quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

UM ENFERMEIRO em miniatura


Episódio "1"


A maravilhosa Lagoa das Sete Cidades, na ilha de S.Miguel, nos Açores, poderá parecer, a quem nunca lá esteve, de que será um charco rodeado de montanhas, mas observando bem esta foto, logo se pode constatar pelo casario à esquerda, de que tem uma dimensão enormíssima, de quilómetros quadrados, e se trata dum enorme vulcão extinto há centenas de anos ! Como a água das chuvas, não tinham por onde sair, assim se formou e enorme e lindissima lagoa.

Quando eu era miúdo, e por morar a uns quilómetros de distância, fui lá várias vezes e em todas elas, ao chegar-se ao cume das montanhas, sempre me impressionei com a extraordinária visão daquele Paraíso lá em baixo a mais de 300 metros de profundidade !

Mas em 1936, quando eu ainda andava na Escola Primária, todas as vezes que chovia demasiado, o nível da lagoa subia de tal forma, que imensas casas ficavam submersas. Foi nesta altura, que o Governo Português, resolveu lá fazer um túnel de descarga, com várias centenas de metros de comprimento, fazendo a sua saída na falésia Oeste, perto da freguesia dos Mosteiros, freguesia esta muito dedicada à pesca e que meu avô tinha de visitar todas as semanas para assistência médica.

Assim, o escoamento da lagoa, passou a dar-se para o Oceano Atlântico, umas centenas de metros mais abaixo.

Julgo que este túnel, deve ter sido o primeiro efectuado em S.Miguel, e conforme se ia escavando o seu interior, alguns operários se faziam transportar por vagonetas assentes numa minúscula linha férrea que se ia montando no decorrer das perfurações.

Aquilo era um trabalho violento, por ser rocha vulcânica, muito dura e onde se gastaram montões de explosivos, mas se bem me lembro, só houve poucos acidentes graves e eu, que tinha 10 anos, acompanhei meu avô, médico, que vivia na freguesia dos Ginetes, e se chamava Carlos Bettencourt Leça, a ver os acidentados.

Um dia, um dos operários metidos numa destas vagonetes, a caminho do fundo do túnel, esqueceu-se de tirar uma mão do bordo que ia à frente, e foi ficar com ela completamente esborrachada, de encontro a uma vagoneta que estava parada e se estava a carregar.

Eu estava em casa, nos Ginetes e como sempre me senti muito atraído pela medicina e nada me metia confusão, nem nojo nem repulsa, fui chamado por meu avô, que nunca teve enfermeiro, para o ajudar a decepar e laquear as artérias e veias do pulso, antes que aquilo gangrenasse...

Eu adorava a companhia daquele velho e era o único dos seus 7 netos, que andava sempre por perto dele, tentando ajudar no que fosse preciso, e ele aproveitava este meu feitio e curiosidade, sempre que havia necessidade, afagando-me, sorridente, o meu encaracolado cabelo, no fim dos trabalhos de enfermagem.
Talvez estivesse a pensar que mais tarde, eu também poderia vir a ser médico, o que não veio a acontecer por falta de condições financeiras, mas o amor e curiosidade pela medicina, me têm acompanhado pela vida fora, e assim continua, aos 80 anos.


Naquela época, as pessoas atingidas por problemas extremamente graves, eram transportados deitadas, numa carroça, como fardos de palha, algumas com as pernas penduradas de fora, para o Hospital da cidade de Ponta Delgada, porque não havia ambulâncias, o que muito amargurava meu avô, por saber que alguns deles chegariam mortos à cidade, e a única coisa que podia fazer, era injectar-lhes fortes analgésicos, para minorar o seu sofrimento, durante as viagens.

Aquele operário da Lagoa das Sete Cidades, podia, com a minha ajuda, ser operado nos Ginetes e assim aconteceu, como enfermeiro miniatura.

Depois das injecções de analgésico à volta do pulso, começou a operação da separação dos ossos esmagados e da sutura das artérias que não paravam de fazer jorrar sangue para cima de nós dois, embora eu tentasse enxugar com algodão, mas passada uma meia hora, já estava a mão separada do corpo, e deixada cair num balde que estava por baixo, coisa que muito arrepiou e, por isso, nunca mais esqueci... Era uma horrível mão cadavérica !

Depois de muita água oxigenada e tintura de iodo, o coto foi envolvido em gaze e ligadura, e o operário lá se foi embora, com a cara mais amargurada deste mundo...mas compreendendo que se não fosse decepada a mão, a gangrena surgiria e teria sido bem pior. Pelo menos, já ia sem as terríveis dores...

Mas o túnel das Sete Cidades, que agora é um ponto crucial de visita para todos os turistas que visitam a Lagoa, teve mais alguns tristes episódios.



É depois desta pequena ponte, que se encontra a entrada do tùnel referido e que se encontra repleto de florida e aromática vegetação, aliás, como é toda a ilha de S.Miguel.

Entretanto, com a abertura do túnel, nunca mais houve cheias devastadoras na Lagoa e a freguesia aumentou consideravelmente, com milhares de casas de campo das pessoas mais endinheiradas de S.Miguel e até estrangeiros que se vergam perante tanta beleza da Natureza, além dos açorianos que passaram a lá viver !

Actualmente já é muito fácil viajar dentro da ilha e o acesso à Lagoa das Sete Cidades, foi muita facilitada, em especial devido ao interesse do açoriano Alberto dos Reis Leça, Vereador da Câmaa Municipal de Ponta Delagada, por acaso meu primo direito, que sempre lá viveu e se tem destacado na melhoria de todos os acessos a esta região Oeste da ilha de S.Miguel.


Alberto dos Reis Leça - 2006


Escrito por Engenhocando em 2007/05/18 às 11:42:09