quinta-feira, 27 de setembro de 2007

«TI BORNEL » Por Prof. João Martinho





Editor:

Pela mão do meu ilustre amigo Prof. João Vitalino Martinho, segue-se mais um dos seus contos referentes à sua terra Natal, o ESPINHEIRO, em pleno Ribatejo.

Ele sempre lá encontra gente que marcou toda a sua mocidade e que ele tão bem descreve nas suas crónicas. Como sempre, é uma honra poder incluí-lo no ENGENHOCANDO.






Prof. João Vitalino



MANUEL FELIPE BENTO

Ti Bornel

18...? 19...?

De acordo com documentos coevos arquivados na Torre de Tombo, consta que no dia 13 de Agosto do ano de 1527, na cidade de Coimbra, Jorge Fernandez, escrivão da chancelaria da comarca da Estremadura, terminou o registo das cidades, vilas e lugares e dos moradores que havia em cada um deles, por mandato do rei D. João III.

Foi no desempenho deste encargo que o acima referido Jorge Fernandez chegou a Alcanede, fez o seu levantamento e incluiu no termo desta vila, a aldeia do Espinheiro com 11 vizinhos, a qual, posteriormente, andou confundida com outros Espinheiros e Espinheiras espalhados pelo país, por cronistas um tanto distraídos.



Por tradição oral atribui-se aos seus primeiros residentes, a condição de pastores que por aqui se fixaram, mercê da abundância de pasto e águas correntes e a quem, dentro da lógica mais elementar, se lhes atribui o uso do pau para condução dos animais e amparo corporal nas movimentações em terreno acidentado. O pau está na história humana retratado no organograma da evolução do homem em que o homo habilis e o homo erectus aparecem usando tal ferramenta como extensão da mão, na luta com as feras.

Na idade média quando era preciso mobilizar o povo, como última reserva de carácter militar, a arma era o pau, usado muitas vezes sem contenção, como sucedeu com a fuga das hostes castelhanas após a batalha de Aljubarrota, o que levou o Condestável a pedir compaixão pelos vencidos que foram dizimados à paulada, na confusão da retirada.

D. João I mostrando, um dia, grande incerteza na conservação da praça de Ceuta, D.Pedro de Menezes lhe respondeu que com aquele aleo (cajado) que tinha na mão, defenderia a cidade de toda a barbárie.

Rendido à evidência da utilidade e eficiência de arma tão barata como rudimentar, Ti Bornel, serrador de profissão já criança, ensaiou nos primeiros passos num jogo que alternava com a agilidade necessária para o executar. Quando chegou à idade adulta, não havia no Espinheiro, nem nos arredores, opositor capaz de o enfrentar.


Na disputa pela supremacia envolveu-se algumas vezes em luta rija com os conterrâneos.

Conta-se que o Ti Zé Rosa, um dia, provocou-o no sentido de se confrontar com toda a violência para, de uma vez para sempre, ficar definida a superioridade. Ti Zé Rosa, em poderoso ataque, levou o adversário em permanente recuo desde o Rio dos Cantos até ao entroncamento com a Rua Principal, já a cantar vitória, sem sequer se aperceber que Ti Bornel tinha estado permanentemente na defesa. Mas ali mudou o cenário, Bornel passou ao ataque e disse para o adversário:

- Ó Zé escolhe lá a oliveira do Forno Telheiro onde queres ir descansar...!

E o Zé não foi capaz de progredir um só centímetro... sempre a recuar... a recuar... até uma das oliveiras onde terminou a pugna e se definiu de que lado estava a superioridade.

Não se pense que Ti Bornel era um homem de forte compleição física. Antes pelo contrário, dava até a impressão que uma leve aragem era o suficiente para o deitar por terra... e disso se convenceram quatro provocadores duma aldeia vizinha que o meteram no meio deles com a intenção de lhe dar uma grande sova.

Três saíram com a cabeça partida, após alguns minutos. O quarto resistiu até que o Bornel, dando-lhe um toque numa das mãos, obrigou-o a largar o pau.

Perante a incapacidade do adversário, completamente desarmado, Ti Bornel deu por terminado o combate, enquanto o outro resmungava:

-Essa foi de mestre ó mestre !

Dando troco ao vencido, Bornel rematou:

-Esta aprendi-a com o David quando cá veio um gajo de Pataias desafiá-lo. Só que ele, antes de aplicar a receita, partia o pau ao meio e deitava metade fora. Nunca mais o Espinheiro cá tem um jogador como aquele...!

Bornel viveu numa modesta casa situada num minúsculo aglomerado que o povo baptizou de Etiópia e por isso alcunhou-o "Conde Bornel Imperador da Etiópia".

Quando morreu com noventa e muitos anos, foi-lhe prestada uma significativa homenagem que, no Espinheiro, só era merecida por aqueles que ao longo da sua existência, davam provas de honradez e apego ao trabalho.

Nessas horas em que se fina uma vida, costuma o povo, no seu discernir, evocar factos da vida do extinto, como exemplo a seguir. Do Bornel ficou aquela arrancada quando disse que não tinha trabalho a sarrar e por isso ia para férias.

Férias aonde ? indagaram.

A cavar terra que é para onde deviam ir muitos malandros que andam por aí na moinice...!

E na terra ficou para sempre com o rosto voltado ao Céu, como que contemplando as estrelas.