quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

E A TORRE CAÍU COM O MANEL LÁ DENTRO

Quando em 1952, a Empresa RARET onde eu havia começado a trabalhar, construiu em Benavente, um hotel para os seus funcionários solteiros, a que chamou BOQ (Quartel dos Funcionários Solteiros), e eu fui o primeiro a ocupá-lo, tendo estendido um dos muitos colchões novos que haviam já chegado, embora não houvessem ainda as camas, e tendo escolhido um quarto à minha vontade, lá me fui deitar e preparar o meu ambiente, que era constituído por duas mesas, tendo o meu equipamento de rádio, de construção caseira, em lugar de relevo. O emissor usava um sistema especial que só eu tinha em Portugal e era conhecido por sistema Tailor de Supermodulação.


Como já era radioamador há alguns anos, com indicativo CT1DT, que ainda hoje possuo, tinha que arranjar espaço para a minha aparelhagem, mas a montagem da antena é que se estava a tornar um grave problema, por falta de sítio onde a agarrar.

Eu tinha a chaminé, mas faltava um outro sítio, pelo menos a 25 metros de distância. Assim, fui falar com os simpáticos donos da firma Branco e Carvalho Ltd. que nessa época, ainda tinha uma oficina térrea, de material agrícola, ali ao pé do Rio Sorraia, e como desejava fazer a coisa pelo mais barato possível, lá sugeri que fosse feita em verguinha de aço de construção e com uns 12 metros de altura, de forma cónica, para não necessitar de espias.

Eles torceram o nariz, mas lá a construíram a meu gosto e foi transportada à mão, até ao tal BOQ, mas havia de possuir uma base sólida, onde ela pudesse ser agarrada. Pensei em usar um daqueles grandes carretos de madeira, com cerca de 1,5m de diâmetro, que servem para enrolar centenas de metros de cabos coaxiais, e vai de fazer um buracão no terreno, onde ele foi enterrado deitado, até ficar com uma face ao nível do terreno. Depois meti lá para dentro toda a terra que tinha saído e depois de bem calcada, aquilo ficou a meu gosto.

Para agarrar a torre ao carreto, eu havia providenciado 3 grandes parafusos Trifon, e só faltava a forma de lá colocá-la, tendo eu pensado que, com 4 pessoas, fosse possível fazê-lo, ficando uma dentro da torre para a levantar, porque era leve e mais 3, uma em cada espia, para a manter aprumada na vertical e muito lentamente, fosse sendo levada para o meio do tal carreto, onde seria aparafusada.

O Manel Lagareiro (ainda hoje vivo) logo se infiltrou, todo prestável, por dentro da torre e foi pedida a ajuda a duas senhoras que lá estavam de serviço, lá fui eu para uma espia e elas para as outras duas.

A torre estava em pé, mas encostada ao edifício, enquanto a pienha enterrada, estava ai a uns 10 metros de distância. Parecia que seria muito fácil o Manel Lagareiro, meter-se lá dentro e a restante malta ir mantendo a torre na vertical, mas logo por azar, havia nuvens no céu em movimento e quando se olhava lá para cima, até parecia que a torre estava a cair...

Aquilo era complicado demais, para as duas senhoras que não sabiam se deviam puxar ou alargar as espias, pelo que no meio daquela tremenda confusão, deixaram incliná-la e obviamente, já não havia forma humana que a voltasse a por na vertical e lá vai ela para o chão, com o pobre Manel lá dentro...Catrapum !

Felizmente que não se magoou, mas o que é certo é que não foi nada fácil, colocá-la no sítio...o que só foi conseguido à segunda tentativa, embora antes se tivessem de endireitar algumas das varetas de aço que se haviam empenado no trambolhão...

Havia agora outro imbróglio, e que consistia em ir prender a antena lá no topo, a 12 metros de altura.... e aquilo não dava para subir a pé, porque não havia degraus para o efeito...

Nessa época, ainda a electricidade em Benavente, era fornecida por uma "fábrica" com geradores a gás pobre, a fábrica do Sr. Silva, (onde agora é o Mercado) e como chefe das máquinas, o Sr.Canteiro, pai do Rolando Canteiro que graças a Deus ainda é hoje vivo e um enorme entusiasta pelas engenharias. Eu sabia que o Sr. Silva possuia uma escada em madeira, tipo Magirus, que era transportada por uma espécie de carroça puxada por um burro. Aquilo era o ideal para poder ir prender a antena lá no topo da torre e como ele era uma pessoa muito amável, lá mandou o burro levar a escada para junto da torre e depois de ter calçado a carroça e desatrelado o burro, que foi comer erva, ali ao lado, talvez também a gozar com aquela macacada...vai de mandar-me fazer o trabalho de marinhar a torre...

Mas uma coisa que os bombeiros fazem com tanta facilidade, para mim, aquilo era tenebroso, porque a malvada escada gingava para todos os lados e eu só me estava a ver todo feito num molho de brócolos, se ela caísse, perante o enorme gozo da malta que me estava a gozar lá em baixo e a dizer suba mais, suba mais...mas quanto mais subia, mais aquele coisa tremia... Mas depois de várias paragens para ganhar coragem, e parar de tremer de medo...lá continuei a subir, até que lá me agarrei à torre e prendi o arame da antena. Depois, para descer, foi outra briga, pois tudo me parecia que estava a 1000 metros de distância, lá em baixo...era simplesmente tenebroso !


Escrito por Engenhocando em 2007/04/12 às 14:35:24