terça-feira, 24 de julho de 2007

E FUI CONVIDADO PARA SER PADRE...


Estava eu em 1949, internando num Sanatório, mas já em vias de cura, quando um grande amigo que também lá foi parar por esta altura, doente, de nome Fernando Gomes da Costa e que era mais ou menos da minha idade. Ele era duma família muito respeitada na Anadia, os "Irmãos Unidos" que forneciam Champanhe para todo o lado e tinham enormes adegas recheadas de pipas de belos vinhos e espumantes. Assim, quando já estávamos ambos benzinho, ele me convidou para ir fazer umas férias em sua casa e assim eu fui conhecer a sua excelente e simpática família e conhecer a sua terra, a Anadia.

Aquilo era realmente muito bonito e ele, sabendo que eu nunca tinha ido de férias a lado algum, presenteou-me com viagens de passeio a todas as zonas turísticas daquela fabulosa zona, com as suas termas, o palácio do Buçaco, com os seus lindíssmos jardins, as Termas, eu sei lá que mais, além de Leitão da Bairrada e tudo muito bem regado com os belos vinhos da região.

No Caramulo, ele havia construído um minúsculo emissor com as bobines enroladas em dois frascos de Estreptomicina, e lá íamos conversando muitos horas sobre a electrónica que nos estava a apaixonar, embora clandestinamente a usar o extremo das Ondas médias.

Muitos anos mais tarde, vim a saber que ele estava como Engenheiro Director da Estação de televisão da RTP, do Trevim, onde se manteve até atingir a sua reforma. Que belo amigo eu havia de ter, e como lhe estou grato pelo carinho que me dispensou e muito em especial a sua simpática mãe e pai !

Mas certo dia, na Anadia, ele foi convidado para assistir a um casamento de pessoa amiga, e desejou levar-me, embora sabendo que eu não conheceria ninguém da festa e talvez fosse uma estopada, mas mesmo assim, eu lá fui, até porque não tinha outra escolha...

Quando chegou a boda, a malta entrou toda de rompante pela enorme sala e eu fui ficando para trás, a ver se no fim, ainda haveria algum lugar para me assentar, mas fiquei radiante ao ver que na ponta dum "T", estava um padre muito novo, e muito simpático, talvez com mais uns 4 ou 5 anos do que eu, e até tinha assistido ao casamento, e tinha lugar vago a seu lado.

"Ora aqui estou eu nas minhas 7 quintas ", pensei eu, porque sempre me havia entendido com os padres que sempre me haviam parecido pessoas respeitáveis, boas conversadoras, bons ouvintes, bons faladores, inteligentes e até pacientes, mesmo que em qualquer altura da conversa, eu pudesse levar algum sermãozinho...

Mas aquilo não podia ser melhor ! A pouco e pouco, ele se interessou pela minha vida e veio a saber que eu estava num sanatório, embora já sem perigo de contágio e a conversa se animou imenso ! Nunca mais prestámos qualquer atenção ao barulho e altas conversas que se estavam a ouvir pela sala e ali estávamos muito entretidos os dois, como bons amigos de há muitos anos.

Foi por esta altura, no meio duma cantoria que encheu a sala, que me lembrei de meu pai, com quem talvez eu me parecesse e que, quando eu tinha 10 anos, me fazia cantar só para ele...aquela linda canção de Coimbra, chamada SAMARITANA, muito em voga naquela época, e que muitas vezes tive de cantar, para fazer as pausas necessárias e prolongadas, até que ele ficasse satisfeito. Eu sabia lá quem eram as Samaritanas, música muito admirada na época e cantada magistralmente por um jovem Dr. de Coimbra, Edmundo Bettencourt.

Lá em nossa casa, nos Ginetes, em S.Miguel, Açores, eu tinha 10 anos, mas todos diziam que tinha uma voz muita afinadinha... Só que, quando meu pai me pedia para eu cantar a Samaritana, toda a minha família abalava, sem eu entender o porquê... mas bastava-me cantar para meu exigente pai, já ficava satisfeito.




E a letra era assim:


Dos amores do redentor

não reza a história sagrada

mas diz uma lenda encantada

que o bom Jesus sofreu de amor.

Sofreu consigo e calou

sua paixão divinal

assim como qualquer mortal

um dia de amor palpitou.

Samaritana plebeia de Sical

Alguém espreitando te viu Jesus beijar

De tarde quando foste encontrá-lo só

Morto de sede junto à fonte de Jacob.

E tu risonha acolheste

o beijo que te encantou

Serena, empalidesceste

e Jusus Cristo corou.

Corou por ver quanta luz

irradiava da tua fronte

quando disseste ó bom Jesus

'Que bem eu fiz, Senhor, em vir à fonte'


Só muito mais tarde é que vim a prestar atenção à letra e entendi o porquê da minha mãe e avó, profundamente religiosas, fugirem do pé de mim, lá para bem longe, e levando com elas as minhas irmãs, também muito religiosas, para que ninguém conseguisse entender a letra da canção...

Na verdade, eu nunca havia sido muito católico, tal como meu pai, e até embirrava bastante com os enterros e com tudo quanto falasse de mortos. Para mim, só a vida contava e a amava desesperadamente.

Também doente, nessa época, no sanatório onde tive de estar 5 anos, o Sanatório Central, havia um médico muito novo e que tocava maravilhosamente guitarras de Coimbra, e se chamava ( e chama, se ainda estiver vivo) Amaro da Silva Rosa, que eu tentava acompanhar à viola, mesmo no quarto do sanatório, onde se reuniam vários doentes, ao serão. Eu era o mais novo. Outros eram médicos, pintores, caixeiros viajantes, funcionários bancários, técnicos dos CTT, etc. Era uma claque de malta muito vivida, galhofeira e de trato muito fino.

Mas a certa altura do referido casamento, no meio dumas garfadas de saboroso leitão assado e belas bebidas, ainda disse ao Sr.Prior que não entendia aquela história dos jejuns e de não se poder comer carne à sextas feiras, e dos pecados mortais, e da bula,...mas ele ouviu sempre com um sorriso estampado no rosto. O padre era mesmo simpático ! Tenho pena de já não me lembrar do seu nome...que excelente pessoa !

E seguia eu com as minhas dúvidas quanto às confissões e aos Padre-Nossos, e aos castigos divinos, e ao Inferno e ao Céu e aos pecados mortais, etc. quando a certa altura ele me pergunta:

"Porque não vem estudar para padre ? "

Fiquei um tanto atónito, especialmente por ter estado a dizer que não acreditava em muitas coisas da religião e até estar do contra, que desejava fazer da minha vida muita coisa científica, casar, etc.

Aí, ele me disse: "Pois como padre, poderá ter isso tudo, à excepção de casar e ter filhos ".

"Tá a ver, Sr. padre", respondi eu de imediato: " Eu sinto imensa necessidade de liberdade e vivo sonhando em um dia ser casado e ter os meus filhos, para os ajudar a entender a vida e a procurarem saber os porquês de tudo o que nos rodeia ", respondi eu, e ainda acrescentando: "Mas mesmo assim, com tantas dúvidas quanto a tantos dogmas, ainda continua a convidar-me para estudar teologia ? Porquê ? ".

Aí o meu simpático companheiro, parou uns segundos enquanto tentava engolir mais um pedaço de leitão, talvez ainda mal triturado...e seguido dum golo de belo vinho, e respondeu-me:

"Pois é especialmente por o ter ouvido e saber o que pensa da religião, que lhe garanto, daria um bom padre, porque sabe pensar e exprimir-se com facilidade "...

Passados estes 58 anos, ainda penso naquele simpático padre que me disseram depois, que era Dr. em Teologia e Director dum Seminário em Leiria, se bem me lembro. Como eu gostaria de me voltar a encontrar com ele e podermos continuar aquela boa conversa na boda de Anadia... E oxalá que ainda seja vivo, embora certamente com alguns 85 ou 86 anos. Que Deus o proteja, assim como me tem protegido ! Mas se já faleceu, como eu já estou próximo do mesmo, talvez nos venhamos a encontrar um dia e continuar com as minhas caturrices... e ele sorridente, a ouvir-me...

terça-feira, 17 de julho de 2007

E A PIDE BATEU-ME Á PORTA...


Era um belo dia de verão de 1960...

No meu minúsculo quintal cimentado, eu havia deixado um pequeno canteiro numa esquina, onde havia plantado um caroço de pessegueiro que muito me havia agradado e com o decorrer de poucos anos, havia nascido um lindo pessegueiro que logo, ainda miniatura, se começou a encher de lindos pêssegos e de tal forma, que o seu peso fazia vergar os seus frágeis ramos até que os imensos frutos tocavam no chão !

Aquilo até era lindo de ver !

Estava eu a deliciar-me com alguns desses frutos amarelos, doces, aromáticos e sumarentos, quando minha esposa me aparece, com ar muito preocupado, dizendo que estavam à porta uns senhores da PIDE a querem falar-me...

Naquela época, falar-se de PIDE, assustava qualquer um, mesmo que um pacato cidadão.

Estranhei bastante essa visita, até porque sendo radio-amador, só eram concedidas licenças a quem não tivesse cadastro politico "sujo" e mais, como já estava empregado na Radio Europa Livre, RARET, só lá entrava quem não tivesse tido problemas políticos.

Assim, embora curioso, mas um tanto contrafeito, lá fui à porta e encontro 4 rapazes, mais ou menos da minha idade, 47 anos, em que um me mostra o seu cartão da PIDE, com um sorriso amarelo estampado no rosto... e me diz que havia corrido Benavente naquele domingo de festa da terra, à procura de quem lhes pudesse reparar o carro, um VW carocha, que tinha uma avaria grave e lhes tinham informado que em Benavente e, num Domingo, só havia uma pessoa capas de tentar dar-lhes uma ajuda e, essa pessoa seria eu...

"Isto é que vai uma açorda..." , pensei eu, ainda com os restos dum pêssego na mão, toda besuntada....

Eu era muito conhecido na terra e muita gente sabia que eu estava sempre metido não só em questões electrónicas, mas também eléctricas e mecânicas, com antenas em cima do telhado e outras mecânicas estranhas...

Quem já viu um VW Carocha, sabe perfeitamente, que tem o motor atrás e a correia de ventilação e carga de bateria, está logo ali à vista.

Aberto o compartimento traseiro, onde se encontrava o motor, logo verifiquei que se tinha partido o tambor da correia de arrefecimento do motor e carga da bateria. Como o motor tinha vindo a trabalhar sem arrefecimento algum..até dava estalos e cheirava muito a quente... deitando fumo por todos os lados ! Estava ali uma boa açorda....

Aquilo me pareceu realmente muito complicado, pois o ideal seria tirar o motor fora e colocar um novo tambor, coisa que eu não poderia fazer sozinho, nem obter o material necessário ...mas pensei que sendo um trabalho muito complicado para mim, seria preferível tentar soldar o tambor, até porque tinha construído já há tempos, uma máquina de soldadura eléctrica e convidei-os a empurrarem o carro para as traseiras da casa, onde eu tinha estado minutos antes, a saborear uns belos pêssegos, o que eles logo fizeram e onde eu poderia ligar a máquina da soldadura mais facilmente.

Havia que centrar o tambor exactamente no sitio, o que foi facilitado por ele se ter partido perto da porca de cambota e lá deixado uma rebarba, ali mesmo à mão. Assim, só poderia ser ali naquela posição e vai de pingar aqui, depois ali, mais pancadinha dum lado, mais pancadinha do outro, para a manter o mais desempenada possível e lá fui soldando o melhor possível o tambor da correia, sempre com cuidado para que o motor não se incendiasse com as faíscas da soldadura... para o que havia arranjado uns trapos encharcados em água fria, para tapar o carburador e tubagem de combustível.

Enquanto estava a fazer aquele trabalho, um deles, vendo tantos pêssegos bem maduros e aromáticos, ali mesmo à mão, pediu-me se podia comer um e como foram postos a-vontade, atiraram-se a eles, como se já não comessem há muitos dias... e sempre a elogiá-los de qualidade ! Aquilo era bom demais !!!

Ao fim duma hora de tentativas e reforços das soldaduras, colocando panos encharcados de água fria, para tentar poupar o estanque da cambota, foi colocada a correia e dada ordem de marcha ao motor, que logo arrancou com a sua ventilação e carga e ali esteve um certo tempo a funcionar para eu me aperceber da resistência das precárias soldaduras.

Tudo parecia o suficiente para que eles pudessem seguir viagem, embora lentamente, o que aconteceu de seguida, indo eles todos besuntados dos meus ricos pêssegos, mas antes de partirem ainda me deixaram um cartão, informando-me de que se algum dia tivesse problemas políticos, bastaria falar para aquele número e lá se foram embora.

E lá fiquei a pensar, "fazer o bem sem ver a quem..." , mas ainda hoje nem sei se teriam chegado ao seu destino, porque nunca mais ouvi falar deles.

E ESTRAGARAM O EMISSOR DA LEGIÃO PORTUGUESA...

A Legião Portuguesa foi por volta de 1945, uma actividade política-militar, a que o nosso Presidente Salazar, muito acarinhou.

Era Legionária, qualquer pessoa que pudesse dedicar algum tempo da sua actividade diária, em aprender a conduta militar e estar pronta a qualquer eventualidade que pusesse em perigo, o nosso governo de então.

Assim, de todos os quadrantes civis, apareciam pessoas interessadas, até porque as suas fardas lhes davam um certo gabarito e estatuto social. Eram pessoas a quem se tinha de ter um certo respeito...

Mas eram os "parentes pobres" do regime e eram escolhidas as pessoas mais gradas das terras, para os orientar, reunir e ensinar, sempre protegidas por intenso secretismo.

Entre as várias actividades que tinham, eles tinham de se treinar em comunicações e o governo de então, só lhes conseguiu arranjar equipamentos emissores e receptores baratos e, como os seus conhecimentos teóricos e práticos, eram muito reduzidos, ou até nulos, as suas comunicações não podiam brilhar, como eles tanto desejavam.

Por essa altura, até os radioamadores já possuíam equipamentos que se comportavam perfeitamente ao longo de todo o país, pelo que era fácil escutá-los, em especial na banda dos 80 metros, 3730 KHz, conversando e trocando as suas experiências e os seus conhecimentos.

O receptor mais barato que existia naquele tempo, era o ECHOPHONE, EC-1B, receptor especialmente feito para as ondas curtas e metido dentro duma caixa metálica, e dava para funcionar em todas as várias frequências dos radioamadores, e não só, mas estes operadores, há muito que os tinham substituído por unidades cada vez melhores. No entanto, como a Legião Portuguesa, só funcionava nos 80 metros, ali perto dos 3850 KHz, aquilo era perfeitamente utilizável e tinha muito boa sensibilidade, ou seja, podia escutar até estações muito fracas.

Mas a falta de preparação tecnológica para as telecomunicações, não contribuia em nada, para que tivessem as comunicações facilitadas, até porque, ao que parece, pouco ou nada sabiam das antenas mais recomendáveis.

Assim, e em especial para os emissores, aquilo era uma lástima e o governo havia mandado construir imensos emissores de muito fácil operação, sem qualquer botão de afinação no seu exterior, para que os inexperientes funcionários, não os pusessem em perigo. Aquilo era um caixote de alumínio, em que todas as afinações só poderiam ser feitas por pessoal adestrado, que não abundava, até por que teriam de ser também Legionários, e tinham de usar chaves de fenda, depois de desencravar os seus comandos. Para facilitar, ele só irradiava numa frequência, a cristal.

Possivelmente até teriam informado os Comandantes, para que ninguém tivesse acesso ao seu interior, para que não fosse conhecida a sua frequência...coisa estúpida, dado que qualquer receptor que tivesse a banda dos 80 metros, os poderia ouvir...

Como a sua frequência de trabalho, era muito próxima da dos radioamadores, eles bem podiam ouvi-los, mas não podiam falar com eles nem pedir-lhes conselhos. Mas como aquela banda, tinha boa propagação diária, e para todo o país, sempre havia muita malta na conversa sobre o que estava a fazer, as antenas que usavam e experimentavam a toda a hora.

Perante as facilidades com que os legionários verificavam que os amadores trocavam as suas mensagens, até julgavam que estes teriam equipamentos de muito maior categoria da que o governo lhes tinha entregue...dado terem sempre muita dificuldade em fazer as suas comunicações para o Quartel General em Lisboa.

Assim, as mensagens tinham de ser repetidas várias vezes, até que pudessem ser confirmadas.

Foi numa destas situações, em que os Legionários a cerca de 80 Km de Benavente, por terem entregue o emissor a um "expert", ficaram mesmo sem o seu emissor que, de mau, passou a péssimo e até deitou fumo...

Um dos legionários em serviço nessa terra, era um dos condutores de transporte de pessoal da RARET e, sabendo que eu, como técnico na RARET e radioamador CT1DT, tinha facilidade em construir e reparar o meu equipamento, seria a pessoa ideal para reparar o emissor deles e assim um dia, me aparece um Jeep à porta, em que o seu Comandante, pessoa enorme, com mais de 140 Kg. me conta a desgraça do seu rádio-emissor e das dificuldades que isso lhe estava a proporcionar, mas pedindo-me para guardar profundo segredo...

De imediato fui constatar que o referido "expert" tinha achado estranha uma fonte de tensão Negativa no emissor, e logo a alterou para Positiva, sendo que a partir dessa altura, nunca mais o emissor havia funcionado. Como a tensão negativa era absolutamente lá necessária para colocar as válvulas 807 em classe "AB2", na modulação, e as duas do Andar Final em "Classe C", aquela troca foi o fim das caras válvulas...

Assim, e enquanto o Comandante foi de imediato a Lisboa comprar as 4 válvulas necessárias, eu fiquei a investigar o comportamento de todo o emissor e tendo trocado certos condensadores que estavam com fuga e algumas resistências que estavam muito alteradas de valor.

Assim, e usado um osciloscópio na observação do equipamento, mal as válvulas chegaram e ajustadas as tensões negativas para os seus valores correctos, mal se colocaram as 807, o emissor começou logo a funcionar perfeitamente e irradiando 100 W. Trocado o cristal por um para a banda dos radioamadores, que era mesmo ali ao lado, como já foi referido, e feita uma chamada Geral, de imediato vieram confirmações de óptimo sinal e qualidade de áudio, para grande regozijo do Comandante que estava ali presente. Claro que eu estava a usar a minha antena.

Não havia dúvida, tanto de Lisboa, como do Porto e Algarve, os controles era magníficos !

Havia só que ir observar a antena que eles tinham montado e que era um simples pedaço de fio caído pela janela abaixo...

Assim, feitos os simples cálculos para aquela frequência, o Comandante logo mandou a rapaziada que se havia juntado, muito curiosa, para irem comprar o fio necessário, bem como isoladores e cabo coaxial para a baixada, e em pouco mais de meia hora, já lá estava montada a antena no alto de dois edifícios, pronta a ser usada.

Como eu já possui um medidor de SWR para a verificação do estado da antena, de imediato pude verificar que a antena estava óptima e feitos os ajustes com uma chave de fendas, atirei com a potência daquele PA à antena e tudo parecia correcto. Assim, fiquei à espera da hora das comunicações deles com o Quartel General, que era daí a meia hora, pelas 19:30...se bem me lembro.

"E quem é o operador ?" ; perguntei eu.

De imediato me apresentaram um rapaz muito novo, magro e até meio gago, mas quando lhe coloquei o microfone em frente, ele já ia começar aos berros, quando eu lhe disse para falar ao nível normal...o que ele muito estranhou, pois estava habituado a ter de berrar, para chegar a Lisboa. Além disso, eu lhe havia recomendado para só chamar UMA VEZ, se a frequência estivesse livre.

Toda a gente estava atenta aos seus relógios, para aquela "prova de fogo", quando o Comandante informa o operador, para fazer a chamada.

Todo nervoso, o nosso rapazote, enche os pulmões de ar e lá deixou sair a sua chamada:

"CSXPTO (ou coisa parecida) chama o Quartel General CSRPT( ou coisa parecida) e passa à escuta.

De imediato uma voz de trovão enche a sala com Lisboa a dizer: "Forte e claro. Envie o seu serviço."

Uma onda de alegria exagerada, ouviu-se da malta toda presente, que foi logo mandada calar pelo Comandante.

Como o tráfego era confidencial..., logo me despedi e vim-me embora.

Aquela estação ouvia-se tão forte em todo o país, que todos os outros agrupamentos dos legionários, passaram a pedir ajuda e reencaminhamento das suas mensagens para Lisboa. Assim, aquela estação passou a ser considerada o Quartel General fora de Lisboa, e passados uns meses, Lisboa foi lá e caçou-lhes o equipamento, tendo lá deixado um mamarracho muito velho, mas como a antena era óptima, as comunicações continuaram a fazer-se suficientemente bem, até que a evolução politica se alterou e deixaram de existir os Legionários...

Estávamos agora, em 1975.

sábado, 7 de julho de 2007

E CEGOU DE TRISTEZA...

Durante muitos anos, sempre julguei que a expressão "cegar de raiva", seria uma força de expressão, mas depois de ter conhecido os meus familiares mais antigos, vim a saber que não: poderia mesmo, ficar-se cego de tristeza !

Quando se tem a sorte de atingir uma idade avançada, como eu, aos 80 anos, e sem se querer, cada vez mais interesse se tem pelas nossas origens e isso me levou a aprofundar o historial não muito distante, da minha família e ter conhecimento de factos que estavam pouco claros ou até, alguns, desconhecidos para mim.

Isto me levou à INTERNET e lá fui descobrir coisas muito interessantes sobre os meus familiares que se começaram a conhecer na Ilha da Madeira; a família Ferraz.

Obviamente que me iria meter numa grande confusão, porque há Ferraz por todos os lados, e muito em especial no Brasil. Ná, eu teria de saber coisas mais recentes, e não ir parar a 1600 ou 1700...

Assim, e já sabendo que um meu tio, vivido em 1856 e era o dono duma importante fábrica de açúcar naquela ilha, fui encontrá-lo em "Açúcar na Madeira" e ele lá estava, logo à cabeça da página, como Severiano Alberto de Freitas Ferraz, com a sua fábrica em Ponte Nova, no Funchal ! Eu já estava em casa, no seu palácio !

Ele se tinha casado com uma senhora D. Leonor Terêncio Vieira, em 1817, e tiveram 7 filhos. Um deles, era o meu bisavô João Higino Ferraz, que ficaria a ajudá-lo na fábrica do açúcar.

Aqui o meu leitor se estará a sentir um pouco morno de entusiasmo, mas já lá vamos ao que mais importa nesta crónica, a « cegueira dada pela tristeza», mas ainda tenho umas voltas a dar...

Foi por esta altura, 1856, que um inglês, de nome W. Hinton, foi parar à Madeira e para nosso azar, foi meter o nariz na fábrica do açúcar, tendo logo depois, feito uma sociedade com maquinaria toda nova e vai de fazer uma guerra atroz a meu tio, pagando muito mais aos fornecedores da cana do açúcar, do que meu tio poderia. Para meu tio, era uma guerra muito suja, mas que poderia aguentar-se por mais algum tempo, mesmo a perder dinheiro...

Para meu tio, o Hinton tinha de estar a perder dinheiro com o que estava a pagar e isso o levou a um profundo desgosto, em especial porque não via a possibilidade de continuar a viver assim, pelo que se enfiou no escritório dias e dias e acabou por se suicidar com um tiro de pistola.

Entram em cena os credores que levam todos os haveres da família, só deixando a casa e um piano de cauda que ele havia ofertado à minha avó e que veio a ser a salvação da nossa família daquele lado.

Minha avó, Leonor Esther de Carvalho Ferraz, era a mais velha de todos, embora só com 18 anos, tinha um irmão muito meigo e sensível, um artista, e nada atraído pelas mecânicas, e que havia aprendido a tocar violoncelo com um professor irlandês que havia ido para a Madeira, à procura de se salvar duma tuberculose pulmonar, que o havia agarrado, e era este irlandês que também era professor de música da minha avó.

Assim, com tanta falta de dinheiro, e sem a possibilidade de continuar a pagar-lhe as lições de música, minha avó foi confessar-se ao irlandês das suas tremendas dificuldades financeiras, mas o professor, que já gostava muito dela, e dos seus dotes no piano, não só não lhe exigiu mais um tostão, mas também lhe começou a enviar alguns dos seus alunos.

Aquilo ia dando para viver, mas havia que fazer algo pelo irmão José Ferraz, que se andava a mostrar muito entusiasmado pela medicina e pela música, em especial o violoncelo. Só que o dinheiro não dava e lá vai o José para os Pupilos do Exército, cursar a tropa, que tanto abominava... e, às tantas, começou a cegar, perante a grande confusão da medicina de então, que foi consultada. Como já não servia para o exército, foi suspenso e voltou à Madeira, imensamente triste.

Como não se encontrava nada na vista do rapaz, aquilo só poderia ser algum grande desgosto que o rapaz teria e aí minha avó se lembrou de que ele só queria estudar medicina, curso muito caro, mas como o número de alunos havia aumentado, lhe pareceu que poderia tentar ajudá-lo a fazer medicina e assim aconteceu, vendo o José voltar a possuir lentamente, a visão.

Certamente que minha avó seria um pouco mais nova do que nesta imagem, mas desde logo muito nova, passou a ter cabelos brancos prateados que conservou até aos 85 anos. Tenho pena de não possuir uma sua fotografia aos 18 anos, mas dizia-se que era das mulheres mais lindas do Funchal...

O curso de medicina estava a exigir muito do José e, porque não possuía dinheiro para os livros, refugiava-se na biblioteca da universidade e foi aí que foi encontrar também, com sérias dificuldades financeiras um colega que tinha muita habilidade para o desenho e desde aí, os dois rapazes viriam a brilhar nos seus cursos, ajudando-se um ao outro.

Esse outro jovem madeirense, tinha uma vasta família de 12 irmãos e também a paixão pela medicina, música, desenho, mecânica, caça, etc.

Ele se chamava Carlos Abel Bettencourt Leça e havia nascido em 1870, numa pobre freguesia de pescadores, de nome Madalena do Mar, no Sul da ilha da Madeira. Este rapazão, viria a ser mais tarde, em 1927, meu avô.

Esta amizade perdurou por todos os anos das suas vidas e foi nos contactos em casa do José Ferraz, que ele veio a conhecer e admirar os dotes e coragem daquela senhora D.Leonor Esther Ferraz, mais velha do que ele 8 anos.

Mas para cúmulo do azar, o seu primeiro amor, já com a data marcada para o casamento, arranja uma tuberculose fulminante e vem a falecer poucos dias antes da data marcada para o seu casamento.

D. Leonor fica completamente destroçada e incapaz de se aventurar a novo noivado, embora sentindo que aquele jovem da Madalena do Mar, a tenta cortejar a todo o custo !

Mas a pouco e pouco se sentiu atraída pelo jovem Carlos Leça, com quem viria a casar uns tempos depois, em 1894. Foi esta distinta senhora, minha avó, mulher "de armas" que se valeu de todos os seus conhecimentos, para aguentar a família, não só ensinando inglês, português e francês, além da música, que era a sua paixão.

Na ilha da Madeira, havia muitas famílias estrangeiras que procuravam o seu dócil clima e muitas jovens procuraram na sua permanência na ilha, o meio de se instruírem.

Acabados os cursos de medicina, com os mais altos valores, o Dr. José Alberto Ferraz veio para o Continente fazer clínica, como médico Municipal em Belas, e depois em Queluz e, como era um artista em medicina e música, quando faleceu, com 31 anos, em 1921, as Juntas de Freguesia de Belas e de Queluz, deram o seu nome a várias ruas, que ainda lá estão:

Dr. José Alberto Accioli Ferraz

MÉDICO

Este médico começou a ser muito admirado como violoncelista e às tantas, foi convidado por sua Exª. o Rei D. Carlos, para fazer parte do seu conjunto de música de câmara no palácio. Quando entrei pela Internet, há pouco tempo, no interior do palácio do Rei D. Carlos, hoje Museu da Ajuda, e vi a sala de música, logo me lembrei do meu tio lá assentado a embelezar os serões de Sua Majestade.

O Dr. Carlos Leça, ficou pela Madeira, vivendo em casa da esposa, mas como ainda não era conhecido, a profissão da medicina não dava para nada e ele se sentia muito frustrado por estar a viver à custa da esposa.

Assim, um dia apareceu vaga de médico num navio de carga, a que ele concorreu e logo seguiu viagem para as Bermudas, aquele malfadado triângulo das Bermudas, tendo o navio se afundado com toda a sua tripulação...

Mas valeu ao Dr.Carlos Leça, que havia sido acometido de uma apendicite aguda e ainda estava no hospital, em terra, quando o navio se afundou.

A terrível notícia logo correu mundo e a D. Leonor Ferraz, acabadinha de casar, já se sentia viúva, quando uns meses depois, vê aparecer o seu marido são e salvo das Bermudas... viajando noutro navio.

Mas infelizmente, a vida de médico novo, continuava difícil e vai de responder a um anúncio para médico em S.Miguel, Açores, para a Maia, freguesia no norte da Ilha e lá vai ele com a sua esposa para S.Miguel, cheia de tristeza por ter deixado o seu piano de cauda, na Madeira...

D. Leonor estava agora grávida do seu primeiro filho e cada dia mais triste de não se poder deliciar ao teclado do seu magnífico piano. O seu estado de tristeza profunda, em nada estava a ajudar aquele parto...

Acompanhada de sua mãe, D. Sofia Amália de Carvalho Ferraz, esta de companhia com o seu genro, e em completo segredo, decidem mandar vir o piano da Madeira e finalmente, uns meses depois, ele chega, para grande alegria de D.Leonor e Dr.Carlos Leça.

Mas na Maia, volta a acontecer a mesma dificuldade de exercer a medicina, até porque era um povo muito pobre e é durante umas das suas visitas médicas a um doente, às tantas da madrugada, que nasce o seu primeiro filho, sem a sua presença, entregue à sogra e uns serviçais. Mas felizmente que o marido, ao chegar a casa, vai encontrar tudo em silêncio e a sua esposa a dormitar, bem como o filho, a quem foi dado o nome de Francisco Assis Ferraz Bettencourt Leça.

Muitos factos desta história, foram respigados dum belo escrito intitulado "A família Ferraz", duma minha irmã, a Leonor Ferraz Bettencourt Leça Faria, hoje com 78 anos, nascida em 1928, a quem presto a minha homenagem e Maria Antónia Accioli Ferraz.

( Maria Leonor Ferraz B.Leça Faria )

Daquela Leonor Esther Ferraz, houve um irmão de nome João Higino Ferraz Jr., que dado o seu entusiasmo pela rádio, viria a ser um grande telegrafista como radioamador, com indicativo CT3AB e ultimamente o mesmo indicativo foi herdado pelo seu filho Henrique Eduardo Clode Ferraz, falecido há poucos meses.

Na foto, João Hygino Ferraz em visita ao Dr.Calos Leça, há 78 Anos, em S. Miguel.

A partir desta crónica repleta de tantas tristezas e alegrias, já o leitor pode saber a sua continuação, na crónica que se segue, "A casa cor-de-rosa", e ficou a saber que uma grande tristeza, também pode dar como resultado uma grande cegueira.

sexta-feira, 22 de junho de 2007

A « CASA COR-DE-ROSA »

A casa onde eu nasci, há 80 anos, ainda lá está !

Ela lá está na lindíssima terra de Ginetes, em S. Miguel, Açores.

Do lado de lá um cabeço, onde eu fui tentar ver cair um raio e fui bem castigado, por isso...

É a história contada em 11 de Setembro de 2006 e intitulado "À espera dum raio que não me partisse ".

Parece impossível que tenham passados tantos anos, e numa terra muito dada a tremores de terra, a casa de meu avô ainda lá esteja, em perfeito estado de conservação ! Tudo tinha sido feito para durar !

Na realidade, ela foi feita com imensos cuidados de resistência, pois estava assente sobre 5000 cunhais de pedra, com cerca de um metro de comprimento e uns 50 cm de largura e altura.

Esta bela foto, foi-me enviada por uma prima que lá vive perto, a Maria Leonor Leça, e há poucos dias, contando-me como tudo aquilo está diferente de há 80 anos, estradas então de terra, agora alcatroadas, muitas outras moradias na mesma rua, Escola EB2, campos de jogos polivalentes, enfim, imensas novidades !

Nesta altura, está desactivado o Campo de Crocket, que existia em frente à casa, mas o meu primo Alberto Leça, como Vereador da Câmara, insistiu que fosse feito um outro, do outro lado da rua, quase em frente à "casa cor-de-rosa". Estes enormes campos, são muito parecidos a uma grande mesa de bilhar, em que os jogadores, munidos de tacos e bolas de madeira, obrigam as bolas a passar em certas direcções, os arcos implantados no solo. O terreno tem de ser o mais perfeito possível e é norma cobrí-lo de areia que é alisada a rodo, antes de cada jogo.

Como é óbvio, sendo uma terra vulcânica, toda a areia é preta, conforme se pode ver na foto.

Era uma casa enorme, com tectos muito altos e 6 amplas divisões a que se tinha acesso por um largo corredor central.

Mal se entrava a porta, pelo lado esquerdo, à esquerda era o quarto de meus pais e à direita, a sala, onde o piano de cauda tocava a toda a hora. A seguir era o quarto da garotada e em frente, a sala de jantar com uma enorme mesa no meio. Logo de seguida o quarto dos meus avós e à esquerda, o consultório, a que se tinha acesso voltando à direita do portão de ferro.

Um pequeno corredor, dava acesso à cozinha e uma escada para a falsa (sótão), onde podíamos brincar a-vontade.

Nesta "falsa" ainda existia o quarto da criadagem feminina, que dava acesso a essa janela em cima, e do lado oposto, uma outra janela igual, dava acesso à oficina de meu avô, com todas as ferramentas a que ele tinha acesso, como carpintaria, torno mecânico, fotografia, caça, tipografia, forja, etc. etc. Era aqui que ele "fabricava" os tacos e bolas para o jogo do crocket e fazia os brinquedos que nos ofereciam pelo Natal, e onde aprendi a manusear as ferramentas.

Quando se tem a sorte de atingir a bonita idade dos 80, como graças a Deus, me aconteceu, olha-se com grande saudade, pelo menos 70 anos atrás, quando ainda, de calções, estava na Instrução Primária...a ouvir com todo o cuidado, as explicações do meu saudoso professor, Sr. Santos. E foi ele que me deu as primeiras informações das comunicações via rádio. Como aquilo me espantava e a meu irmão Carlos Mar !!!

Ele possuía um dos primeiros rádios alimentados por uma grande caixa de pilhas, mas estava avariado e um dia nos perguntou, se o gostaríamos de possuir mesmo assim, e nesse mesmo dia, entusiasmadíssimos, o fomos buscar.

Eu carreguei com as pesadíssimas pilhas, enquanto meu irmão se ia deliciando a olhar os seus "intestinos", aquelas brilhantes válvulas, as bobines e condensadores variáveis... Nunca havíamos visto um rádio, aquela máquina estranha, que captava estações de rádio a muitos milhares de quilómetros, e meu avô, mal chegámos a casa, nos pôs a desmontar pilha a pilha, e a limparmos os bornes. Depois ele atestou cada vaso com líquidos "especiais" e ao voltar a ligar a maquina, ela começou logo a funcionar ! Que maravilha...tantas centenas de estações a fazerem pio,pio,pio (telegrafia) e outras com noticias e música.

Naturalmente, no dia seguinte, logo fomos informar o professor Santos, de que a máquina já estava a funcionar e aí eles nos explicou como deveríamos fazer uma grande antena, e até nos ofertou uma folhinha de papel, com uma data de risquinhos e pontinhos, que ele dizia ser o código de Morse, aqueles pios,pios, pios, que se ouviam aos milhares. Meu irmão, mais velho do que eu 3 anos, logo a agarrou e fomos construir, com a ajuda de meu avô, duas "chaves de Morse", para podermos "falar" um com o outro à distância duma centena de metros . Estávamos lançados na rádio !!!

Mas, ao relembrar esta remota época, vem-me à ideia o porquê de ele, meu avô, ter escolhido os Ginetes para viver, quando era um médico madeirense e ainda por cima, naquele sítio; foi muito bem escolhido !

Ele tinha estado a viver uns tempos, no lado Norte da Ilha, na Maia, mas aquilo lhe dava imenso trabalho e poucos proventos. Assim, resolveu um dia, dar uma volta a oeste da ilha, no seu "char-a-banc", porque estava uma vaga aberta de médico, naquelas zonas. Assim, percorreu todo o lado Oeste, até aos Mosteiros, onde um retornado emigrante lhe disse que o melhor seria escolher os Ginetes, porque ficava no centro de todas as freguesias. E assim aconteceu.

A freguesia dos Ginetes, talvez seja das muito poucas em S. Miguel, que não tem vista para o mar, o longo mar do Oceano Atlântico . Ela está implantada num grande vale de vários hectares, com muitos terrenos de cultivo de milho e naquele tempo, na minha rua, só existia a "casa cor-de-rosa" e mais adiante, a do meu tio Assis, do mesmo lado. Na foto baixo, só se consegue ver uma parte da realidade e ela foi tirada de cima do grande morro, que separar os Ginetes, do Oceano Atlântico.

Por todos os lados, eram terrenos separados por combros, de vários donos, onde as parelhas de bois, lentamente mas possantemente, iam puxando os arados que reviravam a terra fofa , enquanto os estorninhos ávidos de minhocas, esvoaçavam alegremente aos pés dos lavradores, sempre a mudar de sítio, na procura das grandes minhocas que eram postas a descoberto pelo arado. Eles eram aos milhares, muito parecidos com melros pretos, mas não cantavam nem ninguém lhes fazia mal.

Aqui e mais além, outras belas casas só serviam para férias de verão, de pessoas mais abastadas de Ponta Delgada, que também encontraram nos Ginetes a terra ideal, para as suas férias e alguns eram donos daqueles terrenos de cultivo, onde o milho alcançava mais de 2 metros de altura, com 3 e 4 massarocas enormes em cada pé. Para que cada pé conseguisse aguentar tal peso, tinham o diâmetro dum pulso de adulto, e estavam todos dispostos por forma a que se pudesse andar por entre eles, como numa floresta cheia de árvores... e nós corríamos entre eles, miúdos, mas ficando com a cara toda arranhada pelas folhas... quando não descascávamos um pé, para chupar, como se de uma enorme banana se tratasse... e se aquilo era doce...mais parecia "cana de açúcar".

Pela altura da sua apanha, o operariado ia arrancando as massarocas e transportando-as para um carro de bois, dotado de sebe alta. Depois eram descarregadas junto duma armação, chamada Granel, e se tirava só parte da folhagem, que era "rasgada" ao meio, com um grande prego aguçado, e se pendurava no granel, onde ficava todo o ano, à chuva e ao Sol. Durante o ano, as mais secas eram totalmente despidas do resto da sua folhagem, para serem debulhadas. O seu milho era então levado às moagens para serem transformado em farinha.

Julgo que ainda hoje, por ser tão fértil este milho, quase só existe o enorme pão de milho e aqueles pãezinhos em que se misturava açúcar e eram a nossa alegria.

Por isso, o granel teria de ter uma forma cónica e as massarocas faziam de telhas.

Um destes visitantes, o José Manuel Raposo, deve ser o actual dono da "casa cor-de-rosa" e ele tinha de tudo o que era bom, incluindo umas belas espingardas de ar comprimido, que nos emprestava, de tempos a tempos, e foi com ela, que tanto eu como meu irmão Carlos Mar, aprendemos a fazer a pontaria e disparar. E se ele era bom naquilo !

No seu "char-a-banc", quase todos os dias, ora para nascente, Candelária ou Feteiras, ou para poente, Várzea , Mosteiros e Lagoa das 7 Cidades, lá ia meu avô , troc,troc,troc, ver os seus doentes.

Embora o "Char-a-banc" (carro com bancos) de meu avô, só tivesse duas rodas

e sem capota, também podia levar umas 6 pessoas, frente a frente, como aqui, em que as pessoas entravam por uma portinhola na traseira, e lá se iam assentando de forma a que o máximo peso, caísse sobre o rodado do carro. Era como nos aviões, em que os pesos são distribuídos de forma a manter o veiculo bem equilibrado.

A "casa cor-de-rosa" estava realmente muito bem assente no meio daquele vale, mas o seu dono, seu amigo Chalupa, nunca vendeu o terreno a meu avô. Assim, a casa estava feita em terreno alheio, mas ele não teve outra escolha ! As pessoas daqueles tempos, eram muito agarradas às suas coisas e às suas memórias.

E não se vê o mar, porque existe uma montanha entre o extenso vale e ele, montanha que mais parece um enorme ginete (cavalo) deitado. Talvez por isso, a freguesia teria ficado chamada de Ginetes, mas há muita confusão sobre a palavra.

Como a "casa cor-de-rosa" está, uma grande parte do tempo, sem ninguém, ela serviu durante algum tempo à Junta de Freguesia, e a sua parte debaixo, esteve a ser usada pelos escuteiros do sítio, o agrupamento 1065 e, à sua frente, a Escola Carlos Bettencourt Leça (meu avô), que lecciona até ao 9º ano, toda a juventude, desde os Mosteiros às Feteiras, e 7 Cidades. Depois de tantos anos, continua a ser o centro nevrálgico de toda aquela zona.

Neste subterrâneo, podem ver-se e apalpar-se os milhares de blocos de pedra dos alicerces, como se, de enormes tijolos se tratassem.

Quando em 1900, a terra foi agitada com a chegada de meu avô, também lá apareceu um seu amigo íntimo, pessoa robusta, vinda da Maia, e que era o farmacêutico, o Sr. Moniz, pelo que a «Pharmácia» passou a ser não só para medicamentos, mas também Central dos Correios e uns anos depois, de telefone, o único que lá existia, em 1936. Era ao mesmo tempo, o sítio onde se reuniam para boas conversas, as pessoas mais gradas da terra.

Este Sr. Moniz, foi o pai duma distinta família Vargas Moniz, onde 4 filhos, eram visitas habituais da nossa casa, e amigos íntimos da mocidade da minha mãe. A sua morte prematura, com 48 anos, fez com que a sua família, se tivesse de ir embora dos Ginetes, para a Ribeira Grande, passando por Ponta Delgada, mas ao passar o cortejo fúnebre em frente ao Liceu, os cavalos estancaram e dali não queriam sair... Essa situação estranha, foi interpretada como um chamamento Divino, para que os filhos se interessassem pelos estudos, o que foi conseguido, pelas gerações seguintes e até hoje. Só por curiosidade, um dos bisnetos deste "Pharmaceutico" Moniz, hoje Eng. Químico em Almada, Jorge Vargas Moniz, ao descobrir estas histórias do meu Blog, se tem mostrado interessadíssimo em conhecer toda a sua família de então, e o ambiente que então se vivia.

Um destes 4 filhos, o Rogério Vargas Moniz, chegou a Director Técnico do Arsenal do Alfeite, e que deu origem neste Blogue, ao artigo "Meu amigo Eng. Rogério Vargas Moniz", publicado em 25/3/2007, e outro irmão, o Jacinto Vargas Moniz, um importante médico obstétrico em Lisboa.

A freguesia dos Ginetes é ladeada de enormes e profundas GROTAS, impenetráveis, devido à imensa vegetação, lugares paradisíacos, onde a mão do homem só lá tem entrado, para ajudar a admirar a sua beleza !

A nossa televisão, a TVI, tem aproveitado a sua estadia em S. Miguel, onde filmou uma tele-novela a que deu o nome de "Ilha dos Amores", muito bem feita e interpretada genialmente por muitos artistas do Continente. Talvez que a "Mariana" tenha estado aqui, descalça e alegre, nesta grota, tomando banho.

Como já referi, a "casa cor-de-rosa" tem um subterrâneo a toda a extensão da casa, embora com uma parede de reforço central, e que só tinha entrada pela cozinha, onde um alçapão se retirava e umas escadas davam acesso ao seu fundo. Na minha época, como não havia luz eléctrica, aquilo era escuro como breu. A luz da rua, só lá entrava, por uns pequenos gradeamentos laterais, ao nível da rua, só para manter um certo arejamento. Achei muita graça que a minha prima me tivesse aludido que o agrupamento dos Escuteiros 1065, de que ela faz parte, lá estivesse a usar este enorme salão, certamente com jogos e outras actividades, tudo bem iluminado, agora electricamente, e limpo, mas sem qualquer luz da rua. Nesta altura, já a casa está novamente devoluta, porque a Junta de Freguesia e os Escuteiros, arranjaram casa noutro sitio.

Para se ter de lá entrar, tinham de usar a porta que era da cozinha para a rua, onde está a escadaria de pedra, tendo sido fechada, certamente, a porta que dá acesso à casa "cor-de-rosa", propriamente dita.

Eles agora lhe chamam "cave", mas há 80 anos, aquilo se chamava "subterrâneo" e, só não íamos todos para lá brincar, porque aquilo até metia medo de escuro e tinha muitas teias de aranha... mas ainda me lembro de ter lá encontrado um baú velho e de onde arranquei a tampa, para fazer de barco, no enorme tanque de lavar a roupa ! E se aquilo me dava gozo ! Era o meu "navio" , embora me deixasse o rabo todo molhado...

Tinha eu uns 6 ou 7 anos...

Foi uns anos antes desta fotografia.

Em frente à "casa cor-de-rosa" está-se a abrir, perpendicularmente, um rua, onde irá ficar o Corpo de Bombeiros. Já estou mesmo a ver; quando o quartel dos Bombeiros lá estiver, mesmo em frente à "minha casa", quando houver toque a rebate...nunca mais haverá lá, quem pregue o olho, e lá se vai o silêncio idílico dos Ginetes... Progressos ...hi hi hi

Como os Ginetes estão mudados !