendo do endividamento progressivo do pai que equipou o lagar com maquinaria moderna, afogado por juros altíssimos.

As perspectivas, já de si sombrias, agravavam-se com a dificuldade de colocação dos produtos da terra e a desenfreada exploração dos intermediários.

A flutuação dos preços dos produtos e a ausência de incentivos a quem verdadeiramente trabalha a terra, criou-lhe no espírito um sentimento de frustração e de revolta que o levou a abominar as searas, os olivais, os lagares, os gados, as eiras, etc.etc.

Manuel, já casado e com um filho, abalou para França...emigrou.

Tal como os primeiros estudantes do Espinheiro que representaram uma insubmissão ao fatalismo da condição de pobres que lhes determinou uma consciência de cidadania, Manuel entrou no mundo do trabalho francês sem uma especialização que lhe permitisse disputar um lugar compatível com o estatuto que desfrutava na sua terra.

Arranjou emprego numa conhecidíssima fábrica de perfumes parisienses.

Deveras agradado com a descontracção das suas colegas francesas que se divertiam quando, por desconhecimento da língua, Manuel confundia um caixote com umas luvas ou via pás por todos os lados.

Certo é que a gerência não lhe conhecia grande rendimento mas fez dele uma espécie de cartão de visita com que promovia os seus produtos universalizados em todos os locais frequentados por este espinheirense.

E como ? As colegas, com a tolerância das chefias, despejavam-lhe frascos de perfume na cabeça e nos estofos do carro, de modo que se transformou num expositório andante de odores que tresandavam à distância.





Manel Justo, à direita na imagem. Ao seu lado, o autor do escrito.





Quem lhe entrasse no carro, saía de lá comprometido como se tivesse saído dos braços duma coquete, tal era a saturação das essências entranhadas no habitat. Le portugais, como ficou conhecido, na gíria da fábrica, rodeado de certas atenções consequentes do seu ar distinto, quase sem dar por isso, deu à sua vida uma volta de 180º...

Adoptou hábitos e vivências dos meios cosmopolitas franceses de modo que, quando veio passar as vacanças à terra, conduzindo uma viatura desportiva de luxo, descapotável de dois lugares, a família e os amigos mal lhe reconheceram a matriz.

O Manel Justo caprichava em mostrar um grande desafogo por oposição ao desprezo com que foi tratado na sua Pátria. Instava mesmo os amigos a abandonar esta pasmaceira e convidava-os, maliciosamente, a dar uma voltinha para apreciarem o que era um carro.

Eles, ingénuos iam, mas à noite, quando regressavam a casa descuidados, eram recebidos rancorosamente pelas mulheres que os invectivavam:

-Onde é que andaste ? Cheiras a putas...!

Manel Justo resumiu a sua filosofia de vida na intolerância ao fatalismo, como arma de arremesso, e no humor como defesa natural que usou nas situações difíceis em que, por vezes, foi indevidamente interpretado.

Brincalhão, gostava de soltar uma gargalhada sonora comunicando optimismo e ajudando a superar dificuldades, como aconteceu com alguns conterrâneos em França.

Como afirmou bastas vezes, foi emigrante por repúdio às condições de vida que lhe eram impostas e não com o objectivo de amealhar um pecúlio à custa de sangue, suor e lágrimas.

Judiciosamente, defendeu-se de quem criticou o seu estilo de vida, com uma espécie de declaração de voto:

- Eu antes quero viver rico e morrer pobre do que viver pobre e morrer rico.

Recordando os tempos felizes com ele compartilhados no Espinheiro, o autor sublinha a rectidão dos seus actos que bem podem traduzir-se na expressão: amicus certus in re incerta cernitur (amigo certo nas horas incertas).

Repousa em paz no cemitério da sua terra natal.

PAZ À SUA ALMA