sexta-feira, 15 de junho de 2007

UM CASO PARA PENSAR...

O aparecimento das lâmpadas economizadoras, a gás, veio a despertar-me, assim como a toda a gente, certamente, um certo entusiasmo.

No entanto, o seu preço estava tão elevado, que levou muito tempo até que viesse a comprar uma, por a ter encontrado numa loja dos Chineses, bastante mais barata…


Mas, ao contrário do que estava à espera, pelo menos esta que comprei, não me deixou em nada entusiasmado, porque a sua branco/azulada cor, não me era nada agradável à vista…e assim, foi guardada de lado, durante muito tempo.


Eu já sabia que todas as chamadas Fontes Comutadas, como é a que os fabricantes estão a usar, e tal como todas as fontes actuais e usadas nos computadores, TV , Videotapes, CD, etc. irradiam de forma mais ou menos intensa, a sua frequência de trabalho e que, usando frequências que o ouvido humano não pode ouvir, por estarem além do máximo, que anda pelos 15000 Hz, têm a vantagem de poder usar elementos electrónicos de muito reduzias dimensões.


Mas aqui há pouco tempo, como gosto muito de ler deitado na cama, logo após ao pequeno almoço, ali muito confortavelmente instalado, desde há muitos anos que tenho sido iluminado por uma lâmpada vulgar de 25W, porque a luz chega e até sobra, porque ela está a um palmo da minha cabeça, e fixada às costas da cama, no seu alçado.


Acontece porém, que a vinda do calor, este ano, me começou a desagradar o calor desta lâmpada vulgar de filamento de tungsténio, e pensei que estaria na hora de ir experimentar a lâmpada de gás, de 8W, com aquela luz fria e assim fiz.


Ainda não sei porquê, até porque a véspera tinha sido passada exactamente da mesma forma que todos os outros dias, mas o que é certo é que acordei às duas da madrugada e sem sono nenhum, coisa que me é muito rara.


Assim, acendi novamente a luz e estive a ler uma meia hora, até que a apaguei e voltei a apanhar o fugidio sono..


Mas aqui começou o meu martírio !


De imediato, apareceram pesadelos terríveis e extremamente confusos, tendo a sensação de que estava atacado da doença de Alzheimer, pois já nem sabia o porquê de estar ali em terras tão estranhas, com gente totalmente desconhecida, num ambiente de pobreza extrema, com muita porcaria à minha volta…


Eu tinha a consciência de que me queria dirigir para Lisboa…quando vivo em Benavente… mas quando perguntei a umas pessoas presentes, elas me disseram que estava muito longe de Lisboa e nem transporte para lá tinha…


Passados tantos dias, ainda esses sonhos me estão presentes e sou capaz de os descrever com minúcia, coisa que não me era nada habitual.


Como, no pesadelo, ninguém me conseguia orientar, entrei numa tasca horrenda, onde me dirigi ao taberneiro, pessoa muito magra e de barba por fazer, com cara de drogado … e lhe perguntei se teria um mapa da região, para me poder orientar e ele me disse que sim, pelo que foi buscar um escadote e marinhou a um pequeno sótão cheio de lixo e de lá me trouxe uns papeis tão velhos e cheios de pó, que nada entendia…


Quando saio à porta, vejo água, muita água e perguntei o que era aquilo, ao que me disseram ser o Rio Tejo.


Bom, pensei eu, só tenho de ir por aqui abaixo a pé por entre estes barrancos, túneis e lama, até encontrar algum caminho onde pudesse pedir boleia.


Dos túneis muito escuros, pingavaa água, por onde eu corria, mas não me levavam a sítio algum…aquilo era um inferno !


Finalmente, depois de muita confusão, eu ainda sabia que tinha algum dinheiro na algibeira e ao tentar ir a correr à procura de um carro que vira ao longe, acordei…


Irra, figas diabo…mas que bruto pesadelo e mais surpreendido fiquei ao olhar o relógio, pois eram 10 da manhã, ao contrário das 7 que me é ususal ! Assim, tinha estado 6 horas naquele sofrimento !


Mas que diabo me teria acontecido ?


A única coisa de diferente, em muitos anos, tinha sido o uso da lâmpada e vai de ir estudá-la.


Pego nela e levo-a para o meu pequeno “laboratório”, onde a acendo e aproximo um contador de frequência que logo dispara para cerca dos 33.943 Hz, conforme se pode ver pela imagem que se segue !


Como seria possível tanta potência naquela nota supersónica, que me esteve a “bombardear” o cérebro naquela meia hora , antes de tentar adormecer ???!

Só podia ser daquilo, até porque muita gente sente náuseas, vómitos e dores de cabeça, ao estar na presença de um apito supersónico, como acontece a algumas pessoas, com o apitar dos transformadores de linhas de certos televisores, que funcionam e irradiam à frequência de 15725 Hz.


Felizmente que ninguém encosta a cabeça aos televisores, senão bem poderiam vomitar as tripas, sem saber o porquê e verem-se cheias de dores de cabeça, também sem saberem o porquê…


Mas eu tinha estado com a cabeça a menos de um palmo daquele “gerador” de 33.943Hz …frequência mais ou menos variante entre 30.000 e 40.000Hz, consoante as lâmpadas …


E vai de pensar em experimentar algo mais com aquela lâmpada.


Como disponho de um detector de raios Alfa, Beta e Gama, coloquei-o ao pé durante 24 horas, mas ele não se moveu. Assim, a emissão de raios-x, poderia ser posta de parte, pelo menos para a sensibilidade do instrumento que o fim de escala, só indica 150 mR, sendo R a unidade Roentgen, e é a intensidade de raios-x que uma pessoa apanha ao fazer uma radiografia ao tórax, a uma mão e outros sítios.




Nesse mesmo dia, tendo encontrado na NET, via MSN, o meu colega e amigo, António Pinto, CT1UT, que possui um receptor que pode receber esta frequência e até mais baixas, um ICOM ICR-70, que até tem uma entrada de antena para baixas frequências, LOWBAND, e logo o pus ao corrente do facto e ele, de imediato, ligou o rádio e com um palmo de fio ligado à sua entrada de antena, que tem borne apropriado, colocou o comutador de antena para LOW BAND, e logo verificou um sinal muito forte, de fundo de escala aquela frequência.



Como é óbvio, ficou intrigadíssimo e foi experimentar outras lâmpadas que já tinha em casa e até se lembrando de que sua esposa há vários dias se estava a sentir muito incomodada com imensas dores de cabeça e as já referidas tonturas, náuseas, etc.


A sua esposa até estava a ler e costurar à luz deste tipo de lâmpadas, colocadas a cerca de meio metro da sua cabeça.


De imediato, o colega Pinto foi retirar aquelas lâmpadas e a sua esposa logo começou a sentir-me muito melhorada.


Uns dias depois destas experiência, tive de visita uma senhora de meia idade que se estava a queixar de tremendas dores de cabeça, às tantas da noite e madrugada, com muita agonia, tonturas e vómitos, pesadelos incríveis, e não encontrava explicação para aquilo.


Vai daí eu lhe perguntar se por acaso, ela não estaria a usar uma lâmpada de gás, por perto, ao que ela logo me confirmou e mais, dizia que ficava tão incomodada, que até chegava a voltar ao sono, mas com terríveis sonhos sem pés nem cabeça…e até dormia sem desligar a “malvada” lâmpada…tal era o seu transtorno cerebral !


Deste facto insólito, não se vê qualquer informação , pelo que é muito possível que esteja a haver muita gente a ser “bombardeada” com estas terríveis ondas supersónicas e certamente que nem os médicos saberão do que se trata ainda, por serem lâmpadas que só agora se estão a tornar populares, e ao que parece, para ficarem.


Na realidade, tecnicamente, os 220Vac da rede, entram nelas e põem a oscilar um gerador miniatura, para que se consiga obter a tensão necessária à ignição das lâmpadas de gás. É exactamente este oscilador gerador que irradia aquela frequência supersónica que o nosso ouvido não pode ouvir, mas o nosso cérebro, parece que sente, e bem !.


Uma Fonte de alimentação de computador, sem a tampa, também mostra uma frequência supersónica e que se mostrou ser 31.625 Hz. Mas felizmente, para os utentes dos computadores, como é fechada e completamente blindada, não irradia nada.



O que se acabou de descrever, não quer dizer que a proximidade destas lâmpadas, em qualquer outra parte do nosso corpo, não possa melhorar ou até curar outros padecimentos, como ficou descrito no artigo " A magia das ondas de rádio" , publicado em Setembro de 2006, até porque só atingindo a temperatura de morno e ser muito barato de adquirir, não custa nada experimentar.


Mas fugir sim, de a aplicar na cabeça, à hora de dormir.

sábado, 9 de junho de 2007

ANTÓNIO GARGOLA por Prof. João Martinho

Mais uma vez, tenho o prazer de publicar mais um artigo do já conhecido Prof. Vitalino Martinho, e mais uma vez também, dedicando os seus agradáveis comentários, a uma pessoa da sua terra natal, o Espinehiro, no Ribatejo. A sua forma muito peculiar de descrever as pessoas, encanta qualquer leitor, mesmo dos mais exigentes.

António do Vale Soares
1902-1964

Conhecido na gíria popular por António Gargola, este circunspecto espinheirense parece espelhar no rosto um passado em que a felicidade não cavou traços indicativos duma vivência descontraída e feliz.


A boca forçosamente cerrada traduz a introversão de quem está indisponível para diálogos com um mundo desafecto e o cenho fechado e sombrio parece traduzir um ar de desconfiança e expectativa , em permanente atitude de autodefesa .


De facto, pelo retrato do António adivinha-se o drama familiar em que esteve envolvido, quando a mãe, Ti Rosa, faleceu com 35 anos, deixando 5 filhos indefesos a quem não foi possível prodigalizar os carinhos que fazem a alegria e a felicidade das crianças.


António emerge ,assim para a vida, sem os beijos e as carícias maternais tão importantes para o desenvolvimento afectivo e formação do carácter que definem a linha que norteia a existência e justifica os comportamentos necessários para uma boa integração social.


Diz-se que , quando a vida é madrasta, o enteado move-se na indecisão, sempre de pé atrás, numa recusa constante de se ver confrontado com surpresas desagradáveis.


São estas pessoas desvalidas e despeitadas que reagem perante os poderes instituídos contra os quais estão em permanente contradição por sentirem ter sido abandonadas nos transes mais difíceis da sua existência.



António confirma a proposição com episódios de constante resistência às leis instituídas. Sem ter qualquer conhecimento do direito romano, para ele a caça era mesmo res nullius, isto é, não era de ninguém , por isso usando furões e armadilhas, assessorado pelo Manuel Caldas, dizimava coelhos e lebres em profusão.


A G.N.R de Alcanena informada e, por certo pressionada , moveu perseguição tenaz ao infractor. Várias vezes veio ao Espinheiro mas sem resultado porque o ruído dum motor ou a vista duma farda desencadeava tal alarme que todas as portas se fechavam e as ruas ficavam desertas. Sempre o António Gargola se escapava como enguia escorregadia entre os dedos.


Perante o insucesso, a Guarda não desistiu e pôs em acção uma estratégia maduramente pensada. Ao invés de entrar no Espinheiro pela estrada que normalmente utilizava , vinda de Alcanena , iria pelo lado oposto, na convicção de que entrando de surpresa no Espinheiro teria êxito na captura.. Assim, passou pelos Amiais de Cima , por Abrã e à saída desta localidade ,no sentido que levava ,encontrou um homem com uma volumosa saca às costas , levando pela mão uma criança . Estabeleceu-se o diálogo:


- Oiça lá …você vai para o Espinheiro ? Aproveite que nós oferecemos uma boleia…


-Agradeço muito…..mais pela menina que por mim…o raio das batatas pesam como chumbo….!


Acomodados ,prosseguiram a viagem. Um dos guardas , ao passarem na Várzea observou :


-…Vocês têm aqui uma bela zona de caça….


- Pois temos mas en nas (quando) as putas sendo muitas tiram o ganho umas às outras….

- O que é que você quer dizer com isso ?

-Atão, quero dezer que há muita gente a dar cabo dela e nã calha a cada cão seu osso….


- Você conhece lá um gajo chamado Atoino Gargola ? volve o guarda.


-Se conheço….Esse malandro é dos piores…Só ele tem alguns cinco furões…!


- Você é capaz de nos ensinar onde é que ele mora ?


- Sim senhor…é mesmo ao pé de mim…


Passados minutos estavam subindo uma rampa, já dentro da povoação, quando o Gargola, em voz baixa, ordenou que parassem:


-O gajo mora naquela casa ao lado do velho que tá sentado naquela soleira. Deixem-me aqui pra ele não desconfiar de mim….


E sumiu no labirinto aldeão com as batatas e a miúda


Vai a patrulha junto do ancião e pergunta:


- O senhor, por acaso, viu por aqui um gajo chamado António Gargola ?


- Vi sim senhor, é aquele que ali em baixo se apeou do vosso jeep…


Entreolharam-se os guardas e num sentimento de grande frustração comentaram entre si : - e nós que tivemos o pássaro na mão…!


Deste episódio testemunhado pela filha Silvina que era então a criança acompanhante, ressalta a argúcia , a calma , a inteligência e o calculismo com que o António resolveu a situação, nunca se deixando apanhar até que um veículo o matou em Santarém, selando a sua vida com um epílogo triste e imerecido .


A sua voz grave e sonora extinguiu-se, a coragem com que enfrentou os revezes e a verticalidade com que defendeu os seus princípios pela força física e pela perspicácia, contra o isolamento e o ostracismo , foram os ingredientes com que justificou a máxima de 2000 anos: “ INOPI NULLUS AMICUS” ( o pobre não tem amigos ) .Nem parente, pode o leitor acrescentar….

segunda-feira, 28 de maio de 2007

O MILAGRE DO « Snoopy »

A história verídica que se segue, foi-me descrita por um amigo que muito admiro e conservo há mais de 40 anos, Amilcar Carlos, um apaixonado pelas ciências, pela música e pelos animais. Quando ainda na Escola Primária e, durante alguns anos, teve vários e complexos problemas respiratórios, mas tudo conseguiu superar, embora ainda hoje considere ter havido uma certa "magia" na sua cura...

Ele sempre viveu no Algarve, em Faro e vim encontrá-lo, como radioamador, com indicativo CT1TO, em 1968. Desde aí, nunca mais nos separámos e sempre fomos bons amigos, embora nem sempre estejamos de acordo nos assuntos versados.

O Editor : Mário Faria (CT1DT) e-mail:
ct1dt@sapo.pt

Amilcar Cerina Padesca Carlos, hoje com 60 anos.

Aqui vai o seu admirável escrito, transbordando de amor pelo seu cãozinho.

Isto aconteceu há uns 5 anos.

Uma tarde, após chegar da praia e já em casa, o cão muito encalorado dirigiu-se logo para a cozinha onde tinha o bebedor com água; notei então que o bichinho estava numa aflição e há mais de 5 minutos a tentar beber água e não o conseguia. Toda a noite foi um desassossego com ele a tentar beber e nem com a nossa ajuda conseguia.

Ao fim do 3º dia e a notar que ele estava a ficar muito magro e debilitado, verifiquei que ele não conseguia fechar o maxilar nem deglutir, portanto, nem líquidos nem alimentos.



"SNOOPY" o meu adorado cão.

Fomos ao veterinário e após radiografias, análises e mais estudos veio o veredicto: inflamação nos trigémeos. Normalmente após a cura o nervo fica afectado e não volta a comandar o maxilar; portanto na opinião dele o melhor seria abater o animal porque iria sofrer bastante e não havia cura.

Ele estava com 2 ou 3 anos e nós já o adorávamos; viemos para casa muito desanimados e nessa noite dei por mim abraçado à Paula ambos a chorar com tão más perspectivas.

Tomámos a resolução de o internar num hospital veterinário e o alimentar a soro enquanto não decidíamos o que fazer (a Paula buscava incessantemente na Internet mais informação acerca da doença dele) .... A veterinária que o acolheu era uma moça nova muito linda e simpática e fiquei com muito boa impressão dela e pedi-lhe para fazer tudo para salvar o animal.

Todas os dias de manhã e à tarde,(nas horas permitidas das visitas),íamos buscá-lo para o levar a passear num campo relvado que ele muito adorava e estava habituado e, lá andava eu com um frasco de soro na mão para o alimentar pelo tubo, e ele a andar com dificuldade pelos caminhos que dantes o fazia em alegre correria e sempre aos saltos por cima das ervas e flores para não as machucar, coisa que as pessoas sempre admiravam.

Aliás ele sempre foi o "ai Jesus" de quem o via pois além de bonito mais parece um borreguinho saltitão e na praia a perseguir as motas de água e os windsurfs é sempre filmado pelos turistas e ainda hoje o é. Curiosamente há tempos, num monte alentejano um pastor queria trocá-lo por dois borreguinhos; « Nem por todo o rebanho», disse-lhe eu ...

Bem, para ajudar a veterinária que fazia por ele o que podia, fui à net pesquisar a maleita e então recebi um feed-back duma universidade de S. Paulo que entreguei à médica e avançamos com o tratamento.

Isto durou cerca de 1 mês; depois de acabado o tratamento teve alta e veio para casa entubado e alimentávamo-lo com uma espécie de papa muita liquida com uma seringa, através do tubo cosido no focinho; ainda hoje tem as marcas dos pontos.

Um dia, talvez depois de cerca de 3 meses deste tratamento, e já sem esperanças de recuperação, ao visitar uma senhora amiga, nova, angolana e muito bonita, que lhe passou uma mão sobre o corpo várias vezes e sempre, ao que parecia, rezando uma lenga-lenga estranha, às tantas colocou no chão o Snoopy e, enquanto conversávamos, na sala ao lado, ouvi um barulho e fui espreitar; e lá estava ele todo em esforço e a tentar comer a comida dos gatos dela...esticava-se todo e muito furioso por não poder mastigar... então reparei que ele, naquele preciso momento, começou a beber a água do recipiente dos gatos da senhora e a comer furiosamente a ração deles...

Era difícil de calcular a nossa alegria... Chegados a casa, ele atirou-se logo para o leite, água e ração que lhe deitei no comedor e sofregamente tudo comeu !

Peguei nele e todo contente levei-o à clínica, onde a tal linda veterinária lhe retirou o tubo e fizemos uma festa pela cura; ela confessou-me que nunca acreditou muito na cura pois normalmente isto é irreversível e tem de se abater os animais.

A tal senhora, onde se deu o "milagre" dele começar a comer, está convencida de ter sido mesmo um milagre pois ela estava a rezar por ele para que se curasse e, naquele preciso momento!

Sempre que recordo o episódio, fico com os cabelos em pé....

Bem se pode calcular a nossa alegria e a partir daí, talvez agradecido, ele segue-me como uma sombra por onde quer que eu esteja (por vezes e, quando passamos junto à clínica agarra-se a mim com as patinhas e todo ele treme como varas verdes) mas tem sido um companheirão o que por vezes até é demais e faz-me transtorno, especialmente quando vou a sítios onde ele não pode entrar, por causa das novas "leis" de agora, tão restritivas para os animais...

sexta-feira, 25 de maio de 2007

E AS DORES FORAM-SE EM 15 MINUTOS

" De médico e de louco, todos temos um pouco" (II)

Estávamos em 1970, quando trouxemos para a nossa companhia, uma avó da minha esposa, a D. Rosa, porque estava sozinha e muito aflita com dores no centro das costas e já há muito tempo.

O seu médico, Dr. Alves Ventura, já a conhecia desde há mais de 30 anos e sabia que os analgésicos, lhe davam cabo do estômago e, por isso, não lhe podia fazer mais nada. E, pior, como sabia que ela tinha bons pulmões e coração, iria ter sempre, muito tempo de dores para aturar...

Aquilo era demais para mim, ver a pobre velhota de 87 anos, rebolar-se com dores e em todas as posições !

Esta D.Rosa, já trazia com ela e desde há muitos anos, mais de 30, um grande padecimento de violentas dores de cabeça e imensa prisão de ventre, e o seu médico só lhe dava analgésicos.

Um dia, um seu sobrinho, que estava no fim do seu curso de medicina, o Dr. José Isidro dos Santos, numa visita de cortesia que lhe fez e vendo-a assim tão aflita, resolveu pô-la a café com leite e pão integral, durante uns dias, pensando que poderia haver rejeição às carnes e peixes, aos assados e refogados, etc.

Só que a boa senhora, sentindo-se muito aliviada dos seus padecimentos, nunca mais se alimentou de outra comida, a não ser alguma fruta, e sopa, e, para toda a sua longa vida... embora sob protestos do seu sobrinho José, que sempre a informava de que deveria alimentar-se de outras comidas, o que nunca conseguiu...

Um dia, de contacto via rádio, com um velho médico do Cartaxo, Dr. Fragoso de Almeida, que tinha o indicativo de CT1PK, como radioamador, de quem era muito amigo, perguntei-lhe se as ondas de rádio não poderiam aliviar a velhota das suas dores, mas ele me disse que, com aquela avançada idade, ela deveria estar cheia de "bicos de papagaio" por toda a coluna, mas se não melhorassem, também não lhe faria mal.

Como a minha vida sempre foi dedicada à electrónica, lá me resolvi construir um pequeno gerador de ondas de rádio e fui, mais a minha mulher, arrancar a velhota da cama, onde ela se encontrava toda encolhida e a colocámos numa cama que tínhamos no outro extremo da casa, à laia de marquesa.

A minha ideia, era fazer uma "coisa" que ligada ao gerador, obrigasse o corpo da velhota a "chupar" aquelas ondas, como se tratasse dum "mata-borrão". Ou seja; o corpo dela, deveria fazer parte do gerador, pelo menos no sítio onde mais lhe doía. Eu já havia lido muitas coisas sobre a fisioterapia por Ondas Curtas, em obras de 1939 e 1953, e o assunto muito me aliciava.

Ela se queixava do meio das costas e realmente lá tinha um inchaço com mais de 15 centímetros de extensão, que lhe apanhava várias vértebras e que muito lhe doía, ao tocar-se. Por isso, nem se podia assentar em lado algum, com as costas encostadas, nem mesmo sobre almofadas.... Aquilo era demais !

Assim, coloquei-lhe a "coisa", uma placa especial, por mim desenhada e construída, que mais parecia um livro de cheques, sobre a zona dolorosa e observando se o corpo estaria a "absorver" bem aquelas ondas geradas, e recomendei à senhora, que só deveria sentir uma ligeira temperatura, o que veio a acontecer uns minutos depois. Antes que aquecesse demais, diminuí, de imediato, a potência para cerca de 10 Watts.

No fim de 15 minutos, retirei a "placa" e, quando íamos a pegar a velhota, para a voltar a levar ao colo, para o seu quarto, ela sacudiu-nos as mãos e sem necessitar de qualquer ajuda, assentou-se na cama, levantou-se direita e com grande sorriso estampado na sua enrugada face, disse, que só podia ser milagre, pois as dores tinham desaparecido !

Olhei, estupefacto, para minha mulher que também não conseguia entender o que se estava a passar e lá vimos a velhota a ir por seu pé, pelo corredor fora, indo-se assentar num cadeirão do seu quarto, pegando numa renda e começando logo a trabalhá-la, enquanto continuava a dizer baixinho, "isto só pode ser milagre, só milagre !" .

"Agora sim..." dizia ela, "até já me posso encostar sem dor alguma "... e assim ficou todo o dia.

Aquilo era demais para o meu entendimento e no fim do dia, voltei a contactar o médico, pela rádio, contando-lhe o acontecido, mas que eu pensava ser "fita" da senhora, talvez por se sentir mais acompanhada e acariciada.

Aí, o Dr. Fragoso logo me ensinou que ninguém se queixa, sem razão e que ela tinha reagido muito bem àquela sessão de ondas de rádio, pelo que estava de parabéns.

No dia seguinte, fui convidar a idosa senhora, para a continuação do tratamento, a que ela logo se propôs, mas logo acrescentando que se ficasse assim como estava, já estava muito feliz e, mesmo sem ajuda alguma lá se veio deitar, sozinha, na marquesa para nova sessão.

Logo de imediato, constatei que não havia vestígios do inchaço que ela tinha na véspera, e comprimindo com um dedo, todas as vértebras da cabeça à zona sacro-iliaca, a velhota não acusava dor alguma, mas mesmo assim, repeti a exposição às ondas de rádio e por ali ficou, pois nunca mais necessitou de novas sessões, só vindo a falecer 15 anos depois, já com 95 anos.

Lembrei-me agora desta história, por ter lido nas Selecções do Reader's Digest de Junho deste ano de 2007, um artigo muito interessante sobre o ataque à dor, intitulado "Porquê têm eles de sofrer ?" e onde pude constatar que modernamente, se estão a usar em Portugal, as Ondas de Radio para tratamento, pelas mãos do Dr. Alexandre Teixeira, na sua clínica privada.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

UM ENFERMEIRO em miniatura


Episódio "1"

A maravilhosa Lagoa das Sete Cidades, na ilha de S.Miguel, nos Açores, poderá parecer, a quem nunca lá esteve, de que será um charco rodeado de montanhas, mas observando bem esta foto, logo se pode constatar pelo casario à esquerda, de que tem uma dimensão enormíssima, de quilómetros quadrados, e se trata dum enorme vulcão extinto há centenas de anos ! Como a água das chuvas, não tinham por onde sair, assim se formou e enorme e lindissima lagoa.

Quando eu era miúdo, e por morar a uns quilómetros de distância, fui lá várias vezes e em todas elas, ao chegar-se ao cume das montanhas, sempre me impressionei com a extraordinária visão daquele Paraíso lá em baixo a mais de 300 metros de profundidade !

Mas em 1936, quando eu ainda andava na Escola Primária, todas as vezes que chovia demasiado, o nível da lagoa subia de tal forma, que imensas casas ficavam submersas. Foi nesta altura, que o Governo Português, resolveu lá fazer um túnel de descarga, com várias centenas de metros de comprimento, fazendo a sua saída na falésia Oeste, perto da freguesia dos Mosteiros, freguesia esta muito dedicada à pesca e que meu avô tinha de visitar todas as semanas para assistência médica.

Assim, o escoamento da lagoa, passou a dar-se para o Oceano Atlântico, umas centenas de metros mais abaixo.

Julgo que este túnel, deve ter sido o primeiro efectuado em S.Miguel, e conforme se ia escavando o seu interior, alguns operários se faziam transportar por vagonetas assentes numa minúscula linha férrea que se ia montando no decorrer das perfurações.

Aquilo era um trabalho violento, por ser rocha vulcânica, muito dura e onde se gastaram montões de explosivos, mas se bem me lembro, só houve poucos acidentes graves e eu, que tinha 10 anos, acompanhei meu avô, médico, que vivia na freguesia dos Ginetes, e se chamava Carlos Bettencourt Leça, a ver os acidentados.

Um dia, um dos operários metidos numa destas vagonetes, a caminho do fundo do túnel, esqueceu-se de tirar uma mão do bordo que ia à frente, e foi ficar com ela completamente esborrachada, de encontro a uma vagoneta que estava parada e se estava a carregar.

Eu estava em casa, nos Ginetes e como sempre me senti muito atraído pela medicina e nada me metia confusão, nem nojo nem repulsa, fui chamado por meu avô, que nunca teve enfermeiro, para o ajudar a decepar e laquear as artérias e veias do pulso, antes que aquilo gangrenasse...

Eu adorava a companhia daquele velho e era o único dos seus 7 netos, que andava sempre por perto dele, tentando ajudar no que fosse preciso, e ele aproveitava este meu feitio e curiosidade, sempre que havia necessidade, afagando-me, sorridente, o meu encaracolado cabelo, no fim dos trabalhos de enfermagem. Talvez estivesse a pensar que mais tarde, eu também poderia vir a ser médico, o que não veio a acontecer por falta de condições financeiras, mas o amor e curiosidade pela medicina, me têm acompanhado pela vida fora, e assim continua, aos 80 anos.

Naquela época, as pessoas atingidas por problemas extremamente graves, eram transportados deitadas, numa carroça, como fardos de palha, algumas com as pernas penduradas de fora, para o Hospital da cidade de Ponta Delgada, porque não havia ambulâncias, o que muito amargurava meu avô, por saber que alguns deles chegariam mortos à cidade, e a única coisa que podia fazer, era injectar-lhes fortes analgésicos, para minorar o seu sofrimento, durante as viagens.

Aquele operário da Lagoa das Sete Cidades, podia, com a minha ajuda, ser operado nos Ginetes e assim aconteceu, como enfermeiro miniatura.

Depois das injecções de analgésico à volta do pulso, começou a operação da separação dos ossos esmagados e da sutura das artérias que não paravam de fazer jorrar sangue para cima de nós dois, embora eu tentasse enxugar com algodão, mas passada uma meia hora, já estava a mão separada do corpo, e deixada cair num balde que estava por baixo, coisa que muito arrepiou e, por isso, nunca mais esqueci... Era uma horrível mão cadavérica !

Depois de muita água oxigenada e tintura de iodo, o coto foi envolvido em gaze e ligadura, e o operário lá se foi embora, com a cara mais amargurada deste mundo...mas compreendendo que se não fosse decepada a mão, a gangrena surgiria e teria sido bem pior. Pelo menos, já ia sem as terríveis dores...

Mas o túnel das Sete Cidades, que agora é um ponto crucial de visita para todos os turistas que visitam a Lagoa, teve mais alguns tristes episódios.

É depois desta pequena ponte, que se encontra a entrada do tùnel referido e que se encontra repleto de florida e aromática vegetação, aliás, como é toda a ilha de S.Miguel.

Entretanto, com a abertura do túnel, nunca mais houve cheias devastadoras na Lagoa e a freguesia aumentou consideravelmente, com milhares de casas de campo das pessoas mais endinheiradas de S.Miguel e até estrangeiros que se vergam perante tanta beleza da Natureza, além dos açorianos que passaram a lá viver !

Actualmente já é muito fácil viajar dentro da ilha e o acesso à Lagoa das Sete Cidades, foi muita facilitada, em especial devido ao interesse do açoriano Alberto dos Reis Leça, Vereador da Câmaa Municipal de Ponta Delagada, por acaso meu primo direito, que sempre lá viveu e se tem destacado na melhoria de todos os acessos a esta região Oeste da ilha de S.Miguel.

Alberto dos Reis Leça - 2006